segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Os Dias 11 de Setembro



O Dia 11 de Setembro de facto parece ser fatídico, a primeira ideia é aquela dos aviões a chocarem nos prédios, a impotência, as pessoas a saltarem das janelas, uma violência de facto, horrível e brutal mas infelizmente não foi o primeiro dia 11 de Setembro marcado pela violência, antes disso precisamente no dia 11 de Setembro de 1977, Steven Byko, lutador contra o apartheid pelos direitos humanos morre depois de torturado, depois de lhe ser negada assistência médica condigna, numa prisão sul africana, um país onde existiam vários degraus de pessoas, onde por lei o tom de pelo determinava os direitos, isto tudo com uma certa tolerância do mundo ocidental civilizado, que continuava dali a sacar petróleo e diamantes, mesmo que isso significasse existir um sitio no mundo onde por lei, existiam pessoas menos pessoas. O mundo acordou para essa realidade, lentamente, um jornalista branco, Donald Woods, teve de fugir do seu país para contar a história, com risco de vida, Peter Gabriel escreveu uma canção famosa e foi preciso muito para que a África do Sul deixasse de ser o país capital oficial do racismo. Mas não existiu só esse 11 de Setembro, em 1973, precisamente nesse dia, Salvador Allende morria, num golpe de estado no Chile, Allende era médico, democrata, marxista, candidatou-se durante anos à presidência e ganhou democraticamente, as forças internacionais esfaimadas por explorar as maiores minas de cobre do mundo e verdadeiramente zangadas por um país na América Central ter mudado de rumo democraticamente (sim porque a democracia só é boa quando lhes serve), boicotaram o país de todas as maneiras, por fim apoiaram energicamente um golpe de estado brutal, liderado por Augusto Pinochet devidamente assistido com armas e militares. Allende não abandonou o seu posto sabendo que ia morrer, o Chile recuou à barbárie quase medieval com o apoio do mundo ocidental civilizado, os estádios encheram-se de corpos, choveu dor em Santiago do Chile a 11 de Setembro e o mundo quase não chorou.
Curiosamente Pinochet morreu de velho, protegido até à morte com subterfúgios diversos dos amigos ocidentais civilizados….
Podemos dizer então talvez que o último 11 de Setembro será consequência dos anteriores? Talvez, no saldo final, foram os inocentes que morreram e a tragédia do 11 de Setembro foi útil para uma vez mais se tirar direitos, para prender pessoas sem culpa formada, para torturar, até para violar de uma assentada vários acordos internacionais, vários direitos humanos, várias liberdades.
Estes são três onzes de Setembro, todos de má memória, Ghandi disse “olho por olho e o mundo ficará cego”, tinha razão, vai sendo hora de usarmos os nossos olhos para vermos mais longe, talvez para ver que somos todos uma espécie só, a habitar num planeta maravilhoso e que isto seria tudo melhor se todos quiséssemos e isso eu acredito ser possível!

sábado, 4 de junho de 2011

Reflexão sobre o dia de reflexão


Mais logo vou tentar deitar-me mais cedo e dormir, de manhã irei acordar pelas 5, com ainda restos de noite, irei tomar o meu banho, o meu pequeno almoço e pelas 6 estarei a abrir portas de salas de aula transformadas em secções de voto, depois vão chegando as pessoas indigitadas para aquela missão, todos a sacudir o sono, todos a esperar que valha a pena aquele domingo longo, serão contados boletins de voto, afixados editais, feitas actas, onde nunca constará a realidade de mais um dia de eleições, haverá quem vá votar por sentido de dever cívico, quem vá pela primeira vez, quem vá quase comovido, haverá quem entra e sai da cabine onde faz a sua escolha com rapidez, de quem sabe o que quer, haverá quem demore mais tempo porque até ao ultimo momento não estará certo da escolha, estarei ali quase todo o dia a indicar locais, distribuir águas aos membros da mesa, haverá pedaços de tédio, e alturas de grande movimento, tirei comigo uma lista de dez mil nomes por ordem alfabética para ainda assim esclarecer, irei ter esperanças, irei sentir a angustia do ultimo acto eleitoral legislativo que tive de interromper para gerir a noticia da morte de uma pessoa querida, tive de largar tudo, abraçar e consolar familiares, dar a noticia a outros, deixa-los acompanhados para vir terminar as minhas funções, no fim das minhas funções ajudo a colocar lacre em envelopes, entrego pacotes ás autoridades policiais, comunico resultados oficiais a entidades civis, alegro-me ou entristeço-me, conforme os resultados, faço as minhas leituras pessoais, ainda me junto aos meus camaradas para juntos olharmos para as coisas, por fim regresso a casa já noite, há uma sopa que acabei de fazer agora, o chuveiro á minha espera e espero que a perspectiva que todo este trabalho, todo este longo domingo não seja em vão.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Contos da normalidade aparente O Espelho


