domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um homem muito brasa...

Lembro-me de ser miúda e cantar em coro “Aí quem me dera ter um homem muito brasa, para meter na mala e levar para casa!”, confesso que nem sequer fazíamos ideia do que fazer com o tal homem muito brasa, nem da comparação com o fogo, na altura acho que o rapaz de barbas dos Bee Gees era uma brasa, o Travolta era magro vestia fatos brancos e era uma brasa, antes disso terá sido o Paul Newman, o Al Pacino também foi brasa, apesar de ser um homem vulgaríssimo, para a minha avó terá sido quem: o Rudolfo Valentino, espero que tenha sido o Burt Lencaster! Não sei!
Sempre gostei dos “outros homens” os que não apareciam assim no topo da selecção de brasas nacionais e internacionais, sei lá, o Marlon Brando era lindo no “Há lodo no Cais”, acabou como uma caricatura de si mesmo, o Jack Nicholson continua a ter um de doidivanas que é sedutor, homens desalinhados, com o tempo aprendi que as brasas que aquecem a vida das mulheres são outras, um homem feio pode ser fascinante, falar da vida com as mãos no ar, num gesticular fascinante, um careca baixinho a falar sobre musica como se a respirasse, pode ser uma coisa sexy, esses homens mais do que abdominais perfeitos e sorrisos pepsodentes, acabam por ter outras coisas, mais quando conseguem transmitir a uma mulher que ELA é a única, assim como a tal tampa feita por medida, quando não assim tão confiantes que galem com os olhos tudo o que é fêmea num raio de duzentos metros, que nunca, nunca se dão ao luxo de fazer publicidade, mesmo que não seja enganosa, a verdade é que esta semana passei por um dos homens brasa do meu tempo de secundário, na altura tinha assim uma poupa, vestia a roupa da moda e tinha estilo, não dizia nada de jeito, agora tem barriga, tenta fazer a poupa mas tem falta de cabelo, tem o estilo de quem parou no tempo, falou comigo cinco minutos onde não disse nada de jeito, referiu-se “aquele tempo” como o melhor da sua vida, o que achei triste, confessou que “esta musica de agora é só barulho”, repetiu o tique de afastar a tal poupa que é uma sombra triste daquilo que foi, só me lembrei da minha amiga que suspirava por ele nos corredores, que hoje é uma mulher com carreira, continuou a evoluir, já não usa o penteado como a Farrah Fawcet, escuta musicas de agora, ainda bem que não se deixou queimar por aquela brasa…

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Parece que é mesmo sexta-feira!


Como é sexta feira e estranhamente tenho um fim de semana sem compromissos, como é sexta feira e ontem, quinta feira, foi mais um daqueles dias de trabalho das 8h30 ás 23h30, como é sexta feira e talvez por ser sexta feira, parou de chover, como é sexta feira e nada poderá mudar esse facto, a não ser a chegada do sábado, mais logo pela noite dentro, levantei-me mais tarde, tomei o pequeno almoço e o banho com calma, até usei o secador do cabelo em vez de sair porta fora com o cabelo a pingar, usei a maquilhagem favorita, borrifos de perfume, fiz um favor a um amigo, combinei almoçar com outro, consegui que outro par de sapatos me caiba no pé, está assente comigo que vou sair cedo do trabalho, sonhei outra vez com um dos meus mortos insubstituíveis, desta vez expliquei-lhe detalhadamente as coisas que me apoquentam num telefonema, ela ia perceber, fui buscar as analises do costume que me apontam os valores do costume, um documento comprovativo que alguma coisa funciona mal em mim, tenho a roupa lavada embora ainda não me tenha familiarizado com a nova Maria lá de casa, nome carinhoso que dou a todas as máquinas, deixei que os homens da casa o fizessem, graças aos avanços da tecnologia esta têm capacidade para levar mais roupa de cada vez, programas silenciosos e óculo que me lembra o Nautilus das 20.000 léguas submarinas, não havendo mais nada para ler, posso matar saudades do Capitão Nemo, tenho em livro de bolso, edições Fruto Real, a diferença está na fruta, pode ser um bom programa, também pode ser bom sair uma destas noites, não por obrigação, apenas para beber um copo ao som de uma música qualquer temperada com sorrisos amigos ou ainda fazer um daqueles passeios, em que visito penhascos conhecidos, passo por campos verdinhos de chuva, salpicados já por azedas, talvez umas papoilas atrevidas e espreito o mar, o mar onde o Nautilus não andou, o mar onde o Capitão Nemo tentou ser livre…

