segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Depois do arco iris ou daqui por umas semanas...


No feiticeiro de Oz, a Judy Garland, jovem e inocente, sem a vida devastada por barbitúricos, dietas mirabolantes e outras coisas descobre que batendo os sapatinhos vermelhos um no outro e rezando interiormente “Não há local como a nossa casa”, consegue voltar para o Kansas, a preto e branco, sem anões e feiticeiros, com o conforto das coisas familiares.
Eu não calço sapatinhos vermelhos, só sapato de ténis daqueles que abotoam com tiras de velcro, o esquerdo, é sempre o meu lado melhor o esquerdo, também não bato com os pés um no outro, limito-me a abanar o esquerdo, mas já estou em casa.
A minha casa, que mais ou menos fui construindo, com o mobiliário que escolhi dentro daquilo que pude comprar, uns moveis velhos de antepassados porque tenho esta paixão por velharias, a minha almofada, a minha cama, os meus filhos, o meu cão, o meu companheiro.
Não é fácil ver o cotão a crescer, o pó a invadir a superfície dos moveis as coisas mudadas de sitio para passar uma cadeira de rodas, estar dependente de todos para quase tudo, grande parte do dia atendo telefones, pelo que podia fazer trabalho em casa de telemarketing, são amigos, familiares, transmitem carinho, desejam as melhores, outros querem saber pormenores, os que receberam informações erradas e pensam que estou ainda no hospital, que me parti de alto a baixo, a família inquieta que vai monitorizando por telefone como estou e quando não atendo telefonam numa espécie roleta alucinante para o fixo e para o móvel, sem pensarem que as minhas deslocações são lentas e exigem várias manobras com o meu Ferrari, já não vejo o Rio e os pássaros, em contrapartida a minha cadela está revitalizada, já parou de se arrastar dos meus sítios habituais com um ar triste, cheira-me o pé estragado com aquele focinho feio e meigo, todas as noites sonho que ando, esta noite era na areia da praia, soube-me bem, assim que puder vou pisar a areia.

domingo, 29 de novembro de 2009

Histórias de amor mal contadas - Barbie e Ken






A Barbie é rapariga para mais de 50 anos, não tem rugas, dorme completamente maquilhada, de facto até fica com melhor aspecto á medida que os anos passam, tal como a Cher , tal facto só pode ser explicado com o recurso intensivo á cirurgia estética e ao botox, mantém-se magra, pelo que desconfio que no silêncio da noite, no recato do wc, deve colocar os dedos na boca e vomitar uma enorme quantidade de bolos e doces produzidos na sua própria pastelaria.

A Barbie tem um namorado, já namoram há mais de duas décadas, é um rapaz de físico e dentes perfeitos, bíceps e abdominais, dentes, também, mas andam nesse chove não molha há muito tempo, ela dinâmica e activa já fez de tudo desde top-model, enfermeira, professora, alpinista, bailarina, empresária, ginasta, ele não se conhece a actividade, parece que têm um carro descapotável e umas roupas todas pipoca, mas mais nada, correm boatos que está metido em actividades pouco claras, mas são boatos, cabalas, talvez, inclusive anatomicamente não é completo, a pélvis acaba num vazio, falta ali qualquer coisa.
Portanto não acredito que seja a relação gratificante que nos tentam impingir nos anúncios natalícios, onde aparecem os dois produzidos, arranjadinhos e sorridentes, a Barbie quando se levanta deve ter outro aspecto, o Ken não deve dizer dois popós seguidos, não são ecológicos, as casas, carros e afins têm uma enorme quantidade de material não biodegradável, eu já nem comento a obsessão pelo rosa choque, a verdade é que passam uma imagem falsa, ele precisava de ganhar outras capacidades físicas e descobrir o que pode fazer de produtivo na vida (talvez ir fazer um retiro na quinta dos Pin e Pons), ela precisa de se acalmar de tanta actividade e descobrir outras coisas na vida (talvez conhecer o Action Man), mas sinceramente acho esta história de amor muito mal contada.

sábado, 28 de novembro de 2009

Mudemos de assunto



Ultimamente a vida, as circunstâncias, os acidentes, as coincidências abrigam-me a abrandar, a repensar, a reflectir, a segurar os cavalos que correm dentro de mim. Para quem acredite em planos infinitos será um sinal, um sinal que ao fim de uma semana já encaixei.
Estranho é habituarmo-nos a rotinas de lentidão, é como se de repente se exigisse que um gafanhoto passe a actuar como um caracol, mas o gafanhoto, coxo, lá se vai habituando a outro ritmo. Mentalmente corto dias do calendário e interiormente peço as células do meu organismo para se organizarem para esta parte durar só o mínimo indispensável.
Entretanto, leio, ouço telejornais, passo pouco tempo aqui porque não é prático nem confortável, nas noticias que ouço irrito-me e insurjo-me contra a fantochada que se tornou a justiça nacional, com a vergonha de um dos homens mais bem pagos do mundo, o nosso director do Banco Nacional, vir apelar ao aumento de impostos e redução de salários daqueles que vão sobrevivendo na insegurança e na insuficiência, espanto-me, ainda assim, com os comentadores políticos e económicos, com o facto de apenas serem quatro, os titulares de oitenta por cento da divida de um banco privado, que beneficiou de apoios públicos, que continua a ter lucros babilónicos, com o tempo dispendido nos noticiários com os romances futebolísticos, sigo o romance da Gripe A e quando não aguento mais de espanto e indignação mudo de canal ou pego no meu livro.
Vou pensando nos caminhos alternativos que poderei fazer, logo que for possível, já me convenci que darei presentes de Carnaval e não de Natal, que não farei filhoses ou outras delicias Natalícias.
Sou uma mãe moderna, dou apoio por telefone, falo das frequências, da hora de recolher, se jantaram ou fizeram a barba, recebo mimos virtuais e felizmente muitos reais, os amigos teceram uma rede de solidariedade incrível, que me aligeira os dias, retira-me preocupações, minora-me a solidão.
Afinal não mudei muito de assunto, pois não?

