sábado, 31 de janeiro de 2009

Cenas que me marcaram III

Este é um chamado “filme de gaja”.
Relata uma história, inventada, sobre o testamento de Ludwig Van Beethoven, onde deixa tudo à sua “Paixão Imortal”.
Misturando ficção e realidade conhecemos o genial Maestro, a sua vida, o seu feito irascível, os seu supostos amores, o drama da sua surdez.
Esta cena é quase a final, Ludwig escuta na sua cabeça a sua Nona Sinfonia, ao mesmo tempo que dirige orquestra e coro. Relembra a infância, amarga, um pai alcoólico e colérico que o queria fazer render como um macaco amestrado.
O Hino da Alegria peça Central da Nona Sinfonia é um hino a isso mesmo, à alegria de nas condições mais dramáticas e adversas, degradantes, nos infortúnios, sermos capazes de apreciar as coisas belas da vida e melhor que isso, fazer coisas notáveis.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Prémio, mimos e outros doces




Quando abro a caixa de comentários deste blogue não posso deixar de sorrir, afinal os amigos, virtuais ou nem por isso oferecem-me regularmente mimos, sob diversos formatos.
Desde a preocupação com o meu bem estar, ao carinho puro e simples, a prémios como os recentemente recebidos por parte da Maria, da Kaotica e do Sagher, a outro que continua a fazer-me confusão que se traduz na insistência por parte de alguns “assíduos” para que transforme estes meus escritos em livro. Faz-me confusão porque como estes terei centenas ou milhares de escritos, pequenos contos, reflexões, crónicas, indignações e poemas. Quem me conhece um pouco melhor sabe que sou muito aquilo que escrevo e apesar de me merecerem uma grande consideração o que escrevo não é, na minha cabeça, para aplaudir, são só pedacinhos de mim, que coloco à vossa disposição.
Mas pronto, fica aqui o meu sincero agradecimento, entre os dias que correm mal e os que correm menos bem sabe bem receber assim guloseimas, prémio, mimos e outros doces.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Cenas que marcaram II

O filme até podia passar-se na minha cidade, Barreiro, o argumento é simples: seis homens de diferentes idades e vivências, afectados pelo desemprego devido ao fecho das fábricas numa Cidade industrial no Reino Unido, decidem fazer um número de strip tease.
Strip Tease total, Full Monty.
Têm barrigas, cabelos brancos, complexos vários, um não consegue fazer amor, por se sentir inútil, outro ainda encobre a situação de desemprego, o mentor do grupo oscila entre a procura de emprego, a pequena burla e o grande desejo de manter o contacto com o filho, que só será possível pagando a Pensão de Alimentos em atraso.
Durante o filme o trágico e o cómico cruzam-se, sem exageros, são homens normais de qualquer cidade a quem o desemprego empurra para uma situação anormal.
O discurso de apresentação, nesta última cena é mais ou menos este:
Podemos não ser jovens, podemos não ser belos, podemos até não o fazer bem, mas esta noite e só esta noite estamos aqui para o Full Monty

Limões e Ervas Frescas



Ela passava todos os dias ali.
Deixava um rasto de alvoroço com o seu cheiro de limões e ervas frescas, um andar quase inseguro, um sorriso que poupava mas que quando aparecia iluminava toda a rua.
Ele seguia o seu andar, por vezes ficava ali só por ficar, nem se lembrava que esperava por ela, só quando o seu cheiro a limões o relembrava que sim, que era por ela que esperava.
Ela seguia, só, acompanhada, calada e grave, algo absorta, com sacos, com casacos e cachecóis, depois com roupas mais leves, até chegar a sandálias e blusas fininhas, sempre com o cheiro de limões e um andar inseguro.
As estações passaram, ele foi ficando estacionado naquele local, muito menos decidido do que o andar dela, a inventar-lhe um nome, um tom de voz, talvez o sabor dos lábios dela.
Pensou nas mil e uma maneiras de se lhe dirigir, fantasiou conversas, carinhos, até futuros.
Um dia ela deixou de passar, ele murchou sempre à espera do cheiro de ervas frescas e limões, o seu passo quase inseguro e por vezes um sorriso que iluminava toda a rua.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Pequenos Prazeres