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A ver se não me esqueço...


Já está a anoitecer, fecho o computador respiro fundo, atendo uma chamada, pronto, acabou, vou-me embora, hoje nem tenho nenhuma reunião, fecho a pasta guardo os cadernos, os mapas cheios de números, os números que já brincam comigo a um cruel jogo de escondidas, pronto toca o telemóvel, sim claro, vou tentar resolver, esta semana é muito difícil, mas o que puder faço, agora é que me vou embora, espera, deixa assinar já os papeis, amanhã de manhã tenho compromissos fora daqui, a ver se não me esqueço de levantar as analises, pronto já está, agora vou, está um vendaval, o rio tem cor de chumbo, as gaivotas parecem os patos num lago, sentadas sobre a água, há uma arvore perigosamente dobrada com o vento, é melhor abrandar senão molho os miúdos que estão no passeio, pronto pisca, vira, o rádio debita meia dúzia de parvoíces, não me apetece tão pouco mudar o posto, deixa ver se consigo estacionar aqui, manobra, para trás para a frente, o parvo do BMW ocupa sempre passeio e estacionamento, pronto já está, Boa tarde! Está boazinha? Sim, vou melhor, obrigado. Levo já o pão, tenho de pegar na mala, na pasta, no saco do almoço ainda falta o pão. Sim, filho, correu bem o dia, o normal e o teu? Pouso o saco, deixa-me tirar as botas, as meias, a camisola, as calças, um fato de treino, meio pijama, as minhas pantufas? Viram as minhas pantufas? Ah, obrigado, filho. O que faço para o jantar? O que eu quiser não é conversa, se for só para mim é uma caneca de leite quente e pronto. Deixa ver… tudo congelado, pronto carne picada, vai sair bolonhesa, acho eu, sim com queijo gratinado estejam descansados, deixa-me só parar um bocadinho antes de fazer o jantar, antes de fazer a cama, antes de outras coisas, não puderam levar a roupa para passar, pois a mãe agora já não possa a ferro é só irem entregar. Já li o livro todo o que vou ler esta noite, volto ao Jorge Amado? Ao Eça? Outra coisa daquelas que já li muitas vezes. Esqueci-me de dizer uma coisa importante. Sabes afinal aquele boato era boato, mesmo. O resto está em águas de bacalhau. Amanhã faço um pé-de-vento! Não faço, porquê? Desgastar-me?! E as coisas presas cá dentro? Bom vê lá descansa tu também! Vá, vão lá levar a roupa, se faz favor! Está vento deixa fechar a janela que ficou aberta desde manhã, a ver se arranjo tempo para cortar o cabelo, a ver se mudo a reunião de sexta-feira, a ver se a máquina da roupa chega amanhã que o cesto transborda, a ver se compro aquele livro no fim do mês, a ver se não me esqueço de telefonar para saber como está a recuperar, a ver se não me esqueço de amanhã falar naquilo, a ver se não me esqueço….

