quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ainda não é sexta-feira!


Sexta-feira é o dia novo em folha do ano novo em folha, ainda por cima com um fim-de-semana á porta.

Só o é porque o Imperador Constantino e mais uns maduros estabeleceram assim um calendário, uma tabela que nos rege os dias, os meses e os anos, pois para mim é Inverno e desconfio que a próxima sexta feira não me vá trazer grandes alterações ao meu dia a dia, o meu dia zero será a meio de Janeiro quando puder começar a colocar o pé no chão e retomar o meu dia a dia, a perna desinchou ao ponto de serem perceptíveis os parafusos atarraxados ao osso, parece que é bom.

Na cozinha, onde jantámos comer já feito, comprado pelo meu cara metade que voltou com febras grelhadas e votos de melhoras de vários conhecidos, os meus dois homenzinhos (homenzarrões) discutem o que é arte? A conversa é transversal, referem movimentos como o cubismo, fala-se de folclore entre outras coisas, dou comigo a pensar que não serão assim tantas as casas em que dois jovens adultos discutam arte enquanto arrumam pratos na máquina de lavar, afinal não tenho feito mau trabalho.

Amanhã debaixo da minha tirania vão alcançar a farinha, açúcar, chocolate e demais ingredientes para confeccionar um bolo, vão para a sua programação de fim do ano e eu não deixo de fazer balanços nas colunas de Deve e Haver do ano que acaba: perdi pessoas, ganhei pessoas, reforcei laços, abrandei outros, tive sobressaltos, alegres e tristes, o último trimestre veio como tudo com ondas de dor e carinho, assim como os meus filhos, o que não queria sair e demorou três longos dias para nascer, que ainda hoje pondera tudo infinitamente e desloca-se com uma lentidão exasperante, com o seu ar de pinheiro bravo, fino e apontado ao céu, o outro, que nasceu com a pressa que ainda hoje têm curioso e de olho aberto, a rir muito cedo, mas com o cordão umbilical enrolado no pescoço na sua pressa de viver, que têm o aspecto de um pinheiro, mas manso, só pelo tronco mais forte e a copa mais redonda, como balanço não é mau, um continua a estar teimosamente colado a mim silenciosamente, lento, mas por cá e o outro foge, corre para a vida parando amiúde para se esfregar em mim, soprar-me no pescoço, porque acho que nunca desenrolaram completamente o cordão…

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Cinzas


O que resta são cinzas, uma espécie de poeira prateada e brilhante, mica?!

O homem da funerária disse com um ar profissional que as cinzas tem cerca de três quilos, mais ou menos o peso de um humano recém nascido, é estranho, tão estranho como o suposto peso da alma, o que se perde no momento do suspiro final, é claro que essas supostas 23 gramas, podem ser do oxigénio expirado naquele instante.

Ficámos suspensos estes três meses, a esperar um ponto final, uma despedida, mas eu nunca gostei de dizer adeus, até logo, até breve, até o ciao italiano tem outra carga diferente, adeus é muito definitivo, muito final.

Mas pronto amanhã as cinzas vão ser espalhadas, ao vento, num sitio que gostavas, um pouco à pressa, sei porquê mas não interessa, um quase que um pouco ás escondidas de mim, à última hora alguém teve o rebate de me dizer o alguém do costume, outros não tiveram coragem, outros nem sequer pensaram que isso me interessava, como se tal fosse possível, esperou-se este tempo, podia-se esperar pelo mês do teu, já agora do meu aniversário, em que há flores silvestres e ventos menos agrestes, sem sombras de nuvens carregadas, mas de vez em quando é assim, a vida é traiçoeira, mesmo nos assuntos da morte.

Mas não ficam só cinzas, fica muito mais.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Psiuuuuuuuuuu!


Não me tem apetecido escrever, nem falar, nem comunicar de uma maneira geral, o Natal não foi mau, um pouco escuro apesar de ter tido electricidade, não me aconteceu como o pessoal do Oeste, tive doces de Natal apesar de não terem como ingrediente principal o carinho com que os costumo fazer, tive mesa de Natal, mas não pude ser eu a colocar os pratos, da forma que gosto, sobre a toalha de Natal, com guardanapos de papel, mas comprados especialmente para a ocasião, dei algumas lembranças, nenhuma feita por mim este ano, recebi outras, recebi muito carinho, é verdade, desde a foto que concentra os meus tios paternos e o meu pai devidamente emoldurada, num resto de infância, em volta do meu avô, até aos cd´s que queria, oferecidos pelos meus filhos, adquiridos, obviamente pelo pai, até a moldura já recheada com o meu sobrinho patusco, não foi mau, mas eu não me sinto eu, nem bem, nem alegre, o que é facto é que as noticias agoniam-me e dou comigo a insultar os locutores, as poucas saídas deixam-me triste, porque dependo de alguém para me descer, subir, levar, porque constato de forma mais marcante a falta de civismo de quem usa um elevador prioritário para carros de bebé e cadeiras de rodas com a escada rolante ali mesmo ao lado, porque tenho saudades de várias pessoas, tantas que quase me rebenta a garganta com a dor, num aperto angustiante, porque tenho saudades de ser autónoma, de dormir na minha posição favorita, de me mexer e de trabalhar porque estar presa assim de mim própria é muito cansativo.

Por isso psiuuuuuuuu! Isto passa!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Natal Solidário, Solitário ou de pechisbeque?



Na quadra Natalícia somos bombardeados com iniciativas “solidárias”, é a Popota, os jantares para os sem abrigo, os brinquedos distribuídos, etc.…
No entanto todas estas acções são no mínimo descabidas, quem não tem abrigo não o têm 364 noites por ano, quem não tem jantar, o mesmo.
Vivemos um momento estranho de uma sociedade desumanizada que vai aplicando pequenos pensos rápidos para estancar grandes hemorragias:
Os velhos estão sozinhos! Estão sozinhos porque as famílias foram desmembradas ao máximo, porque os familiares directos lutam com dificuldades económicas, porque fazem o turno da noite como segurança do último templo do consumo e bico calado, porque não existe uma rede de apoio condigna à terceira idade. Porque um velho (não um sénior, um velho) é um empecilho, alguém que esgotado e gasto pela vida, privado de algumas faculdades, físicas e mentais, ainda têm de descobrir como subsistir à tona da miséria, seja a comer comida de gato para poupar nas fraldas, seja sentando-se ás escuras para ligar o aquecedor, seja tomando o comprido diário em dias alternados.
As crianças não têm prendas, as famílias não têm ceias, algumas não têm abrigo! Porque o desemprego cresce, porque o emprego precário também, porque os salários são ridículos e por mais que se fale na retoma e da luz ao fundo do túnel o que se vê são as luzes frias e postiças de algo que já foi de todos e agora é privado.
E não é solidário o Natal é solitário, porque cada um de nós se sente mais só, porque uns dias de brindes não acalmam um ano inteiro de insuficiências, de mentiras, de prepotências, de injustiças, de histórias mal contadas, de cabalas que não serão equídeos, mas que nos fazem sentir mais bestas de carga, porque no meio disto tudo existem computadores com nome de descobridores fabricados por quem descobriu o último Brasil, pacotes económicos de farsa, cimeiras onde depois de dias a fio se compra o direito a poluir, doenças mal explicadas, ceias de Natal gourmet vendidas prontas, actores de novela a dançar no gelo, um programa de TV que acolhe uma família no desemprego e a expõe a troco de um dia na neve e um abastecimento de mercearias, o cumulo do luxo e da miséria em paralelo, negócios mal explicados, lucros fabulosos em falências apoiadas, a noção clara e exacta que não isto que queremos, eu por mim quero algo diferente, onde solidariedade não seja caridade mascarada de Popota, onde as causas identificáveis e evidentes destas doenças sejam erradicadas, onde o brilho maior das luzes de Natal seja apenas o reflexo de uma sociedade justa.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Pelo menos por quatro!



