quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Talvez


Naquele dia ela chegou mais cedo que o costume a casa, tomou um banho com calma, com um cheirinho a flores, madeiras de outros lados, antes disso aplicou-se a retirar o pelos supérfluos do seu corpo, secou o cabelo com calma dando toques com a escova, avaliou as rugas, a flacidez da pele, descobriu mais um, dois, desistiu de contar os cabelos brancos novos, escovou os dentes com vigor redobrado, passou creme no corpo, embora primeiro verificasse o prazo de validade, vestiu uma blusa guardada à muito tempo, com um decote generoso, escolheu brincos, avaliou desconfiada o que poderia fazer com a maquilhagem há muito guardada, pintou o rosto como uma tela de cores suaves.
Hoje tinha decidido não ficar, de chinelos e calças de fato treino velhas, sentada no sofá com duas peças de fruta e um yougurt, num jantar solitário frente à televisão a debitar noticias iguais, investigações criminais do outro lado do mundo, biografias de estrelas cadentes ou acasalamento do rinoceronte, ou ainda frente ao computador a trocar conversas com alguém sem rosto, naquela noite ia comer mesmo que só numa sala de um restaurante, com vozes ao seu lado, observar as famílias, os casais, ouvir musica, talvez encontrar um rosto que lhe sorrisse.

14 comentários:

Akhen disse...

Ana

Talvez represente apenas um dia, como há tantos, em que a solidão toma banho connosco. Em que nem o rosto que se vê no espelho nos sorri. Em que se abomina a rotina de um dia que começou há muito tempo e que parece nunca mais acabar e em que esperamos encontrar num sorriso qualquer, coisas que não queremos partilhar com ninguém.
Talvez só a música nos consiga lembrar que afinal estamos vivos. Que o tal dia não é assim tão comprido e que um por do sol não é o anuncio do acabar de um dia, mas o anunciar de que um novo dia chegará amanhã.
Esquecia-me de dizer que o teu monologo está excepcional.
Paz e Lus no teu caminho

Rosele disse...

De uma sensibilidade ímpar!
Gostei muito!
Abraços!

Akhen disse...

Ana

Eu não digo que "os sentimentos são banais".
Eu digo sim que:
CONFUNDIMOS sentimentos
e trocamos tanta vida
por MOMENTOS tão banais.

Paz e Luz no teu caminho.

Cidadão do Mundo disse...

Talvez....!

Abraço!

filipe disse...

Oxalá "ela" tenha encontrado esse rosto a sorrir-lhe.
Por vezes, basta-nos um sorriso, franco, sincero, humano, despretencioso, para nos mudar o rumo interior e voltarmos a olhar para o alto e para o longe.
Abraço.

samuel disse...

É preciso ir ao encontro da vida...

Anónimo disse...

1ª obrigada, pela música!

Tão lindo, fiquei por aqui a ouvir um pedaço.

O texto, para mim dos mais lindos que já escreveste.

Um beijo

Lagartinha de Alhos Vedros

Ana Camarra disse...

Akhen

Tem de existir um dia assim.Não é?

Rosele

Obrigado

Akhen

Acho que nem existem momentos banais, são todos impares até aqueles aparentemente banais.

Cidadão

Pois, talvez!

Filipe

Só a inventei até este momento, pode ser que ela apareça outra vez.

Samuel

Fundamental!

Lagartinha

Não tens nada que agradecer!
Gosto muito desta música.
Obrigado, eu.

Beijos

Zorze disse...

Ana,

No campo do Talvez, às vezes e talvez às vezes poderemos achar a casa das certezas vizinhas das casas das incertezas.

Por isso é que as pessoas vivem, vidas aparentes de certezas, mas quando, nos seus momentos íntimos, o seu verdadeiro inimigo e como amigo transparente, lhes mostra a incerteza em que vivem.

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Zorze

Tudo é incerto, tirando a morte e os impostos...

beijos

Kelly Lu disse...

Amo seus textos!
Impossível não se identificar!

LBJ disse...

E às vezes talvez baste um sorriso...

Ana Camarra disse...

Kelly Lu

Obrigado.

LBJ

Coisas pequeninas...

beijos

Miguel disse...

Demasiado triste, Ana.

Não tem de ser assim.
Momentos, fases da vida, menos bons, todos temos. Ás vezes toca aquela sensação de solidão... de que mereciamos outra vida... de que as coisas não tinham de ser assim...

E não têm!

Demasiado triste, Ana!