sexta-feira, 31 de julho de 2009

Não se seguram nas mãos


Nunca consegui acreditar em nenhum Deus, todos os que apresentaram eram coléricos e injustos, castigavam exageradamente os seus filhos, como por exemplo dar a condenação eterna a Eva por comer uma maçã, deixar um filho morrer na cruz porque sim, certamente que noutro contexto seriam acusados judicialmente de maus tratos físicos e psicológicos, outros ainda, que também se dizem de paz e amor propagam que tudo o que nos acontece é uma espécie de culpa nossa, chamam-lhe karma, dizer a uma criança que morre de fome, a uma mãe que vê um filho morrer de uma doença curável se tiver meios, que é o karma, apetece….bom é melhor não escrever.
Mas no entanto acredito que existem outras coisas, coisas não concretas, que não se podem segurar na mão como uma pedra, ou um sapato, ou livro, outras coisas, coisas como a inspiração, como conseguir transformar a Primavera numa musica, a Guerra num quadro, o amor numa pintura, quando olho para as estrelas gosto de pensar que são mais que um aglomerado de gás, que estão ali por algo mais do que a força da gravidade, sei que ensinam caminhos, acho que inspiram sentimentos e os sentimentos são coisas que não se seguram numa mão, seguram-se cá dentro.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

De Ratos e Homens



Off Mice and Man (De Ratos e Homens), é o título de um livro de John Steinbeck cuja acção é passada na Grande Depressão, infelizmente é uma leitura que está na ordemn do dia..
O Livro fala de muita coisa, fome, desemprego, preconceitos, falta de cultura, racismo, da frustração, também trata de outros paralelismos, daquilo que em ultima instancia separa os ratos dos homens, ou o que devia de separar.
Os ratos são capazes de tudo para sobreviver, tudo mesmo, de comer o seu semelhante, são oportunistas, cobardes e atacam os mais fracos.
Os homens deviam de ser diferentes, muito diferentes, não estamos numa época muito diferente da onde decorre o livro, nunca o ser humano foi tão menosprezado, para além das coisas que nos chegam, barbaras, de comunidades ditas do Terceiro Mundo, a verdade é que neste Mundo Ocidental a desumanidade impera, do desemprego crescente, acompanhado de todos os sentimentos negativos, das reformas insuficientes, das regalias cortadas, das listas de espera, das pessoas vistas como pouco mais que números, do horizonte que se avizinha muito negro e vazio.
Por outro lado nunca os ratos estiveram tão em alta, principalmente a variedade de ratazana, inventam-se mil esquemas para ganhar com a desgraça, aproveita-se a onda para se deixar de pagar, em todos os grandes negócios existe um rasto desta espécie, um rasto que é varrido para debaixo do grande tapete dos arquivados, dos processos que acabam abruptamente por ter terminado o prazo, das testemunhas que dão o dito por não dito, ou que vivem agora no estrangeiro, ou que outra coisa qualquer
Os ratos assumem aparência humana, mas é só aparência, continuam a carregar a peste.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Mais uma das histórias que me contaram


No Barreiro o Movimento Associativo é fértil. As Colectividades foram, sem dúvida nenhuma, locais de desenvolvimento a nível cultural, recreativo, desportivo e não só.
Durante a Ditadura serviam ainda para as pessoas se juntarem, aprenderem a ler, até discutirem coisas subversivas.
Das tradições teatrais, passando pelas Marchas Populares aos Bailes fervilhavam de gente, de pessoas que nalguns casos descobriram veias artísticas, de outros que ficaram apenas como histórias.
Das histórias que ficaram é importante não esquecer a figura de Luís Barriguinha, barbeiro de profissão, exímio dançarino de tango, com uma particularidade física, era marreco, nas costas e no peito e coxeava devido a essa deformação.
Ficou registado ainda que quando resolvia sair à noite para uma cartada, dois dedos de conversa e um café, só em mangas de camisa, a esposa preocupada com o frio vinha à janela e gritava “Ò Luís não vás para a rua em corpinho bem feito!”.
Era gargalhada geral.
As suas discussões conjugais eram fantásticas e envolviam toda a rua, separou-se várias vezes, sendo que a primeira “á séria” conferenciou aos amigos da Sociedade de Instrução e Recreio Barreirense “Os Penicheiros”, que só não tratava do divórcio por falta de meios financeiros, De pronto se organizou uma colecta e a quantia necessária foi reunida.
De posse da quantia o Sr. Luís Barriguinha fez as pazes com a esposa, comprou uma mobília de quarto nova e foi a Sevilha….
Meses depois voltou a tormenta entrou nos Penicheiros e deu conta que só a falta de meios financeiros o impedia de se divorciar. Conseguem imaginar as respostas?

terça-feira, 28 de julho de 2009

Por vezes baralho-me...



Por vezes baralho-me, muito até, a minha secretária parece que foi varrida por um furacão, na minha mala acumulam-se destroços vários, papeis, paus de canela, moedas pretas, clips, pacotes de açúcar….
Ultimamente a organização parece cansar-me, vou empilhando os papéis resolvendo os emergentes, não olho para a agenda, coloco lembretes no telemóvel que apita nas alturas mais inusitadas, a reserva de paciência está como as albufeiras em época estio, na reserva.
As pessoas tendem a pedir-me coisas estúpidas, eu tendo a pedir-me a mim própria coisas pouco inteligentes, sinto-me como um homem dos 7 instrumentos que faz mais barulho que música numa cacofonia estafada, desenrasco, vou desenrascando, o jantar, a reunião, as actividades, a roupa, quando estaciono no meu sofá sou acometida por um sono instantâneo, quando transito para a cama nem por isso, sonho, coisas parvas, rios em vez de estradas, construções cambaleantes, casas desconhecidas cheias de gente que não vejo há muitos anos, resolução de coisas semi pendentes, a vaga sensação que estou atrasada que deixei qualquer coisa importante para trás, durante os pequenos períodos de sono, grito, salto, agito-me, discurso, para infelicidade de quem partilha o leito conjugal…
Ando cansada, baralhada, falta um bocado para as férias, esta semana termino a saga anual com os meus meninos, este ano foi mais cansativo, vou começar um tratamento novo na esperança que algumas partes de mim recomecem a funcionar devidamente, já sei que vou ficar almareada uns dias, provavelmente com menos paciência ainda, o grande escape parece ser escrever estas baboseiras, riscar mentalmente os dias que faltam para tirar o relógio e deixar de passar cartuxo ao gritar do telemóvel, não interessa, já faltou mais, os malmequeres estão abertos, os pássaros nascidos na Primavera já começam a voar…