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Janela Discreta



No filme Janela Indiscreta James Stewart leva todo o dia estacionado junto a uma janela, com a perna partida, as aparições de Grace Kelly aliviam o dia, mas a imobilidade acaba por levar a uma observação próxima da vida dos seus vizinhos, com o apoio da teleobjectiva, pensar que está paranóico e descobrir um crime...
A Grace Kelly nunca aparece cá em casa, nesta casa que temporariamente é minha, mas ainda bem, senão assustava-me e dava-lhe o desgosto de a informar que a filha está separada do terceiro marido, um príncipe de linhagem, mas pelos vistos um bêbado incorrigível, isto segundo uma revista cor-de-rosa (vês Brites? Pela boca morrem peixes e madrinhas), li um terço da revista e fiquei enjoada como se tivesse comido um bolo que em simultâneo tivesse doce de ovos, de chila, chocolate e caramelo, excessivo, tal como a revista, coisas simples mas também eu fui operada foi à perna não fiz uma lobotomia.
Mas a janela, a minha janela abre-se para o rio, vejo o Seixal, os fuzileiros em manobras, os barcos da “carreira”, alguns botes de pesca, as gaivotas a esgravatar na maré vazia, algumas garças por vezes, nascer e por do sol sempre diferente e sempre bonitos, ontem vi um ameaço de trovoada e vi uns raios clarear a noite de repente, eu sei que são descargas eléctricas da nuvens, mas podia ser alguém muito zangado comigo. O que não resulta porque gosto de ver trovoadas.
A janela é a minha montra para fora, a janela as aparições dos amigos, da família, que são no fundo formas de me abraçar, quando roubam um bocadinho do seu dia só para passar por aqui, ver se preciso de alguma coisa, a televisão também, mas confesso que estou farta das noticias e de outras coisas. A minha amiga deixa tudo a um nivél que eu possa chegar, aconchega-me na cama á noite, depois de me dar a injecção, eu tento ser útil a nivél mínimo, ontem dobrei peúgas, por exemplo, um amigo de sempre, daqueles que são como os relógios suíços, não falham, nunca, vêm cá todos os dias e avisa que está de prevenção, para mim para o que for preciso.
Eu faço para não me queixar, de um rasto de solidão, de uma ou outra lágrima teimosa, do ardor das bolhas que rebentaram e que me dão a sensação de ter parte da perna embrulhada em urtigas, de outras mariquices. Todos os dias estendo um pouco os meus limites, sem fazer avarias nem colocar o pé no chão, hoje já passou uma semana, é menos esta.
Bom, estou cansada, vou ali até à janela, volto já.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Chocolate e pêssego


Nestes últimos dias tem sido mais difícil para mim escrever, podia-se pensar exactamente o contrário, que este tempo todo vazio torna-se mais fácil escrever, mas não, por um lado fisicamente é difícil escrever com o computador ao colo, a perna esticada com um saco de ervilhas congeladas para descongestionar, arde-me um bocadinho porque as bolhas rebentaram e ardem, não consigo ler também, acho que é por um lado efeitos da morfina que me injectaram na espinal medula, as letras tendem-se a encavalitar, como se estivessem a jogar às escondidas comigo.
Portanto custa-me escrever, não vou respondendo aos comentários, mas aprecio-os imenso, também não vou comentar aos vossos espaços, não me levem a mal!
Mas nem tudo são tristezas esta pausa forçada tem tido momentos hilariantes e divertidos, como duas mulheres, eu e a minha amiga, anfitriã, enfermeira, companheira de muitas coisas, uma espécie de outra mana mais nova, a fazer um verdadeiro número de circo para me dar banho, escanchada na banheira com a perna partida de fora a esfregar-me com espuma de banho de chocolate e acabarmos as duas num ataque riso, ou o médico tirar todos os revestimentos que protegem pregos e parafusos e dizer que quer uma lanceta e dizer “Quando doer diga” e eu a sentir picadas várias cada vez mais profundas e aguentar-me num silêncio de múmia até que o médico pergunta “Não lhe dói?!”, “Dói, sim doutor, mas eu aguento!”, “Ó Dª Ana eu estava a ver se tinha sensibilidade...”.
Pois! Figuras tristes!
Como agarrar e fazer o meu rali, WC, cozinha, estacionar a cadeira, saltar para a chaise longue, tirar o sapato, mas não o tirei, atirei, foi parar quase na lareira, e depois fiquei aflita, como é que conseguia ir buscar o sapato, só com uma perna boa, calçada com uma peúga, pronto fiz outra acrobacia, tirei a peúga, firmei o pé nu no chão, montei a garbosa cadeira de rodas e fui buscar o sapato...
Hoje já tomei banho, com a perna embrulhada num saco do lixo, sentada num banco, o único percalço foi a minha amiga ter acabado ensopada porque o chuveiro ganhou vida própria e molhou tudo, incluindo ela, mas pronto hoje foi espuma de banho com cheiro a pêssego...

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Devo ser uma pessoa estranha!



