sábado, 31 de outubro de 2009

Métodos anticoncepcionais alternativos, politicamente correctos e ecológicos






Felizmente existem métodos anti concepcionais que vieram retirar, mais ás mulheres, o risco aflitivo de conceber sem querer, são conhecidos e vão dos preservativos, aos dispositivos intra uterinos passando por mil uma coisas como os implantes ou as libertadoras pílulas.
No entanto descobri uma série de métodos alternativos, uns por mim própria outros por transmissão de experiências por parte da minha louca família.
Por exemplo descobri que um dos métodos anti concepcionais mais seguros consiste em ter filhos pequenos, digo filhos no plural, os meus têm apenas vinte e um meses de diferença e a verdade é que após o seu nascimento a coisa menos animada cá em casa passou a ser a vida sexual, ou andávamos ás voltas com os dentes a nascer, com doenças infantis variadas, depois de um dia de trabalho, muito babete estendido, muitos biberões e sopinhas, banhos em banheiras cheias de bonecos e outras coisas que tais. De facto de manhã pela fresca era impossível qualquer prática sexual porque acordávamos logo para a maratona do tira a fralda, dá o biberão, à noite quando conseguíamos recolher todos os brinquedos e peças de Lego duplo, esterilizar todos os biberões, caímos exaustos num sono profundo, mesmo quando aconteçam outras brincadeiras semi eróticas, corria-se o sério risco de aparecer um pequenito a gatinhar, aquele canto anti erótico do “mãeeeeeeeee” ou ainda a possibilidade de se encontrar um resto de bolçado já azedo no soutien.
Outro método experimentado por mim consiste em arranjar um cágado. Não se espantem: um cágado!

Numa escapadela a dois no meio do Alentejo encontrámos um cágado no meio da estrada para os lados de Serpa, achámos que era engraçado para os miúdos, trouxemos o bicho que foi baptizado de Mafalda, acontece que a Mafalda tinha o estranho hábito de percorrer a casa com uma pata por cima do rodapé, descobrimos isso numa noite rara em que os meninos dormiam e nós estávamos suficientemente acordados, enfim a coisa começou a concretizar-se preliminares e tal, de repente passos, suspende-se a actividade e lá vai ele de roupão vestido espreitar os meus anjinhos que dormiam, voltou recomeçámos, passos! Repete-se a cena, várias vezes, até que descobrimos a Mafalda debaixo da nossa cama….
Também fruto de uma experiência muito pessoal foi o uso de uma espuma anti concepcional que nunca foi utilizada mas serviu os seus propósitos, a dita cuja foi receitada e lá se conseguiu conjugar um momento de crianças a dormir e nós acordados e com vontade de tudo, menos de encomendar outra criança, então a meio dos preliminares acende-se a luz, retira-se a espuma da embalagem, afinal ainda temos que ler as instruções, chocalha-se a embalagem, carrega-se esguicha espuma por todo o lado, limpa-se, chegamos à conclusão que mais vale dormir….
Por fim uma aventura transmitida pela família, no inicio dos anos sessenta alguém informa uma tia minha que o sabão azul e branco tem propriedades anticoncepcionais e que bastaria a introdução de uma pequena quantidade na vagina antes do acto em si, acontece que a minha tia era muito exagerada e não introduziu uma pequena quantidade, por outro lado o meu tio fez uma reacção alérgica ao sabão, provocando-lhe comichão, dores e inchaço, isto para além do embaraço da minha tia soltar bolas de sabão por entre as coxas enquanto ria à gargalhada.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Aristóteles, Catarina de Aragão, limpezas e outras minudências




De manhã começa-se o dia como aparece, uma pequena irritação, alguém que largou o serviço sem água vai e que logo pela manhã do dia seguinte pergunta se pode sair mais cedo, conto até dez, até vinte, respiro fundo, coloco a cara de mãe austera, debito o raspanete, explico que não pode ser assim, equaciono os lados da questão, tento explicar que os direitos acarretam deveres.
Sigo o dia, prédios, vedações, um relatório interminável, alguém que quer falar das coisas da vida e a quem o desespero leva a pensar que existe uma conspiração generalizada contra si, das mais diversas instituições, repete exaustivamente que tem direitos. Ouço, (parece que é uma qualidade minha) acalmo, tento arranjar saídas, esperanças, perspectivas, sai pelo menos aliviado, mais calmo, alguém o ouviu.
Continua-se, sacos, sinais, escolas, ramos, outras coisas, uma pausa, respirar fundo, almoço combinado, sim vamos.
Vamos pois, almoço e conversa agradável, uma volta, mostrar os pequenos tesouros meio escondidos da minha terra, uma coisa que me dá sempre prazer, mostrar as escadinhas, o chão de paralelepípedo, os edifícios art deco, os azulejos hispano árabes, mostro um pouco, mais peço ajuda a amigos de sempre, mostro aquilo que a maioria desconhece.
Volto ao trabalho, no meio das coisas emergentes saem cenas caricatas, hilariantes, de repente começa a anoitecer, alguém que voltou a estudar e as mãos calejadas custam a responder a questões sobre a lógica Aristotélica, o conflito entre direitos e deveres, o homem como ser social por oposição ao egoísmo e ao mundo centrado dentro de nós. Dou exemplos práticos do dia a dia, ajudo a burilar palavras, desembrulho o Aristóteles escondido no fundo da minha cabeça, até gosto, sempre gostei desse grego.
Continua-se, limpa-se gavetas, rasgo papeis que se guardou porque fariam muita falta e agora se constata que não fizeram falta nenhuma, sossego um pouco vejo os mails outras coisas, troco dois dedos de conversa, descarto os meus homens via telefónica, saio do trabalho dirijo-me ao novo templo de todas as urbes, o Fórum, onde as lojas são todas iguais a todos os Fóruns, como um hamburger igual a todos os outros, dirijo-me à Livraria, sitio irresistível, acabo por adquirir mais um daqueles romances que gosto, da autora do costume, desta vez sobre Catarina de Aragão, tive de largar o livro por exaustão, afinal precisa de dormir e sonhar um bocadinho, mas a base da história é a mesma da manhã, do Aristóteles, das mãos calejadas e de outras coisas, o frágil equilíbrio entre vontades, deveres e direitos, desejos e obrigações, afinal o trivial não é?

