quarta-feira, 22 de julho de 2009

E os de cá….


S tem 27 anos e um curso de arquitectura, viveu com o namorado durante dois anos, teve de voltar para casa de mãe, o emprego a recibos verdes terminou, sem direito a subsidio de desemprego e a segurança social, equaciona a hipótese de partir, para um país nórdico onde um famíliar lhe poderá arranjar emprego não relacionado com a sua área.
M anda pelas mesmas idades, tem uma licenciatura, ainda vive com o companheiro, almoça em casa da mãe e leva o comer feito para casa, o salário permite pagar casa, agua e luz, nada mais…
A trabalha num escritório de uma firma de construção civil, a sorte deu-lhe dois gémeos e um companheiro com uma patologia, esquizofrenia, que se revelou depois da firma onde trabalhava fechar. O salário de A é gasto nos transportes, nas despesas obrigatórias, pouco mais, a pensão de invalidez atribuída ao companheiro com menos de 40 anos de idade permite-lhe uma insuficiência alimentar que é camuflada com algum apoio traduzido em panelas de sopa confeccionadas pela sogra, ela também pensionista com uma pensão insuficiente. A não se enquadra em nenhum esquema de apoio social, trabalha, o rendimento do agregado ultrapassa a referência do Salário Mínimo Nacional. A tem vergonha, tem um ar triste e cansado, pensou vender a casa, o que não resolve nada porque não tem para onde ir, não arranja casa a pagar menos do que a prestação mensal, de qualquer das formas as casas também não se vendem.
I trabalhou toda a vida, ficou no desemprego aos cinquenta e cinco anos, reformou-se, a reforma não é suficiente para as suas necessidades, vive numa casa emprestada, trabalha na casa de uns amigos de manhã, onde trata do trivial e de um idoso, na recepção de uma associação de tarde, onde passa recibos verdes.
L é mãe solteira, trabalha e tem uma filha, sobrevive com algum apoio da família, confessa-me que há anos que não vai ao dentista, que tem férias ou que compra uma peça de roupa para si, leva uma lancheira para o trabalho em Lisboa, uma semana depois de receber faz contas de sumir, empresto-lhe livros, pago-lhe uma bica, penso que isto não é justo!
E o futuro escorre destas mãos sem saberem muito bem como e por muito que olhem para a frente carregam a vergonha de se sentirem fracassados, de não perceberem onde é que se enganaram.

Estas pessoas são reais e fazem parte do meu círculo de conhecidos.

12 comentários:

Fernando Samuel disse...

Bom post.

Consequências brutais da política de direita PS/PSD/CDS.

Um beijo.

Nuno Ricardo disse...

Arrepiantes exemplos que, infelizmente, se multiplicam aos milhares...

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Tenho feito algumas reportagens sobre vidas similares. Sei bem do que falas, Ana
Beijo

Cidadão do Mundo disse...

é a nossa triste realidade, provocada por 34 anos de incompetentes que se governam muito bem a eles, mas muito mal a nós!

Abraço!

Diogo disse...

Conheço também demasiados casos desses. Essas pessoas deviam juntar-se e ir falar directamente com os políticos que supostamente tomam decisões e com os jornalistas que “explicam” as decisões.

A tecnologia, hoje, tem capacidade para dar uma vida razoável a toda a gente. Que não sirva apenas os super-chulos e respectivos agentes a soldo. Está na altura de uma revolução a sério!

Zorze disse...

Ana,

Então? Sua marota!

Já não se lembram nos governos Cavaco Silva com direito a artigo no Wall Street Journal? Em que o desenvolvimento de Portugal era apresentado como case-study?

E as novas oportunidades, e as novas tecnologias.
O País que constrói os maiores centros comerciais da Europa e do Mundo. Pontes também.
Temos estádios de futebol de primeiríssima água.
Temos computadores Magalhães para todos os petizes.

Eu sei lá.
A Noruega e o Canadá, roem-se de inveja.
Como é que os portugueses, conseguem? Devem ser muito bons administradores?

Por isso acho que deve haver de algo errado quando uma idosa me pede adiantado €10 até receber a pensão. Com o suposto argumento de que não tem nada para comer.
Com pensões tão altas, fico desconfiado.
Ou quando os polícias atiram os bonés para a frente da residência do garboso primeiro. Com salários de tão elevada estirpe, é estranho.
Também se estranha, o porquê, das para-financeiras como a Credibom, a Credifin e a Cofidis, terem em Portugal - o País das Oportunidades, tão elevados lucros.
Há quem diga, imagine-se, porque os salários em Portugal serem baixos. E para comprarem uma merda de um frigorífico, televisão e até uma operação às cataratas, precisarem de empréstimos.
Vejam o exemplo dos gestores das grandes empresas portuguesas, salários de fazer corar de inveja, os seus compadres finlandeses, alemães e holandeses.

Portugal é um País rico! Rico em estupidez, falta de consciência e de injustiça.

Não percebo porque é que as pessoas criticam.

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Fernando Samuel

Não digas isso, é a crise internacional....

Nuno

Infelizmente.


Carlos

Eu sei que vês!

Cidadão

Eles, para eles é o venha!

Diogo

Mas usam a tecnologia para o inverso.

Zorze

Tu já sabes que eu tenho um mau feitio desgraçado!

beijos

akhen-navegandonaspalavras disse...

O problema não está em existirem situações destas e outras semelhantes. O que custa saber é que, apesar de ser uma crise global, tinhamos condições como país, para ela não ser, no nosso caso, tão profunda.
Ainda não ouvi nenhum empresário dizer que abdica dos lucros para equilibrar a economia.
Mais uma vez eu digo, "O capitalismo, mais hard ou mais soft, não é sistema que sirva para fazer a humanidade progredir".

Mac Adame (lembras-te?) disse...

Se não tivesse vindo para Macau, ainda tinhas de contar também a minha triste história que já se estava a desenhar no horizonte. Felizmente, fugi a tempo para uma Região Administrativa Especial da China onde me pagam o dobro do que me pagariam em Portugal pelo mesmo trabalho. Finalmente me sobra algum dinheiro no fim do mês. Em Portugal, cada vez mais, me sobrava mês no fim do dinheiro.

De nacionalidade portuguesa serei sempre, mas renego esse país de hoje, renego quem à conta dele se governa, e renego também quem elege esses auto-governados. Se me sinto português, é por ter memória histórica, por ter saudades de um país que nunca vi. Hoje, mete-me nojo. E não me venham falar de esperança, dizer que as coisas mudarão. Se não estou hoje ainda tão bem quanto podia estar, isso se deve à tal de esperança que me fez ficar tempo demais nesse feudo miserável ao qual não quero mais voltar. Como diz o ditado e canta Sérgio Godinho, "antes a morte que tal sorte". Sou português, sim, e daí? Tenho culpa disso? Por que motivo haveria eu de dar mais uma oportunidade a um país que nunca me deu nenhuma? Pensem bem nisto os que ainda estão a tempo de fugir.

PS (salvo seja): Beijinhos.

Ana Camarra disse...

Akhen-Eu não tenho dúvidas que este sistema está caduco!

Mac Adame - Afinal estás alive! Que alegria!
Quando ao tema é uma gaita a tua conclusão, vendo bem podiamos ser cá felizes, não era?

beijos

CPrice (once) disse...

também os tenho no meu circulo de conhecidos e até no de amigos .. e infelizmente não são os mesmos.

Boboquinha disse...

E estão a aumentar.
Eu sei onde errei mas e quando a culpa não é inteiramente nossa, como é que se faz? Porque não é.