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Por vezes


Por vezes, inesperadamente fazemos uma espécie de parto de nós próprios, talvez quando nos reinventamos face a paredes de pedra que se estreitam ao nosso redor, depois passarmos todos os obstáculos, depois de conseguir dar a volta a todas as adversidades, aparecem maiores com que não contávamos, enxurradas de problemas, sombras que tapam por completo o sol, que fazer então? Que fazer quando de onde esperamos ajuda, conforto, um pouco de coragem, nos aparecem só espinhos, pedras nos caminhos, terrenos minados? Que fazer então, senão buscar uma vez mais as reservas que julgávamos esgotadas, transformar as fraquezas em forças, seguir em frente outra vez, porque depois da noite o sol aparece no horizonte e as tempestades mais que destruir constroem-nos resistências. E onde ficamos? No epicentro de um turbilhão? No meio de nós próprios, na nossa essência reforçada? Nessa altura só posso olhar um pouco mais para dentro, olhar um pouco mais para mim procurar-me, encontrar-me, e enfrentar-me outra vez.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

como costumávamos fazer


Esta semana tive um sonho estranho, acabei tarefas, acho eu, daquelas que não posso acabar nunca, consegui ainda abraçar o meu pai, vai fazer uma dúzia de anos que partiu, dei um cigarro à minha tia que morreu em Setembro, tinha deixado de fumar o seu SG Gigante dezoito anos antes, mas confessava amiúde que sonhava com um cigarro e que lhe apetecia muitas vezes, entraram vivos no sonho também, era tão real que me doeu, entretanto acabo outras tarefas, espreito e espero um mail importante que tem já dois dias de atraso, só depois de o ler poderei tomar decisões, adiantei o jantar que repousa na cozinha á espera que eu o termine, bifes de peru enrolados em bacon, num molho de azeite alhos e limão, couve salteada, falta cozer o arroz, falta tirar ainda a receita das analises, apresentar-me logo de manhã, em jejum de braço estendido, para que me contem células que separam daquele tubinho cheio do meu sangue, falta ainda aquietar o meu filho, que sim muitos chumbam em Matemática, mas que tudo vai correr bem, vou ainda escutando sobre os mortos e feridos na Madeira onde a água e as ribeiras se conjugaram com os leitos sujos e as construções onde não existiu bom senso nem ordenamento do território, as noticias irão ainda referir, quase com toda a certeza, as teorias da conspiração de figuras do poder, as candidaturas gémeas á Presidência da Republica, falta organizar a pasta para que não chegue à reunião de pasta cheia de cadernos todos escritos, como fiz na sexta-feira, falta apalpar a roupa estendida e avaliar se está seca, lavar o fogão depois do jantar, beber um descafeinado, preparar a roupa para amanhã de maneira que conjugue com o único par de sapatos que não me faz doer o pé, ver um filme, talvez, ler um pouco já enroscada no ninho da cama, entretanto vou fumar um cigarro, se a minha tia me aparecer hoje em sonhos, acompanhada pelo meu pai, fumamos os três, conto-lhes das notas dos miúdos, as gracinhas dos mais pequenos, da situação politica do país, enquanto fumamos os três num prazer perverso, como costumávamos fazer.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

O Sexo e a sinceridade Capitulo sétimo


Sinceramente estou a tentar acompanhar a tua conversa sobre as coisas que neste momento não me interessam, com muita dificuldade, apenas vou fixando palavras soltas e retendo os gestos da tua mão, a mão que quero sentir nas coxas, a mão que quero que me pese os seios, com o entusiasmo da conversa sorris como um miúdo pequeno e acenas com a cabeça com os olhos brilhantes de entusiasmo, compartilho desse entusiasmo, de uma forma retorcida, recordando apenas como a calma se tornou urgente no momento que os nossos corpos colidiram depois algum tempo de tensão, em cada toque, ocasional ou nem por isso, provocava espasmos de dúvida e de receio, acho que estou a sorrir sem te ouvir de facto e podes estar a falar numa língua inventada, porque só retenho o som da tua voz o mesmo que me murmurou incitamentos e nomes secretos enquanto os nossos corpos se baralhavam, sinceramente não preciso nem pretendo esta espécie de amizade após o sexo, preciso apenas de provar-te outra vez, desta vez desfrutar-te com calma, como uma iguaria nova, depois, não sei, geralmente procura-se um certo alimento de alma, afinidades, cumplicidades, uma música favorita, um local emblemático, coisas que arrastam consigo depois dores e mágoas, que nos levam por caminhos pantanosos onde se tenta confundir o desejo com o amor, desta vez não, não te quero conhecer mais que isto, o teu cheiro, o teu toque, o teu sabor, sentir o teu corpo, por isso vou levantar-me calar com a minha boca a tua e provar-te outra vez, com calma!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Como tenho muito frio….