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Rendas e Alfazema



Os dias continuam cinzentos e a tendência será para piorar, mas ainda não faz frio, estamos naquela fase estúpida em que as botas são demais e as sandálias são de menos, é claro que já fiz a arqueologia dos roupeiros, já troquei com desgosto o caixote dos chinelos pelos sapatos mais fechados, reorganizei gavetas, sacos malas, caixas de cartão com encharpes, pashiminas, cachecóis, coisas de gaja.
Ainda não organizei outras coisas, preciso de organizar um esquema coerente que abarque dois filhos crescidos, um companheiro com horários trocados, um cão que começa a ter sinais de estar senil, a roupa que se acumula para lavar e estender porque consegui iniciar a proeza de efectuar obras nas traseiras e frontaria do prédio em simultâneo, tornando invalidas as cordas da roupa, os pombos doentes que entopem os algerozes como culminar de uma vingança para com os humanos, as folhas que caem e entopem as sarjetas, uma mãe que solicita colo e mimo como um bebé, um luto que ainda não fiz, a mudança da hora que ainda não fiz e baralho-me a olhar para mostradores e telemóveis, a caixa do correio que não me oferece postais felizes, cartas de guardar, apenas contas e promoções que não pedi, o relógio que teima em ser um corredor de fundo e me deixa assim a pensar no que é que se esgotou o meu dia porque não acabei o que comecei o que deixei pendurado de véspera, apenas arranjei novas coisas que se acumulam em equilíbrio precário á espera de serem resolvidas, um sabonete de alfazema, grande e cheiroso guardado com aquelas peças mais intimas e delicadas que ainda não usei, porque ainda não tive tempo de tomar um duche a rigor daqueles que não sejam a contra relógio, qual prova de ciclismo, para depois vestir aquela lingerie que é uma vaidade secreta porque só eu saberei que estou a usar aquele conjunto com remates de fitinhas e bordados, mesmo que por cima tenha apenas as calças de ganga do costume, com os ténis mais velhos aqueles que me dão bom andar.
Portanto preciso agora de fazer arqueologia de mim, um dia destes, juntar os pedaços desta mulher, deixar para trás outras coisas, estrear as tais rendas e o cheiro de alfazema, sábado talvez.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Nevoeiros



Fica aqui ao pé de mim e até nem precisas de dizer nada,
Nem ocupar os espaços vazios com conversas banais,
Afasta só o nevoeiro
Porque eu assusto-me sempre com o nevoeiro que
Consegue sempre fazer sentir mais perdida e
Desnorteada que o habitual.
O nevoeiro faz-me sempre doer coisas que
Tento esquecer,
Sempre existiu nevoeiro nos
Dias menos felizes da minha vida
Até naqueles que aparentemente
Tinham céus claros.
Por isso preciso de um farol, uma bússola, uma âncora,
Uma coisa qualquer sem dúvida marítima que
Me impeça de navegar sem rumo,
De me afundar em águas turvas,
Alguma coisa que me alumie.

domingo, 25 de outubro de 2009

O Evangelho segundo cada um de nós!



Parece que está instalada uma polémica porque José Saramago disse que a Bíblia está cheia de maus exemplos da natureza humana. Por acaso não tenho acompanhado porque não tenho tido tempo, sou daquelas pessoas que necessitava de dias com 48 ou 72 horas, um erro divino…
Não sou Católica, na minha família existem cristãos, de vários ramos, Católicos, Evangelistas e até uma Ortodoxa da igreja Grega, pelos apelidos e mais umas coisitas devemos ter tido antepassados muçulmanos e judeus, como provavelmente a grande maioria dos habitantes da Península Ibérica, olhando mais para trás devemos ter tido antepassados que encontraram no sol ou no vento ou até num animal, uma divindade.
Eu por mim custa-me a acreditar nessas coisas, não desacredito, não repudio, acredito sim na espécie humana, na sua capacidade para o bem e infelizmente para o mal, também, gosto de pensar que o bem triunfará.
Eu até sei que o Velho Testamento é velhote, tem milhares de anos, têm de ser olhado como deve de ser à época, que são alegorias, parábolas e fabulas, histórias da carochinha que querem dizer outras coisas, mas a mim assusta-me a ignorância e assusta-me alguém falar sobre qualquer coisa sem conhecimento de causa.

Neste campo sinto-me à vontade já li livros do Saramago e conheço a bíblia, Velho e Novo Testamento. Ao longo desta semana deparei-me com católicos fervorosos que desconhecem os Evangelhos, apoiantes e opositores a Saramago que nunca leram nenhum dos seus livros.
Facto será que a Igreja Católica enquanto instituição não tem sido exemplo de práticas de tolerância, amor ao próximo entre outras coisas, para além das riquezas acumuladas à custa de muita miséria, para além da Santa Inquisição responsável por mortes e torturas, (pronto o Papa pediu desculpa à relativamente pouco tempo, mas uma coisa não limpa a outra) para além das Cruzadas e de outras barbaridades, a Igreja Católica foi mais um instrumento de repressão e atraso da humanidade do que libertador e igualitário, como parece, Jesus Cristo pretendia.