Devo ser uma pessoa estranha, a cicatrização está a correr bem, dentro de mim células ósseas correm a juntar-se a tapar os buracos, o médico mostra-me no computador os retratos de dentro de mim, quando parti e esfrangalhei o tornozelo em três partes, mostra-me os fragmentos e os estilhaços, outro conjunto de retratos onde se consegue ver placas, porcas e parafusos, os retratos de ontem, com tudo mais arrumadinho.
Diz que sim, que irei tirar mais tarde as ferragens, avisa para não colocar o pé no chão durante quatro semanas, manda-me fazer o penso, ao fazer o penso as enfermeiras avaliam a cicatrização, que está óptima tirando as bolhas de água nas zonas onde acabavam os adesivos, porque afinal faço alergia à cola, na barriga tenho uma nódoa negra enorme de uma injecção mal dada, das mesmas injecções que vou ter de levar diariamente, dadas carinhosa e descontraidamente por uma amiga que só deixa o rasto de carinho, a mesma amiga que tornou a casa dela a minha casa, enquanto for mais fácil, para mim e para os que me rodeiam, a discussão estendeu-se a outros amigos, os que telefonam a toda a hora a perguntar do que preciso, os que oferecem as suas casas térreas, os seus préstimos, os que nem dizem nada disso mas carregam-me a mim e á cadeira de rodas para o hospital, consultas, rx, aconchegando-me o casaco, portanto devo ser uma pessoa estranha, alérgica a certas fibras do vestuário, a azeitonas, amendoins, aos ácaros, ao níquel mas não ao metal nobre da amizade que faz esquecer as bolhas nos pés e suavizar as nódoas negras das injecções dadas sem carinho.

domingo, 22 de novembro de 2009

Em casa, mais ou menos

Pronto as rotinas entram em nós, habituei-me a começar a dormir lá para a meia noite depois da troca de turno a acordar ás três da manhã com a medição de tensão arterial, uma injecção na barriga, a ligação na veia que entupia sempre a meio do analgésico, não só prolongando o período de dor como ainda provocando um ardor incomodo na veia obrigando a tocar à campainha chamar a enfermeira que faz manobras de avanço e recuo até a veia estar bem, isto com soro, fluxo e refluxo, “é só um tirinho”.
O tirinho espalha-se pela mão e pronto....
Descobri os sítios secretos onde é tolerado que mulheres de pijama e camisa de noite, em cadeiras de rodas e suportes de soro olhem pela janela a mirar o rio ao longe e até o trabalho com um olhar guloso enquanto fumamos um cigarro estacionadas no símbolo vermelho que proíbe o fumo.
E a rotina é assim, entranha-se, conhece-se as enfermeiras e auxiliares as voltas do pé coxinho da cama para a cadeira de rodas, da cadeira de rodas para a sanita, é uma dependência estranha, que nos faz agradecer muitas vezes, muitíssimas, pensar baixinho “isto passa”.
Depois chega ao médico, explica coisas, diz que vamos para casa e não pensamos em mais nada, não pensamos que é um segundo andar só possível de subir de outra forma, que é impossível subir agora para amanhã descer de novo, tirar o rx, voltar a subir, para no dia seguinte descer outra vez, impossível, impossível...
Portanto, arranjam-se soluções alternativas, hoje fica-se numa casa, de uma amiga com quem se partilhou ensejos adolescentes, dores de jovens mães, queixas de mulheres crescidas, a casa tem elevador, no dia seguinte será outra casa de outra amiga, também com elevador da garagem para o piso, com quem partilho objectivos, magoas de gaja mais crescida com outra mais nova, projectos comuns e uma grande cumplicidade, transformei-me na andarilha da perna de gesso...
Por um lado fica o velho adagio de que não há sitio como a nossa casa, as saudades do nosso cheiro da nossa almofada, das coisas nossas no nosso sitio, por outro lado a vaidade de ter pelo menos duas pessoas a disputar em que casa é que fico com a agravante de enumerarem as vantagens da casa de cada uma....

sábado, 21 de novembro de 2009

Cá estou!


Li algures que quando a medula óssea entra na circulação sanguínea temos várias alterações, vómitos, ataques de cólera, até delírios e estados depressivos, isto para além da dor horrorosa e dos suores frios.
Não tenho tido delírios embora hoje tivesse sonhado que andava, ataques de cólera também não, vómitos tive e os tais suores frios, no instante em que trucidei o tornozelo, mas passou, mas estado depressivo tenho, imenso, não sei por cento e cinquenta mil coisas que tenho guardado no meu peito, nos últimos tempos, não sei se por pensar nos transtornos que esta paragem vai trazer, profissionalmente, pessoalmente, à família e a terceiros, se é por me sentir assim tão só, em mais uma cama anónima, num serviço trocado porque nem existia vaga no certo, a ter de solicitar ajuda para tudo…
Portanto pelo segundo dia de lágrimas inexplicáveis ou não e acima de tudo outra forma de estar só, porque de facto o Hospital está cheio, a enfermeira até achava que a colega tinha feito penso, lá expliquei que não, os médicos devem de se ter esquecido de mim…mas eu cá estou.
Entretanto leio, veio gaivotas que se passam por aqui a fazer-me pirraça da sua liberdade, fixo a grade da lâmpada florescente cheia de pó, ouço restos de vida lá fora que as visitas e o pessoal hospitalar trás consigo, invejo profundamente a hora da saída de alguns e o adeus apressado e risonho de quem tem alta.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Éditos


Serve o presente para informar os leitores deste blogue que a sua autora ontem efectuou um erro de calculo, mais concretamente a descer uma escada que conhece há cerca de 42 anos, como tal fez uma pirueta maluca, tentando salvaguardar o seu sobrinho de um ano de idade que transportava ao colo.
A criança não deu por nada deve ter apenas pensado que afinal a tia é mesmo louca por salta, senta-o no tapete direitinho e fica a dizer-lhe com um sorriso estúpido “Acho que parti o pé!”
A tia autora deste blogue está no Hospital depois de ter sido operada de urgência não a uma, nem a duas mas sim a três fracturas no perónio e tíbia, como brinde fez a operação com epidural pelo que ouviu serrar, brocar e limar os seus ossos, que segundo o ortopedista pareciam um puzzle…
Tenho uma botifarra da ponta dos dedos até vão joelho, soro e analgésicos na mão, começo a treinar alguns malabarismos no Ferrari (cadeira de rodas), mas custa-me a escrever, tenho dores diversas.
Beijos e até já!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Esta é uma forma!


