As boas raparigas vão para o céu, as más vão a todo o lado!

O título é roubado, mas eu cá prefiro ser má.
Durante anos a fio, alguns sectores mais conservadores da família tentaram impor-me o modelo da menina boazinha, fosse pela influência da restante família, fosse por uma semente rebeldia que já vinha inscrita no código genético, sempre me recusei a tal papel.
Nunca fui verdadeiramente má, assim de fazer coisas das quais tivesse vergonha, mas detesto sonsos, então sempre fui traquinas, pouco dada a convenções, sufocam-me as convenções, cansam-me, apertam-me.
As sonsas, boas raparigas, eram aquelas que conseguiam manter os ganchos no sitio, os bibes imaculados, os cadernos irrepreensíveis, nunca tinham uma ideia própria, um laivo de criatividade, a única iniciativa que tomavam era de denunciar as pequenas prevaricações dos outros e a colher disso um estranho prazer.

Continuei a conhecer sonsas, mantinham os mesmos requisitos, apenas iam crescendo com elas, refinando aquilo que para alguns serão qualidades, para mim não.
As sonsas tinham um chorrilho de regras e códigos e rótulos, rotulavam tudo e todos, já não usavam bibe, mas vestiam á moda, centravam as suas preocupações em coisas pequeninas, miudinhas, azedinhas, tudo enrolado em açúcar baunilhado.
Eu cresci, as sonsas e os sonsos também, usam todas as características, de forma civilizada, esforçam-se muito para que a progenitura esteja dentro do mesmo modelo estanque, tem preocupações que não me passam pela cabeça, são estanques a novas ideias, a novos pensamentos, a descodificar o mundo, o mais longe que vão é a Punta Caña pela Top Tours, sem sair de dentro de si, fazem amor a dias marcados, da mesma forma que vão ao cabeleireiro.
Elas irão para o céu, um céu climatizado com vaporizador de odores de pinho e alfazema quimicamente sintetizados, sofás do Ikea e mesinhas cheias de revistas cor de rosa, eu irei para outros lados, com os joelhos esfolados, a provar novos frutos, com os ganchos a cair…

Comentários

Fernando Samuel disse…
Que os céu lhe seja... pesado - e que o teu «inferno» seja o que desejas.


Um beijo.
Maldonado disse…
Gostei da tua análise, bastante realista e simultaneamente irónica, sobre um tipo de pessoas social e moralmente detestáveis.


1. "(...) tem preocupações que não me passam pela cabeça, são estanques a novas ideias, a novos pensamentos, a descodificar o mundo, o mais longe que vão é a Punta Caña pela Top Tours, sem sair de dentro de si, fazem amor a dias marcados, da mesma forma que vão ao cabeleireiro."

Esta afirmação resume bem o que essa gente é: futilmente pequeno-burguesa. É retrógrada social e sexualmente. Para essas pessoas o Kamasutra é um livro tão demoníaco como O Capital... :))


2. "Elas irão para o céu, um céu climatizado com vaporizador de dores de pinho e alfazema quimicamente sintetizados, sofás do Ikea e mesinhas cheias de revistas cor de rosa, eu irei para outros lados, com os joelhos esfolados, a provar novos frutos, com os ganchos a cair…"

Hummm, muito sugestivo... Imagino! E viva o Inferno! :))
samuel disse…
Detesto esse tipo de sonsos e sonsas, na sua quase totalidae hipócritas. Tive colegas dessas, com os ganchos no sítio, a quem ensinaram que era fundamental, para além dos ganchos, chegar virgem ao casamento. E elas chegaram! Apenas e só naqueles poucos centímetros quadrados capazes de as "denunciar", mas chegaram.
Maria disse…
Eu, que nem tenho sofás, acompanho-te...
:))

Um beijo
Eric Blair disse…
pois, pá, mas conseguiram casar com um marido rico que as sustente, ah ah ah ah ah.
kadafi disse…
ahahaha essa imagem é típica e bem conhecida!
Ainda bem que não vais para o céu !!