Mas pronto as opiniões são boas, porque cada qual têm a sua, confesso que ontem ainda peguei no “Livro de Caim” mas isto de no mesmo mês pagar propinas e livros escolares, arrefece-me as paixões literárias, no entanto está provado seja por causa de um filme como o “Je vous salut Marie”, as aparições de Fátima ou o Livro de Caim, a Igreja é um poderoso promotor de marketing…

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O silêncio das Sereias

Todas as meninas já quiseram ser sereias, as sereias são sensuais, supostamente têm todas aquela idade imprecisa entre menina e mulher, seios altivos, cabelos compridos, vozes fantásticas, mas não podem caminhar, tem rabos de peixe, assim também ficam a salvo de outras investidas.
No entanto ser sereia para sempre não deve ser fácil, não sei como uma sereia resolveria certos problemas práticos do dia a dia, como levar um filho ao médico, como limpar a casa com aquele rabo de escamas a arrastar-se, como empurrar o carro das compras de lista em riste, carregar os sacos, arruma-los no porta bagagens, tira-los de seguida e arrumar as compras nas prateleiras do frigorifico e da dispensa, estar ao fogão a preparar coisas várias com sabedoria, equilíbrio, difícil com a barbatana, ainda correndo o risco de cozinhar as suas extremidades inferiores acidentalmente, isto para além dos salpicos da ordem ou das queimaduras de se encostar inadvertidamente um braço ao tacho ou à grelha.
Por outro lado qualquer mulher continua a guardar esse sonho mítico dentro de si, de ser sempre bela, com um toque de mistério, de guardar uma parte de si num rabo de peixe e por isso guardámos no ventre o ritmo das luas e das marés, e o nosso ventre abre-se com uma concha que tem ainda a particularidade dos moluscos, a sua delicadeza um certo ar marítimo.
Por fim a voz das sereias, que supostamente encantavam com o seu canto, nem todas conseguimos guardar, por isso nem todas encantam assim com a voz, mas algo é mais temido que o canto das sereias que encanta os homens, o seu silêncio.

As sereias, porém, possuem uma arma ainda mais terrível do que seu canto: seu silêncio.
Franz Kafka 1917
(Mermaids, Catherine Walker)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Uma espécie de borboleta


As minhas bisavós tinham nomes lindos: Mariana, logo duas, Leonor e Laurinda.
Já falei assim pela rama das Marianas, pouco sobre a Leonor e pouquíssimo sobre a Laurinda.
Bom a Laurinda era a tal casada com um anarco sindicalista, que tocava bandolim e fazia serenatas, que ficou desempregado por liderar uma greve reivindicando coisas para os seus subordinados, que colocou aos filhos apenas os seus apelidos, excluindo os apelidos da Laurinda, que morreu antes dos quarenta anos, desempregado, tuberculoso, deixando a Laurinda cheia de problemas, com um filho quase de colo, uma filha doente e a minha avó, que começou a trabalhar cedinho.
Dando o enquadramento posso dizer que a minha bisavó Laurinda passou por outros desgostos, para além da viuvez, da morte de vários filhos na primeira infância, de privações diversas, de ter assistido à morte de uma filha na idade adulta, ao desvario do filho com jogo e demais miudezas do dia a dia.
No entanto na fase final da vida teve alguma alegrias para além de um genro que se empenhou no seu bem estar, o meu avô, para além do aconchego material que a filha, minha avó lhe proporcionava, a minha bisavó Laurinda, analfabeta, viu as netas irem para o Liceu, as minhas tias, note-se que na época isto era muito à frente, também assistiu ao tecnicolor e aos primeiros tempos da televisão.
Quanto aos primeiros tempos da televisão assistia na Colectividade mais próxima (Sociedade Democrática União Barreirense Os Franceses), com a minha mãe, sua neta mais nova sentada junto ás suas pernas, quando aparecia a locutora a dizer “Boa Noite, Senhores Telespectadores” a minha mãe recebia um calduço ou um puxão de tranças por não ter respondido ao cumprimento, de cinema também gostava, embora não conseguisse ler as legendas e também calhar à neta mais nova bichanar-lhe o enredo ainda assim gostava do Cinema Italiano e tinha preferência por Vitorino Daseca e Sofia Loreno (Vittorio de Sica e Sofia Loren, respectivamente), por fim quando se encontrava na soleira da porta a fazer malha com cinco agulhas, a minha irreverente tia mais velha arremessava-lhe com um “Saia-me da frente seu paquiderme!”, ao que a avó perguntava à minha outra tia “Diz lá à avó o que é um paquiderme?” a minha tia comprometida, respondia “Uma espécie de borboleta, avó!” ao que ela ripostava “As minhas meninas aprendem coisas tão bonitas no Liceu!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

DOCE


Doce é morno, nem muito quente nem muito frio.
Como explicar o doce a quem não tenha paladar ou nunca o tenha provado?
Podemos dizer que o mel é escorregadio, peganhento e pastoso, que o chocolate é um pouco mais quente, que as peras são granulosas e em cada granulo há um resto de pólen que podia ser mel e como tal é doce, que o açúcar tem sol que ficou guardado nas canas, ficaram lá guardados todos os nascer de sol e ocasos, todas as musicas vibrantes, até os cantos das cigarras, que a canela tem o mesmo sol de outra forma guardado na casca da árvore e que a baunilha, igualmente doce, é uma vagem que leva muito tempo a formar-se mas saiu de dentro de uma flor por isso guardou o sol, o perfume das flores, o pólen.
Doce é mais que isso, há pessoas doces, pessoas que investem todo o seu tempo, o seu esforço, em amar, amar assim de mansinho, amparar cada queda, retirar cada pedra do caminho, aconchegar os lençóis, constroem momentos de conforto em cada vida com que se cruzam, sem esperar quase nada em troca. Tenho tido sorte de me cruzar com pessoas doces.
Doce pode ser ainda o amor, sob todas as suas formas, um amigo que diz “Estou aqui!”, os braços de um pai, um abraço da mãe, adormecer um filho ao colo junto ao peito embala-lo com o bater do coração.
Doce continua a ser ainda o amor, sentimento tão raro como vulgar, o amor que nos leva a ter borboletas a adejar no estômago, arrepios de frio em Agosto com um calor brutal em simultâneo, uma dificuldade em respirar, tudo por segurar numa mão, ou uma mão pousada na coxa assim quase esquecida, como um pássaro em repouso.
Acho que é isso, o doce, peganhento, morno, nem muito quente nem muito frio.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Em Branco