Encontro prazeres simples nas coisas comuns
O Sol que acaricia a pele
O cantar de um regato ou canto do mar
Ritmado, compassado, pleno

O cheiro dos frutos
O riso das crianças
O berço seguro dos amigos

Ainda assim no entanto trespassam-me pensamentos
Menos felizes
Pequenos grãos de areia que arranham

Pequenos grãos de areia que raspam
O prazer das coisas simples
Pequenas sombras
Malévolas, persistentes

Roem os prazeres simples
Afastam-me o sono
Murcham os frutos
Tapam os risos das crianças
Abafam o cantar da água

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Papões





Continuo a ter coisas profundamente infantis apesar de já ser uma mulher, crescida, adulta.
Já não tenho medo do escuro, nem dos papões, pelo menos dos da infância, de outros talvez, não medo, talvez a consciência de quanto mal são capazes, não são papões evidentes estes, feios, de dentes de fera, monstruosos. Alguns têm um ar muito arrumadinho, quase simpático, sorridente, fato e gravata, mas são papões.
São papões roubam futuros, tranquilidade, verbas, pão, trabalho, sempre sorridentes.
Alguns papões até justificam as suas acções dizendo que são necessárias e boas para nós, outros justificam o facto com as nossas acções, será por protestarmos, por exigirmos justiça, porque querermos um futuro melhor, que os obrigamos a cometer tais acções…
Ainda há uma variedade muito mais perigosa, os que nos enganam, mesmo, parecem que estão do nosso lado, que são nossos amigos, que partilham connosco essa vontade de justiça, que vão caminhar ao nosso lado.
Quando ganham a nossa confiança, juntam-se aos outros papões, nada mais.
Eu já não tenho medo de papões, apenas aprendi a distingui-los e tenho consciência do mal que podem ser, se deixarmos, claro!

Cenas que me marcaram 1

O filme é 1900 de Bernardo Bertolucci a cena passa-se numa herdade rural, um latifúndio, onde gerações de camponeses trabalham.
O Patrão face ás intempéries determina que irá pagar metade do combinado, porque teve metade da colheita.
Os camponeses chamam a atenção que quando a colheita é o dobro, não são pagos em dobro e o trabalho foi o mesmo.
O Patrão repete e pergunta a um camponês se não o ouve bem, porque tem umas grandes orelhas.
O resto não precisa de traduções.


domingo, 25 de janeiro de 2009

Pecados-Luxúria





Toca-me assim, primeiro devagar, como uma brincadeira, um reconhecimento, o toque da pele, sedoso ou mesmo áspero, de dois corpos que se apresentam ou reconhecem.
Toca-me assim, devagar, ao de leve, deixa crescer assim a vertigem a ansiedade.
Toma-me assim com as mãos, com os lábios.

Deixa-me tocar-te assim também, com calma, firmeza, hesitações, com força, com medo, com ansiedade, com fome.
Deixa crescer essa vontade.
Pára!
Recomeça, deixa entrelaçar braços, pernas, dedos.
Sente o meu cheiro em ti, eu sinto o teu em mim.
Não chega, queremos mais, mais tempo, mais rápido, mais lento.
Olha para mim, sussurra-me ao ouvido, toca-me devagar com os dentes, como se mordesses um fruto.
Deixa acabar a vertigem.
Toca-me outra vez, com a calma e ânsia da fome voraz, saciada!

sábado, 24 de janeiro de 2009

Eu, humana, quero é viver!



Vou viver até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver

Amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será mais um prazer
e a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com a idade
interessa-me o que está para vir
a vida em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir
encontrar, renovar, vou fugir ou repetir

vou viver, até quando, eu não sei
que me importa o que serei quero é viver
amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será mais um prazer
a vida é sempre uma curiosidade
que me desperta com idade
interessa-me o que está para vir
a vida, em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir
encontrar, renovar vou fugir ou repetir

vou viver até quando eu não sei
que me importa o que serei
quero é viver,
amanhã, espero sempre um amanhã
e acredito que será mais um prazer

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Porque é sexta-feira!