Hoje de manhã em concilio familiar chegou-se à conclusão que pelo menos valho por quatro.
As contas são simples, toda a gestão financeira e logística que habitualmente faço, o abastecimento de mantimentos, noção de tempo para mudar roupas de cama, gestão da roupa estendida, por estender, por lavar, tem vindo a ser encargo do cara metade, que constata que os fins de semana são cansativos, acontecendo-lhe o que geralmente me acontecia a mim, adormecer no sofá, embora ele implicasse com isso! Portanto um para me substituir.
Entretanto toda a culinária semanal, lavagens de roupa, estão a cargo, de segunda a sexta, da minha mãe que diz “Isto não pode ser filha! Quando estiveres boa, não penses que vais entrar neste estrafego outra vez!” Lá vão dois!
A roupa que todas as semanas passava a ferro, entre murmúrios de desagrado e semblante torcido é levada, lavada, para outra casa, e recolhida já passada.
Ora, se as contas não me enganam, são três!
Por fim, as limpezas maiores, coisas mais profundas, que se iniciavam quando de manhã eles dormiam, e prolongavam até à noite, são feitas por outra pessoa, amiga, a quem se paga o trabalho e que passou uma tarde inteira ás voltas com uma cozinha que não era limpa como deve de ser há um mês.
A soma é quatro!
Não obstante isso vou limpando o pó ao meu nível, sou o mais auto-suficiente possível, tempero o comer, chego a cozinhar desde que me vão alcançando o necessário, limpo o pó à altura da cadeira de rodas e fiz um bolo de laranja…
Nunca me valorizei muito, como pessoa, como gestora, como mulher, a auto estima não foi coisa que viesse nos genes, hoje constatei o obvio e também avisei: Quando a perna tiver boa, não voltamos ao mesmo regabofe! A verdade é que sou só uma!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Nada


Nada é insignificante
Nem a luz que atravessa a vidraça
A indiferença dos caminhos
O tom de folhas e cascas de árvores dos teus olhos
Nem as mãos perdidas como pássaros feridos
As magoas, as palavras por usar
Cheiros doces, toques cristalinos
O vento cortante ou quente cheio de cheiros especiais ou
De especiarias
Nem as sedes diversas, de
Justiça, amor, carinhos
O tempo a escorrer, viscoso
As mãos inquietas como gaivotas sem rumo

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Adivinhem lá!



Mais logo é sexta-feira!
Desta vez não vou pegar no carro depois de me vestir, comer, tomar os comprimidos, refilar com o condutor da frente, para sair depois, ao final do dia correr para o supermercado, rasar prateleiras a contra relógio, avaliando se são bifes de atum ou postas de pescada, lexíva com ou sem cheiro, espuma de banho de laranja ou de outra coisa, rolos de cozinha e de papel higiénico, arrumar tudo nos sítios, cozinhar o jantar com o telemóvel entalado entre o ombro e o queixo e sair outra vez a correr para uma reunião para encerrar a semana……desta vez não.
Desta vez acordo, salto para o meu Ferrari, lavo-me e visto-me entre manobras e inversões de marcha, certifico-me que tenho a torradeira e demais apetrechos para o pequeno almoço ao nível do meu nariz, tiro o café e bebo sentada na cadeira de rodas a ouvir o locutor falar do transito, do tempo e das noticias, faço outra inversão de marcha, vou até ao sofá, ponho a perna na posição recomendada, pego no livro e aproveitando-o como base escrevo a lista: saladas, yougurts (pedaços e líquidos não trazer frutos tropicais ou banana), detergente para a máquina da roupa, maçãs, leite com chocolate….
Espero que seja a última sexta-feira assim, terça-feira espero que a radiografia me mostre e ao médico também, que vale a pena tanta imobilidade.
Depois espero retomar a minha vida, num ritmo menos fatigante do que o anterior, quanto mais não seja que tenha aprendido a abrandar!

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Quero um referendo!


Na situação em que me encontro acabo por seguir mais assiduamente as noticias, se bem que seguindo as da manhã, pela fresca, quando tudo acorda, o resto é uma espécie de repetição.
Não vou falar do trombil partido de Berlusconi, sendo eu contra a violência, ainda assim estranho que tais incidentes não se repitam mais vezes com outros congéneres noutros países, simplesmente porque tantas fazem que por vezes, até eu, pacifista, tenho ímpetos destes, apenas limito-me a descarregar verbalmente com um chorrilho de ameaças.
Mas vou falar das discussões da Comissão das pescas na União Europeia, o sitio onde discutiram é bonito, arranjado, muito diferente de uma lota, uma traineira ou do mercado do peixe, os senhores que discutiram, não sei se já foram a algum desses sítios, nem se distinguem uma faneca de uma chaputa, então após longas conversações aumentaram a cota de bacalhau e pescada para Portugal, em contrapartida diminuíram as cotas de carapau e tamboril.
Anunciam isto, de fato e gravata, dizendo que foi uma longa discussão da qual saíram vencedores, eu confesso que apesar de gostar de bacalhau e pescada, ainda assim as minhas inclinações vão para o tamboril e para o carapau, mesmo no Natal não tenho o hábito do bacalhau, portanto preciso de saber a quem dirijo uma petição para trocar a minha parte de bacalhau por tamboril, até digo mais, troco uma posta do lombo do bacalhau por um fígado de tamboril ou então a alternativa que me passa ela cabeça é simples, faça-se um referendo, parece que são para usar nestas questões, já que nas outras de adesões a moedas e tratados, não se justifica, não é?

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Yesssssssssss!


Hoje fui à rua! Yes! Yes!
Só não faço a dança da chuva e da alegria porque não consigo!
Frio, gélido e eu detesto frio, cachecol, boina de lã e tudo!
Após telefonar para os bombeiros fiquei parada junto à porta da rua como os miúdos pequenos, mas fui à rua.
Fui ao mercado, fui beber um café no sitio do costume, encontrei as pessoas de sempre, as que ficavam espantadas e as que corriam a abraçar, palrei com a minha prima, vendo os seus trabalhos (lindos!), levei vários beijos da minha tia feliz por me encontrar, segui para o Centro Comercial, atenção até aqui tudo o que se passou, mercado, prima, tia, conhecidos, cafezito, não é mais que um cenário de sábado de manhã, transposto para uma terça feira, a diferença é que quando as coisas são garantidas não as apreciamos da mesma forma, cruzei-me ainda com trabalhadores vindos de um plenário, que me abraçaram e desejaram melhoras, repetindo com alegria “Olha a nossa Ana!”
Depois face à pobre oferta cinematográfica fui fazer aquelas coisas para as quais geralmente não tenho pachorra mas que fazem tipo uma plástica à alma, cabeleireiro, com direito a tudo, o meu vizinho de cima encontrou-me e pasmou, nunca me tinha visto tão arranjadinha!
Direito a uma casa de banho própria para cadeiras de rodas (luxo inexistente no Hospital por exemplo), ao almoço um empregado, solicito, carrega-me o tabuleiro, umas lembranças de Natal, para os mais próximos, um mimo para a casa onde agora passo tanto tempo, isto entre cruzar e descruzar com amigos, conhecidos e familiares, uma chamada aos Bombeiros, o regresso a casa com brincadeiras e mimos por parte dos soldados da paz, que desenrascaram uma cadeira eléctrica que sobe quase só por si as escadas sem esforço deles, por fim chega um casal de amigos que têm acompanhado a saga da Coxa do Tide com apoio, carinho e muita assistência, encontram-me sorridente e ligeirinha, animada e saem daqui a rir, também.
OH YEAH!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Provavelmente mais que uma brisa marinha..