O espelho mostrou outro gajo, diferente de si próprio, ou não? O do espelho tem uns papos debaixo dos olhos e a pele do queixo nota-se que está flácida, nalguns sítios o cabelo a rarear, lavou os dentes energicamente á espera que a pasta branca de sabor mentolado fosse o suficiente para retirar aquele sabor a….papeis de música! Era assim que se referiam às ressacas em miúdos.

Entrou na banheira, esfregou o corpo com espuma de banho, deixou a água correr, ficando ali parado como se a água o pudesse renovar numa carícia tépida, esfregou-se outra vez, particularmente as virilhas, os sovacos, o sexo, tinha começado a notar um ligeiro odor que associava aos velhos, combatia-o assim com água, espuma, desodorizante, perfumes caros, enrolou a toalha nos quadris e voltou para o quarto só ao vê-la ali estendida se lembrou da sua existência como se ela só tivesse existência nos momentos em que a constatava.

Olhou o braço por cima da cabeça num gesto de abandono, as ancas, as nádegas, um seio exposto, o outro não, a pele lisa e firme, jovem. Pensou em si como uma espécie de bicho insaciável que conquistava mulheres sempre á procura de uma qualidade rara e essencial, que todas pareciam ter ao inicio, que todas deixavam de ter com o tempo, cada vez menos tempo, o circuito era sempre o mesmo elas fascinavam-se com o seu tom de voz, com a sua cultura, com o sorriso meio envergonhado, com ar de menino a precisar de colo, com as suas comparações doidas, comparava-as a sereias, os olhos a lagoas, os seios a montes, por aí a fora como uma aranha a construir uma telha, aquela táctica levava sempre ao abismo do sexo, as primeiras vezes fantástico, depois a começar a cheirar a rotina, depois a cansaço, por fim sem sabor, sexo mecânico a pensar já noutros corpos, geralmente corpos que começava a adivinhar, por vezes, só por vezes nalguns dos corpos com quem já tinha experimentado outros abismos.

Olhou outra vez o corpo dela, ela acordou e virou-se expondo o peito ele sorriu e disse-lhe meia dúzia de ternuras arrulhadas em beijos, ela deu gargalhadas e suspiros, acabaram como se esperava, num sexo com o olhar pousado no relógio, afinal tinha horas marcadas.

Saíram, ela seguiu o seu caminho, ele começou a tentar fixar-se em coisas práticas, não conseguiu, existiam recados sobre os filhos, cada qual na sua faixa etária, desde a adolescência a bebés de fraldas, cada um de sua mãe, cada um único e especial, nunca soube se os filhos apareceram numa tentativa sua de se querer ancorar ou se apareceram numa tentativa delas o prenderem, fez contas, cada vez era tudo mais complicado ia deixando não só os filhos, mas outros compromissos, casas, um apartamento com vista para o rio todo decorado com puff’s marroquinos, bambus e moveis étnicos, onde ele tinha pintado uma parede de cada cor, cores fortes, lembra-se de pintar as paredes entre gargalhadas a dois, beijos, a casa alentejana reconstruída deixando as traves, tendo o cuidado da cal e da barra anil, preciosismos de cadeiras de palha pintadas com florinhas e louças de cobre, o olhar maravilhado quando desembrulhavam aqueles tesouros, quando a casa estava enfim perfeita como a tinha sonhado foi quando saiu, existiu outro apartamento com toques orientais e por fim a última, a vivenda moderna de linhas direitas, projectada e sonhada, com espaço ajardinado e cão a combinar…

Lembrou-se por fim de outra casa, diferente, uma casa onde não lhe tinha sido permitido mudar nada, uma casa com camas de ferro e móveis desirmanados, cheia de recordações que não eram suas, eram dela, ela nunca lhe tinha permitido a mínima alteração, era a sua toca, como dizia, também nunca tinha acreditado nos seus elogios comparativos, sorria sempre com um ar trocista, nunca lhe tinha dito fascinada que o adorava, que o amava, nem tem pouco lhe tinha feito elogios às proezas sexuais, sorria só, retirava dele o prazer que queria quando queria, remetia-o sempre á insignificância de um assunto transitório, foi assim no dia em que lhe propôs que ele se fosse embora que fosse em busca de outro rumo, que a sua presença destabilizava a sua toca, que não estava na disposição de o ter na sua intimidade.

