quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Como tenho muito frio….


Como tenho muito frio só me consigo lembrar das tardes de calor em que um vestido leve e uns chinelos são incomodativos como botas e sobretudo, consigo fechar os olhos lembrar-me de uma qualquer música meio tropical, da sensação da areia da praia a escaldar os pés, da necessidade de entrar no oceano muitas vezes, os gritos das cigarras, quase a ensurdecer, o cheiro dos figos maduros de dia e das flores abertas dos jasmins na noite, o dormir inquieto sem roupa vestida ou lençol por cima, porque de facto tenho muito frio, acho que funciono a energia solar/térmica e nesta altura do ano começo a perder reservas, devia de hibernar como os ursos e as tartarugas, mas isso é improvável porque durmo pouco, acordo sempre à mesma hora como se tivesse engolido um despertador à nascença e levo a noite inteira a discursar e gesticular, dizem-me, mas tenho de facto muito frio que combato com meias grossas, mantas no sofá, aquecedores ligados, camisolas com pêlo por dentro e outros atavios, canecas e chá e chávenas de café, tenho as mãos e os pés permanente frios, a ponta do nariz gelada como um cão de caça (já pensei em tricotar algo para o nariz), tomo duches a escaldar, escolho espumas de banho e sabonetes que tenham cheiros mais estivais, o creme também é uma mistura de flores e uvas com um leve cheiro a mosto, doce e fresco ao mesmo tempo, tento mentalmente pintar o céu de azul, intensificar o brilho solar, mesmo que seja só dentro e mim, porque fora de mim está tudo gelado, os empregos, os salários, as injustiças sociais cristalizaram como um cristal de gelo imperfeito, o vento uiva zangado, a chuva é gelada, tão gelada como os números diversos que caem em catadupa e eu estou farta desta sombra gelada que se infiltra por todo o lado, aqueço-me entre cafés e chás, mantas e peúgas, recordações de outras coisas que sempre vão aquecendo, uma tarde de Agosto onde depois de uma manhã de praia, o corpo salgado e dorido das ondas, nos abrigámos na sombra de uns pinheiros, sobre as toalhas ainda salgadas, a ouvir o mar lá longe, os miúdos, pequenos a dormir e o rádio do carro a tocar, baixinho para não espantar o sol.

5 comentários:

Diogo disse...

Que se provoque uma frente polar sobre o poder político, económico e financeiro. Que estoirem de frio e sufoquem na neve.

Beijo

Zorze disse...

Ana,

Imagina os esquimós e o friozinho que deve ser.
Imagina o frou-frouzinho que eles e elas fazem nos seus iglos. Decerto que deve correr uma aragenzita.

Por isso sou da opinião que para o friozinho, um casaquinho de malha nunca é de mais.

No meu caso, no qual corre sangue quente nas veias, é raro ter frio.

A não ser que fosse homeless em New York ou Moscovo e meus pertences cabessem num carrinho de compras e mais não tivesse, morreria congelado numa madrugada qualquer, impediosa e sem conhecer o coração de quem sucumbe.

Vivemos e partilhamos um mundo do caralho.

Beijos,
Zorze

Anónimo disse...

Contigo recordei "Os Adoradores do Sol" Fernando Namora, penso eu!!!
Nada de livro especial, mas apenas porque acho que também a minha amiga aninhas também adora o sol, como os nórdicos.

Amiga estar em casa a ouir bos música e ver lá fora a chuva também tem algum encanto.

Andas tão rabugenta... tens razão, a vida prega-te cada partida,tens um carnaval privativo!

Um "GANDA" beijinho, faltam 4 meses para o Verão

Lagartinha de Alhos Vedros

Fernando Samuel disse...

Vê como são as pessoas: para mim, nunca faz frio de mais, e basta ouvir falar em Verão para ficar a suar...


Um beijo.

Ana Camarra disse...

Diogo

Não era mal pensado...

Zorze

Não me consigo imaginar esquimó!

Lagartinha

AINDA faltam 4 meses!

Fernando Samuel

Sorte tua, amigo!

beijo