Um abraço!
Sunshine disse…
Pois .... mas as boas meninas que vão para o céu têm, muitas vezes, aliás a maior partes das vezes, vidas escondidas onde são as mais perversas meninas que se pode imaginar.

No entanto a imagem é essa que descreves.

Hummmm .... vou para o inferno vou, mas gosto assim ;)

Bjs Ana e um f.d.s. o melhor possível
Anónimo disse…
Aninha, espero encontrar-me contigo no Inferno.
Não te esqueças do computador, porque espero continuar a ler os teus textos, assim mordazes, ouvindo a Maria João cantar e com cheiro alenha queimada que me faz lembrar a infãncia e os serões à lareira, no meu Alentejo.
Um beijinho.
Lagartinha de Alhos Vedros
Fausto disse…
O Bloco de Esquerda resolveu publicar uma notícia sobre Hugo Chavez e a aprovação pelo parlamento bolivariano duma emenda constitucional que permita a reeleição sem limite de mandatos não apenas para a Presidência da República Bolivariana, mas de vários titulares de cargos políticos como alcaides ou governadores, emenda essa que ainda terá de ser refendada pelo povo.

Pode ser consultada AQUI: http://www.esquerda.net/index.php?option=com_content&task=view&id=10395&Itemid=26

A notícia que o Bloco de Esquerda produz e que é tendenciosamente anti-Chavez, defindo o processo bolivariano com a expressão revolução socialista metida entre aspas, isto é: "revolução socialista". Está claro, porque da língua portuguesa, também percebo um pouco, como as aspas servem para perjorativamente darem a entender que, de socialista e de revolução, não há nada na venezuela. Se achassem que existisse, já não lhe punham "aspas", escreviam apenas revolução socialista.

Mal entendido ou teoria da conspiração? Infelizmente, a comprovar o mau juízo bloquista sobre a revolução bolivariana na Venezuela, está o eloquente facto de que, enquanto comentários pro-chavista à notícia foram censurados e excluídos, o Bloco de Esquerda, permite que um reaccionário comente:

"Que palhaçada! Oxalá o povo da Venezuela consiga correr com esse tirano!"...

Muito preocupado com a possível "reeleição ilimitada de Hugo Chavez" - como escrevem -cabe lembrar ao Bloco de Esquerda, que Francisco Louçã, Fernando Rosas, Miguel Portas ou Luís Fazenda (entre outros) têm concorrido ininterruptamente aos lugares de deputados desde 1999, exercendo os cargos e, provavelmente, virão ainda (e pelo menos) a concorrer em 2009 para se manterem reeleitos até 2013. É pena que, progressivamente, o BE esteja a saltar para a barricada daqueles que se opõem a Chavez e ao processo bolivariano.
Ana Camarra disse…
Fernando Samuel-Até que á primeira vista o inferno estará recheado de pessoas muito interessantes, não acredito que Picasso, Mozart, Marilyn, Hendrix, Marx, Lennon, Janis Joplin, Ary dos Santos, Jorge Amado, Van Gogh, entre outros estejam no céu.

Maldonado-É isso mesmo Viva o Inferno!

Samuel-Pois os sonsos são hipócritas, faz parte do pacote.

Maria-Pois vêm.

Eric-Pois isso não consegui, mas também não queria.

Kadafi-Podes ter a certeza que não vou.

Sunshine-O Inferno é mais quentinho….

Lagartinha-Posso levar um caderno.

Fausto-Isso não me espanta!

Beijos
CRN disse…
Ana,
Nem do céu nem do inferno voltaram cá para contar, o inferno, sem publicidade, só pode ser grátis, o céu, até um país com delegação comercial criou cá em baixo.
Abaixo o capitalismo!

A revolução é hoje!
E eu gosto tanto de ser assim... mazinha!!!!!!
E tenho tanta, tanta companhia!!!!