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Sem bussola




Todos os dias ponho em dúvida a minha sanidade mental!
Entre as coisas que não fazem sentido questiono se sou eu que estou insana e que perdi definitivamente o trambelho.
Saio de uma rua e a atravancar a rua está um carro parado numa Avenida muito movimentada, de todos os sítios improváveis o jovem condutor escolheu bloquear o acesso, o pendura sai com calma e vagar, eu até não tenho pressa, acho caricato mas não tenho pressa, ele recua enquanto o pendura tira vagarosamente qualquer coisa do porta bagagem, faço sinal que não é preciso, o pendura investe como um touro “O que foi? Algum problema?”, respondo que não era preciso recuar, não tenho pressa, ele faz um ar desiludido, devia ter arquitectado meia dúzia de insultos para mim e eu desiludi o moço…
Não faz mal, o dia carrega mais surpresas, pedem a colocação de alguém para cumprir serviço comunitário, digo sim, são pouco mais que vinte horas, faço as contas, três dias a pintar floreiras e está despachado. Engano meu, a criatura dispõe-se só a trabalhar quatro horas por dia, em tranches de duas, pergunta pela farda, avisa que não faz esforços e que é provável que a pintura fique com bonecos, porque não é profissional…
No meio disto tudo o telemóvel grita, ontem coloquei o dito cujo ligado ao carregador, não liguei foi o carregador à tomada… telefonam do mesmo local com informações contraditórias, opostas mesmo….
Dói-me a cabeça e mais umas partes de mim, espero ainda duas visitas, de coisas que nem sequer me dão muito jeito, penso neste absurdo que é estar sempre disponível de procurar sempre ajudar e de me sentir assim muitas vezes, perdida no mato sem bússola….

domingo, 26 de julho de 2009

O Pintor que pintou Ana…



Pintou sua mana, também.
Este “adágio” era declamado pela Tia Ermelinda sempre que me via, eu não tinha mana naquela altura e gostava de ouvir aquilo, nem sei bem porquê. A Tia Ermelinda era a única que tinha paciência para me dar a canja às colheradas, canja muito disfarçada com muito sumo de limão e hortelã, porque na minha família existe esta tara que a canja de galinha é remédio para quase tudo, sendo eu niquenta e enfermiça, lá mamava com a canja, dizia-me ainda outras coisas “Come minha linda que ainda ganhas uma pombinha em ouro!”
Está-se mesmo a ver que nunca ganhei a tal pombinha, mas ganhei o afecto dessa mulher, que morreu muito jovem, talvez com a idade que tenho hoje, alta em comparação com as demais, com uns grandes olhos que oscilavam entre o azul e o verde, um marido pacato e calmo, que até ao fim da vida se manteve perto de nós com o estatuto de tio, apesar de na realidade não o ser, que ainda acompanhou emocionado o nascimento dos meus filhos, tinha como maior alegria no Natal distribuir-nos as prendas, pagas por ele, escolhidas por cada um de nós, ele não sabia pensava que era a minha tia que as comprava, nós abríamos com um ar de espanto e dizíamos “Oh Tio Luís como é que adivinhou que é este perfume que gosto?”, ele retribuía um sorriso malandro, enquanto desembrulhava felicíssimo as nossas prendas, cachecóis, lenços de pescoço, peúgas, que ele nunca estreava.
Fiquei a saber mais tarde que a Tia Ermelinda protagonizou um escândalo nos anos 50, ao pedir o divórcio alegando a impotência sexual do primeiro marido. Foi um escândalo, numa Vila como o Barreiro, em pleno fascismo, que uma senhora de “posição” pedisse o divórcio, ainda por cima alegando questões sexuais.
A Tia Ermelinda sujeitou-se a tudo, até a um exame médico que confirmou a sua virgindade, até conseguir a anulação do casamento, mais tarde, casou com este homem pacato de gostos simples, que lhe chegava ao ombro, para desagrado da família, que considerava tudo isto vergonhoso.
Acho que foram felizes, pelo menos até ela morrer com um aneurisma, tinha eu uns oito anos, no máximo, ele continuou perto de nós, manteve a casa intacta, tão intacta que já eu tinha uns vinte anos quando o convenci a retirar as mercearias da dispensa….
Estupidamente não tenho nenhuma foto dela, tenho um bule, porque como faço colecção foi me dado o do seu serviço, mas tenho ainda a voz dela na minha cabeça “O Pintor que pintou Ana pintou sua mana também…”.
Espero ter pintado bem o retrato dela.

sábado, 25 de julho de 2009

As primeiras tentativas ou carapaus engessados!



Hoje sou uma boa cozinheira, quando estou de maré, descontrai-me produzir refeições, petiscos, bolos, continuo a achar a culinária uma espécie de alquimia, na qual doseamos o doce, o salgado, o acido, o picante, pintamos com especiarias e vegetais, esculpimos coisas aparentemente simples, como a farinha, para criar coisas fabulosas, como um chiffon de chocolate.
O importante na culinária é faze-la com amor, mas isso é quase tudo na vida, qualquer coisa temperada com amor sai muito melhor.
Aprendi a cozinhar só a ver, basicamente a minha avó, que me incentivava a experimentar a minha mãe, tias e primas, regra geral tudo boas cozinheiras e as memórias são aquecidas pelo aconchego das cozinhas, o cheiro a canela ou vinagre, os rituais da cozinha.
Torna-se difícil por vezes explicar como faço certas coisas, porque o medidor que uso mais é olhometro, ou seja sei, porque sei, por intuição, experiência, que já chega de coentros ou que tenho que juntar mais noz moscada…
Mas nem sempre foi assim, deveria ter uns 12 anos quando em casa de uma amiga recebemos a chamada telefónica da mãe, estava atrasada, como tal deu ordens para que procedêssemos à fritura de carapaus, não na variante jaquinzinhos, mas na outra média.
As instruções eram simples debaixo do fogão estava a farinha, era coloca-la num prato, passar os carapaus, sacudi-los e fritar em óleo.
Não vale a pena falar nas normas de segurança, nem vale a pena pensar que hoje ninguém manda gaiatas fritar peixe.
Assim foi, acontece, que o pacote da farinha era daqueles de papel pardo, comprados na mercearia, farinha avulso, começámos a preparação, a farinha era alva, mas os carapaus em contacto com o óleo ficavam com um ar estranho…Eu alertava “Isto não está bem!” “Oh Ana, quando arrefecer ficam melhor!”
Até que chegou a Dª Eduarda e constatou que aquilo não estava bem, em vez de farinha tínhamos passado os carapaus por gesso, vendido avulso em pacotes….
Uma receita que nunca mais repeti “Carapaus engessados”

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Vou já!

