sábado, 28 de fevereiro de 2009

Do espírito revolucionário dos Barreirenses.




Antes do 25 de Abril de 1974, apesar de toda a censura, no Barreiro, talvez noutros sítios, apareceram nomes fantásticos inspirados num espírito inconformista e revolucionário.
Acho importante este apontamento:
Um operário da CUF, anti fascista, ostentava o estranho nome de Rodas Nepervil, nome próprio, estranhíssimo, não era estranho porque era um anagrama, invertendo as letras era Livre Pensador…
Outro tinha um nome próprio fabuloso: Kropotkin. Em homenagem a um herói da Revolução Soviética. A chatice era os outros não saberem repetir aquele nome estranho e chamarem-lhe “Carapaudequilo”.
O cão de um dos meus amigos de infância, belo e meigo Pastor Alemão, respondia pelo nome de Tovarich.
Convivi de perto com umas irmãs com nomes próprios que denunciavam logo o espírito paternal: Maria da Paz, Maria da Liberdade, Maria Felicidade, Maria da Luz, Maria da Fraternidade.
Conheci e conheço, felizmente, vários Lenines, Estaline e Vladimiros. Todos nomeados em homenagens inequívocas, estranhamente todos baptizados antes do 25 de Abril, muito antes. Mais estranho é ter conhecimento de dois Estaline de Jesus….
Nome próprio, note-se.
Ainda há dias um, Lenine de nome próprio, rapaz para mais de sessenta anos, me contava com o seu inconfundível sotaque Camarro que na Escola Primária ele e os dois melhores amigos eram o alvo referencial das reguadas, do Professor defensor do Regime Fascista, por serem reguilas, agitadores, revolucionários, como os seu nomes próprios, Lenine, Estaline e Vladimir…..
(quadro de Belmiro Ferreira, Barreirense, que depois de reformado pintou o Barreiro como se lembrava, a maioria dos seus quadros são propriedade da Câmara Municipal)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Eis

Eis que chega outra vez uma sexta feira ou nós chegamos a outra, não sei se é o tempo que avança decidido, arrogante, se somos nós que nos multiplicamos em mil e uma tarefas para amanhã, depois de amanhã, para o outro dia e assim conseguimos fazer uma espécie de prova de barreiras, onde galgamos as coisas sem pensar no rasto que fica atrás de nós, só pensamos na próxima, que no imediato passa a ser a última, fica esquecida.
Nesse rasto fica tanta coisa, os telefonemas que não fizemos, as horas que não dormimos, aqueles pedaços só nossos para olhar qualquer coisa, aquela meia hora que nos era imprescindível para outras coisas que não fosse estar só um bocadinho, mesmo só um bocadinho parado, num sofá, numa marginal a ver a água, num jardim, só a ver o céu.
E nas sextas-feiras ficamos neste compasso, do fim-de-semana, que é mentira, porque não livre, desocupado e ocioso, nem é fim, é só dois dias com compromissos diferentes, nada mais que isso. Um respirar profundo, um outro fôlego.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

ABRACADABRA!


As crianças respondem de forma surpreendente, relembro o meu filho mais velho com cerca de quatro anos num almoço família, pediu o pão, à minha tia, que lhe perguntou “Qual é a palavra mágica?”.
Ele pensou e respondeu “Abracadabra
Da mesma forma que com uns 5 anos iniciou o irmão nos mistérios da reprodução humana, jantar em família, o mais novo pergunta:
Como é que os bebés vão parar à barriga das mãe? Elas engolem-nos?”
Eu corri para a dispensa, morta de riso, deixando o pai embaraçado a pensar como ia explicar tal coisa ao nosso reguila de 3 anos. Não foi preciso, o irmão elucidou-o:
Sabes as bolinhas junto à pilinha? Quando formos grandes ficam cheias de sementes, depois os pais despejam as sementes na barriga das mães, elas vão todas a correr, a que ganha transforma-se num bebé, se ganharem duas ficam como a Maria e a Isabel (duas gémeas)!”
Limitei-me a confirmar que sim que era verdade.