Beijos, Ana
salvoconduto disse…
Os ganchos que se lixem, gosto é mesmo de ti assim, os sonsos que não se aproximem.



Abreijos
Anónimo disse…
Ana

O mais emgraçado é que tu com ganchos desalinhados e joelhos esfolados és mesmo boa rapariga, sonsa não, nunca foste, se calhar até perdeste com isso.
Mas ficaste igualinha a ti própria.
Ès muito melhor que essas dos ganchos direitos.

(Esta musica és mesmo TU!)

Informação ao Eric Blair, a nossa menina cá no burgo teve pretendentes endinheirados mas a onda dela era sempre outra, para desgsto de alguns.

um abraço apertado

KL
Oliver Pickwick disse…
Ora, prezada Ana, não esquenta com o que chama de sonsas e sonsos. Não acreditos que pessoas dissimuladas vão para o céu.
Como o Fausto, de Goethe, apesar de todas as peripécias, no fim da história você se dará bem.
Cheguei ao seu blog por indicação da querida amiga Sunshine. E, como sempre, o instinto "sunshiniano" não falha, tem um ótimo blog.
Um beijo!
Ana Camarra disse…
CRN-:)

Ausenda-Se fosses das outras também tinhas companhia, era uma companhia pior na minha opinião.

Salvoconduto-Os ganchos teimam em escorregar pelo meu cabelo, nunca se aguentaram no sítio, um mistério.

el-rei não quero nem sou ser boa rapariga dentro daqueles parâmetros…

Oliver-Benvindo, a Sun é uma querida.

Beijos
AP disse…
Chama-se a isso viver!
Sempre identifiquei os sonsos com o tipo "andar no mundo por ver andar os outros"... Nada mais triste!
Zorze disse…
Ana,

Vou-te fazer uma revelação, que ao mesmo tempo já não o é.

Não existe céu ou inferno, na assumpção religiosa, seja ela qual for. Nem nunca houve.

Existem pessoas que hoje não comeram nada, alguns sementes esborrachadas no pirão. Esses alguns parece que são muitos milhões. E sempre a crescer.
O seu drama é que amanhã não sabem o que vão comer, e pior, o que seus filhos vão comer.

A questão da sonsice, é uma questão de uma pequena percentagem da Humanidade, no relativo, às relações sociais de barriga confortada e lares quentinhos, com edredon.

O mundo és do Diablo na forma imaginativa que as pessoas entendam na sua capacidade ainda diminuta de entender.

Beijos,
Zorze
Ana Camarra disse…
Zorze

Eu já desconfiava....;)
SENSEI disse…
Sonsos e sonsas, apenas máscaras usadas pelos que nunca souberam viver, pelos que sempre foram incapazes de fazer o que quer que seja, com criatividade, com inteligência, são usualmente incompetentes, que através da sua imagem de sonsos e de meninos e meninas aparentemente bem comportados, compensam o seu nulo valor como pessoas.
Não vão nem para o céu nem para o inferno, mas isso o Zorze pode explicar melhor!... Vão sim e sempre, para o mesmo sítio, ou seja, para o esquecimento que sequer existem ou existiram, tendo tudo lhes passado ao lado e ninguém ter dado por eles, como eles também nunca deram por nada.
Outros e outras há, que por detrás da máscara de sonsos, fazem envergonhar qualquer ser do mais debochado que possa existir.
Mas esse estado, o da sonsice, não passa de uma máscara conveniente.

Eu, pela parte que me diz respeito, o diabo é um sonso.

Xôxos

Ouss
Anónimo disse…
Que alegria grande reconheço na diversidade! Existe sempre uma espécie de fórmula ingrata para classificar qualquer coisa: aquilo que observamos no outro, mesmo que seja para dizer: "eu cá não sou assim" revelasse afinal ser uma caracteristica muito mais do observador do que do observado...aquele que afirma numa categorização tão fechada e descreve que características se observam no sonso e no seu oposto, esqueceu na sua generalização que todos os aspectos revelados são apreciações da sua mundividência.