quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Choupo cheio de pardais...



Os funerais tem a particularidade de juntar pessoas, de repente todos paramos todos os compromissos inadiáveis para aquilo.
Juntamo-nos assim, uns apenas de uma frase circunstancial, por dever quase institucional, outros os próximos, os verdadeiros de outra forma, num abraço mudo sem palavras, porque não há palavras que encham os vazios, e depois passado um pouco as coisas fluem, no meio do tempo que escorre entre as mãos temos aquele pedaço, revemos os amigos de infância, os primos distantes. Há quem traga fotos antigas de grupos felizes, sentados numa praia, todos com um sorriso jovem e o futuro á espera, chamam-se “Olha para ti aqui!”, faz-se a contabilidade dos que já não estão, apesar de tudo consegue-se ouvir a vida a gritar num choupo torcido, carregado de pardais que chilreiam, consegue-se olhar para mais uma coroa de flores que chega e sorrimos pela graça da coroa ter girassóis ou espigas, de vez em quando conseguimos sorrir, de vez em quando sentimo-nos muito vazios, muito sós, apesar de estarem ali muitas pessoas que genuinamente nos querem acompanhar, de vez em quando achamos que é tudo mentira, um sonho mau, nada mais.

O culto dos mortos, os rituais fazem-me impressão, a minha avó nunca quis que vestissem luto por ela e em plena década de sessenta não vestiu luto pelo marido, uma época em que uma viúva das meias ao lenço era suposto usar um luto carregado, o jargão mil vezes repetido de que termos de estimar as pessoas em vida é verdadeiro, tento faze-lo o mais possível, mas respeito os mortos, as memórias, os ensinamentos, as histórias, ora trágicas ora cómicas, só assim se percebe que carregue comigo esta imensa família, já com muitas baixas em consumidores de oxigénio.
Custa-me a acreditar numa vida, uma existência após a morte, para além de me lembrar deles, sentir a sua falta e honrar a sua memória.
Detesto cemitérios, as campas cheias de ferragens, os corações de mármore, as fotografias de esmalte com uma imagem falsa de alguém de olhos quase sempre vazios, jarras compradas na loja do chinês com tristes e empoeiradas flores artificias, as fotos e as flores são uma espécie de artificio de vida, de uma coisa que não é, a negação de si própria, as flores são a continuidade de vida das plantas, o sitio onde se guardam as sementes, sendo artificiais não são nada.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Organza


Não sei que idade a minha tia teria, qualquer coisa entre os quinze e os vinte, havia um baile, local apetecível de convívio, namorico para os jovens da sua época.
Importante o traje, neste caso a minha tia ansiava por vestido novo de organza, cor de rosa com pintinhas brancas, talhado pela Maria costureira, no entanto entre os afazeres da Maria e os da minha avó, o vestido estava apenas talhado e alinhavado, não fez mal, a minha inventiva e prática avó resolveu tudo, o vestido estava cortado, alinhavado, aqueceu-se o ferro e foi vincado, depois de vestido foram ajustados os alinhavos e a minha tia brilhou no baile, rodopiando nos braços do namorado de sempre, com o seu vestido de organza, o cabelo castanho mel e olhos esverdeados.
Hoje o corpo da minha tia, o que restava, foi cremado, ontem centenas de pessoas quiseram dizer-lhe adeus, entre elas o filho da Maria, apareceram flores suas homónimas, entregaram ao seu namorado de sempre, uma espécie de marmita, bordeaux, cheia de um pozinho branco, brilhante, no meio daquele pó estará o vestido de organza alinhavado, pelo menos a recordação do toque da organza na pele, estará o toque do seu namorado à mais de meio século que lhe fez esta ultima vontade, o toque dos seus meninos recém nascidos, hoje homens e pais que estiveram ali, a fingir que eram crescidos, o riso dos netos, o sorriso de todos aqueles amigos queridos que lhe quiseram dizer adeus, todos os Natais, aniversários, o toque dos meus filhos recém nascidos que assumia da mesma forma como se fossem netos, o cheiro do café que me ensinou a gostar, todas as brincadeiras da infância, todas as lutas que travou, o som do mar, como o que existe numa concha, a saudade imensa que já temos dela, todo o carinho que nos deu.

sábado, 26 de setembro de 2009

Amanhã


Aguardamos sempre amanhãs.
Os amanhãs têm a particularidade de estarem sempre a um dia de distância, sempre.
O que por acaso aborrece
No entanto há a necessidade em mim de construir amanhãs, todos os dias, porque não posso estar suspensa à espera que os amanhãs cheguem.
Desde pequena que muitas coisas são remetidas para depois, para o Verão, para o Natal, para o fim do mês (essa então é a mais habitual) para próximo fim-de-semana, para um dia de sol, para depois.
Neste momento quero amanhã a partir de agora.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Compras e sondagens


