O Voto

Tinha 8 anos quando votei a primeira vez, foi no dia 25 de Abril de 1975, o dia das primeiras eleições livres em Portugal.
Um ano antes o país tinha mudado numa madrugada de bruma que abriu um novo céu afastando um tom cinzento que afogava há quarenta e oito anos.
Votei pela minha avó, que tinha naquele dia tinha sessenta e dois anos, quarenta e oito dos quais vividos em ditadura, a minha avó correu descalça nas ruas, trabalhou desde criança, não teve direito a meninice, viu o pai morrer na miséria e na doença porque defendia uma vida melhor para todos, não só para ele, teve irmãos que morreram na primeira infância, passou necessidades, viu amigos irem presos por amor à liberdade, assistiu ás tentativas de democracia, com as candidaturas de Norton de Matos, Arlindo Vicente, Humberto Delgado, ao simulacro de democracia da Primavera Marcelista, abraçou mães, vizinhas, amigas que perderam filhos numa Guerra estúpida, viu homens e mulheres que pediam pão receberem cargas da GNR, viu fome, viu os genros, o meu pai e o meu tio, lutarem surdina por uma sociedade nova, livre e justa.
Viu amigos das filhas e dos genros serem presos, voltarem com marcas de torturas, suicidarem-se, serem obrigados a fugir do país na calada da noite, ajudou a esconder papeis que falavam disso, democracia.
Naquele dia as mãos da minha avó tremiam de emoção, como era cega de uma vista e tinha aprendido a ler praticamente por si, não confiava que conseguisse votar como deve de ser, esperei horas numa fila com ela, com chuva miudinha, mas de onde ninguém arredava pé, velhos e novos, expectantes por aquele momento único e solene onde podiam finalmente com uma cruz num quadrado escolher, só isso escolher, parece simples.
Os membros da mesa de voto deixaram-me ir com a minha avó à cabine e votar com ela, aquele momento foi solene para mim também.
Domingo vota-se não num primeiro ministro ou num governo conforme alguns nos querem convencer, vota-se na nossa voz na Assembleia da Republica, irei votar em quem me representa, em quem confio para ser a minha voz, não posso desperdiçar este Direito, porque encaro-o como um dever.
Desde os 18 anos que estou envolvida em processos eleitorais, percorri todos os lugares numa Assembleia de Voto, depois por questões profissionais e politicas passei a ter outro papel, agora em dia de eleições estou ás seis da manhã ao serviço e só paro quando tudo está terminado, não dispenso esse papel, tenho orgulho no cansaço desses dias.
Voto, com muita honra, muito orgulho, e o sorriso da minha avó na memória, o calor da mão dela o prazer da solenidade de continuarmos a votar juntas.
(publicado também no blçogue Cheira-me a Revolução)

Comentários

Fernando Samuel disse…
E nenhuma memória é melhor do que essa... para se continuar a votar bem...

Um beijo.
salvoconduto disse…
Porque já lá o comentei deixo-te aqui apenas o meu voto: CDU.

Abreijos
Maria disse…
A melhor forma de ensinar uma criança a votar... :)))

Beijos
Anónimo disse…
Eu voto com orgulho e emoção!
Votei com os meus pais quando a vista e a mão o tornou necessário e votei com a filhota ao colo quando era pequena.
As eleições para mim ainda têm a magia dos belos momentos da vida e trazem-me à lembrança lutas antigas, campanhas em que o esclarecimento era uma luta em que por vezes o medo me gelava até aos ossos.
Eu tive o privilégio de viver o 25 de Abril jovem,mas já independente e tive o grato prazer de ver saír os presos políticos de Peniche, meio incrédulos e foi aí que ouvi cantar pela primeira vez, em plena rua o "AVANTE"

Domingo lá estarei a votar em quem de facto pode melhorar a nossa vida e porque acredito que é possível possivel, claro que votarei CDU

Um abracinho
Lagartinha de Alhos Vedros
Diogo disse…
Infelizmente existe uma imensa mole que vai votar segundo o que lhe ditam os telejornais e a imprensa. Só um acrescido acesso à Internet nos pode livrar de «políticos» a soldo dos grandes interesses.

Beijo
LBJ disse…
Quem sabe nos vamos cruzar nesse dia sem sabermos ;)

Estou à espera que me visites um dia destes no meu canto e já agora aproveito para te dizer que gosto muito da tua jukebox...
Akhen disse…
Sabes Ana, tenho pena que o meu pai nunca tenha podido votar de livre vontade, por isso eu desde sempre voto pelos dois.
Quando digo, votar de livre vontade, digo-o porque sei, porque me disse quem estava na mesa, nas ultimas eleições antes do 25 de Abril, que ele tinha votado. O meu pai já tinha morrido, por essa altura, mas se fosse vivo teria votado livre. Só depois do 25 de Abril eu soube que ele pertencera ao mesmo partido a que eu pertenço hoje. Da minha familia temos cinco
votos certos. Votamos pelo Portugal de Abril. Votamos contra quem nos tem "Humilhado e Ofendido"
PDuarte disse…
«Voto, com muita honra, muito orgulho, e o sorriso da minha avó na memória.»
...e onde quer que ela esteja terá por certo muito orgulho em ti.
duarte disse…
Sábias mãos nos ensinam...a nunca esquecer a rugosidade, de tempos ásperos.
Eu tive de procurar... e encontrei.
A CDU terá o meu voto, como já aconteceu e irá acontecer.
abraço do vale
A CDU é a única em que vale a pena votar, pelas razões que todos vocês sabem e conhecem.

Abraço!
SENSEI disse…
Votar é respeitar os milhares de portugueses que sofreram no corpo e na alma por lutarem por esse direito, um simples acto de escolher, um X e pronto, escolhemos isso mesmo, quem nos vai de facto representar a nós, a nós povo, a nós os que trabalham dia-a-dia, que tiveram a coragem de constituir família, ter filhos e tudo o que isso acarreta.
O povo Português parece que ainda não entendeu o poder desse simples gesto, desse X. Esse X não se pode comprar, não se pode vender, é a nossa consciência de classe, é a nossa oportunidade para corrigir tudo o que para nós está mal, é a nossa LIBERDADE!

Eu no domingo, nem que fosse o meu último gesto desta minha vida, no meu último fôlego e força, jamais hesitaria no X bem dentro do quadrado correspondente à CDU.

SÓ A CDU GARANTE O DIREITO DOS PORTUGUESES A PORTUGAL!

Ouss