Levantar, acordar pode ser daqui por um pedacinho, consigo tomar duche em piloto automático, champô de cenoura, sabonete de cedro, a agua a correr das costas aos pés passando pelas coxas….
Um copo de sumo, um pão com fiambre, seis comprimidos alinhados, pareço as velhotas do Inatel, quando a minha avó me levava a Entre os Rios ou Vila Nova da Cerveira, as velhotas colocavam assim os comprimidos para tomar ao pequeno almoço, vestir, convêm que os chinelos façam par, secar o cabelo, não muito, não vale a pena, pegar no carro, já ouvi as noticias, seis pessoas que ficaram cegas com um tratamento ocular feito com um medicamento que afinal não era bem para aquele fim, provavelmente estiveram meses de espera, encheram-se de esperanças de ver melhor, acabaram, para já num poço de escuridão, uma operação do FBI que desmantelou uma rede que procedia á lavagem de dinheiro e ao tráfico órgãos humanos, nesse rede estavam rabis e legisladores republicanos, mais um ex ministro que é indiciado, mas que não sabia de nada, um primeiro ministro presumido, presunção e agua benta cada qual toma a que quer, neste caso não, porque eu também patrocino a agua benta…
Amanhã é sábado, este sábado até posso dormir mais um bocadinho, um bocadinho só, hoje ainda tenho umas coisitas para resolver, uns apoios a prestar, deixo as compras para amanhã: frutas, pois claro, massas, fiambre, pão ralado, o carro está imundo, hoje ainda tenho que ligar ao Hospital, ao Médico, saber como é, na minha frente, inesperadamente, esteve uma adolescente lavada em lágrimas com as suas dúvidas existenciais, tem uns olhos grandes e lindos, falei da forma que sei, com o coração nas mãos, disse-lhe que os pais também estariam assustados com o seu crescimento, ofereci-lhe colo.
Vou tentar levar os meus meninos à mata para correrem e sujarem-se, a mais um dia de praia, estafante sem dúvida, depois despeço-me deles, adeus até para o ano…alguns já não voltam, outros sim, alguns vou cruzar-me com eles todo o ano, vão abraçar-se a mim e gritar pelo o meu nome na rua.
Ainda falta um tempinho para as férias, um bocadinho…ao longe o mar chama-me e eu digo “Vou já!”

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Os de lá…

A classe média dos Estados Unidos da América foi lançada para uma pobreza abrupta, de repente milhares de técnicos, comerciais, com vidas estabelecidas, casas, carros, filhos, férias, viram o sonho americano tornar-se no pesadelo americano.
O maior negócio em expansão nos Estados Unidos neste momento são as firmas que removem recheios de casas, porque de um momento para o outro milhares de famílias vêm as suas casas retomadas pela banca, não conseguem pagar as hipotecas, assim saem, alguns com o carro onde passam a viver, carregado ao máximo com aquilo que lhes parece indispensável, outros nem o carro, passam a viver em tendas em acampamentos clandestinos.

Acampamentos sem balneários, sem o mínimo de condições, isto num país que continua a não ter uma rede de segurança social ou saúde, que gasta biliões em armamento, que mantém ainda intervenções militares em solo estrangeiro.
Para trás ficam subúrbios desertos, como as velhas Cidades Fantasmas do Oeste.
Só na Cidade de Sacramento, Califórnia, existem dez mil crianças sem abrigo a frequentar as escolas, o desemprego é estimado em quase 16% da população activa, qualquer coisa como cerca de 24 milhões de pessoas.
Questionados os novos pobres sobre o que lhes faz mais falta regra geral respondem que é a casa de banho, tomar um banho, lavar os dentes, é um luxo que não possuem, alguns continuam sócios de ginásios para o puderem fazer.
Para trás ficam casas, com electrodomésticos, mobiliário, louças, roupas, brinquedos e até fotos de família.
Para o negócio em expansão dos Estados Unidos, o objectivo é “limpar” 15 habitações por dia, muitos dos que lá trabalham choram a limpar as casas, são iguais às que deixaram…
A fonte deste artigo é a BBC e a CNN, em reportagens especiais. As imagens, uma é das que simbolizou a Grande Depressão no princípio do Século XX, a outra dos tais acampamentos.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Nunca deixes nada para depois….


O clássico guardar para depois, o meio da torrada, o pedaço mais saboroso, a cereja no bolo, pode ser mau, a torrada pode já estar fria com a consistência da borracha, o último pedaço pode ser o insuportavelmente salgado, a cereja estar estragada…
Depois ficamos com o sabor amargo das oportunidades perdidas, do “será que?”, “talvez?!”
A vida deve ser VIVIDA.
Cheirar, tocar, gritar, cantar, amar, provar….
Não quero morrer com a amargura da cereja estragada…

E os de cá….