Cheguei agora com as compras que descarreguei e arrumei nos sítios correspondentes, as reclamações do sector maioritário masculino já choviam, com bocas foleiras e pequenas retaliações, dado que há três dias consecutivos que não me punham a vista em cima nem eu punha as mãozinhas empenhadas nos tachos ou panelas, havia buracos no inventário, substituam-se cereais por torradas e bananas por maçãs engelhadas, portanto fui ás compras, cento e trinta e nove euros e catorze cêntimos de compras, Iva incluído.
Depois das compras tenho o estranho hábito de conferir a lista, comecei a pensar que os artigos tirados do contexto, poderiam dar uma ideia da pessoa que sou, por exemplo:
Numa primeira análise comprei Queijo ovelha, feta, patê de pato com pimenta verde, mini chocolates, tamboril, camarão e cebolinhas, poderiam dar a impressão que me preparo para uma refeição gourmet ou para elaborar um jantar romântico.
Por outro lado comprei clementinas, ameixas, nabo, courgette, maçãs de vários tipos, alface, poderiam dar ideia que sou vegetariana.
Ainda se analisar que vários itens desde detergentes, cereais de pequeno-almoço, farinha, enlatados, guardanapos, sumos, tem a marca do supermercado poderá pensar-se que sou muito poupadinha.
Por fim se analisarem as frutas e legumes, poderiam chegar à conclusão que sou nacionalista porque desprezo todo o vegetal importado, excepção feita ás bananas, que de qualquer das maneiras não como, esta analise podia ser ainda suportada pela aquisição de um bacalhau.
A verdade é que não sou perdulária com o dinheiro, até porque não posso, mas de vez em quando gosto de me mimar a mim e aos meus dentro dos limites do razoável, não sou de todo vegetariana, sou poupada quanto baste e recuso-me a comprar uns guardanapos igualitos aos outros pelo dobro do preço, se for comprar frutos exóticos não me importo que sejam cultivados na Cochinchina, mas sinceramente recuso-me a comprar alfaces da Bósnia, coentros da Transilvania e laranjas da Africa do Sul, isto é mais ou menos como as sondagens, variam muito da forma como se selecciona os inquiridos, de quem são os inquiridos, se são quadros superiores ou trabalhadores do comércio, se são jovens empresários ou idosos com pensões miseráveis, se são tias de Cascais ou desempregadas de uma fábrica têxtil, se moram numa área metropolitana ou no interior do país, num Bairro Social ou num condomínio fechado se a sua deslocação é feita de transportes públicos ou ao volante de um BMW. Tudo factores variáveis.
Portanto amanhã é dia de reflexão, sugiro que reflectiam sobre o que foi feito no passado mais recente ou nem por isso, no que foi prometido, pensem se a vida nesta legislatura foi mais fácil ou mais difícil, se querem continuar na mesma linha ou não, se as propostas concretas e reais colocadas pelas várias forças são possíveis, reflectiam também que cada voto conta e pode fazer a diferença.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Mistérios & Milagres

As gramíneas foram as primeiras sementes enterradas no solo, foram as mulheres que o fizeram e depressa verificaram que cresciam outras plantas, filhas da terra e daquelas sementes, as mulheres perceberam logo, o mesmo se passa nos seus ventres.
Assim se aquietaram as primeiras pessoas, fixaram-se e fizeram lares, a partir daí, passaram a enterrar as sementes a moê-las com pedras a reduzir os cerais a pó fininho e branco, farinha, e a farinha faz milagres.
Outro dos milagres é ter sido usado o vento, a maré, a força das aguas, para girarem loucamente mós de pedra, em moinhos, assim aquelas sementes que já traziam a força da terra, mãe e reprodutora, transformam-se com os ventos e as marés, com a força da lua, do sol que as fez ficarem maduras e prontas a serem colhidas.

O maior milagre da farinha é só juntar água, deixar azedar um pouco, juntar mais farinha, bater, sovar e amassar, até os braços e a farinha ficarem igualmente cansados, depois é esperar, outro milagre acontece, aquela massa azeda mas de cheiro agradável cresce!
Até aqui já várias forças se juntaram, a força de quem lavrou a terra abrindo sulcos poderosos para as sementes lá ficarem, a força da chuva que alimentou os caules tenros, a força do sol que os amadureceu, a força de quem dobrado ao sol, entre canções e suor, cortou reste as espigas, cuja a parte sobrante irá servir para muita coisa, desde forragem de inverno a chapéus de palha para os ceifeiros.
Depois é cozer em lume, no calor, se possível, num calor de lenha, troncos de arvore, pico, ramas, e nesse calor também ele com a força das arvores do sol e das coisas que crescem, se transformar finalmente em pão, e alguns pedem todos os dias “Pão Nosso de cada dia nos daí hoje!”, outros esforçam-se para ganhar o pão com o suor do rosto, há ceifeiros que com o pão, azeite e um molhe de ervas fazem maravilhas, gastronómicas, o pão é alimento primordial em quase todo o mundo, há quem não tenha, as velhas da minha família se tiverem de deitar um pedaço de pão fora pedem perdão e beijam-no, na Roma antiga os lideres numa espécie de campanha distribuíam pão pela população.
Deste milagre fantástico, simplesmente complexo, se juntam vontades e forças, astros, vontades, processos químicos e bacteriológicos perfeitamente identificáveis, fomes antigas e luxos gourmet, não há nada mais reconfortante que o cheiro do pão quente, nada que console mais as mágoas que uma fatia do mesmo, barrada com manteiga. O meu avô era padeiro, a minha avó agarrava em fatias de pão acabado de cozer e mergulhava em azeite e alho, chamava-lhe tiborna e era nos dada depois de um mergulho no final do Verão, num dia mais ou menos nublado, com uma malga daquele tal café, aos domingos não havia pão fresco e a minha avó amassava um pouco e fazia umas vianinhas especiais, que me acordavam com o seu cheiro aos domingos de manhã, nas noites de saídas acabávamos em bando, de madrugada na porta da padaria à espera do pão quente.
Assim é este milagre de esforço e prazer, como todos os milagres.
(foto Silvia Padrão)