O que eu gostava mesmo

Um dia só de notícias boas, coisas bonitas, crianças que nascem felizes, sãs, com um futuro digno para frente.
Um animal que deixou de estar em vias de extinção porque foi garantido aquele equilíbrio necessário, para não ficarmos mais pobres.
Uma vacina que se descobriu, universal, gratuita e eficaz, contra todas as doenças mortíferas, corrosivas, fabricada em grande escala, onde anteriormente se construíam balas, ou bombas, armas químicas.
Que a globalização funcionasse para que todos excedentes de produção de todo o mundo fossem direccionados para onde fazem falta.
Que todos os diamantes extraídos das entranhas do mundo deixassem de ser de sangue, deixassem de ser trocados por armas, fossem trocados por sementes de esperança.

Que todos os pais e mães do mundo tivessem disponibilidade para amar os seus filhos, sem condicionalismos, sem contra relógios, sem apreensões, com a garantia que os seus filhos serão exactamente aquilo que quiserem ser, jardineiros, médicos, artistas de circo, mecânicos e astronautas.
Que não seja estranho um dirigente de uma superpotência ser de uma determinada cor, de um determinado sexo.
Que todos tivessem direito a contemplar o mar, a visitar um museu, a ver um espectáculo, a trabalhar e ser retribuídos justamente por isso, a ter férias, a que a tecnologia fosse usada para tudo isso ser mais fácil, sempre mais fácil.
Que todos pudéssemos ter como garantido um fim de vida digno, um apoio médico eficaz.

Utópica a gaja, não?! As sextas dão-me para isto!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Pecados – Ira




Há uma raiva que cresce dentro de mim
Uma Ira
Um vazio
O vazio dos olhos tristes
Dos desempregados, dos esfomeados,
Dos desalojados,
Das crianças abandonadas, perdidas
Mal amadas, mal tratadas
Das mãos paradas, braços caídos
Ao longo do corpo
A ira surda dos campos inférteis
Das peixes sem água
Das palavras sem verdade
Dos gritos mudos
Há uma ira que cresce
Dentro de mim.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Pecados – Inveja



Tenho inveja sim!
Tenho inveja do voo dos pássaros, tenho inveja de não ter aquelas vozes macias que cantam jazz pela noite dentro, de saber o que fazer com um violoncelo sem ser olhar para ele e suspirar com o seu som, tenho inveja, sim!
Tenha inveja dos sonos tranquilos, tenho inveja sim!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Vegetal!


Devo ter qualquer coisa de vegetal dentro de mim.
Ainda não descobriram mas quase de certeza que faço a fotossíntese, por isso o sol é primordial.
Por muito que me saiba bem o leite e o chá quente, por macias que sejam as camisolas, os lençóis, edredons, os casacos de fazenda, botas e afins, nada compensa a alta da carícia do sol.
Não esta carícia envergonhada, destes dias em que espreita tímido, mas não rompe o gélido, não!
Costumo dizer por brincadeira, que sou tão ecológica que funciono a energia solar.
Uma carícia plena e voluptuosa, que me aquece corpo e alma, que torna mais azul céu e mar, que doura a pele, que me faz sorrir mais, cantar mais, que enche de cor flores e folhas, onde se vê que os pássaros voam mais livres….

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Hoje podes mentir-me.



