sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Teatro Amador

Dedico este texto ao Amigo Luciano Barata


O Barreiro sempre teve uma grande tradição de teatro amador, impressionante o número de Colectividades que ainda ostentam o título de Grupo Dramático.
Existem imensas histórias sobre as peripécias do teatro amador, aliás o teatro tem um mistério, ninguém percebe como mas quando abre o pano tudo se compõe.
Uma das histórias que ouvi desde miúda tem a ver com a capacidade de improviso, numa peça, não sei já se em cena no 22 de Novembro ou nos Franceses, a cena era a seguinte:
Uma mulher, adúltera, lê a carta do amante, o marido entra em cena, ela queima a carta o marido exclama: “Cheira-me a papéis queimados!”.
O problema é que ninguém colocou a caixa de fósforos no cenário.
Portanto não se podia queimar a infame carta.
A actriz amadora, rasga a carta.
O suposto marido entra em cena e diz:
“Cheira-me a papéis rasgados!”

Digam lá se não é uma delícia?

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Não como a Floribela mas quase...




Muitas vezes ando angustiada com problemas financeiros.
È comum, se bem que relativo.
Apesar tudo nasci numa classe de pequeno burgueses, pequenos comerciantes, pequenos industriais, com mais capacidades apesar de tudo do que a grande maioria.
A minha vida profissional não me trouxe grandes ganhos, mas de facto nunca tive muito enrascada.
Posso não ter para os livros todos que queria, para a assistir aos espectáculos todos que queria, para as viagens que sonhava, para alguns trapitos e outras futilidades. Mas ainda assim tenho sempre para comer, as minhas dividas são com o banco onde pago regularmente e com juros.
Não compro tudo o que quero mas compro mais do que preciso.
No entanto sou rica, verdadeiramente rica.
Sou rica em afectos de uma família que funciona quase como um clã, onde nos protegemos e apoiamos mutuamente das mais diversas formas.
Sou rica em afectos de uma família mais restrita que me serve e a quem sirvo de porto de abrigo.
E sou rica, muito rica em amigos, amigos genuínos dos que não esperam nada em troca.
Amigos que me podem dizer na cara verdades desagraveis que por vezes não vejo em mim própria ou nos meus actos, mas que estão ali para o que der e vier.
Amigos que me telefonam, mesmo de longe, mesmo cheios de problemas só para darem conta que estão cheios de preocupação comigo.
Amigos, que me armadilham a vida para garantirem que tenho férias e que descanso e que tomo os medicamentos e que como e que durmo.
Amigos quase invisíveis que me mandam sinais a dizer “quando precisares estou aqui”.
Amigos que se iluminam com um sorriso quando me encontram, mesmo que estejamos muito tempo sem nos vermos.
E depois de falamos de trivialidades ou não como se tivéssemos falado ontem.
Amigos que dividem comigo fardos vários, de trabalho e de coração.
Amigos que tenho desde miúda e que ainda cá estão, amigos que adquiri depois de adulta e cá estão, amigos mais recentes mas que ganharam em qualidade o que não tem em longevidade.
Aos companheiros de viagem, obrigado.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Devem estar mesmo loucos....



Já aqui o escrevi, mas não interessa, não acredito em Deus, nem Deuses, respeito, fui ensinada e ensinei a respeitar as convicções de cada um.
Mas não consigo acreditar na existência de um ser ou seres omnipresentes, que tudo controle.
Até porque se assim fosse terá uma incompetência extrema!
O meu filho mais velho apareceu com uma teoria fantástica: “Todos os Deuses da Antiguidade tinham defeitos profundamente humanos!”

È verdade, Zeus era uma espécie de tarado sexual que assaltava tudo quanto era humana, fosse sob a forma de homem ou sobre a forma de um cisne ou outro bicho qualquer, Hera era ciumenta (pudera com um marido assim!), Baco era um alcoólico, Apolo um depravado, Afrodite gostava de atazanar homens e deuses, Eros era um sacana, Diana era um bocadinho autista obcecada com a caça, Atena era uma intelectual pedante, Poseidon era dado a brincadeiras estúpidas com homens e barcos…

Mesmo os Deuses nórdicos, eram coléricos, brutos, dados á bebida, injustos.
Os egípcios não se ficavam atrás, invejas e ciúmes, traições e vinganças.
Em suma eram todos muito humanos!