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Voto

Tinha 8 anos quando votei a primeira vez, foi no dia 25 de Abril de 1975, o dia das primeiras eleições livres em Portugal.
Um ano antes o país tinha mudado numa madrugada de bruma que abriu um novo céu afastando um tom cinzento que afogava há quarenta e oito anos.
Votei pela minha avó, que tinha naquele dia tinha sessenta e dois anos, quarenta e oito dos quais vividos em ditadura, a minha avó correu descalça nas ruas, trabalhou desde criança, não teve direito a meninice, viu o pai morrer na miséria e na doença porque defendia uma vida melhor para todos, não só para ele, teve irmãos que morreram na primeira infância, passou necessidades, viu amigos irem presos por amor à liberdade, assistiu ás tentativas de democracia, com as candidaturas de Norton de Matos, Arlindo Vicente, Humberto Delgado, ao simulacro de democracia da Primavera Marcelista, abraçou mães, vizinhas, amigas que perderam filhos numa Guerra estúpida, viu homens e mulheres que pediam pão receberem cargas da GNR, viu fome, viu os genros, o meu pai e o meu tio, lutarem surdina por uma sociedade nova, livre e justa.
Viu amigos das filhas e dos genros serem presos, voltarem com marcas de torturas, suicidarem-se, serem obrigados a fugir do país na calada da noite, ajudou a esconder papeis que falavam disso, democracia.
Naquele dia as mãos da minha avó tremiam de emoção, como era cega de uma vista e tinha aprendido a ler praticamente por si, não confiava que conseguisse votar como deve de ser, esperei horas numa fila com ela, com chuva miudinha, mas de onde ninguém arredava pé, velhos e novos, expectantes por aquele momento único e solene onde podiam finalmente com uma cruz num quadrado escolher, só isso escolher, parece simples.
Os membros da mesa de voto deixaram-me ir com a minha avó à cabine e votar com ela, aquele momento foi solene para mim também.
Domingo vota-se não num primeiro ministro ou num governo conforme alguns nos querem convencer, vota-se na nossa voz na Assembleia da Republica, irei votar em quem me representa, em quem confio para ser a minha voz, não posso desperdiçar este Direito, porque encaro-o como um dever.
Desde os 18 anos que estou envolvida em processos eleitorais, percorri todos os lugares numa Assembleia de Voto, depois por questões profissionais e politicas passei a ter outro papel, agora em dia de eleições estou ás seis da manhã ao serviço e só paro quando tudo está terminado, não dispenso esse papel, tenho orgulho no cansaço desses dias.
Voto, com muita honra, muito orgulho, e o sorriso da minha avó na memória, o calor da mão dela o prazer da solenidade de continuarmos a votar juntas.
(publicado também no blçogue Cheira-me a Revolução)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Porque não gosto de favas!


A minha avó tinha um primo com quem tinha uma relação fraternal, eu gostava muito dele era assim uma espécie de avô alternativo que me chamava princesa e era a bondade em pessoa.
Tinha dois filhos, um filho que coleccionava mulheres, amantes e dividas, mais ou menos como eu coleccionava cromos, uma filha que conseguia destilar todas os defeitos de personalidade existentes, desde a ma língua, ao tom de voz estridente, da inveja à mesquinhez.
Tinha 5 anos fui passar um dia ou dois em casa deles, a tal prima tinha dois filhos no inicio da adolescência, dois rapazes divertidos, fraternos que me tratavam como uma mascote, não sei porquê a minha avó, saiu com o primo Arlindo e a sua mulher a Teresa e eu fiquei aos cuidados da tal megera. De manhã perguntou qualquer coisa como: Gostas de favas?
Eu disse que não, ela disse: Paciência, é o almoço!
Lembro-me que os meus primos propuseram mil e uma alternativas, desde salsichas com ovos, frangos assados, bifes, mas foram favas.
Eu era horrível com o comer, aquele comer era horrível, fora feito sem amor, um ingrediente fundamental na cozinha, sei que mastiguei as favas, bebi muitos copos de água, os meus primos negociaram com a mãe, mas ela foi intransigente, eu tinha de comer.
A meio não consegui e vomitei, não importou tive de comer aquela mistela regurgitada das minhas entranhas.
Ainda hoje as únicas favas que como são fritas, a favas sabem-me a desamor, a tristeza e a injustiça.
Talvez por andar triste não consigo escrever sobre a luminosidade de outros dias de infância, lembro-me deste, depois da morte do primo Arlindo, da prima Teresa e da minha avó, nunca mais vi tal personalidade, não tenho saudades.

domingo, 20 de setembro de 2009

Não me lixem!


Assisto outra vez a uma morte em prestações de um familiar directo. Sempre que um novo médico me pergunta se alguém teve ou morreu de doença cancerosa na família directa respondo: Todos!
Explico: pai, avó, tio-avô, tia, bisavó, todos morreram dessa coisa surda e degradante, mãe, irmã, tia e eu própria temos vivido num limbo.
Como pessoa curiosa, assisto, quando me é possível a tempos de antena, ouço um partido novo falar que é favor da vida, desde a concepção à morte natural.
Pergunto-me a mim própria o que é isso, na concepção já me morreu um ser dentro de mim, se não morresse matava-me porque estava alojado onde não devia, aliás quase me matou, nunca o assumi como filho, nem sabia que existia até uma dor brutal me ter estrangulado as entranhas e me ter enviado para um bloco operatório de urgência.
Quanto à morte natural, não encaro estas mortes a que assisti, de pessoas queridas, muito queridas, como naturais.
Ter de aceitar o olhar firme da minha avó a transmitir-me que não queria viver assim, entre fios e tubos, ter assistir durante longos meses a procedimentos dolorosos que um a um retiravam a dignidade ao meu pai, sem lhe retirar a consciência que nada servia para melhorar nem tem pouco minorar um sofrimento intenso, abraçar-me à minha tia que chorou nesse abraço, tendo as duas consciência que nunca, nunca mais poderíamos trocar esse carinho, agora assisto a mais uma norte a conta gotas.
Não sou capaz de matar mais que um mosquito, se tivesse que matar um bicho para comer, envelheciam as galinhas e eu tornava-me vegetariana.
Há qualquer coisa que morre connosco nestes processos e eu estou saturada de morrer aos bocadinhos.

sábado, 19 de setembro de 2009

ELES



Eles são eles e elas!
Muitos nasceram por acaso, porque por vezes o sexo é o único luxo dos pobres, outras vezes até nasceram por amor, mas não interessa, nasceram, existem e tem o direito de existir e de viver.
O direito de viver foi-lhes retirado quase desde sempre ou apenas permitido na insuficiência, alguns sobreviveram acidentalmente, as igualdades de oportunidades foram coisas que nunca partilharam com eles.
Eles trabalham no que podem, sobrevivem com esforço, ainda assim têm sonhos, sonhos carregados nos braços cansados, nas preocupações pequenas, muitas vezes não lhes descodificam o mundo, reduzem tudo ás máximas que o mundo sempre foi assim, que é inevitavél existirem assim graus diferentes de pessoas, ensinaram-lhes isso como um mantra, distraem-se com outras coisas, com histórias de amor inventadas, coladas com cuspo num mundo irreal em mais de trezentos episódios, com corridas de milionários atrás de uma bola, com a esperança da fortuna num boletim de um concurso, mas de vez em quando um de eles levanta a cabeça, descodifica o mundo, sabe com toda a certeza que não é menos gente que ninguém, que é o cansaço dos seus braços que dá o excesso a outros e insuficiência para Eles, que o mundo é redondo, mas que chega para todos, não tem de ser compartimentado, que o futuro, diferente, sem insuficiência se constrói agora e um dia todos eles irão levantar a cabeça.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Só isso...