Hoje podes mentir-me.
Podes fazer de conta, que não existe guerra, nem crianças com fome ou frio, podes fazer de conta que não existe nenhuma sombra viscosa e escura sobre todos.
Podes fazer de conta que está sol, fazer de conta que esperas ansiosamente por mim, podes fazer que te faço falta, que a minha gargalhada te faz falta, que precisas do meu olhar, da minha presença, que te faço falta, ou ainda outra mentira qualquer, que a vida faz mais sentido assim…
Podes mentir-me, podes construir um casulo, um ninho, a dois passos do mar com chão de areia, um tecto qualquer, desde que não entre o vento nem o frio, desde que não entrem os toques dos telefones, os compromissos, as buzinas do carros, as horas marcadas, os cumprimentos pré fabricados, pinta-o de cores que me aquecem por favor, enche-o de música, o resto não faz muita falta.
Hoje preciso que me mintas, preciso de me sentir fundamental, com a força de uma pluma, que não precisa de mais para voar, com a fragildade das feras em descanso, hoje podes mentir-me…

Pecados - Gula




O Sol arrasta os raios por cima do mar, debaixo da sombra, na mesa pequenos seres, tubulares, assim cobertos de um material parecido com couro, terminam numa pequena unha, ao abrir e sorve-los o sabor é de mar, salgado fresco.

Em pequenos pratos pedaços de polvo, nadam, em azeite e ervas, copos de vinho gelado, amêijoas que se abriram ao calor e ganharam sabor de coentros e limão, pedaços de pão, compactos, com um travo azedo, na grelha peixe, fresco, rijo, muda de cor, espera-o a salada, tomates, pimentos, pepinos, cebolas, num mar de azeite e vinagre com um cheiro de orégãos, pedaços de queijo, macios, com o sabor dos pastos…

O sabor granuloso dos figos, doce, ácido, sabor de Sol.
O café quente, aromático, olhando assim para o mar…

domingo, 18 de janeiro de 2009

Pecados-Avareza










Uma inspiração dada pelo M. do Além Mar leva-me a falar dos pecados.
Na semana em que D. José Policarpo avisa as jovens portuguesas a evitarem sarilhos e não casarem com muçulmanos, porque “nem Alá lhes valerá”, fico a pensar na Santa Ignorância deste dignitário da Igreja, afinal Alá é Deus, o mesmo, os pecados também são os mesmos.
Comecemos por ordem alfabética.

Avareza

Guardar o mar só para mim, eternamente, só para mim, o cheiro dos novos amores, o primeiro toque do primeiro roçar de lábios.

Guardar para usar quando e como quiser.
Guardar numa pequena caixa, num guarda jóias, o primeiro raio de sol na areia da praia a estender-se e a abraçar o mar, nas madrugadas perfeitas.
Guardar no fundo da gaveta, entre sabonetes de cheiro, raminhos de alfazema, rendas antigas, lenços de seda, o brilho do teu sorriso, daquele sorriso.
Guardar para sempre pequenos mimos: o calor da mão do meu pai, com o seu cheiro a tabaco e homem lavado; um abraço, daqueles fortes e seguros; o primeiro suspiro dos meus filhos; o assobio da minha avó; a vertigem do primeiro amor; as carícias mais ousadas; o cheiro de cadernos novos, borrachas e lápis, do primeiro dia, da primeira vez na escola; a cor gritante das papoulas…

Guardar tudo avaramente.

sábado, 17 de janeiro de 2009

As boas raparigas vão para o céu, as más vão a todo o lado!

O título é roubado, mas eu cá prefiro ser má.
Durante anos a fio, alguns sectores mais conservadores da família tentaram impor-me o modelo da menina boazinha, fosse pela influência da restante família, fosse por uma semente rebeldia que já vinha inscrita no código genético, sempre me recusei a tal papel.
Nunca fui verdadeiramente má, assim de fazer coisas das quais tivesse vergonha, mas detesto sonsos, então sempre fui traquinas, pouco dada a convenções, sufocam-me as convenções, cansam-me, apertam-me.
As sonsas, boas raparigas, eram aquelas que conseguiam manter os ganchos no sitio, os bibes imaculados, os cadernos irrepreensíveis, nunca tinham uma ideia própria, um laivo de criatividade, a única iniciativa que tomavam era de denunciar as pequenas prevaricações dos outros e a colher disso um estranho prazer.