Junto estas palavras no vazio.
Esta folha em branco não existe, são pontos de luz alternando entre zeros e uns, numa linguagem absurdamente simples e incompreensível porque aprendi a juntar letras de outra forma num caderno pautado com um boneco na capa e um lápis com a história da Carochinha, uma bolinha e uma perninha, uma ondinha fechada, uma montanha com o sol em cima, uma bolinha com um braço no ar e duas ondas juntinhas…
Não sei se escrevo para ti, para mim ou para alguém que nem existe, que é assim como esta folha branca virtual, não palpável.
Sei continuo a desenhar ondas e montanhas, aventuras fantásticas e viagens compridas, por vezes só na minha cabeça, outras vezes nos espaços em branco dos apontamentos de coisas importantes, flores, cubos, padrões, por vezes ainda penso que se a matricula do próximo carro tiver um A ou acabar em 5, vou conseguir fazer o tal discurso, sem espinhas, ás vezes sim outras não. Um pensamento fugaz que me dá vontade de rir de mim própria.
Mas no entanto tenho uma folha em branco todos os dias, de papel, solta, de rascunho, nos cadernos que teimo em comprar com bonecos na capa, aqui também, folhas em posso escrever tudo, da pessoa que sou, das loucuras que me passam pela ginja, do cheiro das maçãs, do doce e do amargo da vida.

domingo, 18 de outubro de 2009

Agora Não


Não espreites agora
Não espreites para dentro de mim
Agora de repente, não
Agora passam-se coisas só minhas aqui dentro
Vontades, desejos, loucuras,
Saudades, memórias,
Acomodações, cedências
Outras coisas, que prefiro guardar
Gritos que nunca dei
Lágrimas que correram para os sítios errados
Como rios que voltam para a nascente
Sementes e outras coisas presas
Presas em malhas de raízes
Daquelas que cheiram a terra e a humidade
Que nunca germinaram
Dentro de mim toca agora uma música
Só minha, que não sei se podes escutar
Tem risos infantis, vozes roucas, instrumentos de cordas
Um coro desafinado onde eu canto menina
Onde eu canto mulher
Um som que não sei se de um trompete ou
O pedido de socorro de um barco perdido numa bruma
São coisas que nunca perdi
Ou que nunca encontrei
Que já fazem parte de mim
Também guardo esperanças
Luzes e risos, uns usados outros novos
Por isso não espreites
Podes querer ficar

sábado, 17 de outubro de 2009

Retalhos, gregas, alinhavos e outras coisas



A estrada desenrola-se como uma tira de tecido, preta, cinzenta escura, como se fosse alinhavada, por fios brancos, não sei porquê lembra-me as gregas, fitinhas onduladas e coloridas que eu tinha pregadas num bibe, há muito tempo atrás.
A paisagem vai mudando tão gradualmente que quase nem se dá conta, primeiro o rio, nos baixios onde se costumam ver flamingos e outras aves a petiscar camarões e outros bichos, estão pessoas, de costas dobradas, galochas, entre ilhotas de ervas e restos de salinas. Depois a cidade, com retalhos velhos e novas, zonas que se cruzam, coisas bonitas e barracões feios, depois outra vez fora disso, mais prédios, quase todos iguais, parques de negócios, zonas industriais, centros comerciais a prometerem felicidade instantânea, depois outras coisas, rebanhos de ovelhas, um cavalo ou outro, uma serra a crescer devagarinho, moinhos de vento, as pedras a mudar de feitio, castelos, matas, matas cheias de bétulas e choupos, pinheiros, mansos e bravos, orgulhosos e os eucaliptos a invadirem tudo, nem sequer gradualmente, nem sequer discretamente, porque crescem depressa e nem sequer encerram o mistério do crescimento lento, são arvores quase instantâneas que para crescer assim transformam terra em areia.
E pássaros, poupas, gralhas, corvos, um bando de patos, aves de rapina que só consigo distinguir pelo belo voo de quem não se rala com que se passa cá em baixo, mas é só a fingir, porque estão a observar tudinho.
Que pensaram eles sobre estes estranhos seres encaixotados em carros, autocarros, comboios, sempre a seguir aqueles trilhos demarcados, a protegerem-se em abrigos de pedra sem quase nunca olhar para cima?
Faço quinhentos quilómetros, num dia limpo de outros compromissos, para abraçar uma amiga e beber um café com ela, como se o fizéssemos todos os dias, voltar outra vez e já não ver moinhos, apenas estrelas, nos intervalos dos retalhos das cidades que passaram a ser retalhos luminosos, o alinhavo branco da estrada e nem eu sei porque me lembro das gregas no bibe, do sabor das regueifas, na cidade como uma manta de retalhos, na invasão dos eucaliptos, na estrada como uma tira de pano, no pensamento dos pássaros…

