sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Só isso...


A viagem é o costume, embora por vezes entre em estado de piloto automático e rume a casa embora a casa não seja o destino, ou então a casa é destino último e apetece-me cortar os dias a meio e terminar assim, esquecendo o resto. O carro tem um cheiro sintético de canela e limão, é sintético, mas o menos mau e o que se parece mais comigo, não suporto os cheiros sintéticos de pinho, de baunilha, ou de outras coisas adocicadas, a canela pica quanto baste e o limão refresca.
O comando da chave precisa de pilha e passo milhares de vezes no local onde posso trocar a pilha gasta por uma nova mas não lhe dou esse luxo, porque tenho pressa, porque estou distraída, ou porque no fundo apenas ache dentro de mim que se não tenho direito a recarga porque é que o comando terá?
Está um pombo esborrachado na estrada, não tenho pena, não mato nenhuma criatura, mas esta espécie de ratos com asas metem-me nojo, com o seu piscar de olhos estúpido e as penas cor de lama. O rádio diz banalidades ou passa músicas ocas, de acordes perfeitos mas sem alma, o remédio é um CD, um CD com tons de trompete, um contrabaixo no fundo da música, o Tom Waits com voz rouca a Cristal Gayle com voz límpida, um piano a lamentar-se ou intoxicar-me com a Lena Horne, a Billie, a Ella, Nina, uma coisa assim do Cole Porter.
Ponho as mãos no volante e de repente lembro-me de outras mãos no meu corpo, a medirem o peso dos seios ou a passarem calma e inquietantemente pela curva das ancas, um telemóvel reclama atenção e solidariamente o outro faz o mesmo numa cacofonia insuportável que eu ignoro deliberadamente, só desta vez.
Pronto, depois o rio abre-se frente a mim, pintalgado de prata, na maré a encher, com aves aquáticas e debicar qualquer coisa, o caminho que me apetece é aquele seguir o rio até à foz, correndo naquela maré irresistível que nos conduz ao mar ao som de um trompete, de um contrabaixo e de um piano.

8 comentários:

Cidadão do Mundo disse...

Que talento....! extraordinário.

Abraço!

duarte disse...

huummmm...tom waits...
foi paseando pelas curvas das tuas palavras, que são a ana.
a musicalidade tem destas coisas.
abraço do vale

LBJ disse...

Voz rouca e voz límpida só pode ser a melhor banda sonora do mundo, this one is from the heart...

Akhen disse...

Quantas vezes a viagem parece mais rápida, apenas porque é tão constante, que somente a música e outros pensamentos nos acompanham no caminho?
A mudança da pilha, eu, enquanto a chave abrir a porta, a fechadura não disser não e o carro andar, continuará gasta.
Quanto ao rio, ao som de um trompete de um contrabaixo e de um piano, sabes o que diz o rio, mesmo sem tudo isso:

......
Cumpri o meu destino, cheguei ao mar!
Mas porque sou tão apressado assim,
se o mar,
mesmo que eu chegue atrasado,
espera por mim.

Paz e Luz em tua casa.

Akhen disse...

Esqueci-me de dizer.
A fotografia, tinha que igualar a qualidade do post.
Para mim, é assombrosa.

Anónimo disse...

Palavras para quê?
Para mim o Outono inspira-te e dá ainda mais beleza aos teus textos!
Cá para mim, no Inverno atinges a perfeição!

Será que é o calor da luta que te inspira?

Só tu para chamares aos pombos, ratos de asas!!!

Sabes que vi em Praga um anúncio, num parque, dizendo que era proibido pombos?!
Como farão para passar as multas?

Estou a falar a sério!!!

Um abraço

Lagartinha de Alhos Vedros

Zorze disse...

Ana,

Adorei, mas, não é só isso. Gostos dos pombos e da baunilha.

Não precisas de pilhas novas ou recarregadas, pois, se já abanas o pézinho freneticamente ao fim de meia-hora o que seria com a energia recarregada.

O que precisas é de não ser a bombeira de serviço, que os outros usam e abusam, pelo facto de seres uma pessoa de elevadíssima qualidade.
Sugam-te a energia. Não quer dizer que seja por mal. Mas consciente ou incoscientemente, sugam.

Diz não, às vezes. Em dias salteados, diz basta.

Descansa, relaxa e dá (vem do verbo dar) tempo à tua família restrita, não a grupal. Esses serão os que nunca te abandonarão. Os outros, ao fim de algum tempo arranjam outro(a) para sugar.

Acredita, que eu sei como é que estas coisas funcionam.
Acreditas em mim?

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Obrigado a todos pelo carinho expresso, isto tem dias e há dias assim, começam mal e quando achamos que nada se pode estragar, estraga-se.
No entanto fica-nos o rio, outros pormenores, aparentemente insignificantes, um trompete, uma voz rouca, para nos reconciliar com o resto.

Abraços e beijos