Continuei a conhecer sonsas, mantinham os mesmos requisitos, apenas iam crescendo com elas, refinando aquilo que para alguns serão qualidades, para mim não.
As sonsas tinham um chorrilho de regras e códigos e rótulos, rotulavam tudo e todos, já não usavam bibe, mas vestiam á moda, centravam as suas preocupações em coisas pequeninas, miudinhas, azedinhas, tudo enrolado em açúcar baunilhado.
Eu cresci, as sonsas e os sonsos também, usam todas as características, de forma civilizada, esforçam-se muito para que a progenitura esteja dentro do mesmo modelo estanque, tem preocupações que não me passam pela cabeça, são estanques a novas ideias, a novos pensamentos, a descodificar o mundo, o mais longe que vão é a Punta Caña pela Top Tours, sem sair de dentro de si, fazem amor a dias marcados, da mesma forma que vão ao cabeleireiro.
Elas irão para o céu, um céu climatizado com vaporizador de odores de pinho e alfazema quimicamente sintetizados, sofás do Ikea e mesinhas cheias de revistas cor de rosa, eu irei para outros lados, com os joelhos esfolados, a provar novos frutos, com os ganchos a cair…

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Sexta-feira


Hoje é sexta-feira, final de semana início de fim-de-semana, dia de antecipação. Nem por isso, é mais um dia.
Mais um dia chuvoso e miudinho, cinzento e frio, com condutores que não fazem pisca, com cada vez mais noticiais de despedimentos, com declarações arrogantes de homens que depois de mal gerir finanças nacionais, passaram a mal gerir bancos privados e respondem com altivez, tanta altivez que eu quase me convenço que a culpa a minha, hoje também as noticias de que termina na superpotência do outro lado do atlântico a pior administração de sempre….Tenho vontade de lhes gritar “Grande novidade!”
Depois o resto, a guerra, a guerra sempre estúpida, sempre atroz, sempre obscena, para além da guerra as crianças com fome, os futuros negados, o aumento da gripe, as declarações arrogantes de um dignitário da Igreja, os romances arrastados, da menina desaparecida, da menina jogada como bola entre afectos e direitos biológicos, o dos meninos roubados na sua inocência que esperam ainda uma justiça que tarda e se abstêm, contorce-se e foge do fulcro da questão.
Ainda por cima disso os carros híbridos e as novas tendências de moda para a próxima Primavera…
E eu fico assim parada nesta sexta feira parda, chuvosa, miudinha, fria e cinzenta.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Leva




Leva-me para outro local
Leva-me para longe de tudo
Leva-me para outro tempo
Um tempo em que os meus cabelos eram longos
Onde o mar era uma espécie de casa
Leva-me para um local
Talvez nunca vivido
Com cheiro de algas secas
Talvez pequeno e exíguo
Mas onde eu cabia
Encaixava
Da mesma forma que as nossas mãos
Os nossos sorrisos
Os nossos lábios
Os nossos corpos
Até as nossas palavras
Ficavam assim a ressoar dentro de nós
Porque de tão gritadas não precisavam de som
Preciso de ir
Levas-me?!

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Matrioshka


As Matrioshkas são aquelas bonecas russas, ocas, que estão umas dentro de outras, são pintadas de cores garridas, abre-se uma sai outra e outra até chegarmos a uma pequenina.
Falo delas não por nenhuma questão politica, custa-me muito desapontar alguns, mas lá por ser comunista não tenho o culto por artefactos soviéticos, gosto dos que gosto, como gosto de outras coisas. Mas até gosto das Matrioshkas.
Falo delas, porque é mais ou menos como me sinto, aparentemente uma mulher única, crescida pois está claro, mas quando me começo a abrir saltam outras de dentro de mim.
A de fora é adulta, aparentemente segura de si, aparentemente calma, equilibrada, decidida. Logo a seguir existe outra, insegura, pede desculpa quase por existir, acha sempre que faz de menos, podia fazer mais e melhor, é severa consigo própria, tem montes de dúvidas.
Quase do mesmo tamanho está uma mais jovem, cabeça no ar, adora música, amigos, dá gargalhadas sonoras, conta anedotas, salta e pula, essa não tem o peso da idade, do trabalho ou das chatices, está sempre a querer sair.