Esta é uma forma,
A diferença entre
Estarmos sós,
Sentirmo-nos sós ou
Queremos estar sós.
Por vezes quero estar só,
Só comigo, ouvir-me,
Entender-me, alinhar-me,
Desfrutar-me,
Sentir que não sou responsável por mais
Ninguém
Sentir-me só é outra coisa,
Acontece, rodeada muita gente,
Muita coisa,
Que chama-me, solicita-me
Eu no epicentro de uma coisa qualquer,
uma tempestade, uma ventania,
Um rodopio qualquer,
Nessas alturas sinto-me só
Diferente de tudo isto é
Estarmos sós

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Simples?!


Apaixonaram-se, de um lado uma vida mais ou menos solitária, do outro um casamento desfeito com um filho, o contacto diário, cumplicidades diversas, maneiras de estar, entreajudas, firmou aquela relação, de pessoas maduras e conscientes.
Mantiveram-se duas casas, mas o filho do casamento desfeito habituou-se e gostou de ter mais um suporte físico e emocional, a vida tem corrido tranquila com as coisas comuns, um esquentador que avaria, a vontade de ficar na cama no Inverno, o que fazer para o jantar, até que uma daquelas doenças, daquelas que se diz o nome de semblante fechado altera tudo.
Como em todos os momentos desde o princípio, apoiam-se.
Qualquer decisão tem de ser tomada pelo parente mais próximo, não por quem compartilha a vida, o carinho, as pequenas alegrias, o parente mais próximo é um primo qualquer distante, que não se vê desde o último funeral, os bens em caso de morte serão dele, embora não faça a mínima ideia onde estão guardadas as fotos de infância, ou que é naquela travessa que se serve o arroz doce, nem o significado de todas as coisas por ali espalhadas e que espelham uma vida inteira.
Para ser de outra forma impõe-se outras coisas, testamento e demais papelada.
Existem outras coisas, pequenas mas enervantes como ter de pedir férias, para dar suporte e apoio indispensável.
As protagonistas desta pequena história são duas mulheres, que respeito e considero, que são exemplo de muitas situações, que são cidadãs, pagam os seus impostos merecem os seus direitos, tanto como eu.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Canto eu, baixinho




O rádio do carro deixou de tocar outra vez, é temperamental e de tempos a tempos desliga-se e faz uma espécie de retiro espiritual, deixando-me apenas com o som da mecânica e clic de certos comandos, como os limpa para brisas que se afadigam a limpar as gotas de água que caem sobre os vidros, sobre a estrada, parece que dizem adeus a alguém ou que querem parar a chuva com aquele movimento frenético, quase que lhes digo que não vale a pena, mas podiam ressentir-se como o rádio, eu ainda vou cantarolando baixinho, mas não me dá jeito nenhum limpar a chuva ao mesmo tempo, até porque ainda me dói o braço, não se sabe se pelas longas horas a tocar teclados, de computador, se por embirração do meu organismo que recomeçou a pressionar nervos e a fazer avarias, é normal, rebela-se de eu esforçar mais do que devia (O médico bem resmunga num tom que nem ele acredita “Ana, o descanso é fundamental, veja lá o que faz!”).
Dou duas três voltas aos mesmos quarteirões, já cheios de arcadas com motivos de estrelas, prontas a serem acesas na altura marcada, em vão, falta o último recurso o estacionamento igual, de um Centro Comercial, replica e génio de todos os outros, com as mesmas lojas, as mesmas cores e os mesmos cheiros e corro, para chegar a horas, como o coelho da história, entro encaro alguém que não via à muito tempo, com olhar parado e movimentos lentos, lembro-me do seu entusiasmo contagiante a falar de Pessoa, dos verbos em Francês, de me entusiasmar a ler o mais possível na língua original.
Encaro os seu olhos azuis pequeninos, acaricio a face “Sabe quem sou?”, fixa-me, “Sim, és a Ana!”, tem uma espécie de meio sorriso, e antes de entrar para o gabinete onde vão ralhar comigo, aplicar ultra sons, dizer que eu abuso muito, que devia de estar nem que fosse dois dias a descansar, enquanto aplicam agulhas com uma ciência milenar que vão desligando a cada picadela terminais de dor, penso naquela mulher que era vibrante e combativa e se encontra reduzida àquele meio sorriso, àqueles gestos lentos, não corro para o carro, primeiro convido um amigo para um café que bebo com calma e com uma conversa tranquila, vou devagar para o carro, não me irrita a lentidão do carro da frente, olho para o rádio mudo, penso que vou desprezar nem que seja só hoje o relógio, talvez o rádio faça as pazes comigo amanhã, entretanto, mesmo com um nó na garganta, canto eu baixinho…