Todos os pais tem histórias destas, afinal eles sabem mais do que parece, conseguem perceber o mundo melhor do que pensamos.
Até podem substituir o enfadonho Se faz favor com algo muito mais divertido como Abracadabra!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Ao redor de Ana

Já era Ana antes de ter nascido, o meu pai tinha decidido que sim, era uma rapariga e Ana. Na época nem em ficção científica se descobria o sexo dos bebés por nascer, havia palpites de acordo com o formato da barriga das grávidas, mas certo era esperar pelo momento em que um novo ser, ainda assustado, com o primeiro sopro de vida, chegasse saído do ventre materno.
E foi assim, comigo acabadinha de chegar a este mundo ainda de cordão umbilical e coberta de mucos variados que o meu pai irrompeu pela sala de parto, pegou-me e beijou-me. Perante a indignação geral, porque na época o parto era coisa estritamente feminina e não era hábito ou aceitável que o pai estivesse presente.
O meu pai escolheu o nome por vários motivos, fácil, pequeno, a menina iria aprender a dizer o seu nome rapidamente.
E assim foi, uma rapariga, Ana, com a cara chapada do pai, que construiu múltiplas cumplicidades com ele, a música, os ideais, o mar, o cinema, os livros, uma certa forma de estar e ser. Dois grandes amigalhaços, mais que tudo.

Os únicos homens da minha vida de quem gostou foram os netos! Outros foram tolerados.
Se eu tenho o síndrome do ninho vazio, sei que o meu pai o teve muito mais, colmatámos isso, estando juntos todos os dias, no final do dia de trabalho, falando de tudo, mesmo tudo.
Numa das últimas conversas pouco sérias que tivemos, eu e ele, falámos do meu nome, estávamos na azafama natalícia, eu tinha de escolher a prenda da minha mãe, da minha irmã e dos meus filhos, no final a minha.
Escolhi uma gabardine, acabou por dizer o costume “Se para tua mãe e para tua irmã escolhemos uma coisa em ouro, para ti é a gabardine porquê?” “Porque me faz mais falta!” “És sempre a mesma coisa! Queria oferecer alguma coisa que fique!” “Eu fico com a gabardine” “Já viste que Ana ao contrário é Ana?” “Pois, o contrário de mim sou eu na mesma!”
E é assim mesmo, o contrário de mim sou eu!
Pouco tempo depois, pouquíssimo, entrou na espiral alucinante de cirurgias, cateteres, hemodiálise, onde todos os dias falávamos na mesma, até quando ele parecia não ouvir…
A gabardine tem 11 anos e continua lá em casa, ficou….

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Tenho de crescer!



Ver os filhos crescer tem muito que se diga, a partir daquele momento que irrompem do nosso ventre, nada mais é igual.
Por vezes antes.
A partir daí passam a ser o centro do nosso mundo, as nossas vidas passam a estar cronometradas pelas suas necessidades, com alegria, é uma doce obrigação na maior parte dos casos.
Ficamos reféns daquele cheiro de bebé, daquelas mãos que servem de âncoras, das perguntas, dos primeiros passos, dos primeiros dentes, das primeiras palavras, das primeiras letras.
Passam a marcar o ritmo da nossa vida, a hora de deitar as refeições, os passeios, as férias, a hora de acordar, acordar muitas vezes, quase nunca mais conseguir ler um livro com calma, um jornal, as idas ao cinema sujeitas ao “Para menores de 6 anos”, “…de 10” …
Depois um dia crescem, são sempre os nossos meninos, mas vão sós, ao cinema, aos passeios, e aqueles anos longos em meses, dias e horas, foram rápidos.
Muito rápidos.

De repente voltamos ao ponto de partida temos de aprender a estruturar tudo outra vez de outra forma, aprender nós, a andar sós, a ir ao cinema sem eles, a passear sem eles, fazer jantar para menos pessoas.
Custa um bocadinho mas temos de crescer, não é?
(Aqui ao lado Chico Buarque canta que as suas neninas já saem sózinhas e os Tribalistas dizem que já sabem namorar. Os meus meninos já saem sozinhos e sabem namorar...)

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Penélope




Os mitos femininos são circulares.
Penélope, Rainha de Ìtaca, mulher de Ulisses, ficou só na corte quando ele partiu para o cerco de Tróia, parece que durou 12 anos, também não sei se seria mesmo assim, porque todos os livros antigos são muito exagerados nestas questões.
Mas Penélope ficou, passado algum tempo os pretendentes ao trono exigiam que ela escolhesse novo marido, pressionada, até por seu pai, decidiu tecer, uns dizem uma colcha, outros um tapete, não interessa, Penélope tecia durante o dia perante o olhar da corte, de noite quando todos dormiam desfazia o trabalho, tornando-o eterno.
Ulisses voltou depois de muitas peripécias, não sei se mereceu esta astúcia de Penélope, mas gosto de pensar que ela o fazia por ela própria.
Falo nisto porque acho que todas temos algo de Penélope, eu por exemplo recuso a ociosidade, muitas vezes contra mim, para além do trivial, ocupo-me a pintar, pratos caixas, a bordar, a tecer com as minhas agulhas circulares, descarregando naquelas laçadas de lã, medos, inquietações, apreensões, entretenho-me ainda a construir projectos, que concebo, gero, que acabo por parir, que de vez em quando tenho a suprema alegria de ver andar pelo seu pé, da mesma forma que junto assim letras, em palavras, em frases, que por vezes desfaço e volto a fazer…