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Nem todos os pássaros voam


A envergadura de asa é uma coisa importante mas não definitiva quanto á capacidade voo.
Os pássaros nascem todos com asas, até as galinhas, mas nem todos conseguem voar.
Com as pessoas é o mesmo, acho, sinceramente, que todos nascemos como as aves, com potencial para muito, voar, sonhar, modificar o mundo, adapta-lo, melhorar, abrir janelas de oportunidade, crescermos mais do que a altura que temos, concretizar sonhos, sermos nós para além de nós.
Entretanto há pessoas que cortam as asas, as guias, recusam-se a voar, mais que isso cortam as asas a todos em seu redor, vivem no ovo sempre, encolhidos sobre si próprios.
Entretanto, felizmente, há outros como Fénix, renascem das cinzas, voam outra vez, fazem desenhos no céu, constroem outras rotas, por cada pena arrancada nascem duas, por cada rajada de vento contrária as asas ganham força.
Vou sacudir as penas, esticar as asas, vou voar e já volto.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Raramente mas de vez em quando

Raramente falo da política local neste espaço, mas de vez em quando é irresistível.
O Barreiro é um cidade, já foi Vila, já pertenceu ao Concelho de Alhos Vedros está referenciada durante a ocupação Romana da Península, existem vestígios Arqueológicos do Paleolítico, está intimamente ligado à epopeia dos descobrimentos marítimos Portugueses, tem um núcleo Medieval, um Pombalino, uma tradição náutica, uma Igreja Manuelina, outra fundada por uma irmandade esclavagista, tinha quintas e hortas, moinhos de maré e de vento, transformou-se num importante pólo com a Industria transformadora da cortiça e com os Caminhos de ferro, depois com o complexo fabril da CUF.
As coisas mudaram por muitos factores, foram mudando, mas eu gosto do Barreiro, muito, tenho orgulho na minha terra na sua história, das suas gentes.
Tenho orgulho nas tradições Associativas, nos contributos vários para a cultura Nacional, músicos, pintores, actores, fotógrafos, escritores, Barreirenses de nascimento ou de adopção.
Sou Barreirense, Camarra, filha e neta de Barreirenses, bisneta e trisneta de alguns também, mas não considero Barreirense só quem nasceu cá, acho que qualquer pessoa que encontrou aqui o seu canto, a sua vida, a forma de a ganhar, também, que com isso tudo ganhou amor ao Barreiro é Barreirense.
Passadas as eleições Autárquicas, falo nisto tudo por um simples motivo, uma coisa é querer um Barreiro melhor, todos queremos, é humano, podemos ter visões diferentes do que queremos ou outras prioridades, mas algo essencial que quando se fala no Barreiro, nas suas potencialidades e na sua história é que se conheça o Barreiro e é nesse ponto que a porca torce o rabo.
Não ponho em causa a honestidade, integridade, boa vontade, empenho de ninguém, mas como cidadã interessada, como concorrente, li programas, entrevistas, vi debates e assustei-me pela falta de conhecimento sobre o Barreiro e sobre a realidade de alguns candidatos, cabeças de lista, pessoas que se propunham a liderar um projecto Autárquico demonstraram um total desconhecimento da realidade, falo por exemplo das rãs do Sapal de Coina, que tanto quanto sei não é impossível biologicamente ou dos esforços para encontrar o Castelo, também em Coina, vagamente referenciado nas Crónicas de Fernão Lopes, documento mais literário que histórico, mas do qual não existe qualquer outro relato ou vestígio, das perdizes da Mata da Machada, da Câmara Municipal arranjar médico de família para todos os Barreirenses ou mais agentes da autoridade, entre outras, no mínimo isto é demagogia, é assumir compromissos que não se podem cumprir, que não dependem das Autarquias, noutros casos serão mesmo anedotas.
(foto aerea Guta de Carvalho)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Papagaios de Taberna


Quando eu era miúda existiam muitas tabernas, quase todas com um papagaio cinzento africano num poleiro de lata, com uma corrente a prender a pata, pendurada à porta. Quase todos tinham o nome de Chico ou Jacob, tirando um tio meu que tinha uma taberna e mercearia tudo junto, tipo megastore, em Palhais, que em vez do tradicional papagaio tinha um coelho, o coelho morria de velho e passava todo o dia a beber vinho da tigela para onde pingava a torneira da pipa e o resto do tempo esticado na soleira a curtir a bebedeira.
Assim de cabeça, lembro-me do Jacob da Arruda dos Vinhos, na Travessa Luís de Camões onde eu ia encher um frasco de sais de fruto com aguardente que levava de contrabando na visita dia sim dia não que fazia ao boémio tio Artur, meu tio bisavô, vagabundo e músico, internado na Misericórdia, o velhote esfregava as mãos sentava-me ao colo cobria-me de carinhos “Minha rica mascote!”.
O Jacob imitava os travões das bicicletas, quando alguém atravessava a Travessa, o ganir dos cães, quando um carro a descia, nós divertíamo-nos muito a ver os carros pararem e os condutores aflitos a espreitarem debaixo do carro à procura do cão atropelado. Assobiava de várias formas e dizia palavrões, os primeiros que ouvi.
Existia o Chico na Vinícola e outro na Taberna ainda hoje conhecida por Papagaio, frente ao Teatro Cine.
Hoje quase que não existem tabernas, são pubs, Bares de Vinho, etc. e tal, mas existem outro tipo de papagaios, por exemplo no cafezito junto ao meu trabalho existe um sexagenário que comenta as noticias de jornal em voz alta emitido opiniões abalizadas sobre tudo, aliás desse tipo de Nuno’s Rogeiros’s ou afins que percebem de tudo um pouco existem milhentos papagaios, um vizinho de família por exemplo balança entre três portas de cafés e pastelarias no centro da cidade, emitindo opiniões que ninguém pede, sobre moral, politica, futebol, economia, governação, mecânica aeroespacial, tudo mesmo, um poço de sabedoria. Outros mais específicos acompanham qualquer obra com rigor e pormenor, pondo os respectivos defeitos. Sabem porque é que o país não avança, porque é que o petróleo é tão caro, quem é o namorado da rapariga da novela, a melhor táctica para a selecção nacional de futebol, como é que se constrói o TGV, as causas do desemprego e outras coisas.
Alguns pedem-me para eu lhes fazer o IRS, mas ninguém é perfeito!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Alecrim e corte de cabelo