A viagem é o costume, embora por vezes entre em estado de piloto automático e rume a casa embora a casa não seja o destino, ou então a casa é destino último e apetece-me cortar os dias a meio e terminar assim, esquecendo o resto. O carro tem um cheiro sintético de canela e limão, é sintético, mas o menos mau e o que se parece mais comigo, não suporto os cheiros sintéticos de pinho, de baunilha, ou de outras coisas adocicadas, a canela pica quanto baste e o limão refresca.
O comando da chave precisa de pilha e passo milhares de vezes no local onde posso trocar a pilha gasta por uma nova mas não lhe dou esse luxo, porque tenho pressa, porque estou distraída, ou porque no fundo apenas ache dentro de mim que se não tenho direito a recarga porque é que o comando terá?
Está um pombo esborrachado na estrada, não tenho pena, não mato nenhuma criatura, mas esta espécie de ratos com asas metem-me nojo, com o seu piscar de olhos estúpido e as penas cor de lama. O rádio diz banalidades ou passa músicas ocas, de acordes perfeitos mas sem alma, o remédio é um CD, um CD com tons de trompete, um contrabaixo no fundo da música, o Tom Waits com voz rouca a Cristal Gayle com voz límpida, um piano a lamentar-se ou intoxicar-me com a Lena Horne, a Billie, a Ella, Nina, uma coisa assim do Cole Porter.
Ponho as mãos no volante e de repente lembro-me de outras mãos no meu corpo, a medirem o peso dos seios ou a passarem calma e inquietantemente pela curva das ancas, um telemóvel reclama atenção e solidariamente o outro faz o mesmo numa cacofonia insuportável que eu ignoro deliberadamente, só desta vez.
Pronto, depois o rio abre-se frente a mim, pintalgado de prata, na maré a encher, com aves aquáticas e debicar qualquer coisa, o caminho que me apetece é aquele seguir o rio até à foz, correndo naquela maré irresistível que nos conduz ao mar ao som de um trompete, de um contrabaixo e de um piano.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Insignificar


Insignificar é deixar de ser assim!
É deixar de ser como sou.
É olhar o mar e não sentir nada, é não me importar com nada
Ou importar-me com coisas sem importância
É não encontrar palavras que me mostrem
É ter asas e cortar-lhes as guias, propositadamente
Ter voz e nunca dizer, não ver, não ouvir
Não cheirar a vida,
Não sentir o curso das marés, as fases da lua
O ranger dos ramos, a terra, os raios de sol
O molhar da chuva e o assobiar do vento
É anular os sonhos, esquecê-los, matá-los
Fingir que não existem
É ficar oca
Não quero insignificar!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Marmelos, batatas doces e outras coisas


Ainda está sol, mas os dias estão mais curtinhos, amanhecem mais tarde e anoitecem mais cedo, de noite já preciso do conforto de qualquer coisa, nem que seja o lençol por cima, o céu já não está igual!
Aqui em baixo preparamo-nos para múltiplas coisas, mudanças, esperanças e lutas e lutar é que fazemos desde aquele esforço primeiro para encher os pulmões de ar.
Há pássaros que já partiram, há crias de bichos diversos que já estão com a robustez necessária, fazem-se as últimas colheitas, já comprei batatas doces, comecei a martirizar os meus pés com sapatos mais fechados, comprei anti traças com cheiro de cedro, porque a naftalina cheira a coisas tristes, embora isto tenha dias, estes dias e acima de tudo estas horas que vivemos dão-me a inquietação das incertezas e a esperança das resoluções, dos caminhos. As próximas semanas vão ser de luta, intensa, mas esperançosa, de expectativa, de esperança, também.
Reparei hoje em folhas de árvore a mudar de cor apesar de estar ocupada e de me preocupar com outras coisas de ler cartazes, de me aborrecer um bocadinho, de estar suspensa à espera de múltiplas coisas que não estão nas minhas mãos, que não posso decidir, coisas grandes e pequenas, problemas meus e dos meus e outros de todos nós.
Tenho a certeza que tão depressa não vou mergulhar, fica para o ano, junto com outros talvez, não tenho a certeza se este Natal consigo reunir as mesmas pessoas da família, não tenho a certeza se tenho força e coragem para mais uns encontrões da vida, mas como me preparo sempre para o pior que poderá vir e procuro sempre ver o lado mais luminoso, geralmente, aguento.
Ah, para além das batatas-doces, comprei marmelos para cozer com açúcar amarelo e pau de canela, maçãs bravo esmolfe e outras que perfumam a casa, cheiram a esperança.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Parece adequado

Hoje o serviço nacional de saúde comemora 30 anos e eu já estou como o outro, Marx morreu Cristo também e eu própria não me estou a sentir muito bem, escrevi isto há cerca de ano e meio, depois de uma cirurgia, acho que vou ter de passar por isto outra vez, parece-me adequado:


“Dia 2- Sou acordada ás 6h00, com calma e gentileza, pedem-me o favor de colocar a bata e as meias. Quase 9h00 levam-me para o bloco, sou recebida com gracejos que visam descontrair, o cirurgião faz-me uma festa na testa, pedem-me o favor de virar, de me esticar, de me despirem, de me colocarem sensores que fazem pensar nos Monty Pyton e na fantástica máquina que fazia blip. Apagão. Quando acordo não sei muito bem onde estou, falam comigo, perguntam o meu nome, dizem-me que informaram a família. Um pedaço do meu corpo foi prensado com vidros e pregos com certeza…
Uma face amiga aparece “Ana sabes quem eu sou?”, murmuro que sim, é um amigo enfermeiro, explica-me pausadamente que as coisas complicaram-se um bocadinho.
Sou transportada, no limbo da anestesia ouço o comentário, “nunca tinha visto entubarem nesta situação”, medem-me mais coisas, depois uma visita, totalmente inesperada, um colega de reuniões formais, em vez de fato e gravata ostenta a bata e touca verde. O pai está ali na cama em frente, ligado a sensores variados. Outra visita, a garganta está toda ferida (também me devem ter despejado vidros) explicam-me que foi um pouco mais difícil, houve uma complicação, mas pronto. Fico nauseada de falar, os enfermeiros assustam-se, ainda explicam “com a sonda não vomita” lamentavelmente resolvo contrariar a lógica (que mania) e vomito, sem me poder levantar, completamente dependente, limpam-me e tentam fazer aquele momento o menos desconfortável possível (como se fosse possível). Registam todas as quantidades e medidas, falam com uma certa ternura, tranquilizam. Estamos quatro naquele quarto, em todos pressinto um sono pouco profundo ou inexistente como o meu, todos temos máquinas, fios e sensores, ninguém se atreve a mexer, queixar, ou mesmo respirar fundo, talvez se ficarmos muito quietos tudo passe.”

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

È para lá


Os carros estão assim parados como animais num curro e do asfalto cresce o calor visível que tolda a vista, a gravata foi pousada no lugar do morto, a rádio transmite as filas de trânsito evidentes e a camisa há muito que ensopou em suor tornando-se uma segunda pele incomodativa. Ao lado um puto, abana-se e canta ao som da música que lhe estremece o carro, olha com um pouco de inveja, afinal ele também sonhou em ser músico, fazer parte de uma banda, modelos apaixonadas por com ele, os fãs ao rubro a pedir mais, horas a fio na garagem do Jaime, com guitarras em segunda mão e posters dos ídolos, tiques de passar a mão pela poupa, ensaios só de tarde, a noite era para o carro do pai do Jaime, a garagem…Na garagem do Jaime de tempos a tempos organizava-se uma Festa, convidava-se umas quantas raparigas que se aprumavam e traziam um bolo caseiro, a melhor roupa, risinhos e cochichos, tocavam, tinham palmas, depois ligavam o gira discos, dançavam o slow em arremedos de carinho e fúria de conquistar.
Nessa altura sonhou em ser músico, sonhou também em correr mundo de mochila ás costas, sonhou em ser repórter de guerra, sonhou tantas coisas, a vida mudou-lhe os sonhos, acabou assim a vender fotocopiadoras, a atravessar as duas margens num carro sufocante ou gelado, conforme a época, com o curso inacabado na gaveta das coisas para depois, num apartamento um pouco mais longe, um pouco mais barato, com as mobílias possíveis e a guitarra encostada a um canto como um jarrão decorativo.
Não conseguiu o amor das modelos, apenas o de uma rapariga, daquelas da garagem, nem correr mundo, apenas uma viagem núpcias a Tenerife, onde contaram moedas e fizeram amor loucamente.
Ela tornou-se uma mulher cortou o cabelo, mudou o corpo para formas mais redondas, arrumou as saias pintalgadas, mas guardou o mesmo sorriso e é para lá que ele vai.

O autocarro sufoca, ela está cansada da corrida para o apanhar e mesmo ao lado há um velho que cheira a cebola, a mofo, a terra, a remédios, com pelo a sair do nariz, das orelhas, uma voz acida e grita que “já não há respeito! Esta juventude está perdida”. Por esta juventude refere-se a um par de namorados atracados, em murmúrios, risos abafados e beijos longos. Agem como se estivessem sós, num parque qualquer, ele tem um brinco, as calças a meio das nádegas, ela tem uma coisa mínima, decotada, uns saltos enormes onde não se equilibra e um cabelo de juba, lindo e rebelde, em cachos e caracóis, cor de mel.
Desvia-se do velho de modo a poder ver os namorados, a mala pesa-lhe na mão, para além do passe, carteira, chaves, lenços de papel, agenda, tem a caixa plástica do almoço, uma revista, o casaco de malha que levou de manhã, o saco de plástico com o pão e uns pêssegos que perfumaram o passeio a que não resistiu.
De repente o rapaz olha para ela e faz-lhe um sorriso a que ela corresponde, pensa que tem de começar a comprar meias, que é uma chatice, nas costeletas que tirou para o jantar, no fim do mês que tarda, para chegar o salário e conseguir reabastecer a despensa, equilibrar umas coisas, comprar uns sapatos para o miúdo, pensa naqueles jovens cheios de promessas e tem uma ponta de inveja.
Afinal ela já foi aquela rapariga, só de saias indianas diáfanas e cabelos lisos, apaixonada por um músico, de garagem mas com um futuro promissor e uma poupa fenomenal.
O presente não é igual ao que sonharam, mas de vez em quando depois de se deitarem os miúdos ele toca-lhe uma canção, baixinho e para lá que ela vai.