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Cenas que marcaram VI

Fellinni sempre, mas ao seu lado Giulietta Masina, uma mulher fascinante, não bela mas com um olhar expressivo, um ar infantil, um filme fabuloso, La Strada, onde se olha com amargura uma Itália do pós guerra, destruída e pobre, onde o grande Zampano corre as estradas na sua motoreta a vender as suas habilidades em troca de meia dúzia de tostões. Faz muito tempo que não revejo o filme, tenho de ter uma certa pré disposição.
Uma chamada de atenção para o tema musical, belíssimo.
Difícil escolher um filme dele, com ela, que não me tenha impressionado.
Um dos filmes é “Giulietta dos Espíritos”, quase que me atrevo a dizer que Giulieta era o seu espírito e só assim juntos fizeram tantas obras de arte.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

As noivas




As noivas foram durante séculos uma espécie de moedas de troca.
Confesso que nunca senti aquela atracção maluca pela festa do casamento e acima de tudo pelo famoso traje de noiva, aliás penso que se a maioria das mulheres reflectisse um pouco sobre os diversos significados associados ao ritual do casamento mudava de ideias.
As noivas no mundo ocidental vestem-se de branco, como símbolo de pureza e virgindade, uma virgindade que é entregue como um sacrifício, já sabemos que isso é muito relativo, mas a intenção é essa, também tem a ver com sacrifício as flores que enfeitam as noivas, por outro lado a chuva de arroz com que são brindados os noivos no fim da cerimónia simboliza o sémen, é uma forma de desejar abundância e uma prole numerosa….
Mais ainda, a aliança tem vários significados, todos maus, desde o significado de posse pura e simples por parte do marido, o compromisso (esta é a menos má) ou ainda uma teoria mais radical que diz que ao principio certas tribos, como os Romanos, quando raptavam mulheres para acasalar, amarravam-nas pelo pulso, à medida que tornavam dóceis era-lhes colocado um atilho no dedo para não se esquecerem a quem pertenciam….

Adoptar o apelido do marido também é renunciar à nossa família.
Pronto, tenho muitas amigas que casaram com pompa e circunstancia, deram muito valor aquele momento, planeado ao milímetro.
Algumas já vão na segunda e terceira volta…
Eu optei por outra via, talvez fruto de ter nascido no seio de uma família um pouco sui generis, a minha mãe também não se vestiu de noiva.
Nunca achei muito lógico gastar um dinheirão em trapos de espécie nenhuma, muito menos num traje para vestir uma única vez.
No entanto já me vesti de noiva!
Não no dia do casamento, mas uns tempos antes, quando nem sequer pensava em casar, onde me desloquei com mais três amigas a várias lojas de Lisboa, em cada loja, uma de nós fazia o papel de nubente, nessa condição experimentamos tudo, vestidos curtos, compridos, chapéus, véus, grinaldas, corpetes, etc.
Pena não existirem máquinas fotográficas digitais para registar tal delírio.
Quando acabamos lanchámos, no Chiado, entre gargalhadas, pouco tempo depois todas nós acasalámos, nenhuma de nós casou vestida de noiva!
Engraçado é que os nossos relacionamentos ainda duram…

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O Sexo dos Anjos


Parece que quando as discussões se eternizam, não chegam a lugar nenhum, se diz que se está a discutir o sexo dos anjos. Esta expressão, tem origem no Império Romano do Oriente, a corte na sua Capital Bizâncio, também conhecida por Constantinopla e actualmente Istambul, entretinha-se em discussões intermináveis sobre temas religiosos, daquelas discussões tão eficazes como a do ovo e da galinha.
Uma das favoritas era discutir sobre o sexo dos anjos, trocavam-se argumentos, os que achavam que os anjos eram sem dúvida masculinos, uma espécie de exército divino, por outro lado se Deus tinha criado o homem à sua imagem e semelhança, claro que os anjos também, mais ainda as mulheres eram um derivado criado da costela de Adão, tentadoras e pecadoras, não tinham estatuto para tal.