Vai na volta lembram-se deste tipo de Deuses, um só, com uma corte de divinos menores, Santos, Santas, Mártires, Anjos e Arcanjos, todos perfeitos, assexuados, e com uma mente muito retorcida.
Muito pouco humano.
Deve ser por isso, também, que me custa a acreditar.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A escolher, Alegria!




Sinto a tua falta
É assim só a tua falta
Nem tão pouco o desejo da tua presença
Apenas aquele espaço vazio
Que era ocupado por ti e
Agora sobra-me

Não terei saudades
As saudades são coisas sofridas
Fadistas, dramáticas
Apenas de vez em quando
Constato essa falta

Mas a escolher
Escolho a Alegria
De teres ocupado um
Espaço em mim

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Diferente


Parece que existem partes do meu organismo que não funcionam como deviam. Não é uma grande novidade.
Há coisas no meu corpo que parecem ter vida própria.
Em breve serei outra vez analisada, vários componentes do meu organismo serão medidos.
Aborrece-me essa perspectiva, embora já devesse estar habituada.
Mais do que a intrusão de agulhas, ondas sonoras, na minha intimidade, chateia-me o facto de não medirem nada convenientemente.
Nunca conseguem medir o meu medo naquela altura, maior do que o medo de estar perdida num sítio que não conheço, maior do que os medos da infância.
Nunca conseguem medir os meus desejos, os meus sentimentos, a minha vontade de viver, contrariando aqueles valores de referência, não conseguem de todo medir os meus afectos.
Irão dizer, uma vez mais, que o meu coração tem uma forma invulgar, que lhe dá um ritmo próprio.
Acho que sempre desconfiei disso, o meu coração não está de acordo com as normas vigentes, bate ao seu ritmo, não a um compasso estudado e estereotipado, tem também vida própria.
Sempre o suspeitei.

Casualidades

Volto muitas vezes á infância, não porque a infância fosse só um tempo mágico, não foi só, mas também.
Da infância guardo as coisas melhores, assim como numa escolha de gavetas, em que nos descartamos do lixo, daquilo que não queremos e reservamos para ficar os melhores pedaços.
Guardo a noção das dimensões, o mundo seria tão grande como hoje me parece pequeno.
O que á época me parecia enorme é hoje ridiculamente pequeno, não sei se fui eu que cresci ou o mundo que encolheu, talvez as duas coisas.

Já não existem os quintais da minha infância, o Quintal da tia Deolinda com os seus Gamboeiros, o quintal da prima Aurora com as suas coelheiras e horta, que cheirava a manjerico e hortelã.
Hoje estão lá prédios.
De manhã saia de casa, sozinha, 6 anos, atravessava o Jardim dos Franceses, pelo caminho existiam sempre duas, três pessoas, que me conheciam e que de certa forma tomavam conta de mim, casualmente, subia o Largo Rompana até á Rua José Relvas, passava pela tia Deolinda, que casualmente á janela à hora certa ali estava, lembro-me do esforço intenso de me por em bicos de pés para chegar á janela, dar dois beijos, sentir aquela ponta de nariz gelado, receber uma moeda, “Cuidado a atravessares a rua, Ana Isabel!” e eu tinha.
Chegava á porta do colégio, brincávamos, descobríamos as letras, os números, acabava, voltava, por outro caminho, passava no quintal da prima Aurora, casualmente á hora certa lá estava, era içada pelo muro, com o festim de apertões de rotulo de Bera, minha Bera, ali ficava até o meu primo chegar do Técnico, ajudar-me com os trabalhos de casa e casualmente levar-me depois pela mão ou às cavalitas até à minha avó.
Tenho saudades destas casualidades.

domingo, 23 de novembro de 2008

A casa dos meus sonhos






A casa dos meus sonhos, nunca será a minha casa, no entanto gostaria de a visitar.
A casa conhecida como Falling Water ou Casa da Cascata foi concebida pelo génio da arquitectura Frank Lloyd Wright.

