domingo, 11 de janeiro de 2009

São memórias emprestadas, que eu sinceramente espero que não se repitam.



De tempos a tempos na CUF havia balões.
Não daqueles coloridos e festivos, os balões neste caso eram grupos de trabalhadores despedidos, dispensados, temporariamente até a fabrica decidir que precisa deles outra vez.
Sempre que acontecia um balão, sabia-se que a miséria iria ainda ser maior.
Para além dos sapatos herdados de pais para filhos, onde percorriam toda a escala do mais velho ao mais novo até não terem forma, além das noites cortadas pelo frio dos cobertores insuficientes, para além da roupa virada no ritual de descoser um fato tornar a cozer tudo pelas mesmas costuras, mas com o tecido virado do avesso, onde estaria menos gasto, para além de tudo isso, haveria fome, mais fome do que o habitual, porque ela estava sempre presente nas refeições eternamente insuficientes.

Deixava de existir a féria, exígua, para abater no rol da mercearia, para adquirir o pão, a posta de bacalhau, o naco de toucinho para a sopa…
Passado uns dias ou semanas, o desespero tomava conta das pessoas atingidas pelo “balão”, começava a circular que nessa noite se fariam os assaltos.
Os assaltos eram simples, grupos famintos entravam durante a noite nas mercearias e roubavam. Roubavam: grão, feijão, bacalhau, farinha, toucinho, roubavam comida, repito roubavam comida.
Os lojistas balançam entre duas atitudes, os que tentavam em vão conter aquela onda de desespero e os que pelo contrário estavam lá e abriam as portas.
A segunda atitude costumava ser a mais inteligente, para além de ser tudo feito com calma, sem estragar nada, era acompanhado com um sussurro de agradecimento e um pagamento à posteriori quando voltavam a ter trabalho.
Não assisti a isso, ainda bem, escutei esta história contada muitas vezes pela minha avó, pela memória infantil dos meus pais e tias.
São memórias emprestadas, que eu sinceramente espero que não se repitam.

22 comentários:

duarte disse...

infelizmente sinto no ar , esses novos velhos ventos...
A fome já aí está, ao virar de uma esquina...aliás houve quem nunca a saciasse verdadeiramente.
Eu lutarei para que nada disto se perpetue.
abraço do vale(onde a fome ainda não chegou)

poesianopopular disse...

Ana
Ainda recordo as senhas do racionamento, e de temperar o café da manha com um rebuçado,pedir no talho um pouco de tocinho gordo , parti-lo muito muidinho derretê-lo com alho e louro, numa frigideira e depois molhar o pão.
Eu não sou muito velho, mas era muito pobre, e penso nisso porque os tempos de hoje tendem a assemelhar-se.
Bjos camarada

salvoconduto disse...

E quanta gente nos dias que correm com vontade de fazer o mesmo...

Abreijo.

CRN disse...

Ana,
recordações demasiado presentes.

Abraço
CRN

samuel disse...

Esperamos todos, Ana. Esperamos todos!

AP disse...

Não sei não, Ana.
Se bem que distância não me permite ter a mais correcta das percepções sobre a realidade, sinto, por tudo aquilo que me contam e leio, que não estaremos muito longe dessa realidade. E enquanto a visão dos nossos governantes continuar tão obtusa e distorcida certamente que para lá caminhamos.
Bjs

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Temo que esses dias, de que muito ouvi falar na época, estejam prestes a voltar. Aliás,não é esse o mundo protagonizado por Pacheco Pereira?

Ana Camarra disse...

Duarte-Infelizmente parece que se advinham esses tempos, modernizados, mas essencialmente iguais.

José (Poesia)-Pois estas memórias são emprestadas, na minha familia sempre foram "remediados", mas guardo os livros de rol da padaria do meu avó com dividas de 20 anos de pão de certas familias, a quem o meu avô não negava porque sabia da miséria.


Salvoconduto-Deixa ver se qualquer dia não temos o mesmo esquema nos hipermercados.

CRN- Cada vez mais.

Samuel-Pois esperamos!

AP-Infelizmente, tens razão.

beijos

Ana Camarra disse...

carlos- Não sei, passo o mesmo cartão ao Pacheco Pereira que ele me passa, nenhum.
Mas que isto está a ficar muito feio, está.

beijos

José Gil disse...

Olá Ana está boa minha flor?