Mas ainda assim, os anjos eram retratados com um ar efeminizado, havendo quem argumentasse que existiriam anjos de ambos os sexos, o que era controverso, ou que eram seres assexuados, pior ainda.
Certo é que um anjo tinha avisado Maria de que concebia o filho de Deus e embora nunca ninguém os tivesse visto, dava-se como certa a existência dos anjos da guarda, uma espécie de zeladores ou guarda costas da alma e da integridade física.
Sinceramente não sei se existem, nunca os vi, acho que se tenho um anjo de guarda é muito distraído, talvez esteja assoberbado de trabalho ou ainda funcione como outras instituições, lenta e parcialmente.


Ainda menos sei se é um homem com pouca sensibilidade para as minhas necessidades e chatices femininas, ou uma mulher preocupada com múltiplas tarefas, porque as mulheres têm destas coisas, resolvem fazer muita coisa em simultâneo e depois dá raia.
Aliás estou a chegar à conclusão que, a existirem, são mesmo muito distraídos, para além de perderem o rasto de Maddie, de Joana, de não terem protegido os meninos da Casa Pia, preocupam-se com os carros alegóricos do Carnaval de Torres, também me parece que os operários despedidos nos últimos meses têm anjos da guarda pouco eficazes, por outro lado outros há competentíssimos como os que tomam conta dos senhores do BPN…

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Cenas que marcaram V

O filme é de 1981 e chama-se Excalibur.
O tema á a lenda do Rei Artur, eu sou uma apaixonada pelas lendas Arturianas, principalmente por que retratam o ponto de viragem entre múltiplas crenças pagãs e as colagens que a Igreja Católica fez para se afirmar.
Tenho como quase um passatempo ler e pesquisar sobre o assunto, descobrindo sempre coisas fascinantes, como a redução das mulheres nas decisões politicas, ou a criação de mitos cristãos como o do Santo Grall.
È o principio da Idade Média ou Idade das Trevas e de facto foi uma das épocas em que o conhecimento regrediu mais.
Por outro lado acho que todos temos uma criança em nós que adora as histórias de dragões, bons e maus cavaleiros, feiticeiros, bem como a ideia de um governante justo, que assume os outros como iguais. Aqui ninguém é totalmente mau ou totalmente bom, como na vida.
Está tudo neste filme, o sábio Merlin, o inocente Artur, Guinevere e Lancelot presos entre a sua fidelidade ao Rei e o desejo que os consome, a sensual e inteligente Morgana, a espada mágica Excalibur, Uther Pendragon, lúbrico e guerreiro, a Tavola Redonda e Camelot. Tudo com bons actores, boa música, excelente, fotografia, sem ter actores com o sotaque dos filmes de cowboys…

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Sabes?



Sabes do que me lembro?
Não me lembro da cor da camisola, nem me lembro se tinha o cabelo longo, curto, apanhado, solto, nem me lembro de outras coisas.
Mas lembro-me da luz do sol entre a folhagem, lembro-me do cheiro a sal, dos gritos alucinantes das gaivotas, da música que tocava em surdina no rádio do carro, apesar de estar calor, das tuas mãos a provocar arrepios…

Ser ou não ser pai


Logo de manhã no rádio do carro um dignitário da Igreja com esses sibilantes na voz, qual caricatura de si próprio, falava contra o casamento dos homossexuais.
Segundo ele porque é mau para as crianças, porque as crianças precisam de um pai e de uma mãe, não de dois pais ou de duas mães…

De propósito ou por estranha coincidência passa por mim e faz-me adeus com um sorriso franco um dos meus meninos perdidos, nasceu com pai e mãe, a mãe separou-se do pai, levou-o para uma ilha de bruma do Arquipélago dos Açores, onde o deixava sozinho numa cama com um biberão, todo o dia, por vezes toda a noite, com as fraldas sujas e no escuro, foi resgatado pelo pai, com consentimento da mãe, que cedeu a custódia a troco de mil e quinhentos euros…
Relembro ainda o caso do Felipe (tem outro nome, claro), queimado deliberadamente pela mãe com água a ferver aos 5 anos, do pai absolutamente indiferente a tal coisa “Alguma coisa ele fez…” era o que repetia com ar de torpor alcoólico.
Recordo ainda todos os meninos e meninas indesejados, que nascem de pai e mãe, que são maltratados por vezes até à morte por quem os devia proteger.
Recordo o exemplo do Gabriel, que a mãe depois de um casamento falhado, encontrou paz, sossego e carinho com outra mulher, outra mulher que levava o Gabriel à Escola, às vacinas, que o ajudava nos trabalhos de casa, hoje o Gabriel é casado têm um filho que coloca à guarda dessa outra mãe, não tem dúvidas sobre a sua sexualidade, o pai dele nunca procurou conhecer aquele neto.

