Noutra linguagem

Noutra linguagem sexta feira é vendredi, por exemplo, em vez de sexta feira, vendredi será o dia Vénus, um pouco melhor do que a sexta feira, porque as primeiras têm o gosto da descoberta, as segundas a aprendizagem e as terceiras o reconhecimento e nas sextas feiras já estamos assim cansados e repetidos de muita coisa, ser o dia de Vénus é bonito, talvez sensual apesar de Vénus ser alguém que nunca existiu, casada com Vulcano, infiel com Marte e nascida da espuma do mar, noutra linguagem menos sensual mas de alquimia talvez, sem dúvida de amor, porque por vezes as mulheres aprendem a dar amor com alimentos, da mesma forma que oferecem os seios aos filhos, mas dizia eu, noutra linguagem fiz um bolo diferente, porque foi a primeira vez que o fiz e não encontrei a sua formula escrita em sitio nenhum senão nas minhas mãos, as mãos com que parti nozes iguais a pequenos cérebros, descasquei maçãs ligeiramente tocadas, mas com cheiro de maçã, todas irregulares, misturei com passas, açúcar mascavado, canela, misturei e cortei, bati, untei, e lembrei-me das mãos da minha avó que faziam milagres assim com coisas simples, umas mãos diferentes das minhas, as minhas tem os nós dos dedos escuros, as dela tinham os nós dos dedos curvos e deformados, tanques de roupa desde miúda, soalhos de madeira esfregados, noites a amassar e a cozer pão para depois sair para a madrugada fria aspirando o cheiro do rio, no rio onde ainda há dois dias, muito cedo, muitos homens de afadigavam de balde e enxada, fazendo a recolha do isco no meio do lodo, que parecia prateado, enquanto parto os pequenos cérebros e as maçãs com cheiro ouço a crise do mercado internacional e a queda das bolsas, penso que é outra história inventada, na qual se usa uma linguagem diferente, quase hermética, para que não possamos entender que a raiz da crise está em fechar fábricas de um lado para abrir no outro, para pensarmos nós que se as nossas mãos não fazem falta é porque a culpa é só nossa, porque se decidem se pudemos pescar cavala ou marmota, plantar nabos ou eucaliptos, beber leite de vacas que sempre ouviram outra linguagem, lá longe, ter computadores de brincar em escolas de fantasia que caem como castelos de areia, e na mesma linguagem ainda mostrar como estragamos os meios públicos, porque ficámos doentes, velhos, porque somos jovens, com falta de habilitações ou habilitações a mais, porque se pudermos acatar, esperar e sacrificarmo-nos mais uma vez em nome de outra linguagem, pode ser que sim, embora na minha linguagem acredito que não, assim noutra linguagem a sexta feira que termina é vendredi, o sábado que chega é outro dia.


Comentários

Fernando Samuel disse…
É tudo uma questão de linguagem. E há só duas linguagens: a nossa e a deles...

Um beijo.
Zorze disse…
Ana,

Por vezes a grande questão é a interpretação da linguagem, ou a que se lhe pretende dar.

Vénus, não existiu? Não concordo!
Ela existe, chama-se Venus Williams, e além de ser uma das melhores tenistas do mundo é um mulherão e pêras!

Beijos,
Zorze

P.S.: E já agora, Vulcano é uma marca de esquentadores.
Ana Camarra disse…
Fernando Samuel

Eles tentam fazer passar a ideia que não...

Zorze

essa Vénus não nasceu da espuma das ondas, é uma mulher concreta, real, esse Vulcano não é coxo, há inteligentes e normais, mas coxos não

beijos
Ana disse…
E o bolo?
Deve ter saído bem gostoso!
Gostava de ter provado.