Desculpa mas não acho nada que esses tempos estejam assim tão próximos. Hoje existem uma quantidade de mecanismos que permitem aos desempregados verem esse tempo suavizado, tal como o Rendimento mínimo e o Subsidio de Desemprego ou até mesmo o Subsidio de Inserção.

Eu percebo o quão penoso deveriam ser os tempos que a tua avó recordava. Mas tenho a certeza que já mais voltarão.

Um beijo do tamanho do Mundo

Anónimo disse...

Desses tempos, aqui no Barreiro, fala-me o meu companheiros das muitas vezes que os seus pais "vinham no balão"
No Alentejo, lembro o povo ao rabisco da zeitona(apanhar bem ás escondidas as azeitonas que ficava depois de os agrários darem por terminada a apanha)lembro a idas aos moinhos longínquos para trazer um saquinho de farinha e farelo para os animais e lembro-me de ir á ribeira com um cesto( era mesmo cesto, bastava por na água e vinha cheio) apanhar peixe, sempre ás escondidas da guarda.
Em lisboa,lembro-me de ir comprar uma postinha de bacalhau demolhado 25 tostões e 6 ovos, era um bom jantar para 4 pessoas!
Aninha vida de pobre e muita vontade de ver isto mudar foi o que sempre tive, foi o que sempre teve o nosso povo
E mudou, não fossem estes governos e estaríamos bem melhor, mas com a nossa luta melhor sociedade ha-de vir.
Beijinho
Lagartinha de Alhos Vedros

Ana Camarra disse...

José Gil- Sinceramente espero que tenhas razão, mas o que vejo e que sinto não é isso, não serão iguais a esses tempos, mas esses mecanismos que falas revelam-se insuficientes.

Lagartinha- Esse testemunho é par daquele que aqui deixo, infelizmente, esperemos que não voltem.

Beijos

Anónimo disse...

Mas na CUF não era tudo bom? Um dia deste entrei na Bertand e desfolhei uim livro que estava à entrada. Meu Deus eu pensei que estava a sonhar ou que durante estes anos sonhei e porquê? Porque na CUF tudo era bom não havia yuma coisa má. E se a houvesse eram os trabalhadores.
Por isso se vierem esses tempos vai ser bom pois não havia fome, não havia falta de assistência médica, não faltava roupa não faltava nada.
Por isso estamos no bom caminho.

Anónimo disse...

Sabemos isto porque existem pessoas como a Ana.
Obrigada e um beijo

Ana Camarra disse...

Anónimo-Pois a CUF trouxe coisas boas inegavél,mas as más também o são inegaveis.
Existe quem queira só passar aquela imagem benevolente e protectora, não era bem assim, a CUF absorvia a vida desta terra por inteiro.

um beijo também

Zorze disse...

Esses tempos nunca acabaram. O presente está aí a reclamar novas aventuras.

Beijos,
Zorze

SENSEI disse...

Quando se empurra muito alguém, esta reage!
Se batermos muito num animal, não se revoltará ele?
Este povo já passou 48 anos de tudo isso, depois apesar de tudo o que de bom, embora pouco e, muito de mau houve, este povo já exprimentou uma vida confortável, ou perto dela. Assim, fica a davertência, para os incautos:
- Quem já viveu em pleno e, que veja e sinta reprimida essa vivência, que se acautelem os repressores, pois a moeda tem outra face, só que esta pode também ter outra cor, a cor vermelha do sangue dos opressores.

Ana acredito, que a violência se instalará, seguida da repressão, dando origem à desobediência civil, os confrontos serão inevitáveis. Começarão por assaltos cada vez mais graves e frequentes, culminando eventualmente em confrontos sangrentos, com os instrumentos repressivos que o estado opressor dispõe, contra o inicialmente quem rouba para comer, de seguida contra os que trabalhando, são explorados, desumanamente, pelo código de trabalho vigente, sem quaisquer garantias de futuro nem ganhos suficientes para viver, apenas sobreviver, saírão para as ruas em protesto, aí se darão os confrontos, que aumentando, poderão conduzir a braços armados organizados, que lançarão como que um aguerra civil neste país, muitos precerão, muitos serão os que morrerão colateralmente, mas o regime de terror sem dúvida instalar-se-á.

Evitar isto?

VOTAR CONTRA A CÁFILA PS/D - ESTE É O ANO!

Eles que fujam de novo para o Brasil, talvez o Lula não seja tão compreensivo como foi Fulgêncio Batista.

Xôxos

Ouss

Fernando Samuel disse...

Repetem-se, talvez, sob outras formas.



Um beijo.

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