Como tenho muito frio só me consigo lembrar das tardes de calor em que um vestido leve e uns chinelos são incomodativos como botas e sobretudo, consigo fechar os olhos lembrar-me de uma qualquer música meio tropical, da sensação da areia da praia a escaldar os pés, da necessidade de entrar no oceano muitas vezes, os gritos das cigarras, quase a ensurdecer, o cheiro dos figos maduros de dia e das flores abertas dos jasmins na noite, o dormir inquieto sem roupa vestida ou lençol por cima, porque de facto tenho muito frio, acho que funciono a energia solar/térmica e nesta altura do ano começo a perder reservas, devia de hibernar como os ursos e as tartarugas, mas isso é improvável porque durmo pouco, acordo sempre à mesma hora como se tivesse engolido um despertador à nascença e levo a noite inteira a discursar e gesticular, dizem-me, mas tenho de facto muito frio que combato com meias grossas, mantas no sofá, aquecedores ligados, camisolas com pêlo por dentro e outros atavios, canecas e chá e chávenas de café, tenho as mãos e os pés permanente frios, a ponta do nariz gelada como um cão de caça (já pensei em tricotar algo para o nariz), tomo duches a escaldar, escolho espumas de banho e sabonetes que tenham cheiros mais estivais, o creme também é uma mistura de flores e uvas com um leve cheiro a mosto, doce e fresco ao mesmo tempo, tento mentalmente pintar o céu de azul, intensificar o brilho solar, mesmo que seja só dentro e mim, porque fora de mim está tudo gelado, os empregos, os salários, as injustiças sociais cristalizaram como um cristal de gelo imperfeito, o vento uiva zangado, a chuva é gelada, tão gelada como os números diversos que caem em catadupa e eu estou farta desta sombra gelada que se infiltra por todo o lado, aqueço-me entre cafés e chás, mantas e peúgas, recordações de outras coisas que sempre vão aquecendo, uma tarde de Agosto onde depois de uma manhã de praia, o corpo salgado e dorido das ondas, nos abrigámos na sombra de uns pinheiros, sobre as toalhas ainda salgadas, a ouvir o mar lá longe, os miúdos, pequenos a dormir e o rádio do carro a tocar, baixinho para não espantar o sol.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Sexo e a sinceridade Capitulo sexto