S tem 27 anos e um curso de arquitectura, viveu com o namorado durante dois anos, teve de voltar para casa de mãe, o emprego a recibos verdes terminou, sem direito a subsidio de desemprego e a segurança social, equaciona a hipótese de partir, para um país nórdico onde um famíliar lhe poderá arranjar emprego não relacionado com a sua área.
M anda pelas mesmas idades, tem uma licenciatura, ainda vive com o companheiro, almoça em casa da mãe e leva o comer feito para casa, o salário permite pagar casa, agua e luz, nada mais…
A trabalha num escritório de uma firma de construção civil, a sorte deu-lhe dois gémeos e um companheiro com uma patologia, esquizofrenia, que se revelou depois da firma onde trabalhava fechar. O salário de A é gasto nos transportes, nas despesas obrigatórias, pouco mais, a pensão de invalidez atribuída ao companheiro com menos de 40 anos de idade permite-lhe uma insuficiência alimentar que é camuflada com algum apoio traduzido em panelas de sopa confeccionadas pela sogra, ela também pensionista com uma pensão insuficiente. A não se enquadra em nenhum esquema de apoio social, trabalha, o rendimento do agregado ultrapassa a referência do Salário Mínimo Nacional. A tem vergonha, tem um ar triste e cansado, pensou vender a casa, o que não resolve nada porque não tem para onde ir, não arranja casa a pagar menos do que a prestação mensal, de qualquer das formas as casas também não se vendem.
I trabalhou toda a vida, ficou no desemprego aos cinquenta e cinco anos, reformou-se, a reforma não é suficiente para as suas necessidades, vive numa casa emprestada, trabalha na casa de uns amigos de manhã, onde trata do trivial e de um idoso, na recepção de uma associação de tarde, onde passa recibos verdes.
L é mãe solteira, trabalha e tem uma filha, sobrevive com algum apoio da família, confessa-me que há anos que não vai ao dentista, que tem férias ou que compra uma peça de roupa para si, leva uma lancheira para o trabalho em Lisboa, uma semana depois de receber faz contas de sumir, empresto-lhe livros, pago-lhe uma bica, penso que isto não é justo!
E o futuro escorre destas mãos sem saberem muito bem como e por muito que olhem para a frente carregam a vergonha de se sentirem fracassados, de não perceberem onde é que se enganaram.

Estas pessoas são reais e fazem parte do meu círculo de conhecidos.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Sinceramente, não sei!



Hesito muito sobre o que escrever.
Posso escrever sobre a última pérola do cacique madeirense a expressar boçalmente os sonhos de muitos, na declaração de inconstitucionalidade da Asae, a quem eu dou o petit nom de Pide dos prazeres, que de uma assentada acabou com as amêndoas de Portalegre, tentou a acabar com a ginjinha, nem sei porque nunca embirraram com as bifanas das tascas das Portas de Santo Antão obrigando-os a limpar as frigideiras míticas que guardam décadas de sabor das bifanas….
Poderia falar da inclusão de Helena Roseta, aquela senhora que foi do PSD, depois do PS, que ainda em 2007 concorreu como independente à Câmara Municipal contra António Costa do PS e José Sá Fernandes do Bloco e agora parece que vão concorrer todos juntinhos a bem da coerência.
Até posso falar sobre o facto de Portugal ser considerado um dos países mais corruptos da Europa, ou sobre o aumento do desemprego, sobre o menino queimado que esperou cinco horas por um helicóptero do INEM….
Mas hesito, são temas importantes, sem dúvida, mas há mais, posso falar sobre a situação nas Honduras, do sossego da Comunidade Internacional face ao assunto, sobre a pandemia da Gripe A, falar do Obama que todos os dias recua naquilo que insuflou de esperança nos incautos, confesso que a mim não me desilude porque não esperava muito dele, sobre o crescente recurso de famílias, que até trabalham mas que sofrem cada vez mais com as agruras da vida e recorrem ás distribuições do Banco Alimentar Contra a Fome, isto a juntar aos reformados e desempregados que já o fazem, se bem que quem trabalha nestas coisas como eu tem cada dia mais dificuldade em dividir o insuficiente, precisava do milagre da multiplicação, mas como não sou crente… sobre as diversas questões do ensino, sobre a morte induzida de todos os serviços públicos, sobre o facto de candidatos a legislativas e a Governantes terem já anunciado que os trabalhadores têm de se compenetrar que temos de fazer sacrifícios, pois….até estamos habituados, somos é cada vez menos, trabalhadores quero eu dizer.
Também posso falar da enxurrada de promessas, pelo menos uma por dia que o Primeiro Ministro faz, bem como da actuação de má memória em perseguir nomeadamente blogues que o atacam, através de pressões várias, utilizando o aparelho de estado, que num caso pelo menos culminam com a não renovação de um contrato a um docente da Universidade do Minho porque se recusou a acabar com o blogue onde critica de forma humorística a governação.
Sobre a época dos fogos incontroláveis para os quais não temos meios de combate suficientes que são combatidos por Bombeiros Voluntários, sem apoios e sem equipamentos, os mesmos que intervém nas cheias, porque neste jardim à beira mar plantado a falta de estruturas é atroz, chove dois dias há inundações, não chove dois dias há seca, numa perpetuação do insuficiente.
Também sobre os sindicalistas, membros do Partido que se reivindica mais à esquerda do que a esquerda mas que depois distraem-se e vão revelando em jantares com ministros a sua face, também posso falar do ministro de estado que faz um gesto estranho em exercício de funções no meio do parlamento.
É um grande dilema, peço desculpa mas não sei sobre o que escrever!
(Publicado em simultaneo no Blogue Colectivo Cheira-me a Revolução)

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Segundas-feiras bacalhau, é dia de pouco peixe.


Era um homem calmo, naquela idade indefinida de homem crescido.
As suas roupas eram sempre iguais, do cinzento ao azul, um pouco mais claras de verão.
Todos os dias seguia para o emprego, onde se gastavam as horas entre facturas e balancetes, todos os dias almoçava no mesmo restaurante familiar, peixe cozido. Segundas-feiras bacalhau, é dia de pouco peixe.
Ao final do dia rumava a casa, o mesmo autocarro, o barco, as mesmas caras, o resto da leitura do jornal da manhã, chegava a casa descalçava-se, arrumava os sapatos, a casa imaculada, graças à Dª Odete, as caixinhas plásticas no frigorifico, as azuis com tampa branca com uma sopa, as brancas com tampa azul com outra, ao sábado pegava na lista da D. Odete, detergente para o chão, nabiças, cenouras, duas meloas (dão para 4 vezes), duzentas gramas de fiambre de peru e de queijo magro, 8 iogurtes, meio quilo de biscoitos, ao pedir o meio quilo de biscoitos corava.
Sábado ao almoço, cozido de inverno, caldeirada de verão, no restaurante do senhor Augusto, ao domingo um bitoque, uma aguardente no fim…
As semanas iguais, sempre iguais, o telejornal, o concurso onde sabia todas as respostas que os concorrentes erram, só a única falha eram os livros de poesia.
Os livros poesia que teimosamente o chamavam todas as noites, que glorificavam o amor que nunca conheceu, uma vez sim, a Sãozinha, filha da costureira, deitou-lhe uns olhares meigos da janela, e um sorriso resplandecente apesar dos óculos grossos e de um olho um pouco torto, depois casou, viu-a sair de casa com um vestido de merengue e flores na cabeça, o olho mais torto porque não levava óculos…
E senta-se assim todas as noites, a ler quase em segredo aqueles versos de amores arrebatados de corpos desnudados de prazeres inquietos enquanto rói um biscoito, na penumbra só cortada pelo candeeiro de leitura, como se fizesse algo vergonhoso e pensava que até a Dª Odete com a sua bata de florinhas e o seu cheiro de sabão poderia ser alvo daqueles arroubos, se ele tivesse a ousadia.

domingo, 19 de julho de 2009

Ainda...