Depois existe ainda uma mais infantil, assim meio menina meio mulher, insegura também, não acredita muito nela, não tem medo do escuro, mas tem dos papões, precisa que lhe digam muitas vezes que sim, é capaz, que não tenha medo que avance. Essa guarda a fio as memórias da família, os cheiros, os sabores, as histórias.
Depois acaba numa mesmo muito pequena, já não é oca, não cabe lá mais nada, tem um pedaço de cada uma, será a minha essência talvez, é pequena, mas é sólida.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

A poesia és tu que passas na rua….




A poesia és tu que passas na rua. Esta frase estava inscrita num graffiti, durante muito tempo passei por lá e nunca a vi, um dia descobri-a e sorri.
Claro que não foi escrita a pensar em mim, mas gostei.
O meu eu irreverente não acha que os graffitis sejam actos de vandalismo, existem graffitis lindos, sempre existiram, os romanos já os faziam, não com spray, não confundo os graffitis com o acto estúpido de rabiscar palavrões ou parvoíces numa parede, estragar um monumento ou um edifício.

Mas um graffiti bem feito pode ser uma obra de arte.
Em todas as cidades haverá paredes e muros capazes de suportar e até de ganhar com uma obra de arte. Paredes vazias, mortas, para as quais ninguém olha, paredes que poderão ganhar vida.
Já lá não está a frase mas a poesia passou por aquela parede.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Religião ou Mito?

Basicamente as três grandes Religiões da bacia do Mediterrâneo têm muito em comum. O Velho Testamento é o mesmo para Judeus, Católicos e Muçulmanos.
Basicamente o Deus destas religiões é o mesmo, um Deus criador do mundo, da humanidade á sua imagem e semelhança, um Deus de amor.
No entanto a história destas três religiões demonstra uma prática absurdamente contrária á teoria.

Da perseguição dos Judeus aos primeiros católicos, da perseguição dos Católicos a Judeus por toda a Europa, das Cruzadas Cristãs no Médio Oriente, acompanhadas por chacinas em nome de Deus, das Invasões Muçulmanas na Península Ibérica, da Santa Inquisição, etc.
Exemplos quase incontáveis.
Com a desculpa da Religião, de impor a fé de alguns a outros muito se tem matado neste planeta.
Neste momento assistimos, parte impávida e serena, a mais um morticínio, supostamente por razões religiosas.
È claro que as supostas razões religiosas sempre esconderam interesses económicos e estratégicos, já assim o foi nas Cruzadas.
Que eu saiba nas minhas veias corre sangue católico, judeu e árabe, corre também de uns índios brasileiros que devem ter sido mais pacíficos. Esta minha condição será comum á maior parte dos Portugueses tendo em conta os andarilhos que sempre fomos em busca de uma vida melhor e a quantidade de povos que passou por cá.
O primeiro mandamento, supostamente entregue por Deus a Moisés e comum a todos é simples: Não Matarás!
Oxalá, Inshalhah e Amém.

domingo, 11 de janeiro de 2009

São memórias emprestadas, que eu sinceramente espero que não se repitam.



De tempos a tempos na CUF havia balões.
Não daqueles coloridos e festivos, os balões neste caso eram grupos de trabalhadores despedidos, dispensados, temporariamente até a fabrica decidir que precisa deles outra vez.
Sempre que acontecia um balão, sabia-se que a miséria iria ainda ser maior.
Para além dos sapatos herdados de pais para filhos, onde percorriam toda a escala do mais velho ao mais novo até não terem forma, além das noites cortadas pelo frio dos cobertores insuficientes, para além da roupa virada no ritual de descoser um fato tornar a cozer tudo pelas mesmas costuras, mas com o tecido virado do avesso, onde estaria menos gasto, para além de tudo isso, haveria fome, mais fome do que o habitual, porque ela estava sempre presente nas refeições eternamente insuficientes.