A verdade é que me apaixonei, mais do que pela tua cintura fina, mais do que pelos seios firmes, as pernas altas, apaixonei-me pelo teu sorriso e pelo teu andar hesitante, como o de uma corça que pisa o chão com cuidado, não vá o predador aparecer, foi por eles que fiquei mesmo quando o teu cabelo passou de longo a curto, de liso a encaracolado e foi mudando de cor tantas vezes que tinha de fechar os olhos para me recordar da sua cor natural banhada pelo sol, mesmo quando os teus seios encheram e vazaram conforme as marés dos nossos filhos, mesmo quando a tua cintura se expandiu, o pior foi quando depois de discutirmos todos os moveis, todas as compras, os brinquedos de Natal, a cor do carro, as notas escolares, depois de tudo isso me vi só com uma mulher que não reconheci, os filhos cresceram, a casa também, ao ponto de ficar grande demais, podermos estar cada um na sua divisão, independentemente do outro, e recordava que a última casa onde me senti feliz era pequena, a canalização não era de confiança, as paredes foram pintadas pelos dois, entre borrões e gargalhadas, acabando por nos amarmos no chão forrado a jornais sujos de tinta, quando recordei essa casa, esse cheiro de tinta misturado com o nosso, caiu-me uma lágrima e fui procurar-te, eras a mesma estranha que tinha estado sentada mesmo frente a mim, num jantar mudo e confrangedor, repetido todos os dias, a mesma estranha com quem faço uma espécie de sexo triste, ás escuras, nas noites de sábado, sempre na mesma posição, seguidos de um suspiro de alivio, não sei se teu, não sei se meu, a mesma estranha que me escolhe a roupa e me adverte em reuniões “não comeces a falar de coisas estranhas…”, a mesma estranha que se senta ao meu lado em passeios maquinais, me desliga o CD e coloca o rádio num posto qualquer, enquanto me fala de pessoas que eu não identifico, planeia a próxima compra de qualquer coisa tão indispensável que a vou estranhar durante meses, como te estranho a ti, até que um dia, sem esperar entrou outra corça de passo hesitante e sorriso franco na minha vida, não andei à procura, simplesmente entrou na minha vida, de repente sinto-me capaz de fazer amor em plena luz do dia num chão forrado de jornais, outra vez….

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Retrato Em Branco e Preto


Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei de cor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar, tanto pior
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto
E que no entanto
Volta sempre a enfeitiçar
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retrato
Eu teimo em colecionar

Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas, minha cara
Ainda volto a lhe escrever
Pra dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

Chico Buarque de Holanda

(Ando apaixonada por este homem desde os meus cinco anos de idade)


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A máscara oculta


Passei mais uma noite mal dormida, entre dores na bendita perna, preocupação com a chuva que sentia lá fora, a dor de cabeça que se instalou vai para dois dias e teima em ficar e a incredulidade de assistir volvidos trinta e cinco anos sobre a Revolução que entre outras coisas acabou com a censura, que garantiu a liberdade de expressão, incrédula portanto com o facto de existirem umas supostas escutas telefónicas, que nos garantem por um lado que são conversas triviais, sem nada de relevante e grave, por outro lado são destruídas, mas não foram, parece que foram arquivadas, mas estão no activo, mas eis que chegado ao dia da publicação de parte delas, meios e subterfúgios legais são accionados para que continuem ocultas, mais ocultas que a crónica de um jornalista que apontava dedos a algumas feridas, mais ocultas que um Jornal televisivo dirigido por alguém incómodo, mais ocultas que um suposto negócio que seria efectuado por um grupo de capitais do estado, onde são encaixados devidamente todos os filhos, afilhados, assessores e compadres de outros negócios, mais ocultas do que as acrobacias bancárias levadas a cabo por gestores da máxima confiança e Conselheiros de Estado, que passam despercebidos a Directores da mais alta instância bancária, que sendo assim é recomendado para uma instância superior a nível Europeu, as boas acções devem de ser recompensadas, no meio disto senti-me profundamente solidária com o Oficial de Justiça que vê a hipótese de ter o salário congelado, não por este ano, mas por mais uns quantos anos, seguido por jornalistas ávidos, provavelmente a dizer a mal da sua vidinha, daquela atenção mediática inesperada, para além destas coisas ocultas, ocultas ficaram também outras conclusões, o Caso Casa Pia, que navega ainda em águas de bacalhau, já muito mal cheirosas, do qual talvez se irá concluir que todos os jovens e crianças envolvidos são culpados, o Caso Portucale, o Caso Freeport, o assunto da REN e do sucateiro amigo, continuamos a não saber onde está a Maddie, mas correm livros e processos de difamação, não sabemos o valor real do défice, não sabemos o valor total do desemprego em Portugal, nem o volume de salários em atraso, sabemos apenas que o cidadão pode passar a ter os seus rendimentos escarrapachados na internet para gáudio da bisbilhotice, não sabemos quanto custam os submarinos ou os helicópteros comprados a perder de vista, alguns governos antes, por quem agora questiona sobre o despesismo do actual, tudo isto continua oculto, escondido e mascarado num Carnaval que parece eterno, bufo, vestido com roupagens emprestadas e os rasgões disfarçados de lantejoulas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O azul reflectido