Os últimos meses tem sido muito intensos, doenças, campanhas, divórcios, mortes, trabalho, ontem com o fecho das urnas e a contagem dos votos fechou-se um ciclo.
Hoje era suposto não fazer nada, uma coisa para a qual não tenho jeito nenhum, verdade se diga.
Mas pronto ontem deitei-me estafada, com os pés doridos, a alma mais leve, depois de uma comemoração que se previa etílica, mas que foi muito moderada, apenas me intoxiquei de beijos e abraços, depois acabei por me render ás evidências e depois de um dia muito longo, com o coração a bater como uma borboleta presa num frasco, com um deja vu de uma quinzena atrás, onde no meio de outro processo eleitoral me atingem com um rombo no peito, depois de um dia com quatro arruadas, no qual acabei a dançar no meio de um largo, depois de três campanhas eleitorais recheadas de trabalho intenso, mágoas várias, depois disso tudo, recolhi ao ninho tomei o profundo banho reparador e dormi, dormi assim num sono bom profundo.
Tinha previsto namorar pela manhã, não foi possível, o parceiro tinha compromissos laborais inadiáveis, acabei por acordar à hora do costume, ler um bocadinho, tomar o pequeno almoço com muita calma, esticar-me no sofá, retribuir umas chamadas, uns parabéns, vestir-me, entrar num cabeleireiro, mudar a imagem, entregar-me assim com calma a mãos experientes, ouvir meia dúzia de banalidades, mudar o aspecto e continuar a ser eu, quebrar a promessa de me afastar do trabalho e passar por lá na mesma, recolher este computador, que também andou em campanha, parar para beber um café com amigos maiores que a vida e mais outro em família sem olhar ao relógio, voltar a casa, cortar a carne assada com alecrim, fazer um bolo, puré de maçã, arroz branco, legumes salteados, para um jantar com quatro cadeiras, que é coisa que há muito não se usa mas que faz falta.
Ainda me dói o corpo, ainda estou cansada, mas já estou pronta para o que se segue.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Pormenor do mel




A memória é uma coisa estranhíssima, como um armário sempre mal arrumado, há coisas que nos fazem muita falta e ficam ali amarfanhadas, mas sempre à mão de semear, outras são guardadas em recantos, gavetas ocultas, por exemplo lembro-me de dormir dentro da minha cama de grades, cinzenta muito clara, com uns lençóis com gatos e cães azuis, é estranho lembrar-me disso, é claro que a cama era grande e que dormi lá até aos dois anos e qualquer coisa, lembro-me das minhas festas de aniversário, lembro-me de visitar a minha tia no dia em que regressou a casa com a minha prima recém nascida e de a minha tia ter pedido para comer uma torrada com mel, nunca mais me esqueci do pormenor do mel.
Depois existem coisas que guardamos tão bem guardadas que raramente usamos e que nem devíamos de rever nunca, a sensação de abandono por exemplo, experimentei-a em criança e de vez em quando ando à procura de outras coisas e aparece-me, geralmente guardo-a num canto recôndito, mas quando à procura de outras coisas, sei lá dos meus berlindes de infância, do cheiro dos cadernos novos no primeiro dia de aulas, o dia em que vi nascer uma ninhada de gatos.
Descubro outras coisas, sabores de beijos, sussurros amorosos, tardes e noites de verão, letras de canções, o cheiro dos meus dois bebés, a voz da minha avó, o cheiro do meu pai, os sorrisos das minhas tias.
Por outro lado por vezes não sei onde deixei as chaves do carro ou as de casa, o telemóvel, os óculos de sol, onde estacionei o carro ou o pior da semana passada entrar no duche de soutien vestido, estranhar algo, não saber o quê…
A ver se arrumo isso.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Uma tareia!



Parece-me que levei uma tareia, dói-me o corpo todo.
Embora em abono da verdade a única tareia que levei na vida foi à muitos anos atrás, teria cerca de seis anos e lembro-me perfeitamente, estava assim como agora um tempo meio quente, cinzento e chuvoso, e passava férias com os meus pais, Natal, Carnaval, isso já não me lembro. Lembro-me de sarnar a minha mãe para me deixar vir brincar para a rua, depois de um grande choradinho consentiu com multiplicas recomendações “Não te molhes!”.
Pois está claro que o único gozo dos dias de chuva é enfiar os pés nas poças e chapinhar, voltei para casa, debaixo de um ralhete, as botas foram postas a secar, quando secas calcei-as e comecei o choradinho, da rua, que não fazia mais, venci pela persistência, claro está que fiz o mesmo.
Aí a coisa já foi noutro tom, já foram usados os dois nomes “Ana Isabel, mas tu estás a gozar comigo?!”, regressei a casa as botas secaram, cá em baixo os companheiros de brincadeiras faziam sinais e desafiavam-me e eu de nariz colado à janela numa tristeza infinita, recomecei a ladainha, mas obtive uma vitória parcial, podia descer mas não podia sair do jardim, ficando assim privada do convívio da canalha, era assim que lhes chamavam.
Sinceramente não gostei, mas desci, não existiam poças, apenas um pedaço relvado, a minha mãe lembrou-se de me avisar “Não vás para a relva que está ensopada!”, grande desafio é claro que olhei para ela e qual soldado marchei direitinha à relva dando grandes passadas de modo a salpicar agua por todo o lado.
“Ana Isabel, pára com isso, a mãe bate-te!”
“Não bates não, que eu vou contar ao meu pai!”
A minha mãe tinha um chinelo ortopédico de madeira, sabem?
Amanhã acho que vou pisar umas poças mas só depois de ir a casa da minha mãe, pode ser que ela ainda tenha chinelos daqueles e já me dói o corpo todo.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Gato gordo e palerma



