segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2010

Hoje



Hoje, sinceramente, dói-me a perna, se já não gostava muito do tempo invernoso, passei a ter outro motivo para desejar andar a seguir o Verão, teoria do meu pai, dos meus tios, adoptada plenamente por mim, esta humidade infiltra-se, com toda a certeza pelas costuras da cirurgia, entre o espaço dos ossos ainda mal consolidados, fazendo uma espécie de musgo doloroso, mas ainda era do mais ou menos se me doesse só a perna, mais do que a perna dói-me as noticias do rádio pela manhã “trabalhadores despedidos manifestam-se….trabalhadores com salários em atraso manifestam-se…”, imagino os múltiplos dramas pessoais que se escondem nestas frases, a casa que se pode perder, o frigorifico vazio, os sapatos que não se pode comprar para um filho, a transmutação de migalhas de miséria em refeições, depois fala alguém em nome de uma confederação patronal dizendo que não fazem falta certas empresas em Portugal, principalmente as de mão de obra barata, de repente penso que sou eu que ouvi mal, são os mesmos que apregoam que a única maneira é congelar salários, flexibilizar ainda mais as relações laborais, facilitar os despedimentos, dói-me, nada a fazer, dói-me, continua doer-me ligar a internet e ver que este Governo, que ainda agora celebrou cem dias, com pompa e circunstancia, apesar de nada seja digno de festejo, mas dizia eu que a internet anuncia que este governo já fez 1361 nomeações, um número de respeito em cento e poucos dias, descontando feriados e fins de semana, grosso modo dá cerca de 40 nomeações diárias, ou seja 40 pessoas por dia que vão engrossar os gastos da função pública, apesar de serem salários muito superiores aos de quem apanha o lixo das ruas, repara as canalizações, tapa os buracos do asfalto, marca consultas, tira sangue para analise num hospital a cair, limpa arrastadeiras e afins, mas contam para a média dos gastos com pessoal do Estado. Por isso dói-me, desconfio que a dor prolonga-se noutras coisas, nos jovens que conheço e saem daqui para fora, dos meus filhos que vão apontando esse caminho nos seus projectos, nas noticias sobre as escutas que não deviam ter sido feitas, embora a lei permita gravar todas as minhas conversas electrónicas, telefónicas e afins durante um ano, dói-me pedaços de mim, fazer contas de sumir em vários sítios, olhar para o rio que hoje está cinzento acastanhado numa coloração de lama, mas ainda assim com um pato bravo maluco a voar no meio das gaivotas.

sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

Noutra linguagem

Noutra linguagem sexta feira é vendredi, por exemplo, em vez de sexta feira, vendredi será o dia Vénus, um pouco melhor do que a sexta feira, porque as primeiras têm o gosto da descoberta, as segundas a aprendizagem e as terceiras o reconhecimento e nas sextas feiras já estamos assim cansados e repetidos de muita coisa, ser o dia de Vénus é bonito, talvez sensual apesar de Vénus ser alguém que nunca existiu, casada com Vulcano, infiel com Marte e nascida da espuma do mar, noutra linguagem menos sensual mas de alquimia talvez, sem dúvida de amor, porque por vezes as mulheres aprendem a dar amor com alimentos, da mesma forma que oferecem os seios aos filhos, mas dizia eu, noutra linguagem fiz um bolo diferente, porque foi a primeira vez que o fiz e não encontrei a sua formula escrita em sitio nenhum senão nas minhas mãos, as mãos com que parti nozes iguais a pequenos cérebros, descasquei maçãs ligeiramente tocadas, mas com cheiro de maçã, todas irregulares, misturei com passas, açúcar mascavado, canela, misturei e cortei, bati, untei, e lembrei-me das mãos da minha avó que faziam milagres assim com coisas simples, umas mãos diferentes das minhas, as minhas tem os nós dos dedos escuros, as dela tinham os nós dos dedos curvos e deformados, tanques de roupa desde miúda, soalhos de madeira esfregados, noites a amassar e a cozer pão para depois sair para a madrugada fria aspirando o cheiro do rio, no rio onde ainda há dois dias, muito cedo, muitos homens de afadigavam de balde e enxada, fazendo a recolha do isco no meio do lodo, que parecia prateado, enquanto parto os pequenos cérebros e as maçãs com cheiro ouço a crise do mercado internacional e a queda das bolsas, penso que é outra história inventada, na qual se usa uma linguagem diferente, quase hermética, para que não possamos entender que a raiz da crise está em fechar fábricas de um lado para abrir no outro, para pensarmos nós que se as nossas mãos não fazem falta é porque a culpa é só nossa, porque se decidem se pudemos pescar cavala ou marmota, plantar nabos ou eucaliptos, beber leite de vacas que sempre ouviram outra linguagem, lá longe, ter computadores de brincar em escolas de fantasia que caem como castelos de areia, e na mesma linguagem ainda mostrar como estragamos os meios públicos, porque ficámos doentes, velhos, porque somos jovens, com falta de habilitações ou habilitações a mais, porque se pudermos acatar, esperar e sacrificarmo-nos mais uma vez em nome de outra linguagem, pode ser que sim, embora na minha linguagem acredito que não, assim noutra linguagem a sexta feira que termina é vendredi, o sábado que chega é outro dia.


quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2010

Trocar as voltas!


