Apagar o teu rasto


Acabámos de fazer arqueologia ás tuas gavetas e ao teu roupeiro, conseguimos adiar este momento mais que um mês, assim de certa forma tudo estava no local do costume e podíamos manter uma certa ilusão de que estavas apenas fora, numa viagem, numas férias ou como era hábito mais recentemente no hospital, mas já tardava.
Passámos a tarde a despir cabides, a vestir casacos em nós ver se com um aperto ali ou com um toque acolá os podíamos manter para nós, fiquei com o teu casaco de cabedal, com o de pelo de camelo, a gabardina e mais um monte de blasers, parecia que tinha regressado à infância onde nas tardes cinzentas de domingo nos vestíamos com as roupas dos adultos e de seguida apresentávamos uma rábula qualquer, sem ensaio, umas vezes com direito a palmas, outras com direito a justas reclamações “Estes miúdos desarrumaram tudo, sempre quero ver quem é que arruma!”.
Em cada casaco que experimentava encontrava coisas nos bolsos, rebuçados de hortelã pimenta, lencinhos de pano dobrados, vimos ainda as tuas gavetas de luvas e echarpes e fiquei com uma pashmina que te ofereci num Natal com tons de fogo e que me dizias sempre “Estas cores é que te ficam bem!”, o cachecol que te fiz o Inverno passado, em tons rosa e lilás ficou para a minha irmã, é assim uma herança transversal, fui eu que o tricotei para ti, ela irá usa-lo, pendurei os teus casacos no meu roupeiro, fiquei com aquele camiseiro em bordado inglês branco, (lembras-te?), quase não o usaste e os de risquinhas sem gola.
Deixámos para outro dia o resto, cremes, perfumes, malas, onde sabemos que vamos encontrar coisas que nos vão fazer arder os olhos, como pimenta dentro de papel dobrado, mais gavetas de lenços, as gavetas de pijamas, tais como os meus de flanela com bonecos infantis, faremos essa arqueologia noutro dia, hoje, mais do que o cansaço normal destas voltas, doeu-nos apagar um pouco do teu rasto.

Comentários

salvoconduto disse…
E moedas? Não apareceram moedas esquecidas como aquelas que descobríamos quando teimosamente queriamos ser nós a arrumar os casacos do pai?...
Paulo Lontro disse…
Adoro este AM I BLUE .

Linda linda!
papoila disse…
Gostaria de ser original, mas não posso:
ADORO ESTE AM I BLUE.
Vou voltar
beijinho
Fiquei sem palavras, Ana.
Beijinhos
PS:A tua afilhada levou um raspanete por causa daquela ideia do Rochedo Cor de Rosa e obriguei-a a pedir-te desculpa. Vê lá se lhe dás um puxão de orelhas e lhe tiras aquelas manias.
Ana Camarra disse…
Salvo

Também, mas agora de menos importância.

Paulo

Eu também, aliás é uma música especial para mim.

papoila

Não é preciso ser original, basta ser sincera e bem vinda!


Carlos

Tadinha da Maria Brites, é novinha, ficou só enquanto fugiste com o Sebastião, os jovens tem estas rebeldias...nós ralhamos e sorrimos por dentro!
Não é?

beijos
Fernando Samuel disse…
Relembrar rastos é sempre apagar rastos: é assim a vida...

Um beijo.
Exorcisar a saudade...faz bem!

Gosto da maneira como desenhas os teus sentimentos!

Beijo
CPrice disse…
.. disse-me tanto este agora, mais que os outros que me dizem algo também por isso volto. E desta vez comento: Obrigada.
Ana Camarra disse…
Fernando Samuel

È escaranfunchar numa ferida.

Ausenda

È dificil esse exorcismo.

CPrice

Volta sempre, gosto que cá venhas.

beijos
Zorze disse…
Ana,

Acredites ou não...
Ela esteve lá, a observar-vos.
Com muita ternura, seguindo os movimentos das ondulações das roupas.

Beijos,
Zorze
Anónimo disse…
Lindo de arrepiar!

Um abracinho

Lagartinha de Alhos Vedros
Ana Camarra disse…
Zorze

De certa forma.

Lagartinha

Os arrepios.

beijos