domingo, 13 de setembro de 2009

Sétimo



Parece que o sétimo dia é de descanso porque o senhor assim o ordenou, parece que o fez depois das outras coisas, das trevas e da luz, de todas as criaturas desde a pulga ao elefante, o esboço de si próprio que foi o homem, da derivação mais aprumada que foi a mulher, parece que o sétimo dia é domingo, embora como provou Einstein tudo é relativo a começar pelo tempo, os dias da semana também são uma marcação de tempo e de segunda a sexta dizemos que são úteis, talvez o sábado e o domingo sejam inúteis!
Sendo assim decretados os dias úteis e inúteis, sinto-me uma vez mais transgressora e desafiadora porque achei útil o dia de ontem, sábado, a passear entre pedras e medir caminhos que há muito não fazia, a comprar filmes e músicas, a olhar as coisas outra vez de outra forma.
Hoje o dia, domingo, o sétimo, o de descanso, foi útil, depois de acordada decidi dar colo à minha mãe, ao dar colo à minha mãe dou a outros por arrasto, à tia Nini que assoma é janela e diz “olha a nossa menina!”, ao tio de oitenta anos que troca os nomes ás coisas e dá de comer aos gatos do quintal, ao tio quase pai que me dá o beijo carinhoso da familiaridade, ao primo quase irmão, chegado de fresco, a quem a distância e o tempo não quebram certas cumplicidades, foi útil, foi útil descascar cebolas e preparar tamboril, com fígado e tudo afogado em arroz enfeitado de coentros, foi útil preparar bifinhos como gostam para os meus grandes meninos, porque é outra forma de dar colo, foi útil descascar legumes para uma sopa, preparar a massa e recheio de rissóis, limpar o que ficou por limpar ontem, foi útil fazer uma pausa antes de acabar o almoço, na escada das traseiras e falar com uma amiga, porque são mimos que damos a nós próprios, foi útil estender a massa dos rissóis, recheá-los, passar por ovo e pão ralado, guardar para fritar mais logo, guardar a base da sopa já triturada para congelar, que os dias que se seguem serão todos úteis e cheios, terminar o resto da sopa, lavar a cozinha tirando os pedacitos de farinha e outras coisas, mudar a camisola enfarinhada e suada, estender a roupa e até acho que é útil, para mim pelo menos sentar-me agora aqui e deixar que dos meus dedos escorram estas palavras.
Falta fritar os rissóis e tomar banho.
Hoje ao sétimo dia, o do descanso, disse o tal senhor.

sábado, 12 de setembro de 2009

Para valer por seis


Os próximos seis fins-de-semana vão estar ocupados, já vi de vários ângulos e vai ser assim, as próximas semanas também, portanto existiam duas alternativas, a habitual dos sábados "desocupados", compras, almoço, adiantar comer para o resto da semana, limpar chão, louças sanitárias, pó, conviver com o aspirador, a vassoura, esfregona, passar a ferro, dobrar roupa interior, na maioria masculina, acabar exausta….ou então outra coisa totalmente diferente e assim, para já levantei-me exactamente à hora exacta que me apeteceu, depois dei dinheiro aos jovens e disse desenrascai-vos com almoço, raptei o pai dos infantes ou ele raptou-me a mim, para o caso é igual, enfiei-me no carro tomei o pequeno almoço favorito, sumo de laranja natural, pãozinho de sementes com fiambre e uma bica, segui para Lisboa, melhor para o centro de Lisboa, Restauradores, carro arrumado, Calçada do Carmo, tinha saudades daquelas pedras e de olhar Lisboa do outro lado, direcção FNAC, eu sei que é um monopólio internacional, mas lá encontrei o filme que queria, mais uma edição especial do Spartacus, mais o CD da Banda Sonora do “One from the heart”, cantado pelo Tom e a Crystal, mais um CD da Ella e Louis, irresistível, com um grande auto controle desprezei os livros, saí para o Chiado, choveu-me em cima e soube bem, almoçámos ali frente ao mítico quartel do Carmo, fast food Nacional, bifes!
Voltámos ao Restauradores com a calma de quem não tem pressa, sentámo-nos no carro a navegar pelas ruas de Lisboa ao som do novo CD, parámos em Palhavã, para mais uma visita sofrida, mas que incluiu uma conversa agradável, sobre livros e lutas politicas, com a minha tia a desprezar o lanche hospitalar e a chupar umas inusitadas amêijoas na cama do hospital, em vez do chá com sabor a janelas partidas e as bolachas que lembram giz, navegámos para esta margem pela ponte mais velha mas que tem a vista que eu mais gosto, aqui estou, vou ver um filme velho novinho.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Promessas


Existem coisas que não se devem de prometer ou melhor no geral é melhor não prometer nada.
Prometer é garantir algo e eu nada garanto, assumo compromissos nada mais.
Assumo compromissos diversos, alguns mas anos atrás prometi a mim mesma que nenhum homem me condicionaria a vida, falhei, arranjei dois homens saídos do meu ventre que desconfio que me vão condicionar a vida até eu a deixar.
Assumo compromissos simples agora, que sim quer farei os possíveis para não falhar naquilo que esperam de mim, ou daquilo que espero de mim própria, coisas básicas, que darei o meu melhor daquilo que o meu corpo e mente deixar, que continuarei a maravilhar-me com o milagre das borboletas, com o voo dos pássaros, com o riso das crianças, com a música, com o cheiro o som e o sabor do mar, com um afago de amor, que continuarei o mais possível a tentar mudar o mundo até que não veja sofrimento ao meu redor, não acho que seja utópico, mesmo que não chegue lá, que continuarei com as minhas mãos a tentar produzir fenómenos, não milagres, fenómenos com transmutação da farinha em bolos, que servem para adoçar o dia e sentar amigos á volta de uma mesa e quem diz bolos de diz outras coisas, assumo o compromisso, solene para mim, de gostar das pessoas que gosto, por inteiro sem prestações, truques na manga, naipes escondidos, assumo o compromisso de ser sincera, porque já tentei mentir e sou incompetente, assumo o compromisso de tentar gostar mais de mim, porque todos os dias dou conta de defeitos meus, de inseguranças, de vazios, assumo o compromisso de assumir, o meu passado, o passado dos que me procederam e o futuro, sem esquecer o presente, o hoje.
Tenho outros compromissos ainda, de tentar fazer coisas que eu acho que me podem fazer feliz e por vezes olhando para traz para fotos, recordações, colares de massa pintados feitos pelos meus filhos, dedicatórias apaixonadas em livros, gargalhadas lançadas ao vento, cheiros que não me esqueço, concluo que fui feliz muitas vezes, nem me dei conta naquele momento exacto, mas fui, intensamente feliz.
E quero ser feliz, mas não prometo nada.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Decididamente