Está um dia cinzento e chuvoso e nos dias cinzentos encolho-me como um gato gordo e palerma, só como os gatos sabem ser, embora mesmo os gatos gordos e palermas tenham sempre prontos dentro de si um tigre, todo bigodes, pelos eriçados e garras, assim como um bicho dentro de outro.
Acho que funciono a energia térmica solar e preciso disso para funcionar, estes primeiros dias deixam-me assim com o cheiro de terra molhada, com a noite a chegar mais cedo, com outras coisas a passar pela cabeça, umas boas outras nem por isso, até ao meio do dia a coisa funciona, trabalhei, cozinhei, depois fico assim outonal, a pensar que amanhã é dia de batente e por estes dias o batente é também campanha, limpar ramela ainda não é bem dia ver uma data de pessoas que sacodem o sono com a andar decidido para dentro do barco, que os vão levar para a outra margem, estender um programa, perguntar sempre “Bom dia! Posso oferecer-lhe…”, uns agarram sem olhar, outros agradecem, há uns que recusam, uns educadamente, outros nem por isso.
Eu fico a olhar e a pensar quantas histórias caminham ali, os amores perdidos, a auxiliar de acção médica que sonhou salvar vidas como médica e acabou com um titulo maior e que de vez em quando fecha os olhos no meio do cheiro dos desinfectantes e por um breve instante quase se convence que conseguiu, o homem cansado que sonhava ver as grandes obras de arte em tantos Museus, que as conhece de cor pelos livros, mas que fica ali todo o dia numa portaria a dizer “Bom Dia Sr. Doutor!” ou “A sua identificação, por favor”, quando não passa ninguém e os telefones não gritam nem acendem luzes ele vê os catálogos escondidos, as esculturas de Rodin, os amarelos de Van Gogh, as ninfas rechonchudas de Rubens, assim esquece-se um pouco do filho que entra e sai de casa ciclicamente, que nos intervalos arruma carros em troca de moedas e troca qualquer coisa por uma substância que injecta dentro de si, que o mata aos poucos e mata o sonho daquele homem, que o mais longe que foi, foi a Badajoz, de Excursão onde comprou latas de pêssego, chocolates e outras coisas iguais ás de cá. De vez em quando mete um dia de folga, sem a mulher saber, veste o melhor fato, leva a sanduíche numa pasta, vai direito ás Janelas Verdes ou ao museu de Arte Antiga da Fundação Gulbenkian, absorve tudo, quando sai sente-se mais homem, embora continue a sonhar com aqueles sítios, Prado, Orsay, Louvre, Hermitage, nem pode falar nisso, a mulher com quem casou pelo sorriso fresco e a cintura fina, ela própria uma ninfa, agora só rugas, encarquilha-se no sofá, com a renda na mão, a bata ás flores, suspensa nas agruras das novelas.
Desculpem mas estes primeiros dias chuvosos e cinzentos deixam-me assim, encolhida como um gato, gordo e palerma.

domingo, 4 de outubro de 2009

amar tem lá dentro mar


Ele segurou nos seus cabelos que esvoaçavam ao ritmo do vento, cheirou-os e sorriu, ela sorriu de volta sabendo que nada daquilo era inesperado, durante muito tempo tinham-se medido como dois predadores, quando ele media disfarçadamente a curva das suas ancas ou fazia um olhar mais duro para outro qualquer que a tratava com mais familiaridade, ela tocava-lhe de forma aparentemente inocente, encostava ligeiramente a sua coxa à dele enquanto parecia absorta na música, sorria-lhe antes de levar o copo aos lábios, acendia cigarros com calma esperando que ele os acendesse.
Tinha chegado o momento primeiro, o primeiro beijo, onde as dúvidas ficariam esquecidas para apenas serem preenchidas por outras, onde a aflição da espera e ansiedade iria apenas ser substituída pela fome de se conhecerem, provarem, cheirarem.
E amar tem lá dentro mar, aliás é quase mar!
O mar tem imensas coisas, sal, agua, conforto, força, inquietude, vida, sombras, morte, luz, coisas absolutamente concretas como as rochas e coisas completamente ambíguas como os corais, que parecem rochas ou plantas mas são animais. Apesar de os corais depois de mortos voltarem a ser rochas e as rochas depois de desfeitas serem areia, que sendo a mesma coisa são outra.
Amar é assim também, há o mistério, a sedução, o abrigo da calma, a inquietude da espera o carinho, a paixão, por vezes uma corrente muito forte, outras são uma ondulação breve, aguas turvas e límpidas, vendavais, gestos e arrebatados e coisas de todos os dias, carícias simples, palavras familiares e surpresas alucinantes.
Aquele momento foi de maré cheia e viva.

sábado, 3 de outubro de 2009

Não sei atar os sapatos!