Provavelmente mais que uma brisa marinha, o reconhecer um bicho da mesma raça, um espelho de si, não o corpo, esse profunda e desejavelmente inverso, protuberâncias num lado, concavidades de outro.
O espelho de si eram outras coisas, o toque quase eléctrico, um reconhecer de odor, ser predador esperando intimamente ser presa, o olhar e ver o mundo quase do mesmo prisma como se olhos estivem só ligados a um mesmo terminal, falar sem falar, conseguir parar o tempo e o espaço numa dimensão só sua, deserta, mas cheia de tal forma que nada mais lá cabia.
Provavelmente mais que uma brisa marinha ou uma faísca acidental!

domingo, 13 de dezembro de 2009

Histórias de Amor mal contadas – Tristão e Isolda


Tristão era filho de uma Princesa, que regressa ao reino da mãe e conhece o Tio, Rei, sem filhos o acolhe como tal, chega um passarito com um cabelo longo e dourado e o Rei manda-o em busca da dona de tal cabelo para ser sua esposa.
Tristão chega a um reino numa ilha e descobre um dragão medonho, a recompensa por matar tal besta será a princesa, linda e dona dos tais cabelos, Tristão mata o bicho, aceita a Isolda, não para si mas para o seu tio.
Acontece que a Isolda gostou mais dele do que a perspectiva de casar com um gajo de meia idade que nunca tinha visto, é claro que preferia o Tristão do quer careca mal encavada com idade para ser seu pai, mas as mulheres tinham pouca escolha.
Como tal na viagem dá dissimuladamente a Tristão uma beberragem que o deixa eternamente apaixonado por ela e a coisa concretiza-se, chegando ao verdadeiro leito nupcial, Isolda dá outra beberragem ao marido de modo a que ele não distinga que desvirginou a aia da Isolda, entretanto Tristão e Isola vão concretizando carnalmente o seu amor onde podem, as muralhas do castelo, nas cavalariças, etc., até que são apanhados, grande escândalo, as versões sobre as punições divergem, mas lá ficam juntos e o tio acaba por reconhecer que o amor deles é forte e deve de prevalecer, morre e perdoa, deixando-lhes o reino.
Esta é basicamente considerada uma das maiores Lendas de Amor, encheu imaginários, deu operas, filmes, peças de teatro e encheu a cabecita de sonhos de muita donzela medieval.
Agora vejamos:
A Isolda era assim linda de morrer para quê dar a tal beberragem ao Tristão?
O Tristão em vez de se armar em casamenteiro porque é que não disse ao tio “Olha afinal curto bué da chavala, até já demos uma trepa!”
O Tio que era Rei, devia de ser mais sábio e ver que esta treta de procurar mulher por interposta pessoa, não dá certo é como ir a um site de noivas russas, casar com a Natacha de 25 anos, um metro e oitenta, medidas de sonho curso superior em física nuclear e no fim aparecer uma Natacha, que olha para o Joaquim, careca, gordinho, a dar-lhe pelo ombro, mecânico na Oficina Estrela da Buraca e pensar “Tenho de arranjar um Boris para quando ele está a afinar motores, aguentar 3 anos e que se lixe”
Por fim porque é que a desgraçada da aia teve de abrir as pernas ao Rei?
Histórias da Carochinha.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Por favor não me mordam o pescoço!


Parece que os vampiros estão na moda! Livros, filmes, séries.
Não é propriamente um assunto novo, sempre achei piada a uma dentadinha amorosa no pescoço, quanto a filmes continuo a rever com agrado o “Por favor não me morda o pescoço!”, também fiquei encantada com o Gary Oldman a fazer de Dracula numa história de amor intemporal, da mesma forma que acho piada ao filme “Entrevista com o Vampiro”, o Brad tem ar de quem sabe morder um pescoço…
Os vampiros das histórias são assim, romantizados, gozados ou simplesmente reduzidos a ser uma subespécie como o Nosferatu, depois livros há aos pacotes, já li alguns, melhores, piores, das séries não digo muito, acho uma macacada tão grande que das duas uma, faço zapping ou deixo-me dormir.
Mas e facto não se pode ficar completamente indiferente a esta moda, espalha-se como a Gripe A ou a Febre Q, esta epidemia, pandemia, mania estende-se a sectores inesperados, ao sector empresarial nacional, por exemplo que considera inaceitável um aumento do salário mínimo nacional, ao sector do entretenimento televisivo que arranjou maneira de encher dias e noites de programação recorrendo a um cenário, um apresentador ou dois, que até podem ser modelos, actores ou outra coisa, uma banda e meia dúzia telespectadores à procura dos tais quinze minutos de fama, para isso cantam, dançam, contam os segredos familiares e discutem ao vivo e cores ou em diferido, também, ais ainda detectam-se infectados com esta doença do vampirismo governantes, dos mais diversos níveis, empresários internacionais, gestores da banca, Júri de atribuição de Prémios, Gestores Hospitalares, Directores do Banco de Nacional, entre muitos outros.
Infelizmente não tem olhos vermelhos, podem gozar do sol como o comum dos mortais, os caninos não se distinguem no seu sorriso falso, não usam capas, não dormem em caixões, nem tão pouco nos mordem o pescoço de forma sensual, apenas sugam a vida em sem redor, de forma mais ou menos subtil, aniquilando tudo o que humano possa existir em seu redor!

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Nem sei que titulo dar a isto...


A sério que sou uma espécie de pato mudo.
Nunca consigo dizer exactamente o que quero. Só consigo escrever, é uma espécie de deficiência.
Raramente consigo chorar, nem naqueles momentos de lágrimas aparentemente fáceis, não consigo, cresce-me uma dor em ondas surdas, brutais, avassaladores, que me roubam o ar, que me pesam no peito, cilindram-me tortuosamente, corroem-me essas lágrimas, junto com os gritos que também não liberto.
Uma estupidez!
São estas coisas guardadas que nos corroem!
Desde que sofri este percalço da perna partida, tem sido uma catarse, acho que tenho chorado todos os dias desde esse, no primeiro chorei na cama hospitalar deixando nervoso o meu amigo Eduardo, enfermeiro zeloso que se deslocou cá a casa para me retirar agrafos e outras coisas, foi salvo, ele e eu pela chegada de uma amiga de longos anos que me sentou na cadeira de rodas, tapou com a mantinha e perguntou se me podia levar a passear dentro do Hospital, deixaram. Assim que encontrou alguém do pessoal Hospitalar perguntou onde podíamos fumar, a senhora franziu o sobrolho, disse que não se podia, que era um hospital e etc. e tal, a minha amiga não se atrapalhou, fomos direitas a psiquiatra aonde eu tentei alertar para o facto de que de certeza iríamos encontrar pessoas conhecidas, ao que ela retorquiu “Lá estás tu!”, claro eu encontrámos, três no átrio, suponho que no dia seguinte devia de circular o boato que estávamos as duas internadas em psiquiatria e que ela me tinha partido uma perna….Ainda apelámos ao segurança, mas foi peremptório, só os doentes de psiquiatria é que podem fumar numa sala para o efeito…
Derrotadas, bebemos uma bica, ela de mala, botas, etc., eu de cadeira de rodas, uma mantinha nas pernas com a frase “Do not disturb!”, acabamos por subir no elevador e sair noutro andar que não o meu e detectar o odor inconfundível de tabaco num recanto onde uma sexagenária de camisa de dormir e carrinho de soro fumava à janela, acabámos por saber da vida da senhora que partilhou memórias da juventude e no fim acabei a rir.
Todos os dias tem sido assim, qualquer coisa meio trágica, meio cómica, mas de certeza que vou ficar com os canais lacrimais desobstruídos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Os que chegam


Passaram mais de dois meses depois de partires, de inexistires?!
Mas existes.
Nestes dois meses e tal aconteceram algumas coisas, as árvores amarelaram, o Verão foi embora, encontrámos outras rotinas que não nos levam à tua cabeceira no Hospital, vazámos os teus roupeiros e as tuas gavetas, eu parti uma perna e posso avaliar muito à distância e de uma forma que sei temporária o que sentias, quando querias fazer as tuas coisas, as pequenas coisas que podias fazer por ti, sozinha, também percebo o teu desinteresse por certas coisas que só nos interessam quando podemos participar nelas, percebo também os teus acessos de melancolia, de raiva surda, de revolta, até para com quem só te queria ajudar. O quereres nunca incomodar, herdei essa característica tua.
Percebo que lembrares as pequenas coisas que te davam prazer e que te estavam interditas, o mar, o sol, o cheiro da terra molhada, um cigarro numa esplanada depois do café certas roupas, certas musicas, certos filmes, faziam-te sentir mais viva e mais distante da vida em simultâneo, uma estupidez, mas percebo.
Sempre fomos próximas, a maioria das pessoas quase que te atribuía a maternidade de mim, tínhamos cumplicidades, fazíamos caixinha, e agora fazes-me mais falta do que eu queria, agora apetecia-me ligar para ti e dizer-te aquelas coisas que sei que percebias, para as quais não davas como solução a resignação, fomos sempre pacientes, nunca resignadas.
Há coisas boas, também, duas das coisas que querias concretizaram-se, quase todos falamos de ti com naturalidade, esta quadra não ajuda muito, vai faltar-me o pijama tradicional entre outras coisas, hoje nasceu uma menina, têm os teus genes, o teu segundo nome, se tiver algo mais de ti vai ser mais uma das mulheres invulgares da nossa família, para já tem o nosso amor.
Costumavas dizer que partem uns e chegam outros, ela chegou.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Poderá