Decididamente voltei ao trabalho, um pouco aliviada das férias, menos aliviada de outras coisas. Decididamente o trabalho esperava por mim, começaram as confusões, as correrias, os dias travessos, as horas corredoras de fundo que chegam à meta da próxima hora tão rapidamente, que desconfio que haja doping. Decididamente o trabalho decidiu que três semanas ausente era um absurdo, talvez seja, retirar assim vinte dias para coisas que não sejam trabalho é luxo babilónico, mesmo que nessas coisas se incluam outros trabalhos.
Decididamente o meu corpo rebela-se contra esta intrusão diária de produtos químicos, novos ou noutras quantidades, que me invadem diariamente e resolveu que tinha direito a todos, mesmo todos os efeitos secundários possíveis.
Decididamente os meus infantes esquecem-se de cumprir pequenos recados que lhes peço, o carteiro baralha-me as cartas, os Ministérios da Saúde e da Educação lembra-se de mim para me baralhar as contas, horas e os dias, ando atulhada em álcool em gel e outras minudências, no meio da minha baralhação consigo estar pelas 10 da manhã com a imaculada camisola branca suja de pó de cimento e outras coisas que não distingo, pelo meio liga um familiar, quer conversar e eu não posso, peço á minha parceira se me faz o penso, ela faz, ela suja de múltiplas coisas, eu meio despida na sala de reuniões, numa cena caricata.
Decididamente há amigos, pessoas que estimo, que me oferecem chatices acrescidas, pequenas pedras a emperrar uma roda já torta.
Decididamente o resto do mundo esperou por mim como um bandido na esquina de uma viela escura, cheio de más intenções. Decididamente raros são os que perguntam por mim, se preciso de algo, se me sinto só, com vontade de desabafar, só de mimos. Pensando bem é mentira, nos últimos dias três garbosos homens abraçaram-me, decididamente, dizendo que já tinham saudades minhas, que tinham sentido a minha ausência, têm todos mais de 65 anos, mas não interessa.
Que faço para o jantar?

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Até podia ser


Até podia ser um dia qualquer
Em que me sentisse só assim
Eu
Sem mais nada e sem nada mais
Para ofertar
Um dia claro
Depois de uma chuva
Limpa e adstringente
Depois de um vento
Depois de mim
Mostrar-te apenas
Eu
Sem ancoras, roupagens
Sem
Nada mais
Senão Eu

terça-feira, 8 de setembro de 2009

São rosas senhores!


Isabel de Aragão casou com D. Dinis, parece que ele era dado a outros amores, ela era dada a caridade, reza a história que dava pão aos pobres, à socapa, não percebo porquê, afinal era Rainha, mas pronto fazia-o, e o Dinis desconfiou daquelas andanças perguntou-lhe o que levava no regaço, ela respondeu: São rosas, Senhor!
Abriu o regaço, eram rosas.
Como milagre parece-me fraquinho, que mal tinha o pão? Tinha o mal de existir gente cheia de fome, lá isso era mau, continua a ser aliás, também me parece estranho o Rei preocupar-se com esta miséria da distribuição de pão, em vez de se preocupar com o povo esfomeado.
Por outro lado as rosas não são das minhas flores favoritas, gosto mais de outro tipo de flores, margaridas, túlipas, papoilas, embora nada tenha contra as rosas, são flores.
Entretanto os milagres das rosas, das distribuições, das transformações de coisas em rosas e rosas em coisas, continuam, com poucas diferenças cerca de sete séculos depois.
Continua-se a distribuir pão à socapa, só nas alturas de maior fome, esquecendo que a fome é distribuída a rodos por Barões e Condes, que enchem tulhas e cofres à sua conta. Quem manda continua a fingir que a fome se tapa com rosas, flores, comestíveis se acompanhadas de algo substancial, mas sem substância são só rosas, senhores!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

FESTA DE AFECTOS!


Para muitos a Festa do Avante é mais ou menos um Festival Gastronómico conjugado com um Festival de Música, tipo o Sudoeste com a Feira das Tasquinhas, para outros é mais que isso, eu sou dos outros.
Dou muito valor à parte das tasquinhas, onde se encontra a posta mirandesa, o queijo de Castelo Branco, a poncha da Madeira, os ovos moles de Aveiro, as Botifarras Catalãs, o ensopado de borrego Alentejano, entre tudo o que se possa imaginar, dou valor, à música também, à música que soa em vários palcos, onde artistas consagrados tocam, ranchos folclóricos, grupos de Jazz, entre toda a diversidade possível, dou valor ainda aos grupos de batuques que circulam na Festa, aos Caretos, aos grupos de Gaitas de Foles, de gigantones, de Zés Pereiras, ao Grupos isolados que com uma guitarra enchem um final de note de forma espontânea, até desafinada, com partes de letras de canções substituídas por tarãnrãnrã, dos grupos de Alentejanos que depois de dois copos de tinto, um naco de pão, abraçam-se fraternalmente e começam uma moda com aquele canto lamentoso e belo. Gosto disso tudinho, gosto de encontrar amigos, camaradas, pessoas que só encontro lá, gosto de ver as exposições, gosto que me caia uma lágrima quando cantamos a plenos pulmões, abraçados, a Internacional, gosto do sorriso estampado na cara e nas milhares de vezes que digo e ouço a palavra camarada.
Este ano reencontrei amigos, que já não abraçava à muito tempo, fez-me tão bem aqueles abraços, vi a cara a cara outros, que conhecia de outras formas, foi bom olhar nos olhos e reconhecer a palavra amigo, estive com outros com quem estou muitas vezes, todo o ano, mas a Festa é a Festa e ali o afecto é maior, mais doce, mais profundo.
Estou rouca, é apanágio de todas as segundas feiras de todas as Festas, porque grito, porque canto de madrugada quando a cacimba já cai sobre nós, mas o calor dos afectos é suficiente para não dar por isso, tenho uma bolha no pé, porque andei muito, tenho uns brincos novos de Gondomar, lindos que me ofereci e um lenço da Turquia, oferecido pelo cara metade, para no Inverno trazer um pouco do calor da Festa junto ao peito.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Força de Intervenção!