Parecia que lhe falava numa linguagem estranha, nunca tinha escutado aquilo, doeu-lhe como depois pensou que talvez fosse uma brincadeira e ela o beijou, acariciou-lhe o rosto como se faz aos meninos pequenos, explicou-lhe tudo outra vez, recusou-se a fazer amor com ele e por fim fez uma cara séria.

Foi ao WC, posou os óculos no lavatório, lavou o rosto, olhou-se outra vez ao espelho, tentou ver-se ali e não conseguiu, viu um homem com ar cansado, de meia-idade, não podia ser ele.

De repente lembrou-se que talvez, só talvez tivesse sido aquela a casa onde se tinha sentido melhor, talvez tivesse sido aquela a única mulher que se lhe tinha apresentado como um desafio, talvez. Ou talvez não, talvez tivesse ficado sempre um certo despeito por ter sido “despachado”.

Sentiu-se cansado, viu que aproximava-se a hora de almoço pensou que se tinha de despachar, para se cruzar como se quase de um acaso se tratasse com aquela morena de olhar meigo com quem falava de cinema enquanto ela abria os olhos, que ele lhe dizia serem fantásticos como dois poços encantados, comparando-a á Sophia Loren, e no entretanto ela bate as pálpebras num olhar sedutoramente míope….bom para a apanhar o melhor é pôr-se a caminho…

domingo, 1 de maio de 2011

Escrever-me


Escrever-te o quê?

Se na verdade só quero escrever

O meu sinal com a ponta dos meus dedos

Ou escrever para sempre o teu sabor em mim

Ou meu cheiro em ti

De maneira que sempre que o cheires te lembres de mim

Das minhas mãos

Escrever-te o quê?

Se só me quero escrever a mim

domingo, 24 de abril de 2011

Agora escrevo para ti


Agora escrevo para ti e partilho neste espaço, hoje é um dia importante por muitos motivos e tu acabaste por o fazer mais importante, a minha vida ficou marcada assim, antes de ti e depois de ti, sendo que o depois de ti ficará para o resto da minha existência, apareceste assim de surpresa quase de mansinho, afinal o médico tinha dito depois de uma trapalhada muito grande que tive e com a qual podia ter morrido que seria muito difícil engravidar e que talvez tivesse de fazer alguns tratamentos, no fim de contas bastaram só umas férias descontraídas e estavas instalado dentro de mim.

Não foi difícil escolher o teu nome, cedo o medico distinguiu que serias um rapaz, que chupavas o dedo, que terias um nariz arrebitado como o meu, e tudo decorreu como habitualmente, tu a cresceres e eu a sonhar-te a face, a comprar roupa minúscula e a derreter-me com sapatos de boneco, a preparar-me para chegares cá fora, essa parte foi a mais difícil, não querias sair de dentro de mim, demoraste três dias, nos quais médicos e enfermeiros franziam o sobrolho, e eu ficava sossegada a pensar em não me queixar porque tu ias fazer tudo valer a pena, e fizeste, mesmo quando te tiraram quase à força de dentro de mim e te levaram, eu fiquei numa agonia de estares longe, sem quase dar conta dos frascos e injecções, coisas que mediam no meu corpo, fiquei assim quieta e vazia à tua espera, mesmo depois de me dizerem que estavas bem, mesmo depois de o teu pai te ter visto e dizer que sim, só me convenci quando te me entregaram, embrulhado, marcado com o esforço de teres nascido, só quando peguei em ti e tu te acalmas-te, suponho por conheceres a minha voz, a meu batimento cardíaco, só aí olhámo-nos olhos nos olhos pela primeira vez, tinhas já esse teu ar misterioso, mas fizemos os dois o nosso reconhecimento, depois olhamos pela janela, era meia-noite e conseguíamos ver o fogo de artificio a riscar o céu em luzes de cores, expliquei-te que era um dia especial e que se festejava a Liberdade, daí para frente expliquei-te muita coisa, entretanto foste tu que me foste explicando outras, desde a impossibilidade dos Tiranossauros Rex serem carnívoros, explicastes que eram necrófagos, aliás como todos os tiranos, como aprendi que os filhos não são extensões de nós, nem da nossa vontade, são seres especiais que entram na nossa vida, para sempre, o grande reduto do amor incondicional, mas que irão fazer as suas escolhas, seguir as suas vidas, fazer as suas asneiras, que estarei cá sempre para te apoiar, criticar se for o caso, maravilhar-me com o teu olhar como naquela noite, ficar feliz com todas as tuas vitórias, inquietar-me com todas as dificuldades que tenhas, serás sempre o meu menino, o que não queria sair de dentro de mim.