Poderá pensar-se que é só assim
Um dia atrás do outro
Numa sucessão de rotinas infinitas
O dióxido de carbono, o relógio,
Chegar para partir depois
A lâmpada fundida
A urgência perfeitamente adiável
Os que morrem longe e são só números
Que nos podem tocar ou não
Os que nos morreram perto e fazem-nos falta
O óleo do carro, as mercearias em falta
O extracto bancário e as férias por gozar
A roupa suja que se lava
Seca, guarda e suja-se outra vez
A vertigem do sexo, viscoso
A dor de cabeça
Todos aqueles a quem temos intenção de perguntar
Como estás?
Mas não o fazemos
Dias seguidos, quase iguais, sempre
Diferentes, como gémeos verdadeiros
Sempre a procura
Poderá pensar-se que é só assim…
Ou então não
Que cada dia é uma folha em branco
Para encher com outras coisas para além da
Rotina
Que existem coisas que crescem, secretamente
Como os cabelos, os raios de sol,
As sementes que rompem a terra para dar
Flor e fruto
Novamente sementes, que quase morrem para
Crescer outra vez

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

A minha casa


A minha casa é velhota, foi adquirida por um preço baixo atendendo à sua dimensão, 5 assoalhadas, 2 casas de banho (1 delas com o tamanho de um quarto), 2 halls de entrada, varanda, corredor. A princípio juntamos esforços para o essencial: mudar canalização, instalação eléctrica, janelas, cozinha e casas de banho e pintar.
Pintar revelou-se um berbicacho, as paredes eram verde bandeira, cor de laranja, rosa escuro, azul cueca, levavam 3 ou 4 demãos, em vão, a cor antiga no outro dia estava lá.
Penso que acabamos por diminuir a área da casa com a espessura da tinta aplicada, mas conseguiu-se.
O chão de parquet, tacos pequeninos, era um enorme puzzle dominó que dava para os meus filhos brincarem e à noite, quando dormiam lá andavam os progenitores de rabo no ar a recolocar tudo, até que lá conseguimos estaleca financeira para o recuperar, primeiro com um artista que se comprometeu em afagar e envernizar tudo numa semana e passado um mês só tinha conseguido construir uma espécie de mini golfe, com rampas e covas por todo o soalho, foi dispensado e lá conseguimos quem recuperasse o possível, embora o corredor e os halls tivessem de ser revestidos a tijoleira.
Seguiram-se outras coisas: pinturas sazonais, recuperação de roupeiros, mudanças na cozinha e casas de banho.
Hoje, estou prisioneira esta casa, o que não é mau, porque se não gostar do colchão ou da decoração, só tenho de ir ao espelho, refilar…
Vejo com aflição o pó e outras coisas a acumular, coisas a que eu, uma vez por semana fazia um acto de magia de um dia inteiro para faze-las desaparecer, agora estou temporariamente sem varinha de condão.
Mas no meio de tudo isto agradeço mentalmente ao tal construtor do mini golfe, afinal ficaram rampas em todas as passagem da tijoleira para o soalho, o que veio a revelar-se precioso face à cadeira de rodas.
Está visto, o homem não era incompetente, era um visionário.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Reinventar



Ela agarrou e escovou o cabelo uma vez mais, para dar aquele toque que sabia que ele gosta, um ar falsamente desarrumado, colocou o perfume, que ele também gosta, nos pulsos, na nuca, para que quando ele lhe beijar o pescoço e arranhar um pouco com a barba fim do dia, dizer baixinho “cheiras bem!”.
Vestiu aquela camisola, aquela que lhe deixa os seios a espreitar, malandros e convidativos, as calças que atenuam a largura da anca, hesitou entre o colar e o lenço, mas o lenço tem cores que chocam com a sua pele, fazem contraste, é mais versátil, pegou na mala, mais uma das malas, daquelas que ele reclama que invadem tudo, mas que ele teima em oferecer sempre mais uma, colocou um toque de pó nas pálpebras, para disfarçar as olheiras, sacudiu da cabeça as chatices acumuladas do dia, as contas feitas para esticar o orçamento familiar, as preocupações face ao futuro a curto prazo, porque a longo não vale a pena, a quantidade de sonhos e projectos, feitos, refeitos e desfeitos. Despediu-se dos filhos entregues a um jantar pronto a aquecer no microondas, lavados, de pijamas e brinquedos espalhados, fez recomendações e saiu.
Ele tirou a gravata mas passou os dedos pelo cabelo, olhando pelo retrovisor, passou do rádio para o som do cd com contrabaixos graves, pianos cantantes, a bateria lá ao fundo, o trompete desesperado, que sabe que ela gosta.
Por um pedaço, um resto de noite, vão.
Só vão, esquecendo os pequenos tiques que incomodam de parte a parte, os pontos de vista diferentes, os pequenos espaços únicos e solitários de cada um, vão só os dois, outra vez, quase como se não se fosse familiar o dormir, o ressonar, a maneira de colocar as coisas, vão redescobrir-se porque o quotidiano por vezes esconde-os um do outro.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Eu por mim






A minha mãe conta que comecei a andar aos nove meses de idade, saltando a fase de gatinhar, comecei assim agarrada aos móveis e depois a aventurar-me em passos débeis, mas pelos vistos decididos de quem quer fazer tudo por si só. Comecei a falar cedo, também, tarde foi a dentição, talvez porque nunca quisesse sorver o mundo à dentada, só de uma forma mais suave. A única coisa que se regista que tenha comido à dentada foi um Pato Donald de espuma macia, trazido de Inglaterra, que eu achei particularmente saboroso e que despedacei com gengivas sem dentes, trouxeram-me outro, teve o mesmo fim…
Também se regista que comecei cedo com tentações escrever, agarrava nos lápis de cor e “escrevia” num alfabeto que ninguém mais entendia, talvez fenício ou grego, escrevia nas contracapas dos livros, nas folhas que me davam para desenhar e quando me perguntavam o que lá estava respondia “Não sabes ler?”, no mesmo ímpeto pintei, aliás resolvi completar o trabalho do Mestre Pablo, colorindo a Guernica pendurada sobre o sofá da sala, até onde cheguei, empoleirada nas costas dos sofás.

Os meus pais assombraram-se com uma Guernica de cavalos roxos, azuis e verdes, e com tudo o que parecia gota pintado de vermelho….
Comigo parece que também sempre esteve aquele sentimento que me deixava mal comigo própria sempre que prejudicava alguém, daí fazer certas tropelias que sabia erradas e de imediato comunicar à minha avó que “A menina não faz outra vez!”, por vezes ela não conseguia descobrir de imediato o que é que eu não faria outra vez, porque eram sempre habilidades novas.
Lembro-me de não gostar de palhaços (ainda hoje não gosto, principalmente dos que andam à paisana), nem de homens vestidos de Pai Natal, fugi de um na Baixa, correndo a atravessar a estrada.
Espero manter estas coisas dentro de mim, até porque o ímpeto de andar sempre é muito meu, continuo a querer colorir as coisas feias e tristes da vida, sem as esquecer, sem fingir que não existem, aflige-me prejudicar alguém, seja de que forma for, quando o faço, inadvertidamente digo para mim própria que não o farei outra vez…

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A coxinha do Tide!