Não me lembro há quanto tempo, 12 ou 14 anos, talvez, de qualquer das formas múltiplos de dois e há mais de onze, era a quinta-feira antes da Festa, da nossa Festa e havia Bienal de Artes Plásticas. À saída do trabalho o meu pai diz-me com um sorriso maroto: O Virgílio precisa de te pedir uma coisa!
Fiquei de sobreaviso, o Virgílio, amigo de sempre da família, responsável de múltiplas coisas no PCP, conseguia levar-me sempre à certa, tinha uma simpatia enorme por aquele homem, de sorriso franco, com que sempre me relacionei desde que me lembro, calmo, simpático, paciente, meigo, inteligente, a manchar tudo isso, ou talvez não, só a sua gaguez, que lhe conferia até um toque de timidez que levava quem não o conhecia a subestima-lo.
O Virgílio lá me ligou: Aninhas preciso de ti! - Isto mais arrastado, estava a cravar-me e a gaguez acaba por se agudizar, era para ajudar a montar a Bienal que estava com um atraso, ainda refilei “Ó Virgílio tenho os miúdos pequenos e hoje é quinta-feira, agora é que se lembram?!
Mas não resisti e depois de jantar dirigi-me ao ponto de encontro onde o Virgílio num carro e outro amigo de infância noutro recolheram cerca de oito pessoas, incluindo eu, amigos e camaradas, todos com a particularidade de estarem habituados a montar exposições, pelo caminho refilávamos meio a brincar, cada qual munido com pequenas ferramentas que levávamos: fitas métricas, níveis, caixinhas com múltiplas coisas desde pioneses a lápis.



O Virgílio chamou-nos “Força de Intervenção”, nem imaginávamos quanto, chegados ao recinto, menos de vinte e quatro horas da inauguração, o pavilhão da Bienal exibia só um tímido esqueleto, faltavam-lhe as paredes, a intervenção que teríamos de fazer!
Insultámos o Virgílio que sorria e apelava à nossa boa vontade, o certo é que carregámos, montámos, pintámos, pendurámos obras de arte e dispusemos esculturas, segundo o esquema, era madrugada e faltava só os arrebiques, as plantas, etiquetas, pormenores desses, a tarefa mais importante estava cumprida, regressámos, parámos para comer um hambúrguer e confraternizámos sempre refilando com “o sacana do Virgílio”, alguns de nós não se encontravam há anos, houve gargalhadas e anedotas, o sorriso de uma missão cumprida. Voltámos para casa, uns para um banho e um passar pelo sono para voltar à Festa, eu para um duche, um encosto, despachar duas crianças para a escola e um dia de trabalho, antes da Festa.
Sempre gostei da Bienal de Artes Plásticas, naquele ano senti um orgulho maior, mostrei ao meu companheiro o que me tinha tirado de casa toda a noite, sentia cada elogio que ouvia dos visitantes como uma coisa pessoal.
Ainda hoje falamos daquela noite, nós os da Força de Intervenção, sempre que qualquer coisa nos recorda o Virgílio ou a Bienal, com o carinho dos bons momentos.
O Virgílio já morreu, cedo demais, de uma doença longa, prolongada, sofredora, daquelas que ninguém merece e que me tem retirado os mais queridos familiares e amigos. Lembro-me muito dele, do seu sorriso da sua inteligência, embora o seu sorriso o veja nas filhas, muitas vezes, felizmente.

Este ano há Bienal, Virgílio!
(Publicado em simultaneo no blogue colectivo Cheira-me a Revolução)

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Pó sacudido



Definitivamente sacudi o pó, depois de chegar a casa deitar fora o universo recém colonizado das batatas, ter descoberto uns iogurtes passados de prazo, resolvi revolver os cantos à casa.
Primeiro os abastecimentos, frescos, frutas, fiambres, saladas, detergentes extras, sumos, e étecetras, cerca de cem euros de étecetras, carregar, olhar para a lista a certificar-me se não estava registada nenhuma lagosta em vez da lata de atum…não estava, estava mesmo o atum, uns pacotes de esparguete, panos do pó, detergente para a roupa, ovos, nada de anormal, só o preço ou o ordenado.
Carregados os abastecimentos, arrumados no sítio, só para descobrir que me esqueci de umas coisitas, meto mãos à obra, coadjuvada, contra vontade, pelos infantes: ajuda-me aqui, traz outro balde agua limpa, o limpa vidros, despeja o lixo, estica o lençol desse lado, assim foi, no fim a casa parecia a mesma, com um cheiro melhor entre ceras e lavandas, lexivia e óleo de cedro, parecia-me grande demais já, mas valeu a pena. A seguir estive a ver se batia o recorde de número de lavagens consecutivas de roupa, obrigando a máquina a um esforço sobre humano esgotando a capacidade das cordas e as molas da roupa.
Pelo meio as noticias que ouvi de raspão fizeram-me lembrar da Climnestra, heroína improvável mas para quem guardo um cantinho, mas nem a Climinestra me fez desviar do propósito de encher uma caixa plástica de bifes de peru temperados com sal, pimenta, louro, alho e muito sumo de limão que assim ficaram até hoje os ter panado a todos, frito metade, congelado o resto, enquanto remoía as noticias, a preocupação por mais umas areias vadias que deram sinal no rim do conjugue, depois de ter passado toda, todinha, a roupa a ferro, ter bebido um café com meu sobrinho que exige do alto dos seus dez meses uma chávena de agua para beber como nós, ter bebido outro café com um amigo numa pausa imprescindível, ter sabido que morreu repentina e inexplicavelmente outra mulher da minha idade, ter discutido acaloradamente ao telefone com familiares doentes que recusam tratamento, ralado cenoura para o arroz, feito a salada e escrever enfim este desabafo, o pó foi sacudido!
Assim foram os primeiros dois dias da minha última semana de férias.

Doi-me a cabeça e o Universo
Fernando Pessoa