segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Sexo e a sinceridade Capitulo sexto


A verdade é que me apaixonei, mais do que pela tua cintura fina, mais do que pelos seios firmes, as pernas altas, apaixonei-me pelo teu sorriso e pelo teu andar hesitante, como o de uma corça que pisa o chão com cuidado, não vá o predador aparecer, foi por eles que fiquei mesmo quando o teu cabelo passou de longo a curto, de liso a encaracolado e foi mudando de cor tantas vezes que tinha de fechar os olhos para me recordar da sua cor natural banhada pelo sol, mesmo quando os teus seios encheram e vazaram conforme as marés dos nossos filhos, mesmo quando a tua cintura se expandiu, o pior foi quando depois de discutirmos todos os moveis, todas as compras, os brinquedos de Natal, a cor do carro, as notas escolares, depois de tudo isso me vi só com uma mulher que não reconheci, os filhos cresceram, a casa também, ao ponto de ficar grande demais, podermos estar cada um na sua divisão, independentemente do outro, e recordava que a última casa onde me senti feliz era pequena, a canalização não era de confiança, as paredes foram pintadas pelos dois, entre borrões e gargalhadas, acabando por nos amarmos no chão forrado a jornais sujos de tinta, quando recordei essa casa, esse cheiro de tinta misturado com o nosso, caiu-me uma lágrima e fui procurar-te, eras a mesma estranha que tinha estado sentada mesmo frente a mim, num jantar mudo e confrangedor, repetido todos os dias, a mesma estranha com quem faço uma espécie de sexo triste, ás escuras, nas noites de sábado, sempre na mesma posição, seguidos de um suspiro de alivio, não sei se teu, não sei se meu, a mesma estranha que me escolhe a roupa e me adverte em reuniões “não comeces a falar de coisas estranhas…”, a mesma estranha que se senta ao meu lado em passeios maquinais, me desliga o CD e coloca o rádio num posto qualquer, enquanto me fala de pessoas que eu não identifico, planeia a próxima compra de qualquer coisa tão indispensável que a vou estranhar durante meses, como te estranho a ti, até que um dia, sem esperar entrou outra corça de passo hesitante e sorriso franco na minha vida, não andei à procura, simplesmente entrou na minha vida, de repente sinto-me capaz de fazer amor em plena luz do dia num chão forrado de jornais, outra vez….

12 comentários:

Luís Maia disse...

sou muito fã e este texto e você, não merecem que não se lhe diga que certamente por lapso aconteceu

discuti-mos

um abraço

Ana Camarra disse...

Luis Maia

Desculpe, não percebi o que me quer dizer, "isto" não aconteceu comigo, tentei juntar umas experiências de amigos, neste caso homens, a quem a rotina matou a relação.
Acho justo dar o outro lado da moeda, depois de falar do ponto de vista de uma mulher traida, com fiz aqui http://anacamarra.blogspot.com/2010/01/o-sexo-e-sinceridade-capitulo-terceiro.html

um abraço

samuel disse...

Muito, muito bom!
"quando os teus seios encheram e vazaram conforme as marés dos nossos filhos"... é um espanto.

Abreijos.

Jorge disse...

Belo texto Ana ! mas vê lá isso do "discuti-mos"...desculpa lá, mas eu fui revisor de imprensa !!!

Beijo!

salvoconduto disse...

Bem que a resposta "outra" poderia dar outras perespectivas bem mais completas numa discussão de um matéria como esta, com tanto aliciante.

Abreijos.

malinka disse...

Pura ilusão! Por vezes muda-se de corsa e volta tudo ao mesmo.

Há que ir forrando o chão de jornais (a maioria deles não servem para outra coisa)

Ana disse...

Pelo que se conclui que não há nada como uma casa pequena, com paredes pintadas a dois e jornais a servirem de lençóis.
Há sempre outro olhar, outra perspectiva, outra explicação, que não a da mulher que foi traída.
Parabéns pelo excelente texto

Fernando Samuel disse...

O inexorável passar do tempo...


Um beijo.

Ana disse...

Olá

No meu blog tem um pequeno desafio para si. Gostava que o visse...

Rui Madeira disse...

Grandioso!!
Sou fã!

Zorze disse...

Ana,

... e me adverte em reuniões “não comeces a falar de coisas estranhas…”, eu aconselharia à ilustrada no post, diz e fala, e diz coisas estranhas, não tenhas medo, estranhos já são os outros.

Beijos,
Zorze

Anónimo disse...

Texto, como sempre,lindo.
Em todas as histórias de vida, existem sempre dois pontos de vista da mesma história.
Moral desta história: A rotina mata, mas,essa mesma rotina vai instalar-se de novo com a nova corça ou gazela, ou bode velho.Inexoravelmente.São os efeitos do relógio da vida que não pára.
Dulce