Quando eu era miúda os romances radiofónicos eram as novelas da época, lembro-me das mulheres pararem a azafama doméstica para ouvirem em rancho um dramalhão de faca e alguidar “Simplesmente Maria!”, essa altura levávamos calduços e deixavam-nos ir brincar para a rua, quando terminava o folhetim, era assim que diziam, assoavam-se e limpavam olhos chorosos.
Pela hora do almoço dava os Parodiantes de Lisboa, uma espécie de revista radiofónica que durou até há pouco tempo.
No entanto existiu também um romance radiofónico conhecido pela “Coxinha do Tide”, parece que a desventurada heroína era coxa e o romance patrocinado pelo detergente Tide, o detergente não se implantou na época, derrotado pelo Ajax, Presto, Omo e claro sabão Clarim, mas as desgraças da coxinha ficaram no imaginário e a expressão também.
Hoje sou eu a coxinha, não do Tide, porque como não consigo chegar à maquina de lavar não faço a mínima ideia do detergente que lá está, mas coxinha e muito, algo desventurada também, não consigo evitar pesar que tenho obrigações “lá fora”, no mundo real, que alguém, por quem tenho muito carinho e estima, que nem sequer faz ideia do que é a coxinha do Tide, anda sobrecarregadíssima a abarcar as minhas tarefas e as suas, para agravar brigo a família a um rodopio “abre as persianas, por favor!”, “Deixa-me a garrafa de água”, “Dás-me banho?”, “Muda-me o filme”, etc.
Sei que isto é post rameloso de quem está assim a modos com pena de si próprio, sinceramente hoje estou chateada, apetecia-me andar, sair, deixar de ter apenas o fio de ligação ao dia a dia com censuras, porque me apercebo sinceramente que algumas coisas não correm pelo melhor mas que me omitem os factos.
Faço listas, intervalo entre uma certa exigência da parte dos que me rodeiam para um mutismo de quem está zangado consigo.
Sou a coxinha do Tide!

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

A Curva


Importante a curva
A curva do rosto
Um ângulo, quase recto
Obtuso, talvez
A curva das aguas mansas
Assim a espraiar
A curva das aguas rebeldes
Em espirais de força e espuma
A curva das ancas
A curva de um ventre cheio de vida
A curva do sorriso
Com os lábios assim encurvados
A curva da estrada que segue
As curvas da vida
Voltas com ângulos rectos
Inteiros
Únicos

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Reflexão da quadra


Estando confinada ao circuito de cama, cadeira de rodas, sofá, cadeira de rodas, idas à casa de banho, à cozinha, onde me servem o almoço e fumo um cigarro, à casa de jantar, tudo com moveis desviados do sitio para que eu possa passar, penso muito, pelo menos sem ser interrompida por outras coisas, penso que este Natal não vou celebrar como nos outros anos, com pequenas oferendas, escolhidas com o eterno balanço entre vontade e disponibilidade financeira, nem tão pouco ofertar coisas feitas por mim, não consigo elabora-las, não vou conseguir amassar filhoses, temperar o borrego, decorar a casa, colocar a mesa com primor, bater muito bem a massa do bolo e decorar depois, encher a casa de calor, cheiros de canela, não vou passear nas ruas devagar a ver as luzes de Natal por vezes frias, mas ainda assim luzes, não vou buscar o meu presépio velho e feiíssimo, com moinhos do tamanho das ovelhas, um burro de plástico que os meus filhos em pequenos insistiram em juntar, não sei porquê tenho dois São Josés, mas não faz mal, parece que Jesus tinha vários pais, de qualquer das formas as crianças deveriam ser filhos de todos e vai-se lá saber se não é um pronuncio das novas famílias. Não faz muito tempo, uma amiga, católica, perguntou-me, não sendo eu católica, porque festejo o Natal.
Respondi-lhe que foi a época em que aprendi a celebrar a família, a fazer do pouco muito, a criar novas esperanças, a celebrar a infância, que antes de Jesus já era uma do a Festa o equinócio do Inverno, que juntando a isso tudo o nascimento de uma criança que lutou pela Justiça Social, para mim está bem.
Ela conhece-me bem, sorriu e disse que estava só à espera da minha explicação, que sabia de antemão que não eram as prendas que me moviam a ser uma fanática do Natal, agnóstica convicta, pouco dada a consumismos.
Mal sabíamos nós que nesse dia, ao despedir-me à pressa para dar a prenda e os parabéns à minha mãe, iria torcer a pata que me invalida a celebração tradicional, de juntar família na minha casa, fazer as iguarias que cada um aprecia mais, embrulhar pela noite dentro carinho em forma de presente, com papel colorido e fitas brilhantes.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Histórias de Amor Mal Contadas – Romeu e Julieta

Parece que o Romeu e a Julieta no dia que se conheceram apaixonaram-se ele tinha uns 17 anitos ela 15, deram uma queca, poucos dias depois casaram, contra a vontade da família, que não podiam ver uns aos outros nem pintados, não sei se eram góticos ou emos, mas eram um bocadinho parvos, porque arranjaram um esquema rebuscadíssimo com veneno à mistura, que só mesmo em cabeças adolescentes, acabaram por se trocar as voltas e morreram.
E se não tivessem morrido?

Estou mesmo a ver a Julieta farta de passar as noites no recato do lar em vez de andar com as miúdas da idade dela, o Romeu a refilar com o jantar e com o estado da habitação em geral, as sogras a meterem o bedelho em tudo e eles a discutir à noite:
-Onde é que andaste até estas horas, Romeu? Na taberna com alguma meretriz?
-Julieta, não seja obcecada, fui só beber um hidromel com a malta!
-Foste foi dizer parvoíces à varanda da Genoveva, que eu bem vi como olhas para ela!
-Não seja parva! Pensas que todas são como tu? Ouvem duas palavras bonitas e abrem varanda?
-Estúpido! A minha mãe bem me dizia que eu podia casar melhor, o meu pai sempre te topou à légua, a ti e à tua família!
-Ó menina, vê lá como falas da minha família, se vamos por aí vamos mal….

Pois, são jovens, não pensam!

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Depois do arco iris ou daqui por umas semanas...


No feiticeiro de Oz, a Judy Garland, jovem e inocente, sem a vida devastada por barbitúricos, dietas mirabolantes e outras coisas descobre que batendo os sapatinhos vermelhos um no outro e rezando interiormente “Não há local como a nossa casa”, consegue voltar para o Kansas, a preto e branco, sem anões e feiticeiros, com o conforto das coisas familiares.
Eu não calço sapatinhos vermelhos, só sapato de ténis daqueles que abotoam com tiras de velcro, o esquerdo, é sempre o meu lado melhor o esquerdo, também não bato com os pés um no outro, limito-me a abanar o esquerdo, mas já estou em casa.
A minha casa, que mais ou menos fui construindo, com o mobiliário que escolhi dentro daquilo que pude comprar, uns moveis velhos de antepassados porque tenho esta paixão por velharias, a minha almofada, a minha cama, os meus filhos, o meu cão, o meu companheiro.
Não é fácil ver o cotão a crescer, o pó a invadir a superfície dos moveis as coisas mudadas de sitio para passar uma cadeira de rodas, estar dependente de todos para quase tudo, grande parte do dia atendo telefones, pelo que podia fazer trabalho em casa de telemarketing, são amigos, familiares, transmitem carinho, desejam as melhores, outros querem saber pormenores, os que receberam informações erradas e pensam que estou ainda no hospital, que me parti de alto a baixo, a família inquieta que vai monitorizando por telefone como estou e quando não atendo telefonam numa espécie roleta alucinante para o fixo e para o móvel, sem pensarem que as minhas deslocações são lentas e exigem várias manobras com o meu Ferrari, já não vejo o Rio e os pássaros, em contrapartida a minha cadela está revitalizada, já parou de se arrastar dos meus sítios habituais com um ar triste, cheira-me o pé estragado com aquele focinho feio e meigo, todas as noites sonho que ando, esta noite era na areia da praia, soube-me bem, assim que puder vou pisar a areia.

domingo, 29 de novembro de 2009

Histórias de amor mal contadas - Barbie e Ken






A Barbie é rapariga para mais de 50 anos, não tem rugas, dorme completamente maquilhada, de facto até fica com melhor aspecto á medida que os anos passam, tal como a Cher , tal facto só pode ser explicado com o recurso intensivo á cirurgia estética e ao botox, mantém-se magra, pelo que desconfio que no silêncio da noite, no recato do wc, deve colocar os dedos na boca e vomitar uma enorme quantidade de bolos e doces produzidos na sua própria pastelaria.