Tínhamos quê? Qualquer coisa entre 18 e 25 anos de idade.
Folhas em branco, víamos coisas que por vezes os outros não viam, procurávamos sentido diferente em coisas com o limite demarcado, pertencíamos, multiplicávamo-nos em dádiva de nós próprios e no egoísmo de querer absorver o mundo.
Não vagámos os sonhos, amigo.
Os sonhos foram são crescendo connosco, adaptando-se ás múltiplas situações, aos contratempos, ás contingências, à vida.
Hoje sonho tanto como nessa altura ou talvez mais, estou sempre numa efervescência de querer conquistar e entregar-me em simultâneo, também sou mais prática, só, mais eficiente, escolho sempre um sonho possível, desunho-me para o concretizar, quando consigo é quase como me dar à luz a mim própria.
Dói e é doce!
Por vezes dá-me vontade de rir olhar para trás e ver o que consegui erguer assim quase só da minha vontade, é um riso feliz.
Guardei muito dessa menina, só que cresci, continuo a espantar-me com o voo dos pássaros, a pasmar-me com os afectos, a cultivar carinhos, laços, nós, a aprender sempre e acalmar-me com o mar, continuo a sentir-me segura num local qualquer desde que rodeada de amigos.
Agora tenho eu de fazer com que outros se sintam seguros, por vezes finjo muito bem que sim, que estou segura, mas no fundo estou sempre em busca.

sábado, 18 de julho de 2009

Porque me faz falta!

Nada tem sido fácil, nestes últimos tempos, a minha vida tende a ser um barco em tempestade que procuro em vão manobrar ou eu a tentar chegar a uma praia depois de muito nadar, quando estou quase a tocar na areia aparece uma onda mais forte que me afasta outra vez da costa, assim procuro equilíbrio noutras coisas.
Uma das coisas será sem dúvida tentar criar algo, de bolos a cachecóis, de junções de palavras a outra coisa qualquer, o processo criativo acalma-me.
Portanto criei mais este vídeo com palavras de um dos meus poetas favoritos, o grande Luís Vaz, com uma música que gosto e que se chama poema, que é simples, como as coisas importantes o são.
Fi-lo porque me faz falta!

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Segunda-feira há mais!


Despedi-me dos meus meninos.
Segunda feira chegam outros, uns novos em folha, outros já conhecidos.
Tenho meninos inteiros com pai e mãe, mesmo que separados não se separaram dos filhos nem os utilizaram como arma de arremesso, com casas, com sapatos, as refeições todas, histórias à noite, alguém que os aconchegue.
Depois no meio tenho os outros, a Marta que já escrevi, o Ricardo que tem pai e mãe e as outras coisas boas, mas uma mente de quatro anos num corpo de dez, que os pais teimam em negar que assim seja, o Nuno que tem um brinco como o Ronaldo fala de sexo de uma forma desbragada, desagradavelmente surpreendente para um franzino de oito anos, fala em armas, mente, recusa-se a partilhar, o Rui que tem uma mãe em fase terminal, um pai que nunca vi mas que sei que existe e umas nódoas negras nas costas que ele diz que fez por bater de encontro a uma parede…
O Rui fala muito de namoros e paixões, como a Tânia, que é filha de um amor ocasional de uma mãe que a considera um empecilho, pelo que ela fica entregue a carinhos de avós e tios. Falam de amor como os pobres falam de dinheiro, é o que lhes falta.
A Rita quer que a veja a correr, a chapinhar, talvez porque a mãe a tenha abandonado a ela e a um irmão que ficaram cada qual com a sua avó, o pai está lá em casa também e agredi a avó sempre que necessita do seu quinhão de heroína, com a Rita não se importa…
Existem mais dois ou três entregues a avós, com pais e mães semi ausentes que os usam como argumentos e moeda de troca, empurrados entre fins-de-semana, ordens judiciais e outras coisas.
Os meus meninos abraçam-me, eu ralho, repreendo, ensino coisas, como o facto de leite sair de um animal, que aquilo que está plantado não é arroz mas uvas e porque é que os girassóis se chamam assim, chamo a atenção, mas abraço-os….
Segunda-feira há mais!

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Encontros


Nada a fazer para além de todas as convenções, razões, pensamentos racionais, era irresistível e desgastante a atracção mutua, as vezes que se espreitavam pelo canto do olho, a alegria quando sentiam com a aproximação, a inquietude com a ausência, o olhar só e só com o olhar perceber logo a alegria, a tristeza, o aborrecimento, a apreensão, trabalhar em equipa como um mecanismo, importante também.
Já tinham passado a fase dos primeiros dos segundos e até demais amores, quando se via reflectido nas montras ele achava-se disforme, com mais testa que cabelo, um ventre saliente e dizia que não, não era possível aquela aflição.
Ela tentava alindar-se mais frente ao espelho media, os seios a começarem a ficar murchos, as cicatrizes, as rugas, escolhia a roupa que lhe pudesse ocultar as cordas das varizes a riscar a curva da perna, contabilizava a prata que invadia a cabeleira como uma praga e dizia que não, não era possível aquela aflição.
Um dia sem saber como arriscaram, jantar, um café com passeio à beira mar, uma mão agarrada, um suspiro, um beijo.
Ele perguntou: Tens medo?
Ela ripostou: Não, estou é com pena de ti…