domingo, 15 de novembro de 2009

O conforto do uivo do lobo


O vento uiva lá fora, como um lobo perdido da alcateia, faz-me apreciar mais o conforto de estar cá em casa, se bem que o conforto de estar cá em casa também de depende de outras coisas, de ter acordado e limpo, certas partes funcionais da casa, para depois ter tomado o banho sacramental que lavou o suor e o cheiro dos detergentes e perdido um tempo que é só meu para espalhar creme entre o corpo num ritual que não abdico, depende de ter perdido tempo depois de uma tarde de mais ou menos vigília de sábado, no trabalho, para juntar ovos e outras coisas e fazer um bolo, que faz parte do conforto, do conforto faz parte o almoço dominical em que nos sentamos à mesa, da casa materna, com lugares que vão sendo eliminados e outros lugares surgindo, do almoço dominical espera-se que eu contribua com o pão, levo sempre o pão, eu ou alguém leva vinho, outro uns bolos, assim cumprimos este ritual de nos sentarmos juntos, três gerações.
Do conforto ainda depende, dedicar-me já a seguir a temperar para assar um naco de carne que conforme a inspiração pode levar alecrim e cebolinhas, castanhas ou o pimentão alentejano, ser acompanhado de frutas, legumes salteados ou puré de maçã, aproveitando o forno aceso junta-se ainda batatas doces, talvez castanhas retalhadas, no fim o conforto depende de esticar-me no sofá analisar a casa com tudo quase no sitio, arrumar na cabeça os compromissos de amanhã, ler mais um pouco, ver um filme que gosto enroscada com um pijama cheio de estrelas, esquilos ou outra coisa qualquer, deitar-me na cama como num ninho, sonhar com coisas fantásticas e continuar a ouvir o vento a uivar lá fora como um lobo perdido da alcateia.

sábado, 14 de novembro de 2009

Flor ao sol


Vinhas assim devagar
Como a subida da maré
Num sussurro
Tanto inquietante como calmo
Daquela calma que aperta qualquer
Coisa
E eu esperava
Esperava como a noite espera o dia
E entregava-me assim
Como uma flor ao sol

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Há coisas que nos magoam devagar


Há coisas que nos magoam devagar
Como uma tortura medieval
O cansaço que desceu até ás palmas dos pés
As ausências, alguns silêncios
As ausências definitivas
Aquelas que enchem com o peso da saudade
As esperas, as esperas magoam
Certas palavras
Os abandonos
As queimaduras, mais que do fogo
As da indiferença

Quintas e Aquários


Não consegui atinar com twiter mas lá aderi ao facebook, levei meses a receber convites para estes e outros meios de ligação virtuais, tentei ignorar, mas a insistência era muita, através dos tais convites, de viva voz, por telefone “Oh Ana não sejas teimosa! Aquilo é giro!”.
Num domingo eleitoral, entre contagens e outras obrigações, depois de ler os jornais de fio a pavio, antes de receber uma noticia não inesperada, mas chocante, da morte de um familiar, registei-me, passado pouquinho tempo tinha uma catrefa de amigos virtuais, sendo a esmagadora maioria amigos a sério de carne e osso com quem de vez em quando partilho um café, dois dedos de conversa e mais qualquer coisa.
No entanto apesar de achar piada ao meio de divulgação, a ter encontrado amigos que tinha perdido o rasto ou que simplesmente com quem mantinha um contacto espaçado, de conseguir ainda através deste meio manter comunicações mais regulares com familiares, apesar de todas as vantagens sou apanhada numa espécie de loucura colectiva, mais de dois terços daquela malta dedica-se a coisas estranhíssimas como a agricultura ou a aquariofilia virtual.
Para além de levarem imenso tempo a cultivar rabanetes e morangos virtuais, a chocarem ovos e coisas que os valha, atormentam-me com ofertas e pedidos: oferecem-me árvores de fruta diversa, cabras, galinhas, patos, ovelhas e até um urso, pedem ajuda para as colheitas ou para limpar folhas, perguntam-me se desejo adoptar uma tartaruga bebé ou um peixe tropical.
Já lá coloquei um aviso que não estou interessada, tenho membros da família e amigos que se tornaram em verdadeiros latifundiários virtuais.

A todos deixo um recado: existem nos viveiros de plantas, até nos supermercados, pacotes de semente, bolbos e outras coisas que tais, como sacos de terra, vasos e floreiras, experimentem, nada dá mais gozo que ver uma coisa crescer que foi plantada por nós.
Quanto aos aquários tive um activo durante os últimos dezoito anos, está vazio na varanda, tenho motor, filtro, termóstato e até o ofereço de boa vontade a quem se comprometer a cuidar dele, é só limpar, encher e começar a comprar peixes, ofereço ainda noções básicas sobre o assunto: os Discos e os Óscares tem de viver sós, os néon fazem um aquário bonito, os guppies reproduzem-se mais que coelhos, os espadas são giros, os rumble fish são agressivos e comem as crias.
Experimentem, os meios de comunicação virtuais são giros, mas não há nada com plantar umas batatinhas numa floreira e na primavera ter explosão de cor na varanda!

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Se eu conseguisse




Se eu conseguisse
Ficava assim para sempre
A falar de música e de mar
A sentir carinhos escondidos nas palavras fechadas
A respirar encaracoladamente
No silêncios
Arrumava num local
Remoto e inacessível
As dores, preocupações
O tempo contado
Outras coisas que nos gastam

Soltava o cabelo
Deixava-me estar naquele momento
Entre ondas de mar e camas de areia
Fazia do teu corpo almofada
Ou servia de almofada para ti, era igual
Sem contar o tempo
Sem pensar em mais do que o azul do mar

Para além do cabelo soltava vontades
Afagos,
Palavras daquelas nunca dizem
Que se escondem entre as outras como
Meninos tímidos e envergonhados

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Puzzle



Dói-me o braço cada vez mais, arrumo as coisas na mala mecanicamente e transporto a pasta cheia de cadernos, anotações, cópias de Leis e Decretos, sei que tenho um prazo limite para certas coisas, mas dentro da minha cabeça as coisas fogem para outro lado.
Queria ter cinco anos, outra vez, vestir uma canadiana de fazenda com forro de xadrez e ir até à Doca de Setúbal ou de Sesimbra pela mão do meu pai, espantar-me com o tamanho dos barcos, respirar fundo o ar salgado, ver as redes com escamas presas e as mãos rudes dos pescadores presas a elas, os peixes prateados a estrebuchar numa luta pela vida. Beber um chocolate quente que me deixava uns bigodes castanhos…

