quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Pormenor do mel




A memória é uma coisa estranhíssima, como um armário sempre mal arrumado, há coisas que nos fazem muita falta e ficam ali amarfanhadas, mas sempre à mão de semear, outras são guardadas em recantos, gavetas ocultas, por exemplo lembro-me de dormir dentro da minha cama de grades, cinzenta muito clara, com uns lençóis com gatos e cães azuis, é estranho lembrar-me disso, é claro que a cama era grande e que dormi lá até aos dois anos e qualquer coisa, lembro-me das minhas festas de aniversário, lembro-me de visitar a minha tia no dia em que regressou a casa com a minha prima recém nascida e de a minha tia ter pedido para comer uma torrada com mel, nunca mais me esqueci do pormenor do mel.
Depois existem coisas que guardamos tão bem guardadas que raramente usamos e que nem devíamos de rever nunca, a sensação de abandono por exemplo, experimentei-a em criança e de vez em quando ando à procura de outras coisas e aparece-me, geralmente guardo-a num canto recôndito, mas quando à procura de outras coisas, sei lá dos meus berlindes de infância, do cheiro dos cadernos novos no primeiro dia de aulas, o dia em que vi nascer uma ninhada de gatos.
Descubro outras coisas, sabores de beijos, sussurros amorosos, tardes e noites de verão, letras de canções, o cheiro dos meus dois bebés, a voz da minha avó, o cheiro do meu pai, os sorrisos das minhas tias.
Por outro lado por vezes não sei onde deixei as chaves do carro ou as de casa, o telemóvel, os óculos de sol, onde estacionei o carro ou o pior da semana passada entrar no duche de soutien vestido, estranhar algo, não saber o quê…
A ver se arrumo isso.

6 comentários:

Akhen disse...

Ana

As imagens das memórias que expressaste, há umas que fechando os olhos sempre iremos recordar com ternura. Outras, mesmo que fechemos os olhos, iremos abanar a cabeça porque são aquelas que não queremos recordar.
Agora, aquilo que irá ser sempre o teu ex-libris, o esqueceres o telemóvel, os óculos e outras coisas. Achas que vale a pena perderes tempo a arrumar isso?
Vais ver que depois a rotina da tua vida já não terá o mesmo sal.

PAZ e LUZ na tua casa

Fernando Samuel disse...

Arruma isso, mas... com mel...

Um beijo.

Luciano Barata disse...

Já experimentas-te fazer teatro?

salvo disse...

Mel é o que estou a precisar, estou a ficar demasiado azedo, ou antes, querem tornar-me azedo.

Abreijos doces.

Zorze disse...

Ana,

A nossa memória é um enorme edifício. As memórias têm de ser bem percebidas, tal como, arrumadas.
Algumas mais tarde, as entendemos melhor, desculpabilizamos. Evita-mos o conflito interno se a remexermos incessantemente. Pois, podemos até ruir esse edifício.
Usamos a ambiguidade e a experiência que se foi colando a nós.

Quanto ao mel, tão inteligentemente, produzido por esses seres tão pequeninos, como as abelhas, conseguem todos os dias dar lições de organização produtiva aos seres humanos. Gosto muito do produto que elas fabricam, as abelhinhas.

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Akhen

Acho que não vale a pena arrumar isso, tens razão!

Fernando Samuel

Os pormenores são essenciais.

Luciano

Já, há muito tempo atrás e gostei.

Salvo

Tenho cá um tabuleiro marmelada….não fui eu que fiz foi a minha mãe, mas está à tua disposição.

Zorze

Pois tu és um guloso!

Beijos