A Barbie tem um namorado, já namoram há mais de duas décadas, é um rapaz de físico e dentes perfeitos, bíceps e abdominais, dentes, também, mas andam nesse chove não molha há muito tempo, ela dinâmica e activa já fez de tudo desde top-model, enfermeira, professora, alpinista, bailarina, empresária, ginasta, ele não se conhece a actividade, parece que têm um carro descapotável e umas roupas todas pipoca, mas mais nada, correm boatos que está metido em actividades pouco claras, mas são boatos, cabalas, talvez, inclusive anatomicamente não é completo, a pélvis acaba num vazio, falta ali qualquer coisa.
Portanto não acredito que seja a relação gratificante que nos tentam impingir nos anúncios natalícios, onde aparecem os dois produzidos, arranjadinhos e sorridentes, a Barbie quando se levanta deve ter outro aspecto, o Ken não deve dizer dois popós seguidos, não são ecológicos, as casas, carros e afins têm uma enorme quantidade de material não biodegradável, eu já nem comento a obsessão pelo rosa choque, a verdade é que passam uma imagem falsa, ele precisava de ganhar outras capacidades físicas e descobrir o que pode fazer de produtivo na vida (talvez ir fazer um retiro na quinta dos Pin e Pons), ela precisa de se acalmar de tanta actividade e descobrir outras coisas na vida (talvez conhecer o Action Man), mas sinceramente acho esta história de amor muito mal contada.

sábado, 28 de novembro de 2009

Mudemos de assunto



Ultimamente a vida, as circunstâncias, os acidentes, as coincidências abrigam-me a abrandar, a repensar, a reflectir, a segurar os cavalos que correm dentro de mim. Para quem acredite em planos infinitos será um sinal, um sinal que ao fim de uma semana já encaixei.
Estranho é habituarmo-nos a rotinas de lentidão, é como se de repente se exigisse que um gafanhoto passe a actuar como um caracol, mas o gafanhoto, coxo, lá se vai habituando a outro ritmo. Mentalmente corto dias do calendário e interiormente peço as células do meu organismo para se organizarem para esta parte durar só o mínimo indispensável.
Entretanto, leio, ouço telejornais, passo pouco tempo aqui porque não é prático nem confortável, nas noticias que ouço irrito-me e insurjo-me contra a fantochada que se tornou a justiça nacional, com a vergonha de um dos homens mais bem pagos do mundo, o nosso director do Banco Nacional, vir apelar ao aumento de impostos e redução de salários daqueles que vão sobrevivendo na insegurança e na insuficiência, espanto-me, ainda assim, com os comentadores políticos e económicos, com o facto de apenas serem quatro, os titulares de oitenta por cento da divida de um banco privado, que beneficiou de apoios públicos, que continua a ter lucros babilónicos, com o tempo dispendido nos noticiários com os romances futebolísticos, sigo o romance da Gripe A e quando não aguento mais de espanto e indignação mudo de canal ou pego no meu livro.
Vou pensando nos caminhos alternativos que poderei fazer, logo que for possível, já me convenci que darei presentes de Carnaval e não de Natal, que não farei filhoses ou outras delicias Natalícias.
Sou uma mãe moderna, dou apoio por telefone, falo das frequências, da hora de recolher, se jantaram ou fizeram a barba, recebo mimos virtuais e felizmente muitos reais, os amigos teceram uma rede de solidariedade incrível, que me aligeira os dias, retira-me preocupações, minora-me a solidão.
Afinal não mudei muito de assunto, pois não?

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Janela Discreta



No filme Janela Indiscreta James Stewart leva todo o dia estacionado junto a uma janela, com a perna partida, as aparições de Grace Kelly aliviam o dia, mas a imobilidade acaba por levar a uma observação próxima da vida dos seus vizinhos, com o apoio da teleobjectiva, pensar que está paranóico e descobrir um crime...
A Grace Kelly nunca aparece cá em casa, nesta casa que temporariamente é minha, mas ainda bem, senão assustava-me e dava-lhe o desgosto de a informar que a filha está separada do terceiro marido, um príncipe de linhagem, mas pelos vistos um bêbado incorrigível, isto segundo uma revista cor-de-rosa (vês Brites? Pela boca morrem peixes e madrinhas), li um terço da revista e fiquei enjoada como se tivesse comido um bolo que em simultâneo tivesse doce de ovos, de chila, chocolate e caramelo, excessivo, tal como a revista, coisas simples mas também eu fui operada foi à perna não fiz uma lobotomia.
Mas a janela, a minha janela abre-se para o rio, vejo o Seixal, os fuzileiros em manobras, os barcos da “carreira”, alguns botes de pesca, as gaivotas a esgravatar na maré vazia, algumas garças por vezes, nascer e por do sol sempre diferente e sempre bonitos, ontem vi um ameaço de trovoada e vi uns raios clarear a noite de repente, eu sei que são descargas eléctricas da nuvens, mas podia ser alguém muito zangado comigo. O que não resulta porque gosto de ver trovoadas.
A janela é a minha montra para fora, a janela as aparições dos amigos, da família, que são no fundo formas de me abraçar, quando roubam um bocadinho do seu dia só para passar por aqui, ver se preciso de alguma coisa, a televisão também, mas confesso que estou farta das noticias e de outras coisas. A minha amiga deixa tudo a um nivél que eu possa chegar, aconchega-me na cama á noite, depois de me dar a injecção, eu tento ser útil a nivél mínimo, ontem dobrei peúgas, por exemplo, um amigo de sempre, daqueles que são como os relógios suíços, não falham, nunca, vêm cá todos os dias e avisa que está de prevenção, para mim para o que for preciso.
Eu faço para não me queixar, de um rasto de solidão, de uma ou outra lágrima teimosa, do ardor das bolhas que rebentaram e que me dão a sensação de ter parte da perna embrulhada em urtigas, de outras mariquices. Todos os dias estendo um pouco os meus limites, sem fazer avarias nem colocar o pé no chão, hoje já passou uma semana, é menos esta.
Bom, estou cansada, vou ali até à janela, volto já.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Chocolate e pêssego


Nestes últimos dias tem sido mais difícil para mim escrever, podia-se pensar exactamente o contrário, que este tempo todo vazio torna-se mais fácil escrever, mas não, por um lado fisicamente é difícil escrever com o computador ao colo, a perna esticada com um saco de ervilhas congeladas para descongestionar, arde-me um bocadinho porque as bolhas rebentaram e ardem, não consigo ler também, acho que é por um lado efeitos da morfina que me injectaram na espinal medula, as letras tendem-se a encavalitar, como se estivessem a jogar às escondidas comigo.
Portanto custa-me escrever, não vou respondendo aos comentários, mas aprecio-os imenso, também não vou comentar aos vossos espaços, não me levem a mal!
Mas nem tudo são tristezas esta pausa forçada tem tido momentos hilariantes e divertidos, como duas mulheres, eu e a minha amiga, anfitriã, enfermeira, companheira de muitas coisas, uma espécie de outra mana mais nova, a fazer um verdadeiro número de circo para me dar banho, escanchada na banheira com a perna partida de fora a esfregar-me com espuma de banho de chocolate e acabarmos as duas num ataque riso, ou o médico tirar todos os revestimentos que protegem pregos e parafusos e dizer que quer uma lanceta e dizer “Quando doer diga” e eu a sentir picadas várias cada vez mais profundas e aguentar-me num silêncio de múmia até que o médico pergunta “Não lhe dói?!”, “Dói, sim doutor, mas eu aguento!”, “Ó Dª Ana eu estava a ver se tinha sensibilidade...”.
Pois! Figuras tristes!
Como agarrar e fazer o meu rali, WC, cozinha, estacionar a cadeira, saltar para a chaise longue, tirar o sapato, mas não o tirei, atirei, foi parar quase na lareira, e depois fiquei aflita, como é que conseguia ir buscar o sapato, só com uma perna boa, calçada com uma peúga, pronto fiz outra acrobacia, tirei a peúga, firmei o pé nu no chão, montei a garbosa cadeira de rodas e fui buscar o sapato...
Hoje já tomei banho, com a perna embrulhada num saco do lixo, sentada num banco, o único percalço foi a minha amiga ter acabado ensopada porque o chuveiro ganhou vida própria e molhou tudo, incluindo ela, mas pronto hoje foi espuma de banho com cheiro a pêssego...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Devo ser uma pessoa estranha!