Por fim pensei se o senhor dos esses sibilantes saberia do que estava a falar?
Se cumpriu todas as normas da conduta que abraçou não procriou, não sabe que mais do que tudo uma criança precisa é de amor, incondicional, carinho, claro que precisam de outras coisas também, quantas mães e quantos pais por outros motivos sem ser a orientação sexual educaram sozinhos os seus filhos, quantos pais só de carinho educaram filhos alheios, quantos heterossexuais, casais, maltratam os seus filhos?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Retenções na fonte


Não vou falar do sistema tributário.
Vou falar das retenções que faço na fonte.
Geralmente tento reter uma série de emoções, mágoas, saudades, pequenos aleijões, palavras que me disseram que ficaram a boiar dentro de mim.
Retenho-as, guardo-as, faço de conta que nunca existiram, mas ficam assim retidas, como águas num dique, como aquelas represas que os castores constroem, com paus, folhas tronquinhos.
Eu faço o mesmo, com as saudades do meu pai de outros, com diversos medos, com a vontade de gritar a certas pessoas, com lágrimas que sustive, com palavras que me magoaram e eu fingi que não, depois fica tudo ali acumulado a boiar, as saudades e os medos a apodrecer, a criarem uma espécie de bolor, a deixarem nódoa.
Sempre me disseram para não guardar tanta coisa cá dentro, eu tento, mas não consigo, de vez em quando um pequeno acontecimento, banal, simples, trivial, solta não sei que peça fundamental da minha represa, quando acontece, solta-se esse dique, como todos os diques quando rebentam arrasta tudo, quando isso acontece, choro ou grito ou falo de uma forma dura, áspera, que não é hábito.
Liberto essa retenção que fiz na fonte, fico apenas com um ribeiro tranquilo e livre dentro de mim, passado um dia começo a juntar outra vez, mágoas, troncos, saudades, folhas e medos.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Não se mede....


Este fim-de-semana dei conta de vários estudos.
Num, cientistas chegaram à conclusão que em cada dez casais, um, tem condições para viver feliz toda a vida e perdidamente apaixonados.
Com os mesmos níveis hormonais de um casal em inicio de relação.
Uma espécie de lotaria amorosa.
Por outro lado, outro estudo científico, demonstrou que em fase de inicio de paixão só uma pequena porção do cérebro que fica activa.
Quantos filmes, quadros, esculturas, poemas, romances, canções, bailados, têm como tema central o amor? Muitos!


Ou seja um dos temas principais da criatividade humana não utiliza muito a cabeça…
Será uma mistura de choques eléctricos nos neurónios, reacções químicas e hormonais, sentidos que enganam, tudo sem pensar muito.
Depois de ler estas belas noticias só pensei numa coisa: desgraçados estes cientistas que passam horas, dias, meses a medir e estudar o amor.
Talvez nunca tenham passeado de mão dada à beira mar, ou dado um beijo apaixonado, ou sentir que o sol brilha mais, céu fica mais azul só porque uma pessoa chegou.
Não sabem que o amor não se mede? Não se quantifica? O amor acontece….

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Tenho de ir fazer algo util para a sociedade!


Hoje foi um domingo o mais domingo possível.
Não fiz nada!
Quer dizer, li, levantei-me, vesti-me, fiz o meu pequeno almoço, comprei pão e o jornal pelo qual passei os olhos ociosamente na praia, visitei a família e assim almocei, regressei à casa de partida e preguicei no sofá.
Vou fazer um jantar do mais básico possível, não fiz nenhuma das tarefas domésticas que tinha em mente e que me vão sobrecarregar noutro da qualquer, nem tão pouco peguei nos meus caderninhos ou nos projectos iniciados nesta máquina onde escrevo, que tenho de terminar, preguicei.
Ao preguiçar tropecei em coisas através da Tv., um episódio do Sexo e a Cidade e um filme que desconheço o nome, basicamente falam do fim dos relacionamentos.

