sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Nem sei que titulo dar a isto...


A sério que sou uma espécie de pato mudo.
Nunca consigo dizer exactamente o que quero. Só consigo escrever, é uma espécie de deficiência.
Raramente consigo chorar, nem naqueles momentos de lágrimas aparentemente fáceis, não consigo, cresce-me uma dor em ondas surdas, brutais, avassaladores, que me roubam o ar, que me pesam no peito, cilindram-me tortuosamente, corroem-me essas lágrimas, junto com os gritos que também não liberto.
Uma estupidez!
São estas coisas guardadas que nos corroem!
Desde que sofri este percalço da perna partida, tem sido uma catarse, acho que tenho chorado todos os dias desde esse, no primeiro chorei na cama hospitalar deixando nervoso o meu amigo Eduardo, enfermeiro zeloso que se deslocou cá a casa para me retirar agrafos e outras coisas, foi salvo, ele e eu pela chegada de uma amiga de longos anos que me sentou na cadeira de rodas, tapou com a mantinha e perguntou se me podia levar a passear dentro do Hospital, deixaram. Assim que encontrou alguém do pessoal Hospitalar perguntou onde podíamos fumar, a senhora franziu o sobrolho, disse que não se podia, que era um hospital e etc. e tal, a minha amiga não se atrapalhou, fomos direitas a psiquiatra aonde eu tentei alertar para o facto de que de certeza iríamos encontrar pessoas conhecidas, ao que ela retorquiu “Lá estás tu!”, claro eu encontrámos, três no átrio, suponho que no dia seguinte devia de circular o boato que estávamos as duas internadas em psiquiatria e que ela me tinha partido uma perna….Ainda apelámos ao segurança, mas foi peremptório, só os doentes de psiquiatria é que podem fumar numa sala para o efeito…
Derrotadas, bebemos uma bica, ela de mala, botas, etc., eu de cadeira de rodas, uma mantinha nas pernas com a frase “Do not disturb!”, acabamos por subir no elevador e sair noutro andar que não o meu e detectar o odor inconfundível de tabaco num recanto onde uma sexagenária de camisa de dormir e carrinho de soro fumava à janela, acabámos por saber da vida da senhora que partilhou memórias da juventude e no fim acabei a rir.
Todos os dias tem sido assim, qualquer coisa meio trágica, meio cómica, mas de certeza que vou ficar com os canais lacrimais desobstruídos.

6 comentários:

Zorze disse...

Ana,

Sempre ouvi este ditado popular, e o senso comum tem uma inteligência de excelsa acuidade real inolvidável - Quanto mais choras, menos mijas!

A vida são estas coisas todas somadas e subtraídas, divididas e multiplicadas... E temos tantas.

Chora à vontade, não há mal nenhum nisso.

Beijos,
Zorze

samuel disse...

Desobstrução que só faz bem! :-)

Abreijo.

salvo disse...

Ficam-te os olhos mais bonitos depois.

Bom fim de semana.

Fernando Samuel disse...

Título?: Isto tem dias...

Um beijo.

Diogo disse...

O dique (super-ego) rompeu-se e a correnteza emocional normalizou.

Beijo

Anónimo disse...

Entre choro e riso,recordo hoje o teu rosto iluminado da noite das eleições!
és uma lutadora e quase sempre uma vencedora!
Um beijo!
Obrigada pelos textos lindos!

Lagartinha de Alhos Vedros