As coisas engalfinham-se, as reuniões onde se discute a dificuldade emergente e a prioridade urgente, o micro ondas que parece que morreu de vez, sinto um cansaço de fim de dia cinzento de chuva miudinha, onde coisas correram normalmente, outras bem e outras ficaram num pantanoso impasse, lá atrás o meu filho dedilha a guitarra, olho para uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma ou talvez nem por isso, talvez por si só não seja nada, não sou uma personalidade, nem a bailarina que sonhava aos cinco anos, nem a cantora com que sonhava aos doze, nem a cientista que iria descobrir todas as curas de todos os males do mundo e ver de fora, numa nave espacial, a Terra, bela jóia, azul profundo, o azul do mar reflectido na atmosfera ou vice versa, não interessa, não sou uma beleza elegante, não vivi um amor de livro, vivi alguns romances tranquilos e guardo ainda a vontade do beijo da chegada todos os dias, de quem me escreveu dedicatórias em livros e que me vê com olhos parados no tempo, não sou a revolucionária que algum tempo posso ter sonhado, alguém que com discursos e acções pudesse inflamar multidões e despertar consciências, não tenho a casa dos meus sonhos, ainda não fiz as férias dos meus sonhos, não, nada disso, provavelmente não serei uma mulher de sonho, uma filha, mãe ou irmã de sonho, sou eu só, tenho sempre a perspectiva de aprender, faço o melhor que faço, quase sempre, embora tenha dias que me balde ao meu melhor, provavelmente só irei ver a jóia azul no espaço como a vejo desde sempre, em fotografias, vivo o amor, mesmo sem ser dos livros, não tenho soluções imediatas para as dificuldades emergentes nem para as prioridades urgentes, tenho sempre vontade de contribuir para a solução, aprendi a não planear o futuro a longo prazo, para além de poder partir outra perna, podem acontecer múltiplas coisas, tenha as mãos cheias de projectos que vou rescrevendo á medida que mudam as contingências, os factores, as verbas, os meios, as regras não mudei o mundo ainda, mudei só pequenas coisas de pequenos mundos quase insignificantes ou talvez não, Espero nunca perder a perspectiva do azul do mar reflectido na atmosfera ou o seu contrário.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Hoje



Hoje, sinceramente, dói-me a perna, se já não gostava muito do tempo invernoso, passei a ter outro motivo para desejar andar a seguir o Verão, teoria do meu pai, dos meus tios, adoptada plenamente por mim, esta humidade infiltra-se, com toda a certeza pelas costuras da cirurgia, entre o espaço dos ossos ainda mal consolidados, fazendo uma espécie de musgo doloroso, mas ainda era do mais ou menos se me doesse só a perna, mais do que a perna dói-me as noticias do rádio pela manhã “trabalhadores despedidos manifestam-se….trabalhadores com salários em atraso manifestam-se…”, imagino os múltiplos dramas pessoais que se escondem nestas frases, a casa que se pode perder, o frigorifico vazio, os sapatos que não se pode comprar para um filho, a transmutação de migalhas de miséria em refeições, depois fala alguém em nome de uma confederação patronal dizendo que não fazem falta certas empresas em Portugal, principalmente as de mão de obra barata, de repente penso que sou eu que ouvi mal, são os mesmos que apregoam que a única maneira é congelar salários, flexibilizar ainda mais as relações laborais, facilitar os despedimentos, dói-me, nada a fazer, dói-me, continua doer-me ligar a internet e ver que este Governo, que ainda agora celebrou cem dias, com pompa e circunstancia, apesar de nada seja digno de festejo, mas dizia eu que a internet anuncia que este governo já fez 1361 nomeações, um número de respeito em cento e poucos dias, descontando feriados e fins de semana, grosso modo dá cerca de 40 nomeações diárias, ou seja 40 pessoas por dia que vão engrossar os gastos da função pública, apesar de serem salários muito superiores aos de quem apanha o lixo das ruas, repara as canalizações, tapa os buracos do asfalto, marca consultas, tira sangue para analise num hospital a cair, limpa arrastadeiras e afins, mas contam para a média dos gastos com pessoal do Estado. Por isso dói-me, desconfio que a dor prolonga-se noutras coisas, nos jovens que conheço e saem daqui para fora, dos meus filhos que vão apontando esse caminho nos seus projectos, nas noticias sobre as escutas que não deviam ter sido feitas, embora a lei permita gravar todas as minhas conversas electrónicas, telefónicas e afins durante um ano, dói-me pedaços de mim, fazer contas de sumir em vários sítios, olhar para o rio que hoje está cinzento acastanhado numa coloração de lama, mas ainda assim com um pato bravo maluco a voar no meio das gaivotas.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Noutra linguagem

