sexta-feira, 2 de outubro de 2009


Visto isto e os factos já é sexta-feira. Sexta-feira, Sexta-feira, Sexta Feira…
Os pés doem-me, campanha, compras, montagem de mesas de voto, andar empoleirada a ocultar propaganda frente a Assembleia de voto, dia de Eleições, andar de um lado para o outro, telefonema “Já morreu!”, correr a consolar, abraçar, dar a noticia, voltar para o final das contagens, fechar Assembleias de voto, introduzir resultados, “Não penses em mais nada, agora! Não penses que ela levava muito a sério o acto de votar, que em Junho foi de andarilho como uma velhinha que não era, perante a consternação dos que não a viam há muito tempo. Que a última vez que falou contigo perguntou se era possível votar e disseste-lhe que não, não era.”, Sair, correr para mais abraços, mais avisos, saber como é que estava o tratamento das exéquias, chegar a casa deitar-me depois de um banho, não conseguir dormir até o sol começar a espalhar uma luz vaga pelas frinchas da persianas, dormir então, um sono pesado cheio de sonhos e sobressaltos, levantar, banho, comer, olhar absorta para um dente que me caiu, aos quarenta e dois anos, aquele pedacinho de mim morreu, ajudar “Vá mãe, tens de comer, vamo-nos vestir e eu ajudo, sim, levo-as de carro”, a chegada do corpo, pela primeira vez voluntariamente olho para um corpo sem vida, tem um ar de estranho repouso, parece que posso só abanar devagarinho “Acorda!”. O dia todo de pé, doze, treze horas, não sei, aparecem pessoas, conhecidas, amigas familiares, estranhos, “Os meus sentimentos”, sempre que me sento tenho uma mola, falta-me o ar, sento-me no fim da noite, volto para casa, banho, deito-me não consigo dormir, dores alucinantes nos pés, uma bolha, levanto-me, é impossível manter-me ali, passo pelos pés uma pomada, que diz “analgésico e anti inflamatório”, promessas vãs, vejo como se não visse, sem som, borboletas, pássaros, focas, escaravelhos, que acasalam reproduzem-se, morrem, caçam, sobrevivem. Levanto-me, visto-me, como, é de madrugada, ainda não é bem de dia, está um carro já parado, um conhecido de sempre, digo ao Diácono, “Pode ir, obrigado!”, o carro funerário, o transito, o cheiro enjoativo das flores, “Ficas cá fora com o miúdo, Ana?!” “Claro que sim!”, “Podes secar esta flor da avó, colocas uma folha por baixo, outra por cima e uns livros pesados, esqueceste da flor e depois fica seca e espalmada para sempre”, voltar, voltar mais vazia, deitar-me, “A mãe tem de descansar um bocadinho”, cozinhar, colocar a mesa, sentarmo-nos os quatro, deitar-me, dormir, sim dormir, sair, ocupar mãos e mente com trabalho, ocupar os pés a andar, campanha, andar, doem-me os pés, deitar-me numa marquesa, tirar fotos de dentro de mim, o médico franze o nariz, “Mais três, pequeninos, mas novos, Dª Ana”, penso que não é bem comigo aquela conversa, “Se tivesses que lhes dar nomes, Ana? Saudade, Cansaço e Esperança?”, compras, limpar a casa, fazer o jantar, deitar-me, dormir?!Já é sexta-feira! Doem-me os pés!

11 comentários:

salvo disse...

Força, amiga.

Abreijinhos.

NI disse...

Doem-te os pés, é certo, mas sentes que estás viva.


Bjs

Akhen disse...

Ana

Respondeste-me dizendo que têm que existir dias assim. É uma verdade.
Mas, Ana, este teu dia, fez-me ver também que nenhum momento da nossa vida é banal. Tens razão Ana.
Quando mais tarde recordamos esses momentos, verificamos que, muitos deles, foram aqueles que mais nos marcaram.
Os teus pés irão ficar em condições de continuarem a exercer a função para que foram criados. Essas dores serão esquecidas.
Mas esses momentos que, sequencialmente, constituiram o teu dia não mais irão sair da tua lembrança por muito analgésicos ou anti-inflamatórios que sejam os momentos/dias que irás caminhar a seguir.

Paz e Luz para iluminar a tua casa.

Maria disse...

Um sufoco...
E no entanto a vida é o que de melhor temos.

Abraço-te

Diogo disse...

Uma roda viva num dia triste.

Beijo

Zorze disse...

Ana,

O corpo que vês num leito de morte não é a Pessoa que conheceste.
O corpo é matéria orgânica, o fato e o veículo de manifestação de uma consciência.
A Pessoa, suas experiências, suas recordações e suas interacções, estão neste momento noutra dimensão, perto de outros que partiram antes e que a receberam carinhosamente.

Já participamos neste processo. Por força de onde estamos colocados, vamo-nos revezando.

Beijos,
Zorze

duarte disse...

tens o ombro de muitos amigos para te apoiar. aqui deixo o meu...só o venho buscar, quando estiveres melhor.
um abraço grande e muita força.

carmen disse...

És uma guerreira, vejo pelo teu escrito, embora não te conheça.
Estamos separadas pelo Atlântico e unidas pelas mesmas questões....
É por tudo isso que vale a pena viver.
Bjs

Fernando Samuel disse...

Há dias assim... quase todos os dias...

Um beijo.

LBJ disse...

Sente o teu respirar e enche o peito, amanhã será outro dia e os pés estarão mais confortáveis.

Ana Camarra disse...

Salvo

Vou tendo!

NI

Cada vez com mais vontade de viver!

Akhen

Para certas coisas não há pomadas!

Maria

Sem dúvidas.

Diogo

Ou será a roda da vida!

Zorzito

Sabes que ainda não encaixei essas coisas, para mim é um corpo a pessoa era e ficou nas memórias.

Duarte

Sabe bem o teu ombro.

Carmen

Tanto mar e tão perto ao mesmo tempo.

Fernando Samuel

Isto tem muitos dias assim.

LBJ


Os chispes estão melhorzitos.

Beijos