Hoje acharam, por duas vezes, que o meu sobrinho era meu filho, acharam também que eu não tinha ar de quem tinha dois filhos crescidos, é claro que fiquei contente.
Apesar de me dar conta que muitas pessoas me acham madura ou muito responsável, não deixo de ter uns toques infantis, coro com muita facilidade, espanto-me com pequenas coisas, tenho cócegas e não sei atar os sapatos.
Várias pessoas esforçaram-se para colmatar esta última falha, os meus pais, a minha avó, os meus tios de vários níveis, a mãe da minha amiga Leonor, que nas aulas de ginástica me conseguiu ensinar aos quatro anos a calçar as meias sozinha mas falhou redondamente na questão de atar os sapatos. Talvez por isso prefira sapatos de presilha, mocassins ou os espantosos ténis sem atacadores.O facto de corar é passível de ser disfarçado, as cócegas são uma chatice particularmente se fico sentada junto a amigos de longa data em reuniões sérias e eles decidem atormentar-me com pequenos toques que me fazem saltar na cadeira, espantar-me com certas coisas acho que é indispensável afinal a vida tem de encetar alguns mistérios, quer seja a habilidade das andorinhas sem GPS voltarem sempre ao mesmo ninho, quer seja descobrir algo bonito mesmo no meio de qualquer coisa muito feia, nem que seja uma flor a nascer no asfalto, não conseguir atar os sapatos é que me chateia, conto com algumas benfeitoras que sabendo de ginjeira como sou em vez de me dizerem “Tens o sapato desapertado!”, pedem-me para parar baixam-se e deixam a miúda pequena que existe em mim seguir caminho com os atacadores seguros.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009


Visto isto e os factos já é sexta-feira. Sexta-feira, Sexta-feira, Sexta Feira…
Os pés doem-me, campanha, compras, montagem de mesas de voto, andar empoleirada a ocultar propaganda frente a Assembleia de voto, dia de Eleições, andar de um lado para o outro, telefonema “Já morreu!”, correr a consolar, abraçar, dar a noticia, voltar para o final das contagens, fechar Assembleias de voto, introduzir resultados, “Não penses em mais nada, agora! Não penses que ela levava muito a sério o acto de votar, que em Junho foi de andarilho como uma velhinha que não era, perante a consternação dos que não a viam há muito tempo. Que a última vez que falou contigo perguntou se era possível votar e disseste-lhe que não, não era.”, Sair, correr para mais abraços, mais avisos, saber como é que estava o tratamento das exéquias, chegar a casa deitar-me depois de um banho, não conseguir dormir até o sol começar a espalhar uma luz vaga pelas frinchas da persianas, dormir então, um sono pesado cheio de sonhos e sobressaltos, levantar, banho, comer, olhar absorta para um dente que me caiu, aos quarenta e dois anos, aquele pedacinho de mim morreu, ajudar “Vá mãe, tens de comer, vamo-nos vestir e eu ajudo, sim, levo-as de carro”, a chegada do corpo, pela primeira vez voluntariamente olho para um corpo sem vida, tem um ar de estranho repouso, parece que posso só abanar devagarinho “Acorda!”. O dia todo de pé, doze, treze horas, não sei, aparecem pessoas, conhecidas, amigas familiares, estranhos, “Os meus sentimentos”, sempre que me sento tenho uma mola, falta-me o ar, sento-me no fim da noite, volto para casa, banho, deito-me não consigo dormir, dores alucinantes nos pés, uma bolha, levanto-me, é impossível manter-me ali, passo pelos pés uma pomada, que diz “analgésico e anti inflamatório”, promessas vãs, vejo como se não visse, sem som, borboletas, pássaros, focas, escaravelhos, que acasalam reproduzem-se, morrem, caçam, sobrevivem. Levanto-me, visto-me, como, é de madrugada, ainda não é bem de dia, está um carro já parado, um conhecido de sempre, digo ao Diácono, “Pode ir, obrigado!”, o carro funerário, o transito, o cheiro enjoativo das flores, “Ficas cá fora com o miúdo, Ana?!” “Claro que sim!”, “Podes secar esta flor da avó, colocas uma folha por baixo, outra por cima e uns livros pesados, esqueceste da flor e depois fica seca e espalmada para sempre”, voltar, voltar mais vazia, deitar-me, “A mãe tem de descansar um bocadinho”, cozinhar, colocar a mesa, sentarmo-nos os quatro, deitar-me, dormir, sim dormir, sair, ocupar mãos e mente com trabalho, ocupar os pés a andar, campanha, andar, doem-me os pés, deitar-me numa marquesa, tirar fotos de dentro de mim, o médico franze o nariz, “Mais três, pequeninos, mas novos, Dª Ana”, penso que não é bem comigo aquela conversa, “Se tivesses que lhes dar nomes, Ana? Saudade, Cansaço e Esperança?”, compras, limpar a casa, fazer o jantar, deitar-me, dormir?!Já é sexta-feira! Doem-me os pés!

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Talvez


Naquele dia ela chegou mais cedo que o costume a casa, tomou um banho com calma, com um cheirinho a flores, madeiras de outros lados, antes disso aplicou-se a retirar o pelos supérfluos do seu corpo, secou o cabelo com calma dando toques com a escova, avaliou as rugas, a flacidez da pele, descobriu mais um, dois, desistiu de contar os cabelos brancos novos, escovou os dentes com vigor redobrado, passou creme no corpo, embora primeiro verificasse o prazo de validade, vestiu uma blusa guardada à muito tempo, com um decote generoso, escolheu brincos, avaliou desconfiada o que poderia fazer com a maquilhagem há muito guardada, pintou o rosto como uma tela de cores suaves.
Hoje tinha decidido não ficar, de chinelos e calças de fato treino velhas, sentada no sofá com duas peças de fruta e um yougurt, num jantar solitário frente à televisão a debitar noticias iguais, investigações criminais do outro lado do mundo, biografias de estrelas cadentes ou acasalamento do rinoceronte, ou ainda frente ao computador a trocar conversas com alguém sem rosto, naquela noite ia comer mesmo que só numa sala de um restaurante, com vozes ao seu lado, observar as famílias, os casais, ouvir musica, talvez encontrar um rosto que lhe sorrisse.