Por muito que a maré, os ventos, a conjuntura, internacional, nacional, local, familiar, nos arraste para um sentido, podemos sempre escolher outro. Acabei mais ou menos por trocar as voltas ao romance da coxa do Tide, cumpri tudo, não deixando de me esforçar para alterar o curso das coisa, a partir de ontem estou mais autónoma com ordem de retomar a minha vida, com calma, passo a passo, por outro lado um jornalista conceituado, Português, trocou as voltas também, não acatando uma lei da rolha implícita e nunca declarada, que vai fazendo mais vazia a Comunicação Social, menos credível, trocando essas voltas, marcou posição, ainda por todo o país, trabalhadores de diversos sectores, trocam as voltas, bradando contra a injustiça de sermos eternamente pagadores de crises feitas por outros, que nos anunciam luzes ao fundos do túnel e nos pedem sempre mais um esforço, só mais um, eternizando esse esforço e as suas dificuldades, tendo eles sempre a sua situação salvaguardada, com um esforço mínimo. Ontem a seguir ao telejornal assisti a duas reportagens seguidas, não eram lamechas, não puxavam ao sentimento, mostravam respectivamente uma empresa e uma escola, na empresa, o empresário deficiente privilegiou a contratação de deficientes, ninguém é coitadinho, não há caridade, são pessoas inteiras. Na tal escola, cheia de pequenos actos de revolta escritos nas paredes, nas portas partidas, nos meninos tristes que provêm na sua maioria de bairros onde sobra o mau viver e falta tudo o resto, nessa escola foi dada a oportunidade estranha de aprenderem a tocar violino, os meninos concentram-se como nunca, tocam orgulhosamente, as famílias que nunca ouviram o som do violino ou mesmo falar dele, juntam esforços para adquirir tal instrumento e ouvem maravilhados.
Por fim num registo doméstico os meus meninos trocam voltas também, um ganhando confiança com os resultados do seu trabalho e dos seus projectos universitários, o outro que esbanja confiança, dedilhando a guitarra oferecida pelos progenitores, ganhando o cognome de Paco de Lúcia…

segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2010

Relógio sem pilha




O relógio sem pilha quase que dá as horas certas, acontece duas vezes por dia, não quando o relógio nos apanha mas quando atingimos aquele momento em que ele se ficou, atinjo também o relatório interminável que deixei meio feito, porque afinal sendo extenso ainda leva mais coisas, não é possível resumir assim quatro anos, hoje está frio, mas está sol, sempre agradável ver o astro rei, por muito que seja uma estrela anã, velha na periferia de uma galáxia, é o sol.
O sol não aquece mas conforta, como o café da manhã partilhado com um amigo de sempre que se disponibiliza para a tarefa de me transportar para trás e para a frente, para trás deixei a casa, onde me equilibrei entre canadianas e um andar instável para começar as tarefas de sempre, agora sempre interrompidas por períodos em que não posso mais e tenho mesmo que me sentar, fiz sopa, um bolo, almôndegas, preparei um peixe para assar, dobrei roupa interior, arrumei o que pude, onde chego, li, vi uns filmes, partilhei um bocadinho com amigos, cheirei as maçãs antes de as comprar, coisas pequenas, vitórias simples.
Debito estas coisas sem nexo, apenas ao correr dos pensamentos, penso que sou como o relógio, com uma pilha que se gastou, talvez por exaustão, de um lado e de outro dão-me as boas vindas, quem acredita em acidentes cósmicos chama-me a atenção que isto foi aviso, que tenho de abrandar, penso que talvez tenha sido apenas uma pausa, não me apetece abrandar muito, a mim parece-me apenas que foi um acidentem, uma queda mal dada, como outras coisas, quando caímos é imprescindível sabermos levantarmo-nos.

domingo, 31 de Janeiro de 2010

O Sexo e a Sinceridade Capito quinto


O que é ou não afrodisíaco?

Recordo-me da noite em que as coisas se consumaram comigo e com o meu cara-metade, fomos ao cinema ver um filme sombrio sobre a vida de um esquizofrénico, mas o que é certo que já há algum tempo que fazíamos uma dança de acasalamento, propus bebermos um copo ele convidou-me para irmos á sua casa, sua só dele, fomos está claro, vai na volta tirando água da torneira só tinha uma garrafa de um famigerado licor de hortelã-pimenta, uma coisa horrorosa que nem as pedritas de gelo disfarçavam, basicamente era uma espécie de pasta de dentes liquida com um leve teor alcoólico da qual bebemos dois copos cada um enquanto fazíamos conversa de chacha e até cairmos nos braços um do outro.

Aprendi mais tarde que ele detesta qualquer coisa mentolada e ao contrário daquilo que se diz que o mentol será algo que poderá refrear os ímpetos masculinos posso garantir que não.