Foi construída na década de 30, num profundo respeito e apreciação pela natureza envolvente, a cascata atravessa-a, os materiais são locais e orgânicos, as janelas estão estudadas para retirar o maior partido de tudo o que a envolve.
Nenhuma árvore foi derrubada, nenhum rochedo destruído, é a casa que se funde com a paisagem.

Perto de Pittsburgh, a casa foi considerada uma loucura, tanto como o seu criador.
Hoje é mais ou menos um local de culto.
A casa dos meus sonhos, sonhada por alguém.


sábado, 22 de novembro de 2008

O Homem que perdeu o 25 de Abril!


Esta história merece ser contada, o protagonista já morreu.
Arquitecto, Barreirense, democrata e anti fascista, em 1974, frustrado com o falhanço do “Golpe das Caldas”, decide fazer uma das suas sessões de recolhimento, na sua casa Lisboeta.
As Sessões de recolhimento consistiam em desligar-se do mundo exterior, desligar o telefone, rádio, televisão, não atender a porta, não ler jornais, ler livros, ouvir musica e escrever, só, completamente só.
Decidiu faze-lo lá para dia 22 ou 23 de Abril de 1974.
E fez.
Saiu de casa no dia 2 ou 3 de Maio, disposto a enfrentar o mesmo país cinzento, com presos políticos, bufos da PIDE, Censura e Guerra em Africa.
Quando saiu, pensou que estava noutra dimensão, para além dos sorrisos, dos cravos vermelhos, as paredes estavam pintadas de múltiplas cores, sempre com a palavra Liberdade e Fascismo nunca mais.

As pessoas usavam palavras novas.
A primeira reacção foi achar que estava tudo doido, ou que estava doido, no seu desejo por Liberdade, a mente fazia-lhe aquela partida, mas não.
Depois acalmou, falou com as pessoas que se espantavam com a sua ignorância, inteirou-se da loucura dos últimos dias, comprou todos o jornais, telefonou a múltiplos amigos, saboreou esta cidade nova e renascida, e eu acho que chorou, eu teria chorado…

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Madrugada


Não sei se lembras daquela madrugada fantástica na praia!
Que ficamos assim quietos a ver a areia lisa, sem marcas, depois de varrida e penteada pela maré e por aquele vento, não muito forte, que nos trazia cheiros de ervas, um friozinho que entrava pelas camisolas e que nos fazia juntar mais uns aos outros à volta da fogueira, feita com tábuas roubadas em cercas e no café da praia.
E durante toda a noite o mar fazia coro com as nossas vozes mal afinadas e com as guitarras, por cima de nós um céu imenso, como um pano esburacado salpicado de milhares de rasgões por onde passavam luzes de outros sois.
Quando demos por nós enquanto era de noite ainda, mas simultaneamente avançava sobre o mar, uma luz rósea dourada, sobre a falésia, trazendo o dia, as gaivotas e andorinhas do mar começaram a marcar aquela areia de arabescos, nuns desenhos parecidos com sinais de matemática e letras gregas.

E nós ficamos assim quietos, num silêncio respeitoso, tínhamos todos as peles lisas, as gargantas arranhadas, futuros a estrear, muitos tínhamos cabelos longos, o tempo não nos importava, nem outras coisas, que hoje ocupam espaço a mais nas nossas vidas, as nossas coisas eram nossas, de todos, até as lágrimas e as gargalhadas, as tendas, os farnéis….
Pronto naquela madrugada ficamos assim suspensos, entre a inocência e a idade adulta, entre os grandes sonhos e as pequenas desilusões, entre as paixões arrebatadas e os amores tranquilos, lembras-te?

Porque são Obras-primas!