quarta-feira, 15 de julho de 2009

DOIS ANOS

Por um destes dias este blogue fez dois anos, passou-me ao lado, foi inaugurado com um texto sobre o Simplex…
Já expliquei mas posso repetir que não fui eu que criei este espaço, escrevi três textos noutro contexto, quem os recebeu gostou e apesar de não terem o seguimento que se esperava gostou deles o suficiente para criar este espaço, dar-lhe um perfil, e entregar-me o menino no colo.
Também me conhece o suficiente para criar o perfil, o título, algumas características mais…
Quando fiquei com este menino ao colo, não sabia muito bem o que lhe fazer, esta realidade blogosesférica era estranha, mas como escreveu Pessoa “Primeiro estranha-se depois entranha-se!”
Este espaço acabou por ser um escape, um sítio onde falo comigo própria e estranhamente com muitos mais, acabei por fazer amigos, uns de carne e osso, outros virtuais, reencontrar amigos, descobrir afinidades, diferenças, cumplicidades.
Falo da minha vida, dos que me precederam, das coisas que me inquietam, que me alegram, espanto-me sempre com o interesse dos outros.
Fez dois anos, agora por estes dias, acho que irei continuar.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Solenemente


Existem assim coisas que me irritam e me cansam solenemente.
Solenemente é uma palavra que lembra chatices, silêncios impostos, discursos chatos, roupas desconfortáveis e sapatos apertados. Acho que não existe nada pior que uma coisa solene.
São assim coisas pequenas, os meus meninos sem amor, o alcatrão quente, as pessoas estúpidas, os boatos, as noticias do Cristiano Ronaldo até exaustão, quero lá saber se deu ou não uma queca com a Paris Hilton, se deu bom proveito, a roupa que tenho que estender logo de manhã, os pombos, a impotência para sozinha resolver os males do mundo, um mosquito que me picou no pulso, os telemóveis completamente histéricos, as contas à vida e morte, as saudades do mar e que me digam que vai tudo correr bem, o livro que me apetecia continuar a ler num descanso sem apitos, a estrada pejada de condutores que não foram aquelas aulas de código em que se falou dos piscas, ou dos stops, de peões que escolhem o espaço a dez metros da passadeira para atravessar ou esperam pacientemente que o sinal fique verde para os carros e vermelho para os peões.
São também as tarefas que não me apetece cumprir, as discussões que não me apetece arbitrar, os conflitos que não me apetece mediar, sempre nesta onda de pomba da paz, logo eu que nem gosto muito de pombos, nem vivos nem mortos, mesmo com muito alho, gosto de rolas com aquele cantar da infância, o rádio do carro que deixa de funcionar e fica mudo, a fruteira absurdamente teimosa que se vaza, acho que de noite aquele cesto de ar rústico come o seu conteúdo só para me irritar, irrita-me também a fruta sem cheiro, as pastilhas elásticas atiradas para o chão, o pessoal que nunca pensou nas vantagens de usar desodorizante, os chicos espertos, as chamadas anónimas, os contentores queimados, os jornais com restos de peixe ao sol para os gatos vadios, este meu feitio estúpido que me faz no fundo pensar sempre que não sou capaz ou que o terramoto nos confins da Patagónia, o dilúvio na China, o furacão nas Caraíbas podem acontecer por algo que eu fiz, ou não fiz, talvez por não ter reciclado tudo ou por uma vez ter poluído o rio com uma beata, as pedritas que entram nos sapatos, também me irritam, solenemente.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Pinheiro Manso teimoso



A família costuma ser representada por uma árvore, por acaso acho que é uma boa metáfora, cada ramo cresce á sua medida, para cima ou para baixo, frutifica mais ou menos, conforme, por cada ramo que cresce igualmente cresce a raiz tocando no fundo das coisas, sedimentando todos os raios de sol e gotas de chuva que os ramos apanham, guardando apenas o essencial.
A minha árvore familiar é grande, embora tenha ramos fortes e fracos, tentamos dar força uns aos outros, de mim, do ramo que sou crescem dois já, únicos e do seu formato especifico.
Acho que somos um pinheiro manso, uma árvore que gosto, tenaz, forte, simples, com frutos escondidos, protegidos por uma casca dura, mas preciosos.
A minha família é teimosa como um pinheiro manso, que dizer da minha avó que teimosamente fintou uma vida de insuficiências e misérias com canções e com uma alegria à prova de choque, do meu avô que se viu vencido por uma doença e aceitou todos os reveses da vida com uma aparente resignação, mas que para além de uma cultura enorme, de uma rectidão forte, escreveu as cartas de amor mais apaixonadas que alguma vez li, dos tios andarilhos, dos antepassados Anarcas, das tias aparentemente convencionais que tiveram arroubos de amor fogosos, dos boémios que povoam a família, de alguns místicos religiosos, desta mistura genética que junta ingleses, cristãos novos, gente do mar, uma índia amazónica e provavelmente rastos de berberes.
Alguns ramos estão em queda eminente, normal, se bem que doloroso, irá ficar uma resina persistente no sítio onde estão, irão nascer outros únicos com alguns restos de características dos que desapareceram.
Sou dos ramos mais recentes, durante muito tempo existiram ramos que me abrigaram, hoje faço parte do conjunto de ramos que protegem os mais novos e nutrem os mais velhos.
Gosto desta sombra de pinheiro manso teimoso
.

domingo, 12 de julho de 2009

Mitos e factos sobre a minha opção politica!