Da mesma maneira que assistiu a muitos concertos ao meu lado e passou dias de fim-de-semana na praia, isto tudo para descobrir depois que não gosta de nenhuma das duas coisas, eu vou aos concertos com amigos e para a praia também….

Uma amiga minha também decidiu fazer um repasto para um namorado, os seus dotes culinários são pouco mais que nulos, fez um prato elaborado de bacalhau com natas que ele não gosta, com bacalhau sem ser demolhado que ele comeu como se fosse um manjar, espetou-lhe com uma sobremesa de ananás, que ele também não gosta, ele aparentemente deliciou-se, são casados e têm duas filhas e ele é rei e senhor da cozinha.

Também conheço quem esperou pelo casamento para oferecer ao marido um frasco de perfume, tendo confessado só na altura que o perfume em que ele se encharcava antes de cada encontro lhe fazia dores de cabeça. Ele usava-o por causa dela!

Portanto afrodisíacos não serão os perfumes, os alimentos, as bebidas, os paus de Cabinda ou as lingeries provocantes será mesmo o desejo, o amor, o resto é acessório.

sábado, 30 de Janeiro de 2010

O Sexo e a Sinceridade Capitulo quarto


O sexo tem algo de recreativo, não só mas também, muitas vezes serve de escape, de desporto, de mecanismo de subida do ego, de aprendizagem.

Às meninas, pelo menos quando eu era menina, falavam pouco sobre o assunto apenas nos massacravam com a ideia de não irmos na canção do bandido, de sermos recatadas, etc e tal. Tal situação dava para muitos equívocos principalmente não sabermos muito bem o funcionamento da “coisa”, eu e uma amiga, na puberdade, descobrimos escondido atrás do bar do pai dela o famoso Kama Sutra, todos os dias estudávamos um pouco, daí até chegarmos á conclusão de que se fosse necessária a prática do sexo oral para ser mãe, morreríamos puras e virgens, santa ingenuidade!

Mas depressa percebemos que não era assim embora tivéssemos um desfasamento grande dos rapazes da nossa idade, quando nós sonhávamos com Príncipe Encantado eles sonhavam com uma bicicleta, quando fazíamos pose em biquíni para os desportistas com modelo de nadador salvador eles começavam a perceber que o nosso corpo tinha mudado, quando se interessavam por nós, nós estávamos definitivamente interessadas no rebelde, que dizia poemas ou tocava guitarra ou que tinha aquele cabelo diferente, nessa altura eles tentavam timidamente cantar-nos loas com uma voz que passava do grave adulto para o falsete, atraiçoando-os vergonhosamente, tinham borbulhas e o nariz grande demais, ou as pernas, ou os braços, existia sempre uma parte do seu corpo maior que as outras, coitados….

Depois os homens tem o estranho hábito de fazer uma publicidade alarve das suas capacidades sexuais, desconfio que muitas vezes essa é publicidade enganosa, tem também a atitude glutona de “mais olhos que barriga”, claro que não são todos, felizmente, nós cá também olhamos, avaliamos, fazemos é menos folclore e eles nunca percebem que se safa melhor o homem com ar de menino perdido, que aparente não pede nada, do que aquele que parte logo a dizer alarvices.

A verdade é que sinceramente acho que eles e elas procuram o mesmo com motores de busca diferentes, de vez em quando há um que é compatível e a verdade é que sexo e amor são coisas diferentes mas quando conjugadas são tão formidáveis como maçã e canela, sabem muito melhor.

quinta-feira, 28 de Janeiro de 2010

Pontas soltas


Volto a pegar nas pontas soltas da minha vida, coisas que deixei inacabadas com um estalar de ossos, nada parou, é obvio que não fui insubstituível, uma tentativa de voltar á normalidade pouco normal, porque uma coisa é certa os meus dias raramente são monótonos, calmos ou pacíficos e por outro lado esta semana de regresso deu-me a noção clara que existem razões pelas quais ainda não tive alta, se por um lado continuo a estar dependente, não para tomar banho ou vestir-me, mas para ser transportada, não consigo fazer ainda aquelas maratonas de multiocupações a encher todos os minutos e todas as horas, tenho mesmo que parar de vez em quando é o meu corpo que me grita quando o tornozelo incha e se torna dolorosamente perceptível a existência de costuras cirúrgicas recentes e a existência de coisas aparafusadas aos meus ossos, nesse momento nada a fazer, tenho mesmo de pedir encarecidamente a boleia a um dos prestimosos amigos ou familiares e parar.

Está frio, não ajuda de todo, continuo com esta alma de andorinha que prefere seguir o Verão, aborrece-me solenemente pedir ajuda, reconheço que a oferecem de boa vontade, volto lentamente (muito lentamente para o meu feitio) a regressar ao mundo que no fundo escolhi, a pequena perspectiva de mudar a realidade, o sentir-me útil, a participação activa, a convicção que a vida é feita assim de pequenos nadas, mas que esses nadas são feitos de múltiplas coisas, já tenho os compromissos pendurados na agenda, voltei a usar relógio, voltei a usar-me a mim e por acaso apesar dos inchaços e dores ocasionais sabe-me bem.