Eu sei que existem coisas importantíssimas, mas como estou preguiçosa, como um gato ao sol, fiquei por aí, a mesma a temática vinha no jornal dominical.
Basicamente:
O que fazer quando um dos dois não quer estar na relação ou não está de todo?
Como se prende alguém que não quer ficar?
Como se começa a amar alguém?
Como se deixa de amar, assim num ápice?
Como é que a raiva, o desprezo, a indiferença substituem tão rapidamente a paixão?
Estou tão preguiçosa que espero que algum de vocês me responda.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Cenas que me marcaram IV

O filme é 1951, chama-se Anna, a actriz é a belíssima Silvana Mangano.
Vi o filme, pequenina, numa das Sessões do Cine Clube, ensinaram-me a música El Negro Zumbom, afinal a personagem tinha o meu nome…
Enterrei esta cena belíssima num esconso da memória, até que noutro filme maravilhoso, Cinema Paraíso, revejo esta menina mulher, sensual e inocente.
Comecei a trautear Teño ganas de bailar….

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Insignificante




Eis que chega outra sexta-feira e nem sequer estou irritada!
Poderei estar cansada, mas estou de relativo bom humor, assim tranquila como um mar chão.
Não que o mundo se tenha alterado substancialmente, continuam os despedimentos, o papão da crise, o chorrilho de escândalos e misérias várias: Centros Comerciais construídos de forma pouco clara, aviões que estacionaram em solo nacional com prisioneiros aprisionados de forma pouco clara, uma espécie de paz podre em Gaza, presa por fios colados com cuspo, também pouco clara, tudo muito escuro, mesmo.
As expectativas altas, muito altas, num homem do outro lado do Atlântico, continuam as crianças abandonadas, maltratadas, trocadas de pais sem saberem, perdidas, sem saber se algumas se encontram com os seus afectos ou consigo próprias.
Dentro de mim em continua a travar-se uma batalha surda, de relações químicas, onde espero como quase em tudo que os bons vençam.
De certeza que os dias de sol contribuem para esta minha melhoria de disposição, a alegria de algumas tarefas cumpridas, alguns mimos de amigos e família, algumas coisas ínfimas pessoais conseguidas, com algum esforço imaginação, daquelas que dão um cansaço bom.
Talvez tenha sido do tricot, onde fui descarregando freneticamente alguma energia a mais, sim porque ainda assim tenho energia a mais.
E eu continuo aqui, mais ou menos a reinventar-me e a espantar-me, maravilhar-me e até a chocar-me com o mundo ao meu redor, embora o mundo não gire ao redor de mim e eu seja assim pouco mais que uma formiga, pequenita e insignificante.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Um fio...



Deu-me uma fúria para tricotar! Neste caso cachecóis.
A minha tia Rosa iria ficar pasmada, mas não iria gostar das cores e dos padrões algo aventureiros, nem do facto de não cumprir regras, iria olhar para mim abanar a cabeça e suspirar "Esta rapariga...", adiante.
Se por um lado enquanto faço esta tarefa mecanicamente, descontraio-me, por outro mantenho-me activa naqueles pedaços que seriam de ócio. Normal, costumo dizer que me ensinaram a trabalhar e pouco mais sei…
Ao tricotar vou fazendo nós, laçadas, entrelaçando o fio e construindo, vou misturando assim as cores num fio condutor, um fio que por si só nada é, apenas um fio.
Um pouco como a vida que é um fio condutor de várias coisas, que se vai entrelaçando, enrolando, transformando, onde cada pedaço de fio por si só nada é, apenas no seu conjunto será uma existência
Aproveito e fico com modelos exclusivos!

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Bairrismo?!