Volto ao relatório, faço um esforço de memória, leio até nada daquilo fazer sentido, imprimo leio em papel, é sempre melhor, descubro tropeções de dedo no teclado que mudaram significativamente o conteúdo das frases, procuro palavras melhores, alternativas para não repetir outras, o esqueleto está feito, a maior parte do miolo também, agora é encher a parte financeira e preocupar-me com a forma.
A forma, a forma das minhas mãos encaixadas noutras, as formas que dava preguiçosamente á areia estendida na toalha com o corpo molhado, o sol a morder a pele, a repetir aquele gesto na areia, antes de me levantar e mergulhar outra vez, e ficar ali até o sol tingir de vermelho e laranja o mar, sem horas, num tempo suspenso, apenas com a forma da mão encaixada noutra.
Chamadas telefónicas, sim não existem soluções que agradem a todos até porque existem pessoas irredutíveis que só se preocupam com o seu umbigo, vamos estudar, estou disposta a ir ao local se for necessário, sim claro, faremos o melhor possível, fazemos sempre o melhor possível.
Faço sempre o melhor possível, quando agarrei na mão e enxuguei a testa daqueles que sabia que iam partir, mas antes de partirem, precisavam só daquela minha mão, que lhes alisasse a testa com uma carícia, quase maternal, que lhe dissesse que estava tudo bem, embora soubéssemos que era uma grande mentira, fizemos o melhor possível.
Tenho os olhos a piscar de tanto fixar o ecrã, acabou de cair um quadro atrás de mim que desistiu de estar pregado na parede, uma chamada, consulto a agenda, tento encaixar peças de puzzles diferentes, entra alguém no Gabinete “Tens um minuto? Preciso de desabafar!”, “Sim, claro!”, paro e acendo um cigarro, ouço o desabafo, tento-o encaixar no molhe de papeis com anotações. Outro puzzle.
Outro puzzle, este é de madeira e tem as formas dos animais, e eu mantenho-me de pijama a ajustar as peças e a dizer “Diz lá à mamã como faz o gato?” “Miauuuuuu”, assim sentados na manta no meio da sala, uma música baixinha a tocar, o bebé sentado na espreguiçadeira a olhar interessado para o puzzle que eu e o irmão construímos e a rir com o mesmo riso desbragado que ainda hoje têm, um riso feliz, e a mostrar que sabe dizer “mamã”, e no mesmo puzzle outro pijama, daquela manhã lenta de domingo de Outono que passa e diz “Diz lá ao pai como faz o cão?” e sorrimos e tudo se encaixa.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Ainda há muito muro por demolir!






Faz hoje vinte anos que foi derrubado o muro de Berlim, parte da humanidade, da comunicação social, regista esse momento como o fim de uma tirania e das barreiras divisórias dos povos, no entanto outros muros persistem, talvez menos famosos ou aos quais são dados menos importância, uns reais de betão, arame farpado, cercas eléctricas e vigilância outras de outras formas.
De referir por exemplo a faixa de Gaza, a situação Israel/Palestina, com o seu muro e a estreita passagem de Erez, passagem pedonal de cargas e descargas, frequentemente encerrada pelas autoridades Israelitas a seu belo prazer, serve para passarem apoios médicos, medicamentos, trabalhadores palestinianos que trabalhem em Israel, apenas cinco mil pessoas estão autorizadas a lá passar, isto para um território com cerca de trezentos e sessenta quilómetros quadrados e 1,4 milhões de habitantes, ou seja um dos territórios mais densamente povoados do planeta.
Bem perto, na cidade de Jerusalém, cidade Santa para três das maiores religiões do mundo, ergue-se o Muro das Lamentações, supostamente o que resta do Templo de Salomão, onde muitos fazem as suas orações, as suas preces e os seus pedidos. Muitos mas não todos, dado que o acesso ao local é restrito e aposto que alguns dos habitantes da faixa de Gaza, por exemplo, gostariam de lá ir.
Mas existem mais muros: o da Coreia, que separa um país ao meio, o Muro Fronteiriço EUA-Mexico, com três barreiras de contenção, detectores de movimento atravessando os Estados do Novo México, Arizona e Texas, equipado vinte e quatro horas por dia com helicópteros e veículos militares armados, o de Marrocos-Saara Ocidental, o Ceuta (este custou 30 milhões de Euros patrocinados pela União Europeia e foi construído pelo Democrático Reino de Espanha) e o de Mellila.

Acabando os muros físicos que persistem neste planeta, pode referir-se o absurdo do muro, recentemente construído na Cidade de Ostrovany na Eslóvaquia, que se destina apenas e só a separar a comunidade cigana do resto da cidade…
Terminando de cabeça os muros físicos que me atormentam relembro outros muros que dividem os seres humanos, a escassos quilómetros das costas da Europa, onde se destroem toneladas de alimentos em nome de um sistema económico, morrem crianças á fome, a maioria dos seis milhões de crianças que morrem de subnutrição todos os anos.
Ainda há muito muro por demolir!

domingo, 8 de novembro de 2009

Quente


Estando frio apetece-me algo quente
Talvez uma bebida
Talvez não
Apenas um beijo
Qualquer coisa quente
Poderia ser o abraço que te desse
Do meu ventre

