domingo, 4 de outubro de 2009

amar tem lá dentro mar


Ele segurou nos seus cabelos que esvoaçavam ao ritmo do vento, cheirou-os e sorriu, ela sorriu de volta sabendo que nada daquilo era inesperado, durante muito tempo tinham-se medido como dois predadores, quando ele media disfarçadamente a curva das suas ancas ou fazia um olhar mais duro para outro qualquer que a tratava com mais familiaridade, ela tocava-lhe de forma aparentemente inocente, encostava ligeiramente a sua coxa à dele enquanto parecia absorta na música, sorria-lhe antes de levar o copo aos lábios, acendia cigarros com calma esperando que ele os acendesse.
Tinha chegado o momento primeiro, o primeiro beijo, onde as dúvidas ficariam esquecidas para apenas serem preenchidas por outras, onde a aflição da espera e ansiedade iria apenas ser substituída pela fome de se conhecerem, provarem, cheirarem.
E amar tem lá dentro mar, aliás é quase mar!
O mar tem imensas coisas, sal, agua, conforto, força, inquietude, vida, sombras, morte, luz, coisas absolutamente concretas como as rochas e coisas completamente ambíguas como os corais, que parecem rochas ou plantas mas são animais. Apesar de os corais depois de mortos voltarem a ser rochas e as rochas depois de desfeitas serem areia, que sendo a mesma coisa são outra.
Amar é assim também, há o mistério, a sedução, o abrigo da calma, a inquietude da espera o carinho, a paixão, por vezes uma corrente muito forte, outras são uma ondulação breve, aguas turvas e límpidas, vendavais, gestos e arrebatados e coisas de todos os dias, carícias simples, palavras familiares e surpresas alucinantes.
Aquele momento foi de maré cheia e viva.

9 comentários:

Diogo disse...

És uma das maiores poetisas sobre um dos maiores truques da natureza para assegurar a reprodução humana.

Beijo

poesianopopular disse...

É miuda, como é que, ainda arranjas tempo para pensar nestas coisas.
Tu na estarás delirando?
Seja como for...Gossssteeeeiiii!
Se eu ganhar Palmela e tú o Barreiro, temos de festejar.
Beijo

Suéllem Nascimento disse...

Nossa, adorei seu blog, intenso como poucas coisas nesse mundo tão efêmero .... se quiser dar uma olhada na minha pseudo-literatura fique à vontade: desconsertando.blogspot.com

p.s: agora que virei fã passarei com frequencia ... bjs e parabéns

LBJ disse...

Gostei da tua visão do Amor e eu sou o supremo agnóstico :)

Beijos

Zorze disse...

Ana,

Sempre em grande maré de inspiração.
És uma Mulher muito bonita e mais do que isso, uma consciência de uma beleza transcendental.

Beijos,
Zorze

Akhen disse...

Ana

Realmente o amar é como o mar. Arrepia quando se entra. Dá aquele frio na barriga. Mas depois é como a agua, envolve suavemente e a espuma das pequenas vagas são caricias que não esquecem.
Lembraste-me um poema de Mia Couto e fui lê-lo outr vez:
O PECADO DO RIO
Na igreja
Rosarinho se confessou:
engravidei do rio, senhor padre.
Com gesto de água
arredondou o ventre.
O padre
se enrugou:
ela que não usasse desculpa
para os seus mortais pecados.
A ofensa tremia
na voz dela quando retorquiu:
-Desculpe, padre,
mas Nossa Senhora
não emprenhou de um feixe de luz?
Para mais, acrescentou Rosarinho,
o senhor padre
nem nunca, nem jamais viu esse rio
e rematou
com lânguida saudade: aquele ondear,
as tonturas que ele traz.
......
....
....
Ana, o amar é assim: aquele ondear, as tonturas que ele faz.
É um um rio/mar cheio de vida. que se prolonga até acabar ou na foz ou na maré vazia.

Paz e Luz em tua casa

Sunshine disse...

Sim, Amar tem o mar lá dentro. Um mar suave que acaricia, um mar revolto que turva os sentidos ..., um mar chão que os acalma.

Ana, poucas vezes encontro um paralelo tão perfeito quanto este ... belissimo.

Bjs ... uma boa semana com mt Mar e mt Amar

Fernando Samuel disse...

Maré cheia de mar amar...

um beijo.

Ana Camarra disse...

Diogo

Não é um truque o mar e o amar são essenciais!

José

Está combinado!

Suellem

Mi casa su casa.
Agora ando afobada (é assim?)mas para a semana tenho mais tempo.

LBJ

O amor existe.

Zorze

Nem sempre.

Akhen

Não conhecia, adorei!

Sun

Pouco tempo, mau tempo.

Fernando Samuel

A maré cheia é uma coisa fantástica!

Beijos