O Barreiro é fértil em história peripécias e outras curiosidades.
Ao “falar” com outro pessoal na blogosfera dou conta da má imagem da minha terra, o Barreiro é conhecido como um dormitório, feio cinzento, outrora povoado de fábricas e de fumo, nada mais.
Eu sou suspeita, como quase todos os Barreirenses adoro a minha terra, vemos os defeitos, claro, por vezes somos os mais críticos, mas isso é para consumo interno, quando nos dizem mal do Barreiro, salta a veia bairrista, mais que isso registo com agrado que muitos Barreirenses por adopção partilham da mesma atitude.
O Barreiro não nasceu há 150 anos com o Caminho de Ferro ou há 100 com a CUF, convém esclarecer, tem mais de cinco séculos de Foral, mas antes disso já se sabe que era povoado em tempos pré históricos, que o Romanos chamaram a Coina Aqua Bonna, água boa, que aqui existiu um Convento Franciscano, dos mesmos Franciscanos do Convento da Arrábida ou do de Mafra, que aqui se construíam Naus para os Descobrimentos e não só, as formas de biscoito e pão de açúcar levados nas mesmas Naus, e os biscoitos propriamente ditos, que era daqui e de toda a Margem Sul do Tejo que saiam legumes, lenha, peixe, água potável para abastecer Lisboa, em barcos á vela, Fragatas, Varinos e Muletas, que aqui se moía o grão em Moinhos de Vento e Moinhos de Maré, que aqui existia a Real Fabrica do Vidro e salinas a perder de vista.

Mais recentemente foi aqui também que se fixaram várias fábricas de transformação de cortiça, arrastando no século XIX, milhares de portugueses em busca de uma vida melhor, tarefa facilitada cm o Caminho de Ferro, tarefa que continuou com a CUF, e assim o Barreiro cresceu, muito mais do que se esperava.
Desse crescimento resultou também uma população diferente, Anarco Sindicalistas, centenas de Colectividades de Cultura e Recreio com tudo o que concretizaram: Alfabetização, Grupos de Teatro, Bibliotecas, Bandas, Desporto, produzindo várias figuras de destaque nacional das diversas áreas, todas elas aliás, escritores, artistas plásticos, actores, desportistas, músicos, tanta gente.
Não vivemos só de passado, continuamos, todos, espero e penso, a construir um Barreiro com futuro.
Por fim dizer que sim, durante muitos anos o ar era quase irrespirável, com um cheiro a enxofre e de cor cinzenta, costumo dizer que a poluição foi mais uma prova, como todas as provas aquilo que não nos aniquila só nos torna mais fortes.

(fotos roubadas ao Ferreira da Luz)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Espero sempre



Espero sempre
Espero outra madrugada
Espero-te a ti, sempre
Espero que tudo vá correr bem
Espero nunca estar só
Espero apenas que me deixem estar
Assim só comigo, de vez em quando
Espero continuar a não saber fingir
No dia em que aprender já não serei eu
Terei reinventado outra
Espero que as coisas germinem
Todas as coisas, as flores, os sorrisos,
As raivas, as esperanças, as calmarias
As carícias também
As gargalhadas
Espero terminar sempre o projecto
O que tenho entre mãos
O que ainda não iniciei
Até aquele que nem em sombras existe
Espero o sol sempre
Espero que o tempo não seja inclemente
Espero não prometer nada, mesmo inadvertidamente
Não gosto de faltar a promessas
Espero por vezes sentada num sítio qualquer
Algo que nem sei o que é
Espero por mim?
Ou será que já passei e nem me dei conta?
Entretanto como não gosto de esperas ociosas
Encho-as
De mim

Flutuo

Por vezes músicas que já escutámos centenas ou milhares de vezes “batem-nos”, como dizem os meus filhos.
Talvez porque acto de flutuar seja o que quase menos esforço exija e simultaneamente mais calma e prazer me dê, talvez porque existem sempre uma infinidade de coisas que estão sempre penduradas à espera de um amanhã que tarda, talvez porque me faça muita falta aquele balanço confortável, seguro, inquietante da maré que acho que marca vários ritmos em mim.
Esta “bateu-me” hoje:

Flutuo, consigo deslindar o meu gosto sem esforço
Balanço é o que a maré me dá e eu não contesto
O meu destino está fora de mim e eu aceito
Sou eu despida de medos e culpas, confesso
Hoje eu vou fingir que não vou voltar
Despeço-me do que mais quero
Só para não te ouvir dizer que as coisas vão mudar amanhã
Flutuo, consigo deslindar o meu gosto sem esforço
Balanço é o que a maré me dá e eu não contesto
Amanhã, pensar nisso sempre me dá mais jeito
Fazer de mim pretérito mais que perfeito
Hoje eu vou fingir que não vou voltar
Despeço-me do que mais quero
Só para não te ouvir dizer que as coisas vão mudar amanhã, amanhã
Hoje eu vou fugir para não me dar a vontade de ser tua
Só para não me ouvir dizer que as coisas vão mudar amanhã, amanhã, amanhã
Flutuo

