quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A ver se não me esqueço...


Já está a anoitecer, fecho o computador respiro fundo, atendo uma chamada, pronto, acabou, vou-me embora, hoje nem tenho nenhuma reunião, fecho a pasta guardo os cadernos, os mapas cheios de números, os números que já brincam comigo a um cruel jogo de escondidas, pronto toca o telemóvel, sim claro, vou tentar resolver, esta semana é muito difícil, mas o que puder faço, agora é que me vou embora, espera, deixa assinar já os papeis, amanhã de manhã tenho compromissos fora daqui, a ver se não me esqueço de levantar as analises, pronto já está, agora vou, está um vendaval, o rio tem cor de chumbo, as gaivotas parecem os patos num lago, sentadas sobre a água, há uma arvore perigosamente dobrada com o vento, é melhor abrandar senão molho os miúdos que estão no passeio, pronto pisca, vira, o rádio debita meia dúzia de parvoíces, não me apetece tão pouco mudar o posto, deixa ver se consigo estacionar aqui, manobra, para trás para a frente, o parvo do BMW ocupa sempre passeio e estacionamento, pronto já está, Boa tarde! Está boazinha? Sim, vou melhor, obrigado. Levo já o pão, tenho de pegar na mala, na pasta, no saco do almoço ainda falta o pão. Sim, filho, correu bem o dia, o normal e o teu? Pouso o saco, deixa-me tirar as botas, as meias, a camisola, as calças, um fato de treino, meio pijama, as minhas pantufas? Viram as minhas pantufas? Ah, obrigado, filho. O que faço para o jantar? O que eu quiser não é conversa, se for só para mim é uma caneca de leite quente e pronto. Deixa ver… tudo congelado, pronto carne picada, vai sair bolonhesa, acho eu, sim com queijo gratinado estejam descansados, deixa-me só parar um bocadinho antes de fazer o jantar, antes de fazer a cama, antes de outras coisas, não puderam levar a roupa para passar, pois a mãe agora já não possa a ferro é só irem entregar. Já li o livro todo o que vou ler esta noite, volto ao Jorge Amado? Ao Eça? Outra coisa daquelas que já li muitas vezes. Esqueci-me de dizer uma coisa importante. Sabes afinal aquele boato era boato, mesmo. O resto está em águas de bacalhau. Amanhã faço um pé-de-vento! Não faço, porquê? Desgastar-me?! E as coisas presas cá dentro? Bom vê lá descansa tu também! Vá, vão lá levar a roupa, se faz favor! Está vento deixa fechar a janela que ficou aberta desde manhã, a ver se arranjo tempo para cortar o cabelo, a ver se mudo a reunião de sexta-feira, a ver se a máquina da roupa chega amanhã que o cesto transborda, a ver se compro aquele livro no fim do mês, a ver se não me esqueço de telefonar para saber como está a recuperar, a ver se não me esqueço de amanhã falar naquilo, a ver se não me esqueço….

9 comentários:

NI disse...

Nós e a nossa mania de que temos que fazer tudo num só dia. Porque amanhã não nos podemos esquecer de fazer tudo...uma vez mais!.

:)

Olga Tronchuda disse...

Olá dona Ana, bim xó deixar-lhe um beijinho.

António Abreu disse...

Desacelerar é preciso

Maria disse...

Até fiquei cansada só de te ler, Ana.
Já fui assim. Jão não preciso de ser assim...

Um beijo.

André Miguel disse...

A isso é que eu chamo hiperactividade...

Diogo disse...

Dizem que as mulheres conseguem concentrar-se em várias coisas em simultâneo. Tu és a prova viva.

Beijo

Fernando Samuel disse...

Não, não te vais esquecer, anotaste no blogue...
Um beijo.

Ana disse...

Amanhã também é dia, Ana.
Bj

Zorze disse...

Ana,

Se a maior parte dos funcionários públicos tivessem imbuídos desse espírito de serviço público que tens instintivamente este País estaria muito melhor.
Concerteza que estaria!

Beijos,
Zorze