Mistérios & Milagres

As gramíneas foram as primeiras sementes enterradas no solo, foram as mulheres que o fizeram e depressa verificaram que cresciam outras plantas, filhas da terra e daquelas sementes, as mulheres perceberam logo, o mesmo se passa nos seus ventres.
Assim se aquietaram as primeiras pessoas, fixaram-se e fizeram lares, a partir daí, passaram a enterrar as sementes a moê-las com pedras a reduzir os cerais a pó fininho e branco, farinha, e a farinha faz milagres.
Outro dos milagres é ter sido usado o vento, a maré, a força das aguas, para girarem loucamente mós de pedra, em moinhos, assim aquelas sementes que já traziam a força da terra, mãe e reprodutora, transformam-se com os ventos e as marés, com a força da lua, do sol que as fez ficarem maduras e prontas a serem colhidas.

O maior milagre da farinha é só juntar água, deixar azedar um pouco, juntar mais farinha, bater, sovar e amassar, até os braços e a farinha ficarem igualmente cansados, depois é esperar, outro milagre acontece, aquela massa azeda mas de cheiro agradável cresce!
Até aqui já várias forças se juntaram, a força de quem lavrou a terra abrindo sulcos poderosos para as sementes lá ficarem, a força da chuva que alimentou os caules tenros, a força do sol que os amadureceu, a força de quem dobrado ao sol, entre canções e suor, cortou reste as espigas, cuja a parte sobrante irá servir para muita coisa, desde forragem de inverno a chapéus de palha para os ceifeiros.
Depois é cozer em lume, no calor, se possível, num calor de lenha, troncos de arvore, pico, ramas, e nesse calor também ele com a força das arvores do sol e das coisas que crescem, se transformar finalmente em pão, e alguns pedem todos os dias “Pão Nosso de cada dia nos daí hoje!”, outros esforçam-se para ganhar o pão com o suor do rosto, há ceifeiros que com o pão, azeite e um molhe de ervas fazem maravilhas, gastronómicas, o pão é alimento primordial em quase todo o mundo, há quem não tenha, as velhas da minha família se tiverem de deitar um pedaço de pão fora pedem perdão e beijam-no, na Roma antiga os lideres numa espécie de campanha distribuíam pão pela população.
Deste milagre fantástico, simplesmente complexo, se juntam vontades e forças, astros, vontades, processos químicos e bacteriológicos perfeitamente identificáveis, fomes antigas e luxos gourmet, não há nada mais reconfortante que o cheiro do pão quente, nada que console mais as mágoas que uma fatia do mesmo, barrada com manteiga. O meu avô era padeiro, a minha avó agarrava em fatias de pão acabado de cozer e mergulhava em azeite e alho, chamava-lhe tiborna e era nos dada depois de um mergulho no final do Verão, num dia mais ou menos nublado, com uma malga daquele tal café, aos domingos não havia pão fresco e a minha avó amassava um pouco e fazia umas vianinhas especiais, que me acordavam com o seu cheiro aos domingos de manhã, nas noites de saídas acabávamos em bando, de madrugada na porta da padaria à espera do pão quente.
Assim é este milagre de esforço e prazer, como todos os milagres.
(foto Silvia Padrão)

Comentários

Maria disse…
Bastava descer a escada interior para chegar junto da amassadeira. Sempre gostei do cheiro do fermento da primeira massa. As pás batiam e depois era só esperar que a massa crescesse.
O primeiro pão a ser feito era o na altura chamado pão saloio, mistura de trigo e centeio, quase castanho por dentro, as vendedeiras da praça vinham buscá-lo por volta das 3 ou 4 da manhã.
E nós esperávamos pacientemente que a primeira fornada saísse, para comermos uma fatia daquele pão, a cheirar a tudo, barrado com manteiga feita em casa.
Ainda hoje tenho o cheiro do fermento, das farinhas, da lenha, do pão. Memórias que guardo.

Tens a certeza que não somos da mesma família, Ana? O meu avô também era padeiro...
:)

Beijo
SENSEI disse…
O Pão!
Um ícone para POVO.
Tê-lo era sinal de contentamento e satisfação.
Não o ter era sinal de revolução.

Hoje aqui neste País, o Pão começa a rarear, está-nos a ser roubado, estaremos acaminhar para uma revolução?

ESTAMOS SIM.

Ouss
Akhen disse…
A minha mãe não punha uma mesa que não tivesse em cima o PÃO.
Quando ia visitar as minhas tias, à terra de meu pai, havia uma velhota que fazia pão (não era a padeira lá da terra) e eu, quando chegava, tinha sempre uma "bôla", quentinha, à minha espera.
Uma vez, falando comigo, deu-me uma lição de comunismo primitivo ou primário, mas no fim disse-me
"mas terão sempre que existir ricos e pobres".
Mesmo hoje, por respeito não lhe perguntaria, será que terão mesmo que existir sempre ricos e pobres?
Nem lhe diria "Pobres é uma condição natural da humanidade, mas ricos é uma adulteração de algum tecido da humanidade, que só interessa a alguns poucos; cada vez menos muito ricos e cada vez mais muito pobres. A divisão equitativa dos bens é uma utopia.
Mas deixem-me sonhar. Eu sou utópico?
De tudo isto, só tenho saudade da "bôla" quentinha que ela me dava quando eu chegava. Eu pagava-lhe sempre com um beijo de carinho.
Ah, Ana, os rios não morrem no mar.
Como nós, comunistas, cumprem o seu ciclo natural e regressam à fonte. Nós, "Há os que sobrevivem à morte. Quando regressam, regressam mais fortes", como exemplo.
Zorze disse…
Ana,

Ok e está bem...
Como se levasse uma malga de arroz.

Beijos,
Zorze
Miguel disse…
E há ainda os que comem o pão que o diabo amassou...

Um beijo.
duarte disse…
não tive o prazer de conhecer a minha avó paterna, era padeira. O meu pai com 11 anos de idade levava o pão cruzando o monte (cheios de lobos então), a cavalo de um burro, e isto num raio de 15 km! tinha, é claro,pão em casa . do lado da minha mãe , eram todos jeireiros. e uma jeira(jorna) não dava para comprar pão.
com estas e outras memórias, vou semeando , para que nunca mais tenhamos de ver a fome de perto.
algumas sementes já eclodiram, outras dormem... até um dia.
abraço do vale
Fernando Samuel disse…
O Miguel sou eu - e não sei quem me mudou a nome.

Um beijo.
duarte disse…
é sempre bom vir aqui...
fiquei mais rico, não conhecia esta música e letra(cio da terra).
obrigado ana
abraço grande
Ana Camarra disse…
Maria

de certa forma somos da mesma familia.

Sensei

A falta dele pode desencadear grandes mudanças, olha a Revolução francesa!

Akhen

Deixa lá, eu também sofro dessas utopias!
Poderemos então dizer que os rios renascem no mar.

Zorze

O arroz é um cereal, uma graminea e pode-se fazer farinha e pão!

Miguel/Fernando Samuel

Esse é o unico padeiro que eu colocava no desemprego!

Duarte

Um dia todas as sementes acordam!
Esta música do Milton é arrepiante, não é?

beijos
casadegentedoida disse…
Belo texto. Gostei.
Bjs.