segunda-feira, 21 de março de 2011

A Primeira Verdade

Eu por mim gosto disso, dias brilhantes e noites longas, a chegada da Primavera costuma trazer andorinhas, alvoroço entre os adolescentes, alergias ao pólen, cabritos e borregos, papoilas entre os campos verdes e outras coisas constantes nas redacções da primária “Descreve por palavras tuas a Primavera!” é claro que existia sempre um que tinha uma prima Vera, e a redacção era um chorrilho de trocadilhos em redor do assunto, existia ainda quem, com letra bem desenhada, conseguisse encher uma página com as banalidades das andorinhas a fazer ninho.
Faço aqui então a minha redacção da Primavera.

“Eu gosto da Primavera, mesmo quando a sinusite me incomoda, prefiro espirrar com o pólen do que me vestir em camadas como as cebolas. “Prima Vera” quer dizer “Primeira Verdade”, e as primeiras verdades são assim claras, impetuosas, simples e fortes, tem o doce e acidez, a relva verde com a humidade matinal, das primeiras verdades surgem forças por vezes imparáveis, a vontade de romper com tudo quanto é velho, serôdio, guardado, apetece despir malhas e preconceitos, encarar as pessoas nos olhos e perguntar se é isto mesmo que querem, uma espécie de Primavera pobre e eterna, com cheiros artificiais de alfazema num Centro Comercial decorado com flores de plástico, acções de guerra humanitária em nome da paz e da justiça, se bem que esta paz e a justiça cheirem a petróleo, apesar de as noticias me servirem novidades requentadas e discursos inflamados sem nada de novo, gosto do rumor a nascer de quem quer uma vida a sério, sem manequins a fazer de pessoas e escadas automáticas que nos levam a sítios iguais onde já estivemos antes, porque a recessão, a crise dos mercados, as medidas de austeridade são sítios onde já estivemos e acabaram em cartazes de paisagens onde nunca fomos, com mares onde nunca navegamos e promessas que nunca nos foram cumpridas.
Por isso gosto da primeira verdade, do primeiro sorriso, do primeiro grito, do primeiro olhar, do primeiro sabor do mar a infiltrar-se comum cheiro a sal, numa música rouca, na força das marés, das primeiras ervas tenras que ainda assim furam a terra gelada, do nascer do sol, sempre uma alvorada nova, a primeira verdade.”

sexta-feira, 18 de março de 2011

E tu vens?


Hoje é sexta-feira, véspera de sábado e está sol, parece que ontem o jogo correu bem ao Benfica, mas a gasolina está ao mesmo preço, o que está em cima da mesa neste momento são mais cortes nas pensões, nos salários, mais desemprego, soube-se também esta semana, que é impossível criar um combustível profissional, que os produtores de leite vão ter de cessar a actividade porque vendem o leite a vinte e tal cêntimos o litro e a ração dos animais custa trinta cêntimos o quilo, também se soube que já não vão baixar o preço dos medicamentos mas que o Governo foi sensível aos argumentos dos praticantes e donos de campos de golf, um desporto de massas acessível a qualquer um, para baixar a taxa de IVA, entretanto no sábado passado milhares de pessoas que se sentem enrascados com tudo isto manifestaram-se, mais ou menos espontaneamente, haverá quem diga que de nada serviu, de que não serve de nada a Manifestação marcada para amanhã pela CGTP. Eu não concordo, durante 48 anos pelo menos, o direito á indignação foi proibido, foi a indignação popular que se juntou à acção militar do 25 de Abril de 1974, para mudar o rumo do país, é um país digno que quero, onde os meus filhos tenham futuro, onde os recursos naturais sejam aproveitados de forma sustentável, onde as condições de dignidade sejam garantidas, aos jovens, ás crianças, aos velhos, a todos, onde os cuidados de saúde não sejam um acaso, o acesso á cultura não seja um luxo, o ter trabalho não seja um feliz acaso. È isso que quero é por isso que luto, é por isso que vou amanhã, que fui outras vezes manifestar-me, pelo direito à dignidade.
E tu vens?