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Nós


Nós é uma palavra engraçada, uma coisa que ata que une e que prende. Não percebo muito bem quando o eu e tu passam a ser nós…
Nós os que gostamos de certos filmes, nós os que lutamos pelas mesmas coisas, nós os da família, nós os que abanamos o corpo e cantamos a música em surdina, nós os que guardamos e conservamos uma amizade que não deixamos morrer, alimentando este nó que nos une, nós que sorrimos ao mesmo tempo, nós que nos entre ajudamos, nós que construímos um futuro, nós que partilhamos recordações, nós que sabemos que estamos sempre aqui para nós, nós reflectidos nos nossos filhos, nós que nos abraçamos com franqueza, nós que podemos estar num silêncio profundo a dizer mil coisas, nós que partilhamos o amor pelo mar, por um livro, por um quadro, nós…
Nós, nós e laços que nos fazem sentir mais seguros, mais humanos, mais nós.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

La grande bouffe



La grande bouffe (A Grande Farra) é um filme de 1973, realizado por Marco Ferreri, a acção é simples, quatro homens de meia idade, magistralmente representados por fabulosos actores, Marcello Mastroianni, Michel Piccoli, Ugo Tognazzi e Philippe Noiret, juntam-se numa vivenda para um fim de semana de excessos, gastronómicos e sexuais, com um bando de prostitutas contratadas para o efeito. Os excessos pretendem única e exclusivamente provocar o final da vida numa fase em que a decadência física ainda não tomou conta dos seus corpos e partirem assim em estilo.
Depois há reviravoltas. Não é um filme fácil, quando o vi fiquei incomodada, a principio até parece uma comédia semi-erótica, mas depressa uma miséria moral, um vazio de objectivos, uma tristeza camuflada, uma falta de determinação e coragem, entre outras coisas se sobrepõe à imagem que aqueles homens fazem de si próprios, bem como ao final que querem dar ás suas vidas.
O que se passa em Portugal lembra-me esse filme chocante, inquietante, uma tragédia a querer mascarar-se de comédia, um excesso de tanta coisa que só pode conduzir a uma espécie de morte. Seja ela real, económica ou então outra a morte de princípios, de valores e de integridade.
Nos últimos tempos sucedem-se escândalos envolvendo figuras públicas, mais do que figuras públicas, pessoas que têm vindo a ocupar, a desempenhar, cargos governativos, falo pela rama naquilo que me ocorre assim ao correr do teclado: O Caso Casa Pia, a consequente morte da carreira do Juiz que ordenou as detenções de figuras politicas, o caso Portucale, o Caso Felgueiras, o Caso Isaltino Morais, o Caso dos submarinos, o Caso Freeport, o caso BPN, as implicações de um conselheiro de estado no mesmo, a pseudo inocência e autismo do Presidente do Banco de Portugal, por último o caso Face Oculta.
São casos, muitos casos, com grandes implicações, são milhões debaixo das mesas, negócios de águas turvas, vendas de favores políticos, inconclusivos, arquivados, mas mais que tudo impunes.
O pior, o pior é que para além da impunidade este tipo de noticia, de caso, de processo, começa a ser banal, usual, corriqueiro, uma população desempregada, com emprego precário, com reformas baixas, a viver do biscate, a achar isto tudo natural, começa a difundir a opinião que os políticos se não “se encherem” são parvos, que se lá conseguissem chegar fariam o mesmo, que não importa pagar a luz ou comer apenas flocos de cereais, desde que se vista roupa de marca, que é normal adquirir um BMW que não se tenciona pagar, porque isto é mesmo assim.
Para além de me indignar com esta morte na casca de tantos e tão graves processos judiciais envolvendo governantes, banqueiros, ex-governantes e afins, assusta esta pobreza moral, esta morte de princípios, esta imensa farra em que este país se tornou onde alguns se intoxicam, excessiva e impunemente e outros aspiram a fazer o mesmo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Lá ao fundo


Tenho uma dor no braço, nem sei porquê, o fresco açoita-me assim como um chicote quando saio para a rua, entrei na sala era de dia, discuti múltiplas coisas e coisinhas, reparei que o próximo dia livre de compromissos é domingo, não me apetece fazer jantar, descobri que passamos disto, de um calor escaldante para os casacos da chuva e do frio e agora é noite.
Resolvi umas coisas, uma inundação, deixa lá mãe eu trato, uns papeis pendentes, uns papeis de familiares, avancei três casas no relatório interminável, acabei por marcar não uma mas duas reuniões para dias já atafulhados, a dispensa começa a estar com um ar deserto, o frigorifico parece a tundra gelada, não me apetece fazer jantar, não me apetece fazer outras coisas, ainda há pouco era de dia e olhei pela janela e apesar de adivinhar o frio da rua, o céu estava cheio de nuvens cor de fogo, com o sol a dizer até amanhã e passavam uns bandos de pássaros, pardais, acho eu, gordos e apressados a prepararem tudo para o Inverno, ao fundo, não vi mas sei que lá está o Rio, o telemóvel tocou várias vezes e eu carreguei no botão que o põe mudo embora pisque aflitivo a avisar que alguém quer chamar, desisti de escrever coisas na agenda, coloco avisos no telemóvel, preciso de comprar uma agenda para o ano que está quase a chegar apontar umas coisas que andam assim à solta numa folha dobrada, tenho de marcar uma conversa, tenho de agendar um dia para desbastar o monte de roupa que me desafia a ser passado, tenho as pálpebras pesadas, não me consigo concentrar muito bem no tema da reunião, os olhos fogem-me para a janela, para as nuvens de fogo, os pardais gordos e atarefados e para o Rio que sei que está lá em baixo.
Amanhã antes de tudo vou cumprimentar o Rio, fico ali, um pedacito a ler um livro a ouvir um som, a fumar um cigarro, porque sei que lá ao fundo está o Rio.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Primeiro é sempre o verbo