Noutra linguagem sexta feira é vendredi, por exemplo, em vez de sexta feira, vendredi será o dia Vénus, um pouco melhor do que a sexta feira, porque as primeiras têm o gosto da descoberta, as segundas a aprendizagem e as terceiras o reconhecimento e nas sextas feiras já estamos assim cansados e repetidos de muita coisa, ser o dia de Vénus é bonito, talvez sensual apesar de Vénus ser alguém que nunca existiu, casada com Vulcano, infiel com Marte e nascida da espuma do mar, noutra linguagem menos sensual mas de alquimia talvez, sem dúvida de amor, porque por vezes as mulheres aprendem a dar amor com alimentos, da mesma forma que oferecem os seios aos filhos, mas dizia eu, noutra linguagem fiz um bolo diferente, porque foi a primeira vez que o fiz e não encontrei a sua formula escrita em sitio nenhum senão nas minhas mãos, as mãos com que parti nozes iguais a pequenos cérebros, descasquei maçãs ligeiramente tocadas, mas com cheiro de maçã, todas irregulares, misturei com passas, açúcar mascavado, canela, misturei e cortei, bati, untei, e lembrei-me das mãos da minha avó que faziam milagres assim com coisas simples, umas mãos diferentes das minhas, as minhas tem os nós dos dedos escuros, as dela tinham os nós dos dedos curvos e deformados, tanques de roupa desde miúda, soalhos de madeira esfregados, noites a amassar e a cozer pão para depois sair para a madrugada fria aspirando o cheiro do rio, no rio onde ainda há dois dias, muito cedo, muitos homens de afadigavam de balde e enxada, fazendo a recolha do isco no meio do lodo, que parecia prateado, enquanto parto os pequenos cérebros e as maçãs com cheiro ouço a crise do mercado internacional e a queda das bolsas, penso que é outra história inventada, na qual se usa uma linguagem diferente, quase hermética, para que não possamos entender que a raiz da crise está em fechar fábricas de um lado para abrir no outro, para pensarmos nós que se as nossas mãos não fazem falta é porque a culpa é só nossa, porque se decidem se pudemos pescar cavala ou marmota, plantar nabos ou eucaliptos, beber leite de vacas que sempre ouviram outra linguagem, lá longe, ter computadores de brincar em escolas de fantasia que caem como castelos de areia, e na mesma linguagem ainda mostrar como estragamos os meios públicos, porque ficámos doentes, velhos, porque somos jovens, com falta de habilitações ou habilitações a mais, porque se pudermos acatar, esperar e sacrificarmo-nos mais uma vez em nome de outra linguagem, pode ser que sim, embora na minha linguagem acredito que não, assim noutra linguagem a sexta feira que termina é vendredi, o sábado que chega é outro dia.


