domingo, 20 de setembro de 2009

Não me lixem!


Assisto outra vez a uma morte em prestações de um familiar directo. Sempre que um novo médico me pergunta se alguém teve ou morreu de doença cancerosa na família directa respondo: Todos!
Explico: pai, avó, tio-avô, tia, bisavó, todos morreram dessa coisa surda e degradante, mãe, irmã, tia e eu própria temos vivido num limbo.
Como pessoa curiosa, assisto, quando me é possível a tempos de antena, ouço um partido novo falar que é favor da vida, desde a concepção à morte natural.
Pergunto-me a mim própria o que é isso, na concepção já me morreu um ser dentro de mim, se não morresse matava-me porque estava alojado onde não devia, aliás quase me matou, nunca o assumi como filho, nem sabia que existia até uma dor brutal me ter estrangulado as entranhas e me ter enviado para um bloco operatório de urgência.
Quanto à morte natural, não encaro estas mortes a que assisti, de pessoas queridas, muito queridas, como naturais.
Ter de aceitar o olhar firme da minha avó a transmitir-me que não queria viver assim, entre fios e tubos, ter assistir durante longos meses a procedimentos dolorosos que um a um retiravam a dignidade ao meu pai, sem lhe retirar a consciência que nada servia para melhorar nem tem pouco minorar um sofrimento intenso, abraçar-me à minha tia que chorou nesse abraço, tendo as duas consciência que nunca, nunca mais poderíamos trocar esse carinho, agora assisto a mais uma norte a conta gotas.
Não sou capaz de matar mais que um mosquito, se tivesse que matar um bicho para comer, envelheciam as galinhas e eu tornava-me vegetariana.
Há qualquer coisa que morre connosco nestes processos e eu estou saturada de morrer aos bocadinhos.

13 comentários:

salvoconduto disse...

Também já passei por esse tormento. O meu pai. Não digo mais.

Abreijos.

LBJ disse...

À medida que avançamos na idade a morte vai-nos cercando insidiosa, a princípio não a entendemos como a nossa inevitabilidade mas a daqueles que nos são queridos e de que não nos apercebemos do seu envelhecimento porque estão connosco todos os dias, as rugas são processos contínuos e não cavadas num repente. Depois começamos a perdê-los e a rever cada vez menos família em funerais e a seguir seguem-se os que cresceram connosco e aqueles que nos surpreendem quando encontramos alguém que nos diz, sabes aquele pleno de risos e alegria que já não sabíamos há que tempos, foi a enterrar no mês passado ou está muito mal no hospital. Nascemos, crescemos e morremos, preferencialmente sempre antes dos nossos filhos porque não consigo aceitar que um Pai ou uma Mãe enterre um filho nem consigo perceber a dor de sentir um filho morrer dentro de nós, por isso perturbou-me este teu texto. Resta-me dizer-te a frase feita de quem não sabe o que mais dizer de que é preciso ter coragem…

Saudações de outro Barreirense

Akhen disse...

Ana

Eu compreendo o que sentes. Quando a minha mãe morreu, eu tinha estado com ela na vespera, uma sexta-feira e nunca tinha visto a minha mãe tão risonha e a beijar o meu filho, o neto que ela mais queria, daquela forma.
No dia seguinte, o meu sabado correu-me quase perfeito até que cheguei a casa.
A incapacidade que eu senti nesse momento, a impotência estranha perante um facto que se estava a passar perante mim e que eu sabia não ser capaz de parar, deixou-me um travo amargo, que ainda sinto.
Por isso, a unica coisa que te posso dizer é que te acompanho nessa luta contra um facto que se sabe ser inevitável.
Assim eu pudesse fazer regredir todos os males.

filipe disse...

Rodeiam-te muitos camaradas e amigos, todos solidários, contigo na luta.
Um abraço, muito fraterno.

Zorze disse...

Ana,

É a ordem natural da vida.

Todos nós passamos por estas situações, sempre difíceis.

Mas, a partir do momento em que nascemos começamos a morrer.
É o oxigénio que nos permite viver é ao mesmo tempo o que nos mata aos poucos. Cria em nós a ferrugem.

A vida em si é uma tremenda contradição.

Beijos,
Zorze

Anónimo disse...

a isso chama-se vida, até porque
nunca de importante se perde, porque também nunca tivémos. comigo caminham todos os amigos que deixei de os ter, todos os mortos que amei, todos os dias felizes que passaram e todas as tortas de chocolate do tico-tico que enfardei. a isto se chama vida, a vida que vivemos todos os dias.

nesta e todas as outras alturas da nossa vida aceita um beijo amigo do
teu vizinho de cima

Cidadão do Mundo disse...

É triste !

Grande abraço!

duarte disse...

"estar vivo, é estar à morte"...
ana,como compreendo o sofrimento de quem vê partir, aos poucos numa longa e agonizante espera. desde cedo. o meu melhor amigo, meu colega de carteira, foi...novo...muito novo... não tinha 18 anos.
Quanto a nós, ana , estamos aqui.
sei que o calor de um abraço, precisa-se.
deixa passar as eleições, que já terás mais um amigo a abraçar-te.
entretanto,
um abraço do vale

Anónimo disse...

sinto.
beijo

Fernando Samuel disse...

O que isso dói!...


Um beijo grande.

Mar Arável disse...

Bjs

Ana Camarra disse...

Salvo

Não é preciso dizer nada mais.

LBJ

Pois temos de ter coragem, até porque estamos vivos.

Akhen

A morte é inevitável, a única coisa inevitável, o sofrimento é evitável, o físico, claro!

Filipe

Obrigado, é um conforto dos de carne e osso e virtuais.

Zorze

Ainda não existem anti ferrugens para pessoas.

Meu querido vizinho

Os meus também, todos os dias tenho algo que gostaria de discutir com o meu pai, há episódios que acho que a minha avó teria adorado, tenho o impulso de telefonar à minha tia só parta lhe contar uma anedota nova.
È este compasso de desgaste na recta final que me mata um bocadinho.

Cidadão

È, muito.

Duarte

Dói sempre.

Anónimo

Obrigado

Fernando Samuel

De forma por vezes quase insuportável.

Mar Arável

Outro.


Obrigado a todos pela atenção que deram a este meu desabafo
Beijos

PDuarte disse...

o Barreiro tem essa cruz.
foram anos e anos de quimicos no arn na terra e nas águas.
pode nada ter a ver mas penso que sim.