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Pecados – Preguiça




A segunda-feira deve ser o dia mais preguiçoso da semana, ao fim de semana acordo na hora, como se não fosse fim-de-semana, mas na segunda-feira custa-me sempre mais levantar.
Peço a um braço para se mexer, ele finge que não percebe, a uma perna e ela faz mais força no ninho da cama, lá consigo arrastar-me e arrastar essas partes todas de mim, lavar a cara de preferência com água fria para me acordar, sacudir esses farrapos de preguiça, sacudir a vontade de ficar, preguiçar, ler, enroscar-me, marimbar-me para os compromissos, fingir que não sou eu, sou outra, a que fica ali, e relembrar

“…
Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...
Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma…. “

domingo, 8 de fevereiro de 2009

E ainda assim só



Ainda assim só sinto-te à distância dos gestos maquinais, de brincares com o meu nariz, por exemplo, naquelas aproximações desajeitadas que os homens fazem, talvez por medo da indiferença ou da rejeição.
Sinto palavras que nunca dizes, palavras que por não dizeres, não repito, e assim se gastam as palavras que nunca são ditas, sabias?
Mas é assim mesmo.
Sabes que quanto mais me abraças mais livre me sinto?

sábado, 7 de fevereiro de 2009

As cuecas das mulheres



Há algum tempo atrás escrevi aqui sobre as cuecas dos homens, a preocupação básica era não aparecerem de peúgas e cuecas a mulher nenhuma, porque é uma figura horrível, capaz de matar qualquer desejo libidinoso, por muito jeitosos que eles sejam, que as cuecas sejam, não importa se boxer se slip, a meias podem ser de fio Escócia sem costuras ou daquelas das raquetes, não interessa, o efeito é o mesmo.
A minha preocupação com este assunto é simples, sou mãe de dois rapazes e quero que tenham uma vida amorosa feliz.

No entanto não me parece justo não referir que existem figuras nas quais nenhuma mulher deve de aparecer a um homem. Não é o caso das cuecas e meias, desde que não sejam cuecas de gola alta, uma mulher que apareça de cuecas e por exemplo meias de ligas, não corre o risco de murchar a libido masculina, antes pelo contrário, mas, existem uns mas, por exemplo aparecer de rolos na cabeça, de descolorante no buço ou cera ou depilatório, tanto faz, mascara facial, particularmente as de argila, mini meias com saia, a famosa sueca de gola alta, tudo isso é contraproducente só suplantado por aquele traje comum em certas zonas urbanas constituído por chinelos de quarto, camisa de dormir ás florzinhas, bata e por cima disso o roupão de carpélio….

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Almoço no Campo

Chegado o verão, a família organizava-se para realizar almoços no campo.
A organização era fundamental, porque equivalia ao deslocar de uma qualquer tribo nómada.
Era tudo combinado antecipadamente, geralmente marcava-se para o sábado seguinte, como tal na sexta-feira as avós, tias e afins, afadigavam-se na cozinha: rissóis, croquetes, pastéis de bacalhau, costeletas panadas, ovos verdes, salada russa, pão-de-ló e biscoitos, eram confeccionados.
De manhã cedo partia a frota, era uma frota, só Fiat 850 lembro-me de três de cores diferentes, carregados com os acepipes já referidos, fruta, tachos de arroz de tomate embrulhado em jornal para não arrefecer, garrafão de água, um de vinho também, umas gasosas, termo de café, toalhas de mesa, cadeiras desdobráveis, mantas, almofadas, redes para pendurar nas árvores, baralhos de cartas, bolas, ringue, etc., etc., etc., eram muitos etc.
Chegados ao local escolhido, hoje com vivendas de gosto duvidoso em vez dos pinheiros mansos da minha infância descarregava-se o sector sénior e as bagagens. Nós seguíamos para uma manhã de praia da qual nos custavam a arrancar.
Mas arrancavam e chegados á mata almoçávamos, o resto do dia era ali passado entre balanços de rede, jogos diversos, aventuras fantásticas entre os pinheiros, até que a posição solar ordenava o recolher.
Lembro-me de sermos resistentes e só entrarmos nos carros quando tudo estava guardado. No entanto não recordo a viagem de regresso, adormecia, acordava mesmo ao chegar à porta de casa, depois do banho dormíamos um sono justo que acho que nunca mais experimentei, embalada com as ondas da manhã e os pinheiros da tarde.
Fica aqui uma foto de um desses almoços, o sector infanto-juvenil, eu sou a que pisca o olho, o resto tudo primos!