Mais do que tudo, parte da obra de William Shakespeare destaca-se pela sua actualidade.
Não endoideci, é isso mesmo.
Só se assim se compreende que todas as adaptações á sua obra, filmes, bailados, representações teatrais, continuem a despertar este interesse,
Para mim não conheço obras menores, são todas boas, se não li todas, falta pouco, divirto-me com o espírito mordaz de alguns personagens, maravilho-me com a dimensão humana de alguns, embora a dimensão humana seja o tema base de todas as personagens de Shakespeare.
A inveja, a cobiça, o amor, são temas profundamente humanos. Actuais.

Face a todas as voltas do mundo, a voz de Shylock, judeu usurário da Cidade Estado de Veneza, a quem os nobres cospem na cara mas a quem pedem dinheiro para os seus luxos, derrotado pelo sistema judicial na sua pretensão de cobrar meio quilo de carne de António, como pagamento da divida, faz um discurso que ecoa no tempo:

Se vocês nos furam, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos? E, se vocês nos fazem mal, não devemos nos vingar? Se somos como vocês em todo o resto, vamos ser como vocês nisso. Se um judeu faz mal a um cristão, isso é recebido com humildade? Não, isso pede vingança. Se um cristão faz mal a um judeu, pelo exemplo cristão, qual deve ser a clemência? Ora, vingança. (3, I)




Os senhores têm entre vocês muitos escravos, que os senhores compraram e que, como se fossem seus jumentos, seus cães, suas mulas, os senhores usam de modo abjecto, em tarefas nojentas. Porque os senhores os compraram. Devo então dizer-lhes “Libertem os seus escravos! Deixem que eles se casem com os seus herdeiros! Por que eles têm de suar, carregando pesadíssimos fardos? Permitam que as camas deles sejam tão macias quanto as suas próprias, e permitam que os paladares deles sejam agraciados com as mesmas carnes bem temperadas que vocês comem!”... devo dizer-lhes isso? (4, I)

Retirando o contexto religioso, o discurso adapta-se a tanta coisa, hoje!

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Serradura



Lembro-me muito bem do cheiro a serradura, ainda hoje me faz sentir reconfortada.
De me tentarem ensinar como se media a idade de uma árvore pelos anéis do tronco.
Lembro-me de madrugadas ainda nocturnas, em que não sei muito bem porquê iria para Lisboa, saímos de casa ainda de noite, estrelas, as pessoas a aparecer devagarinho em surdina, depois o barco, aí havia sempre gente, o cheiro do jornal acabado de chegar, o livro de quadradinhos a que tinha direito, a vista da varanda do barco, que para mim era quase um transatlântico, a nossa frente amanhecia.
As gaivotas doidas em gritos e danças.
A varanda cheia, eu sentada, pouco tempo, lembro-me dos meus pés não chegarem ao chão, depois pulinhos, espreitar, cumprimentar um nunca acabar de gente, que se espantava de eu estar tão crescida, assim eu servia de distracção naquela viajem de trabalho igual ás outras.
Depois Lisboa, a oficina, onde me sentavam no escritório com folhas e lápis de cor, um operário fazia-me uma cadeirinha de madeira ou um bicho, outro misturava sabão e ensinava-me a fazer balões com o tubo da BIC, outro ainda ia a taberna só para me comprar um chocolate, um gatinho, um coração, um mimo.
Depois o almoço, uma taberna, onde arranjam listas telefónicas para que chegasse á mesa, a recomendação da senhora da cozinha, gorda, sorridente e suada, “Tens de comer tudo, minha linda!”
A tarde era diferente, sempre as mesmas voltas, Museu da Marinha (podia ser cicerone do Museu), doca de Alcântara, os barcos, sempre os barcos.
Esperar a minha mãe, beijar um número interminável de colegas, que me perguntavam a idade, miravam parecenças, espantavam-se com o meu tamanho, desencantavam mais meia dúzia de mimos, uma caneta, uma pregadeira, um chupa-chupa.
Depois descer a Avenida da Liberdade, presa ás correntes das mãos de pai e mãe, chegar ao barco, comprar castanhas embrulhadas em papel de jornal ou lista telefónica, entrar no barco outra vez.
Adormecer, acordar no instante em que já estava em casa!
Estava em casa o tempo todo.
Portanto o cheiro da serradura ainda me faz sentir reconfortada!
(foto olhares)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Insanidade




E se de repente eu perder a sanidade?
Aquele fio condutor que me faz pensar antes de agir?
Se me apetecesse apenas e só ser eu!