Sou militante do Partido Comunista Português, fiz essa escolha em adulta, consciente e sem pressões.
Sou filha de um militante, é certo, se me influenciou? É normal, o meu pai foi um exemplo de trabalho, honestidade e luta por justiça social, um bom exemplo.
Tenho outros exemplos de honestidade e trabalho na família, que nem por isso foram ou são comunistas. Outros sim.
Militei em organizações juvenis politicas, comunistas, afastei-me, por motivos vários.
Na minha família próxima distingo com o mesmo carinho pessoas de quase todos os quadrantes políticos, ou mesmo os que nem sequer se sentem enquadrados politicamente.
Nunca a opção politica foi móbil para gostar ou desgostar de alguém.
Gosto de saber, aprender, questionar.
Não tolero é outras coisas, os extremismos, os rótulos, as ideias pré feitas, os mitos, o achincalho, a calúnia. Aliás estou farta disso.
Não me implantaram a cassete, ninguém me obriga a nenhum culto, ouço a musica que me apetece, vejo os filmes que gosto, não gosto de facto de caviar mas gosto de Dom Perignon, não fazemos rituais satânicos, não temos injecções para matar os velhinhos, não comemos criancinhas, não somos obrigados a pensar da mesma maneira nem nos fazem lavagem ao cérebro, não tenho de dar conta da minha vida em pormenor ao Partido. Aliás por muito que se espantem existem comunistas de diversos tipos: refilões, exaltados, católicos, novos (sim, jovens!), idosos, homossexuais, escritores, professores (mas nem todos os professores que protestam são comunistas), operários, empresários, pintores (artísticos e da construção civil!), músicos, actores, etc. Une-nos o ideal de construir uma sociedade melhor, mais justa, mais igualitária.
Em pequenita ouvi muitas vezes um amigo de família, já morreu e por acaso era o homem mais reaccionário que alguma vez conheci, dizer que o meu pai era o único comunista decente que conhecia ou que era uma excelente pessoa, pena ser comunista.
Há uns anos disse-me o mesmo: O seu pai se fosse vivo tinha muito orgulho em si, a Ana é espectacular, pena é ter o mesmo defeito do seu pai, ser comunista…
Disse-lhe que não encarava tal coisa como um elogio, mas sim como um insulto, porque se sou como sou também é por ser comunista!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Ena, ena. Sexta Feira! Finalmente!!!!!!!


Ora bem hoje é sexta-feira, finalmente, é uma sexta-feira de verdade.
Trocando em miúdos quer dizer que não tenho reuniões ou compromissos este fim de semana, quer dizer que os que existiam fora simplesmente apagados, ignorados, negados, quer dizer que chegando ao fim do dia raspo-me, vou-me embora vou passar os próximos dias a nadar, a apanhar banhos de sol, a ler, comer peixe fresco, de chinelo e calção, talvez uns mariscos, sentar-me na varanda junto ao mar a beber um copo, numa conversa longa, estes são os planos da pólvora!

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Vai Marta!


A Marta é uma menina linda! Cabelo castanho claro, olhos de mel, educada, tem oito anos, assim um ar frágil de caniço, usa roupas da Ana Montana, ganchos com flores e mochilas da Barbie.
A Marta de vez em quando fica murcha, triste, sem razão aparente.
Tive de lhe perguntar o que se passa, a Marta disse-me que tinha saudades do pai.
Perguntei se estava longe, respondeu-me que sim, que vive com outra mulher, que se está a divorciar da mãe.
Há quanto tempo não o vês Marta?
Não sei, não me lembro dele, só o vi em bebé…
Rasgou-se qualquer coisa dentro de mim, disse-lhe que qualquer dia iria passar uns dias com o pai, respondeu-me que não, nem a mãe deixa, nem o pai quer.
Disse-me ainda: Gostava que ele um dia me telefonasse, achas que me telefona, Ana?!
Engoli em seco, Sim é claro que sim!
Deu-me a mão com muita força e perguntou se podia ir brincar. Vai Marta!
A minha mão ficou a doer!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Não gosto de delicias do mar



Gosto das delícias que o mar oferece, sal, frescor, força, peixe e marisco, não gosto de delícias do mar, aquelas coisas prensadas supostamente amariscadas, que ninguém sabe muito bem como é feito.
Não gosto de pudins, mousses e outros afins instantâneos, cresci numa casa onde se fazia tudo, da maionese ao bechamel, das compotas aos pudins, portanto aquilo sabe-me assim a falso, totalmente.
È como manter uma relação onde o amor já terminou ou ir á missa porque é bonito e fingir que se reza enquanto se olha para a vizinha que está mais gorda e não devia de usar aqueles sapatos com aquela mala, é como falar em tolerância e nunca a ter, falar em progresso e trava-lo, falar em princípios e ideais e não acreditar neles.
Aprendi a respeitar os outros porque o devemos fazer e porque só assim poderemos esperar o mesmo respeito, aprendi que se deve de ajudar o próximo não porque se espere uma recompensa qualquer num mundo pós morte ou numa vida futura, apenas porque sim, porque de qualquer das formas podemos ser próximo, aprendi a fazer maionese, bechamel, compotas, bolos, massas diferentes, aprendi igualmente que a nossa palavra deve de valer mais que qualquer contrato ou papel, aprendi que vale mais um carapau assado que qualquer espécie de supostas delicias do mar!

terça-feira, 7 de julho de 2009

Pensei que era publicidade....


Meninos não se empurrem, cuidado só atrevessem a estrada quando a Ana disser, dois a dois, não consigo tirar a bola do lago, vejam se não chutam a outra para lá, não deixem lixo na relva, sabem jogar à sardinha, ao lencinho da botica? A Ana ensina.
Sim a roupa da lavandaria, vou buscar, não me esqueço.
Piorou! Gaita! Fica internada outra vez?! Queres que vá aí?!
Sim quer mais sardinhas minha senhora? Deixe lá eu levo já, mais vinho, sim senhor! Não sei se estão boas ainda não comi….A fruta? Trazem aqui à mesa, não se preocupe.
Pronto! Estão todos servidos e já repetiram vamos nós comer, desmontar as mesas, empilhar as cadeiras, carregar os fogareiros, os contentores, apagar as brasas. Ainda tenho de ir comprar brindes, uns sugos, gomas, chupas, para a caça ao tesouro amanhã, qualquer coisa para o jantar, cenouras, não me posso esquecer das cenouras.
Tresando a sardinhas! Tenho uma nódoa de vinho na blusa, dói-me as costas.
Estou! Reunião, hoje?! Não, não posso!
A roupa é verdade! Sim, são essas camisas, obrigado!
Outra desempregada, merda para isto!
Estacionar, um lugar quase à porta, que bom, tocar à campainha, não estão?! Gaita! Tenho de carregar tudo sozinha, chaves na boca, roupa num braço, sacos apinhados noutra, mala cruzada, subo escada, arquejante, os sacos escorregam, abro a porta! Então mãe?! Não abriste a porta?!!!!! Pensei que era publicidade, desculpa mãe.
Um banho, um banho por favor.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Coisas muuuuuuuuuuuito foleiras 2


Não sei onde é que alguns homens tiram a ideia que certas coisas são sexys, agradáveis ou simplesmente aceitáveis. Dos itens masculinos rafeirosos que considero mais rafeiros destaco sandalocas com peúgas e a unhaca.
A sandaloca com peúga fala por si só, não é necessário acrescentar mais nada, quanto á unhaca, só é admissvél num guitarrista profissional e ainda assim com muitas dúvidas.
Tal apêndice é usado para: coçar o ouvido interno retirando a cera, coçar os genitais, coçar as fossas nasais retirando o que lá se encontre e palitar os dentes.
A ordem das acções é arbitrária e pode ser tudo feito de seguida…
O pior é quando vemos um homem de sandaloca e peúga, com a unhaca, a fazer todas essas acções consecutivamente, atirando um piropo ordinaríssimo à fêmea transeunte, com a camisa aberta mostrando o fio de ouro e rematando tudo com uma cuspidela no chão!

domingo, 5 de julho de 2009

Hoje vesti esta!