Devo ser uma pessoa estranha, a cicatrização está a correr bem, dentro de mim células ósseas correm a juntar-se a tapar os buracos, o médico mostra-me no computador os retratos de dentro de mim, quando parti e esfrangalhei o tornozelo em três partes, mostra-me os fragmentos e os estilhaços, outro conjunto de retratos onde se consegue ver placas, porcas e parafusos, os retratos de ontem, com tudo mais arrumadinho.
Diz que sim, que irei tirar mais tarde as ferragens, avisa para não colocar o pé no chão durante quatro semanas, manda-me fazer o penso, ao fazer o penso as enfermeiras avaliam a cicatrização, que está óptima tirando as bolhas de água nas zonas onde acabavam os adesivos, porque afinal faço alergia à cola, na barriga tenho uma nódoa negra enorme de uma injecção mal dada, das mesmas injecções que vou ter de levar diariamente, dadas carinhosa e descontraidamente por uma amiga que só deixa o rasto de carinho, a mesma amiga que tornou a casa dela a minha casa, enquanto for mais fácil, para mim e para os que me rodeiam, a discussão estendeu-se a outros amigos, os que telefonam a toda a hora a perguntar do que preciso, os que oferecem as suas casas térreas, os seus préstimos, os que nem dizem nada disso mas carregam-me a mim e á cadeira de rodas para o hospital, consultas, rx, aconchegando-me o casaco, portanto devo ser uma pessoa estranha, alérgica a certas fibras do vestuário, a azeitonas, amendoins, aos ácaros, ao níquel mas não ao metal nobre da amizade que faz esquecer as bolhas nos pés e suavizar as nódoas negras das injecções dadas sem carinho.

domingo, 22 de novembro de 2009

Em casa, mais ou menos

Pronto as rotinas entram em nós, habituei-me a começar a dormir lá para a meia noite depois da troca de turno a acordar ás três da manhã com a medição de tensão arterial, uma injecção na barriga, a ligação na veia que entupia sempre a meio do analgésico, não só prolongando o período de dor como ainda provocando um ardor incomodo na veia obrigando a tocar à campainha chamar a enfermeira que faz manobras de avanço e recuo até a veia estar bem, isto com soro, fluxo e refluxo, “é só um tirinho”.
O tirinho espalha-se pela mão e pronto....
Descobri os sítios secretos onde é tolerado que mulheres de pijama e camisa de noite, em cadeiras de rodas e suportes de soro olhem pela janela a mirar o rio ao longe e até o trabalho com um olhar guloso enquanto fumamos um cigarro estacionadas no símbolo vermelho que proíbe o fumo.
E a rotina é assim, entranha-se, conhece-se as enfermeiras e auxiliares as voltas do pé coxinho da cama para a cadeira de rodas, da cadeira de rodas para a sanita, é uma dependência estranha, que nos faz agradecer muitas vezes, muitíssimas, pensar baixinho “isto passa”.
Depois chega ao médico, explica coisas, diz que vamos para casa e não pensamos em mais nada, não pensamos que é um segundo andar só possível de subir de outra forma, que é impossível subir agora para amanhã descer de novo, tirar o rx, voltar a subir, para no dia seguinte descer outra vez, impossível, impossível...
Portanto, arranjam-se soluções alternativas, hoje fica-se numa casa, de uma amiga com quem se partilhou ensejos adolescentes, dores de jovens mães, queixas de mulheres crescidas, a casa tem elevador, no dia seguinte será outra casa de outra amiga, também com elevador da garagem para o piso, com quem partilho objectivos, magoas de gaja mais crescida com outra mais nova, projectos comuns e uma grande cumplicidade, transformei-me na andarilha da perna de gesso...
Por um lado fica o velho adagio de que não há sitio como a nossa casa, as saudades do nosso cheiro da nossa almofada, das coisas nossas no nosso sitio, por outro lado a vaidade de ter pelo menos duas pessoas a disputar em que casa é que fico com a agravante de enumerarem as vantagens da casa de cada uma....

sábado, 21 de novembro de 2009

Cá estou!


Li algures que quando a medula óssea entra na circulação sanguínea temos várias alterações, vómitos, ataques de cólera, até delírios e estados depressivos, isto para além da dor horrorosa e dos suores frios.
Não tenho tido delírios embora hoje tivesse sonhado que andava, ataques de cólera também não, vómitos tive e os tais suores frios, no instante em que trucidei o tornozelo, mas passou, mas estado depressivo tenho, imenso, não sei por cento e cinquenta mil coisas que tenho guardado no meu peito, nos últimos tempos, não sei se por pensar nos transtornos que esta paragem vai trazer, profissionalmente, pessoalmente, à família e a terceiros, se é por me sentir assim tão só, em mais uma cama anónima, num serviço trocado porque nem existia vaga no certo, a ter de solicitar ajuda para tudo…
Portanto pelo segundo dia de lágrimas inexplicáveis ou não e acima de tudo outra forma de estar só, porque de facto o Hospital está cheio, a enfermeira até achava que a colega tinha feito penso, lá expliquei que não, os médicos devem de se ter esquecido de mim…mas eu cá estou.
Entretanto leio, veio gaivotas que se passam por aqui a fazer-me pirraça da sua liberdade, fixo a grade da lâmpada florescente cheia de pó, ouço restos de vida lá fora que as visitas e o pessoal hospitalar trás consigo, invejo profundamente a hora da saída de alguns e o adeus apressado e risonho de quem tem alta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Éditos


Serve o presente para informar os leitores deste blogue que a sua autora ontem efectuou um erro de calculo, mais concretamente a descer uma escada que conhece há cerca de 42 anos, como tal fez uma pirueta maluca, tentando salvaguardar o seu sobrinho de um ano de idade que transportava ao colo.
A criança não deu por nada deve ter apenas pensado que afinal a tia é mesmo louca por salta, senta-o no tapete direitinho e fica a dizer-lhe com um sorriso estúpido “Acho que parti o pé!”
A tia autora deste blogue está no Hospital depois de ter sido operada de urgência não a uma, nem a duas mas sim a três fracturas no perónio e tíbia, como brinde fez a operação com epidural pelo que ouviu serrar, brocar e limar os seus ossos, que segundo o ortopedista pareciam um puzzle…
Tenho uma botifarra da ponta dos dedos até vão joelho, soro e analgésicos na mão, começo a treinar alguns malabarismos no Ferrari (cadeira de rodas), mas custa-me a escrever, tenho dores diversas.
Beijos e até já!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Esta é uma forma!


Esta é uma forma,
A diferença entre
Estarmos sós,
Sentirmo-nos sós ou
Queremos estar sós.
Por vezes quero estar só,
Só comigo, ouvir-me,
Entender-me, alinhar-me,
Desfrutar-me,
Sentir que não sou responsável por mais
Ninguém
Sentir-me só é outra coisa,
Acontece, rodeada muita gente,
Muita coisa,
Que chama-me, solicita-me
Eu no epicentro de uma coisa qualquer,
uma tempestade, uma ventania,
Um rodopio qualquer,
Nessas alturas sinto-me só
Diferente de tudo isto é
Estarmos sós

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Simples?!