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Trocar as voltas!


Por muito que a maré, os ventos, a conjuntura, internacional, nacional, local, familiar, nos arraste para um sentido, podemos sempre escolher outro. Acabei mais ou menos por trocar as voltas ao romance da coxa do Tide, cumpri tudo, não deixando de me esforçar para alterar o curso das coisa, a partir de ontem estou mais autónoma com ordem de retomar a minha vida, com calma, passo a passo, por outro lado um jornalista conceituado, Português, trocou as voltas também, não acatando uma lei da rolha implícita e nunca declarada, que vai fazendo mais vazia a Comunicação Social, menos credível, trocando essas voltas, marcou posição, ainda por todo o país, trabalhadores de diversos sectores, trocam as voltas, bradando contra a injustiça de sermos eternamente pagadores de crises feitas por outros, que nos anunciam luzes ao fundos do túnel e nos pedem sempre mais um esforço, só mais um, eternizando esse esforço e as suas dificuldades, tendo eles sempre a sua situação salvaguardada, com um esforço mínimo. Ontem a seguir ao telejornal assisti a duas reportagens seguidas, não eram lamechas, não puxavam ao sentimento, mostravam respectivamente uma empresa e uma escola, na empresa, o empresário deficiente privilegiou a contratação de deficientes, ninguém é coitadinho, não há caridade, são pessoas inteiras. Na tal escola, cheia de pequenos actos de revolta escritos nas paredes, nas portas partidas, nos meninos tristes que provêm na sua maioria de bairros onde sobra o mau viver e falta tudo o resto, nessa escola foi dada a oportunidade estranha de aprenderem a tocar violino, os meninos concentram-se como nunca, tocam orgulhosamente, as famílias que nunca ouviram o som do violino ou mesmo falar dele, juntam esforços para adquirir tal instrumento e ouvem maravilhados.
Por fim num registo doméstico os meus meninos trocam voltas também, um ganhando confiança com os resultados do seu trabalho e dos seus projectos universitários, o outro que esbanja confiança, dedilhando a guitarra oferecida pelos progenitores, ganhando o cognome de Paco de Lúcia…

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Relógio sem pilha




O relógio sem pilha quase que dá as horas certas, acontece duas vezes por dia, não quando o relógio nos apanha mas quando atingimos aquele momento em que ele se ficou, atinjo também o relatório interminável que deixei meio feito, porque afinal sendo extenso ainda leva mais coisas, não é possível resumir assim quatro anos, hoje está frio, mas está sol, sempre agradável ver o astro rei, por muito que seja uma estrela anã, velha na periferia de uma galáxia, é o sol.
O sol não aquece mas conforta, como o café da manhã partilhado com um amigo de sempre que se disponibiliza para a tarefa de me transportar para trás e para a frente, para trás deixei a casa, onde me equilibrei entre canadianas e um andar instável para começar as tarefas de sempre, agora sempre interrompidas por períodos em que não posso mais e tenho mesmo que me sentar, fiz sopa, um bolo, almôndegas, preparei um peixe para assar, dobrei roupa interior, arrumei o que pude, onde chego, li, vi uns filmes, partilhei um bocadinho com amigos, cheirei as maçãs antes de as comprar, coisas pequenas, vitórias simples.
Debito estas coisas sem nexo, apenas ao correr dos pensamentos, penso que sou como o relógio, com uma pilha que se gastou, talvez por exaustão, de um lado e de outro dão-me as boas vindas, quem acredita em acidentes cósmicos chama-me a atenção que isto foi aviso, que tenho de abrandar, penso que talvez tenha sido apenas uma pausa, não me apetece abrandar muito, a mim parece-me apenas que foi um acidentem, uma queda mal dada, como outras coisas, quando caímos é imprescindível sabermos levantarmo-nos.