É talvez o último dia da minha vida.

É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o Sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.

Alberto Caeiro

sábado, 4 de julho de 2009

Coisas muuuuuuuuuuuito foleiras 1



Descobri que este quadro é de um tal Bruno Amadio também conhecido por Giovanni Bragolin, que aparece referenciado como Italiano ou como sevilhano e que pintou 27 quadros de crianças a chorar sendo este o mais conhecido.
Posto isto, gostos não se discutem mas para mim será um dos quadros mais horrorosos que conheço, sabendo agora que era a temática favorita as crianças a chorar, pior um pouco.
Desde os idos da década de 50, do século passado, até os nossos dias milhões de reproduções deste quadro são vendidas em feiras, posam sobre as mesas de telefone e sobre aparadores com cães de louça e bonecas sevilhanas em pose, preferencialmente ao lado estará uma tapeçaria pseudo indiana onde o tigre feroz ataca um elefante…
Como o blogue é meu digo este é o quadro mais foleiro que conheço!

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Tuga Crome

Em qualquer organização, repartição, escritório, colectividade ou similar, existem sempre vários tipos de pessoas, identifiquei estes:

O Trabalhador - Trabalha, como o nome indica, veste a camisola da equipa faz-lhe cócegas ver qualquer coisa por fazer mesmo que não seja da sua responsabilidade e faz.
Por vezes prejudica-se a si próprio, muitas vezes, a sua dedicação é inquestionável, procura sempre resolver os problemas, desenrasca uma solução para tudo, dá a cara, o couro e o cabelo pela equipa.

A Estrela da Companhia – Faz alguma coisita, pouca, mas se faz dez propagandeia que faz mil, na repartição espalha papeis para dizer que tem muito que fazer, delega as suas responsabilidades, constantemente. Colhe o louro do trabalho dos outros, queixa-se imenso. Começa todas as frases na primeira pessoa do singular….

O Caga Bitaites – Faz pouco ou quase nada de preferência, é basicamente incompetente e conjuga esforços para dizer mal de tudo, encontra dificuldades em tudo, critica o trabalho dos outros dando sempre a entender que existiam melhores soluções, mas nunca as apresenta. Teoricamente percebe de tudo, na prática nunca se viu nada. È o protótipo do treinador de bancada…

O Maldizente – Esse não faz, nunca fez e nem tem intenções de fazer nada. Considera-se uma sumidade por esse facto mas o seu prato favorito é arrasar o próximo, principalmente os que trabalham, as suas frases começam por “Já estava mesmo á espera”, “Se fosse eu…” ou “Não percebem nada disto”

O Chorão – Tem como base para não fazer nada o queixume, chora-se de manhã à noite, tudo é uma cabala orquestrada contra si, o sol, a chuva, os semáforos etc.

O Carregador – Desde que lhe digam que é para fazer isto deste modo faz, até à exaustão. Não questiona, não tem autonomia, nunca decide nada.

O único – Trabalha muito mas só, não confia em ninguém, não sabe trabalhar em equipa. A equipa é só ele. Se encontrar uns carregadores, as coisas seguem. Se alguém lhe dá uma ideia ou se propõe uma alternativa encara-a como um ataque pessoal.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

É assim que me quero!

Gosto muito desta canção de José Mário Branco e Manuela de Freitas, simples bonita e prenhe de significados, chama-se “Quando eu for grande” e foi-lhe acrescentado o titulo “Carta aos meus netos”.



Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
P´ra me poder aquecer
Na mão de qualquer menino

Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
P´ra tudo o que eu sou caber
Na mão de qualquer de vós

Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Tudo em mim se pode erguer
Quando me pisam não grito


Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
O que lá estou a fazer
Só se nota quando falto


Quando eu for grande quero ser
Ponte de uma a outra margem
Para unir sem escolher
E servir só de passagem

Quando eu for grande quero ser
Como o rio dessa ponte
Nunca parar de correr
Sem nunca esquecer a fonte


Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
Quando eu for grande... Quando eu for grande...

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Atravessar desertos!


A primeira imagem que tenho do deserto é do filme Lawrence da Arábia, ao mesmo tempo o deserto Saint Exupery no Principezinho, o deserto é um sítio aparentemente vazio. Eu até já estive no deserto, constatei que nem é bem assim.
De vez em quando atravessamos desertos, interiores ou nem por isso.
São travessias dolorosas é tudo igual ao nosso redor, os passos são penosos, cansados, dolorosos e morremos de sede.
Por vezes é sede e de outras coisas, de calma, de equilíbrio, de amor, parece interminável a jornada.
Mas o deserto nem é vazio, nem a jornada se faz só, o deserto tem oásis, pequenos momentos de frescura, de sombra, de agua, para além da vida que fervilha escondida debaixo das areias, a provar o milagre da chuva ocasional onde o deserto se revela, todas as sementes guardadas, escondidas, secas, aparentemente mortas germinam, nem que seja por um só dia, numa dádiva de vida impressionante.
Já atravessei desertos, o deserto do desamor, o deserto da falta de alguém, o deserto da falta de saúde, de dinheiro, de alento, parece-me que vou sempre só, as palmas dos pés queimam e cada passo que dou penso que é ultimo, que é preferível só cair, ficar ali, inanimada e pronto. Mas não, há sempre alguém que sopra nas palmas dos pés, parece pouco um sopro, é suficiente para mais um passo, os desertos não são invencíveis, nem inesgotáveis, nem infinitos.
Eu sopro nos teus pés!