Apaixonaram-se, de um lado uma vida mais ou menos solitária, do outro um casamento desfeito com um filho, o contacto diário, cumplicidades diversas, maneiras de estar, entreajudas, firmou aquela relação, de pessoas maduras e conscientes.
Mantiveram-se duas casas, mas o filho do casamento desfeito habituou-se e gostou de ter mais um suporte físico e emocional, a vida tem corrido tranquila com as coisas comuns, um esquentador que avaria, a vontade de ficar na cama no Inverno, o que fazer para o jantar, até que uma daquelas doenças, daquelas que se diz o nome de semblante fechado altera tudo.
Como em todos os momentos desde o princípio, apoiam-se.
Qualquer decisão tem de ser tomada pelo parente mais próximo, não por quem compartilha a vida, o carinho, as pequenas alegrias, o parente mais próximo é um primo qualquer distante, que não se vê desde o último funeral, os bens em caso de morte serão dele, embora não faça a mínima ideia onde estão guardadas as fotos de infância, ou que é naquela travessa que se serve o arroz doce, nem o significado de todas as coisas por ali espalhadas e que espelham uma vida inteira.
Para ser de outra forma impõe-se outras coisas, testamento e demais papelada.
Existem outras coisas, pequenas mas enervantes como ter de pedir férias, para dar suporte e apoio indispensável.
As protagonistas desta pequena história são duas mulheres, que respeito e considero, que são exemplo de muitas situações, que são cidadãs, pagam os seus impostos merecem os seus direitos, tanto como eu.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Canto eu, baixinho




O rádio do carro deixou de tocar outra vez, é temperamental e de tempos a tempos desliga-se e faz uma espécie de retiro espiritual, deixando-me apenas com o som da mecânica e clic de certos comandos, como os limpa para brisas que se afadigam a limpar as gotas de água que caem sobre os vidros, sobre a estrada, parece que dizem adeus a alguém ou que querem parar a chuva com aquele movimento frenético, quase que lhes digo que não vale a pena, mas podiam ressentir-se como o rádio, eu ainda vou cantarolando baixinho, mas não me dá jeito nenhum limpar a chuva ao mesmo tempo, até porque ainda me dói o braço, não se sabe se pelas longas horas a tocar teclados, de computador, se por embirração do meu organismo que recomeçou a pressionar nervos e a fazer avarias, é normal, rebela-se de eu esforçar mais do que devia (O médico bem resmunga num tom que nem ele acredita “Ana, o descanso é fundamental, veja lá o que faz!”).
Dou duas três voltas aos mesmos quarteirões, já cheios de arcadas com motivos de estrelas, prontas a serem acesas na altura marcada, em vão, falta o último recurso o estacionamento igual, de um Centro Comercial, replica e génio de todos os outros, com as mesmas lojas, as mesmas cores e os mesmos cheiros e corro, para chegar a horas, como o coelho da história, entro encaro alguém que não via à muito tempo, com olhar parado e movimentos lentos, lembro-me do seu entusiasmo contagiante a falar de Pessoa, dos verbos em Francês, de me entusiasmar a ler o mais possível na língua original.
Encaro os seu olhos azuis pequeninos, acaricio a face “Sabe quem sou?”, fixa-me, “Sim, és a Ana!”, tem uma espécie de meio sorriso, e antes de entrar para o gabinete onde vão ralhar comigo, aplicar ultra sons, dizer que eu abuso muito, que devia de estar nem que fosse dois dias a descansar, enquanto aplicam agulhas com uma ciência milenar que vão desligando a cada picadela terminais de dor, penso naquela mulher que era vibrante e combativa e se encontra reduzida àquele meio sorriso, àqueles gestos lentos, não corro para o carro, primeiro convido um amigo para um café que bebo com calma e com uma conversa tranquila, vou devagar para o carro, não me irrita a lentidão do carro da frente, olho para o rádio mudo, penso que vou desprezar nem que seja só hoje o relógio, talvez o rádio faça as pazes comigo amanhã, entretanto, mesmo com um nó na garganta, canto eu baixinho…

domingo, 15 de novembro de 2009

O conforto do uivo do lobo


O vento uiva lá fora, como um lobo perdido da alcateia, faz-me apreciar mais o conforto de estar cá em casa, se bem que o conforto de estar cá em casa também de depende de outras coisas, de ter acordado e limpo, certas partes funcionais da casa, para depois ter tomado o banho sacramental que lavou o suor e o cheiro dos detergentes e perdido um tempo que é só meu para espalhar creme entre o corpo num ritual que não abdico, depende de ter perdido tempo depois de uma tarde de mais ou menos vigília de sábado, no trabalho, para juntar ovos e outras coisas e fazer um bolo, que faz parte do conforto, do conforto faz parte o almoço dominical em que nos sentamos à mesa, da casa materna, com lugares que vão sendo eliminados e outros lugares surgindo, do almoço dominical espera-se que eu contribua com o pão, levo sempre o pão, eu ou alguém leva vinho, outro uns bolos, assim cumprimos este ritual de nos sentarmos juntos, três gerações.
Do conforto ainda depende, dedicar-me já a seguir a temperar para assar um naco de carne que conforme a inspiração pode levar alecrim e cebolinhas, castanhas ou o pimentão alentejano, ser acompanhado de frutas, legumes salteados ou puré de maçã, aproveitando o forno aceso junta-se ainda batatas doces, talvez castanhas retalhadas, no fim o conforto depende de esticar-me no sofá analisar a casa com tudo quase no sitio, arrumar na cabeça os compromissos de amanhã, ler mais um pouco, ver um filme que gosto enroscada com um pijama cheio de estrelas, esquilos ou outra coisa qualquer, deitar-me na cama como num ninho, sonhar com coisas fantásticas e continuar a ouvir o vento a uivar lá fora como um lobo perdido da alcateia.

sábado, 14 de novembro de 2009

Flor ao sol


Vinhas assim devagar
Como a subida da maré
Num sussurro
Tanto inquietante como calmo
Daquela calma que aperta qualquer
Coisa
E eu esperava
Esperava como a noite espera o dia
E entregava-me assim
Como uma flor ao sol

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Há coisas que nos magoam devagar


Há coisas que nos magoam devagar
Como uma tortura medieval
O cansaço que desceu até ás palmas dos pés
As ausências, alguns silêncios
As ausências definitivas
Aquelas que enchem com o peso da saudade
As esperas, as esperas magoam
Certas palavras
Os abandonos
As queimaduras, mais que do fogo
As da indiferença

Quintas e Aquários


Não consegui atinar com twiter mas lá aderi ao facebook, levei meses a receber convites para estes e outros meios de ligação virtuais, tentei ignorar, mas a insistência era muita, através dos tais convites, de viva voz, por telefone “Oh Ana não sejas teimosa! Aquilo é giro!”.
Num domingo eleitoral, entre contagens e outras obrigações, depois de ler os jornais de fio a pavio, antes de receber uma noticia não inesperada, mas chocante, da morte de um familiar, registei-me, passado pouquinho tempo tinha uma catrefa de amigos virtuais, sendo a esmagadora maioria amigos a sério de carne e osso com quem de vez em quando partilho um café, dois dedos de conversa e mais qualquer coisa.
No entanto apesar de achar piada ao meio de divulgação, a ter encontrado amigos que tinha perdido o rasto ou que simplesmente com quem mantinha um contacto espaçado, de conseguir ainda através deste meio manter comunicações mais regulares com familiares, apesar de todas as vantagens sou apanhada numa espécie de loucura colectiva, mais de dois terços daquela malta dedica-se a coisas estranhíssimas como a agricultura ou a aquariofilia virtual.
Para além de levarem imenso tempo a cultivar rabanetes e morangos virtuais, a chocarem ovos e coisas que os valha, atormentam-me com ofertas e pedidos: oferecem-me árvores de fruta diversa, cabras, galinhas, patos, ovelhas e até um urso, pedem ajuda para as colheitas ou para limpar folhas, perguntam-me se desejo adoptar uma tartaruga bebé ou um peixe tropical.
Já lá coloquei um aviso que não estou interessada, tenho membros da família e amigos que se tornaram em verdadeiros latifundiários virtuais.

A todos deixo um recado: existem nos viveiros de plantas, até nos supermercados, pacotes de semente, bolbos e outras coisas que tais, como sacos de terra, vasos e floreiras, experimentem, nada dá mais gozo que ver uma coisa crescer que foi plantada por nós.
Quanto aos aquários tive um activo durante os últimos dezoito anos, está vazio na varanda, tenho motor, filtro, termóstato e até o ofereço de boa vontade a quem se comprometer a cuidar dele, é só limpar, encher e começar a comprar peixes, ofereço ainda noções básicas sobre o assunto: os Discos e os Óscares tem de viver sós, os néon fazem um aquário bonito, os guppies reproduzem-se mais que coelhos, os espadas são giros, os rumble fish são agressivos e comem as crias.
Experimentem, os meios de comunicação virtuais são giros, mas não há nada com plantar umas batatinhas numa floreira e na primavera ter explosão de cor na varanda!