Primeiro é sempre o verbo
Inevitável
A palavra, dita, pensada, escrita
Transmitida pelo olhar
Depois o gesto, os gestos longos
Os gestos rápidos
Os gestos sequiosos
A macieza da pele, o toque de veludo
O sabor, da língua da pele nua
O correr das mãos, o entrelaçar de pernas
O salgado do corpo, o cheiro
A troca de cheiro
A calma, o saborear do momento e a tempestade
A urgência do outro, o mergulho absoluto
A bonança, por fim
E o verbo no fim

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Romãs e Pink Floyd

A minha avó ficou comigo quando eu tinha seis anos, por razões que não vale a pena explicar, os meus pais partiram, para viver noutro sítio, noutra casa, com outra filha novinha a estrear. A princípio doeu-me muito, não o ficar com a minha avó, mas esta sensação de abandono, hoje percebo o porquê, não concordo, mas percebo, com seis anos não percebi, até porque existiam coisas que nunca se explicavam ás crianças.
Mas fiquei com a minha fantástica e fabulosa avó, que ainda por cima tinha características muito especiais, a começar pelas físicas: a minha avó tinha um olho castanho escuro, quase preto e outro azul clarinho, não era uma deformação genética, simplesmente na adolescência a tirar agua numa bomba a alavanca bateu-lhe no olho o que veio a provocar cegueira, daí o olho azul; a minha avó tinha o cabelo todo negro, excepto uma madeixa branca que partia exactamente do chamado “bico de viúva”, a maioria das pessoas achava que era pintado, com a extravagância de deixar uma madeixa branca em destaque, mas não, era assim mesmo, por fim o mistério mais assombroso do corpo da minha avó era não ter umbigo, fascinava-me aquele ventre onde faltava aquela marca de mamífero, a explicação era simples, ao ser operada a um tumor no útero e tendo-lhe sido retirado o mesmo, os cirurgiões coseram a eito, retirando-lhe o umbigo.
Estes eram os mistérios físicos da minha avó, nessa idade passei a partilhar com ela a mesma cama, a aprender fados do Frutuoso França, sobre desgraças intermináveis, áreas de opera de Puccini, tangos de Carlos Gardel e canções brejeiras, aprendi a misturar ovos, açúcar e a moldar biscoitos de manteiga equilibrada num banco de cozinha, quando eu chegava da escola fazia os deveres (era assim que se chamavam), sobre o olhar atento da minha avó que aproveitava e aprendia aquilo que não tinha tido oportunidade de aprender em criança, nesta altura do ano quando chegava a casa e via que ela tinha os dedos enegrecidos, sabia que me esperava uma taça de bagos de romã, com um bocadinho de açúcar amarelo, fazia-me chá de limão, para bebermos no meu serviço de porcelana em miniatura, do qual ainda sobrevivem um bule, três pires, uma chávena, contava-me episódios da sua infância, coisas sobre o meu avô, alguns dos episódios que aqui conto.

Com o tempo os papeis foram-se invertendo, ensinei-a a gostar de Pink Floyd e de Queen, ela achava que o Freddie Mercury devia ter estudado canto, a minha avó aldrabava as horas em que eu chegava a casa, por vezes deitando-me eu vestida ao seu lado e ela garantindo que eu dormia à horas quando eu tinha acabado de chegar, passei a ser eu a fazer-lhe um batido de morango quando chegava a casa e bebíamos as duas um copo cheio de vitaminas, fresquidão e morangos.
Foi um batido de morangos que me pediu por gestos entubada no hospital dois dias antes de ter desistido de viver, porque também me transmitiu que peça de ouro cabia a cada neto e que não queria subsistir mais tempo assim.
Tenho saudades dos batidos de morangos, quando é época faço um e lembro-me dela e agora apetecia-me chegar a casa ouvir a Bohemian Rhapsody ou o Breathe a comer uma taça cheia de bagos de romã.

domingo, 1 de novembro de 2009

Apagar o teu rasto


Acabámos de fazer arqueologia ás tuas gavetas e ao teu roupeiro, conseguimos adiar este momento mais que um mês, assim de certa forma tudo estava no local do costume e podíamos manter uma certa ilusão de que estavas apenas fora, numa viagem, numas férias ou como era hábito mais recentemente no hospital, mas já tardava.
Passámos a tarde a despir cabides, a vestir casacos em nós ver se com um aperto ali ou com um toque acolá os podíamos manter para nós, fiquei com o teu casaco de cabedal, com o de pelo de camelo, a gabardina e mais um monte de blasers, parecia que tinha regressado à infância onde nas tardes cinzentas de domingo nos vestíamos com as roupas dos adultos e de seguida apresentávamos uma rábula qualquer, sem ensaio, umas vezes com direito a palmas, outras com direito a justas reclamações “Estes miúdos desarrumaram tudo, sempre quero ver quem é que arruma!”.
Em cada casaco que experimentava encontrava coisas nos bolsos, rebuçados de hortelã pimenta, lencinhos de pano dobrados, vimos ainda as tuas gavetas de luvas e echarpes e fiquei com uma pashmina que te ofereci num Natal com tons de fogo e que me dizias sempre “Estas cores é que te ficam bem!”, o cachecol que te fiz o Inverno passado, em tons rosa e lilás ficou para a minha irmã, é assim uma herança transversal, fui eu que o tricotei para ti, ela irá usa-lo, pendurei os teus casacos no meu roupeiro, fiquei com aquele camiseiro em bordado inglês branco, (lembras-te?), quase não o usaste e os de risquinhas sem gola.
Deixámos para outro dia o resto, cremes, perfumes, malas, onde sabemos que vamos encontrar coisas que nos vão fazer arder os olhos, como pimenta dentro de papel dobrado, mais gavetas de lenços, as gavetas de pijamas, tais como os meus de flanela com bonecos infantis, faremos essa arqueologia noutro dia, hoje, mais do que o cansaço normal destas voltas, doeu-nos apagar um pouco do teu rasto.