Deixava de existir a féria, exígua, para abater no rol da mercearia, para adquirir o pão, a posta de bacalhau, o naco de toucinho para a sopa…
Passado uns dias ou semanas, o desespero tomava conta das pessoas atingidas pelo “balão”, começava a circular que nessa noite se fariam os assaltos.
Os assaltos eram simples, grupos famintos entravam durante a noite nas mercearias e roubavam. Roubavam: grão, feijão, bacalhau, farinha, toucinho, roubavam comida, repito roubavam comida.
Os lojistas balançam entre duas atitudes, os que tentavam em vão conter aquela onda de desespero e os que pelo contrário estavam lá e abriam as portas.
A segunda atitude costumava ser a mais inteligente, para além de ser tudo feito com calma, sem estragar nada, era acompanhado com um sussurro de agradecimento e um pagamento à posteriori quando voltavam a ter trabalho.
Não assisti a isso, ainda bem, escutei esta história contada muitas vezes pela minha avó, pela memória infantil dos meus pais e tias.
São memórias emprestadas, que eu sinceramente espero que não se repitam.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Mapas




Portanto posso subir ao topo de mim muitas vezes
Olhar para baixo e tentar perceber os caminhos
Os que percorri, os que não tentei
Os que evitei
Aqueles onde arrisquei sem saber se eram escarpas
Ou ravinas
Caminhos muito íngremes por vezes
Outros que pareciam difíceis e foram naturais
Posso até fornecer-te um mapa
Um mapa com aqueles desenhos de cubos,
Ondas, formas geométricas
Que faço nos cantos das folhas
Quando parece que não presto atenção
Mas de facto nunca estou tão atenta
Nesse mapa poderia desenhar os caminhos
Direitos, labirínticos, entroncamentos, cruzamentos
Coisas paralelas, só minhas
Mas que até posso partilhar contigo
Posso apenas dizer-te que no fim dos caminhos
Estou lá sempre, eu
Eu, só ou contigo

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Outra (outra vez)

Este texto é de Agosto, mas hoje sinto-me tal e qual assim....




Olho para a mulher à minha frente!

Rosto redondo, cor azeitonada, olhos grandes e escuros, nariz forte e arrebitado, boca bem desenhada.
O cabelo está molhado colado ao crâneo como o meu, adivinha-se que quando secar terá a sua personalidade, marcada pelos remoinhos que resistem a qualquer arremetida do cabeleireiro.
Olho disfarçadamente para ela e ela olha-me de lado com um olhar igual ao que eu fazia quando tinha oito anos e ao fim de uns minutos de estar no mar nadava direita ás bóias, da areia gritavam “Aquela miúda já está fora de pé!”, eu olhava de lado como a outra me olha agora…
Espalho creme no rosto até à base do pescoço, ela faz o mesmo, tem uma cicatriz grande que lhe faz um colar, aparentemente mais fina que a minha, a minha sinto-a como um vergão, por vezes, outras nem me lembro.

Olho outra vez e ela olha-me de frente desafiadora, reconheço-a, embora fosse jurar que não sinto aqueles cabelos brancos, como velhinhos em Parque Infantil, que lhe espreitam na tempera…
Sinto as olheiras, mas nela não parecem assim tão vincadas!
Olho-a e acho-a mais pesada que eu, juro que se parece comigo daqui por uns anos, não agora, ainda há pouco me senti tal qual como tinha vinte e poucos anos, ainda há pouco fiz festas na cabeça do meu filho e ele sorriu com o sorriso de bebé, parece que de repente encolheu, os pés tornaram-se de novo pequeninos, as mãos também, ficou outra vez com cheiro a bebé, em vez do cheiro acre do suor da adolescência, uma adolescência enorme, com pés 45 e roupas enormes…
Ao mesmo tempo olho-a e se calhar sou eu, embora tenha dias, também em que me sinta muito mais velha que ela!