Se me apetecesse correr nua numa praia
Para acabar num festim de areia, sal e água
Se me apetecesse apenas e só
Ser eu

Largar todas as saudades
Despir todas as amarras
Voar, sim voar
Livre e mansa
Livre e selvagem

Rasgar as dores
Perder todas as percas

Amar-te enfim
De todas as formas que sei
Escreve-lo no teu corpo
Com as minhas mãos,
Com a minha boca,
Com a minha gruta secreta e húmida

Por fim escreve-lo em palavras
Se conseguir
Em musica, porque não?
Numa tela em cores quentes

Grita-lo do alto de uma
Montanha

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Tango

Parem lá a música, outra vez, por favor....Obrigado!

Pronto para mim o Tango é música da paixão!
O Tango assim um namoro, uma sedução, de avanços e recuos sensuais, o seu som é sempre apaixonado e apaixonante.
O par rodopia, abre-se, aperta-se e separa-se, para voltar outra vez, numa crescente inquietação, há um cheiro de tristeza, dentro do tango, um cheiro de desespero…
È uma música assim alegre e triste, exaltada e calma…
Quando for grande vou aprender a dançar o Tango!

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

As Alegrias dos casados


E por mais tempo que passe, meu amor, esta expressão meu Amor continua assim viva e doce.
E por mais tempo que passe, penso que das poucas coisas que fiz acertadas na vida foi entender que aquela mulher jovem, podia ser assim a outra parte de mim.
E essa mulher jovem continua a existir dentro desta mulher mais velha, que ainda assim me fascina.
E quando brinco com os teus despistes, a quantidade de fancaria que acumulas, os teus sapatos que ameaçam ocupar tudo, sei que já não sabia viver sem os teus sapatos e a tua fancaria.
Sempre que fazemos amor os teus seios são altivos e generosos outra vez, a tua pele sempre macia, mesmo com as cicatrizes dos partos de uma vida em comum.
E o tempo passa sempre depressa a teu lado.


Pois é meu amor.
O tempo tem passado depressa lado a lado.
Mesmo quando não concordo contigo, mesmo quando me aborrecem as tuas pequenas manias.
Mesmo quando olho para um homem maduro os fios de prata nas tuas têmporas, o cabelo que rareia em certas zonas, é tão agradável como foi a cabeleira farta.
Mesmo quando falo contigo e respondes mecanicamente e sei que não me ouves, respondes, essa resposta sempre para mim dá-me o eco do carinho.

domingo, 16 de novembro de 2008

Das queixas dos casados...


Os homens casados queixam-se.
Queixam-se que se casaram com raparigas de cintura fina, roupa interior mimosa, que faziam penteados bonitos, que sorriam muito, dispostas também aos jogos do amor.
Os homens casados queixam-se que essas raparigas de cintura fina se transformaram em mulheres diferentes.
Queixam-se que elas agora estão irritadas, cansadas, esgotadas com contas e compras, arrumações e trabalhos de casa, raramente sorriem, que se queixam de dores de cabeça em vez de sorrirem para as cabriolices do amor.
Que os pitéus que preparavam com carinho passaram a ser o trivial, feito sem tempero de inovação ou carinho.

As mulheres casadas queixam-se….
Queixam-se porque se apaixonaram por homens atléticos, que lhes chamavam nomes doces, que se encantavam com os seus sorrisos e lhes davam pequenos presentes, insignificantes alguns, um flor roubada, uma escapadela para ver o por do sol, um galanteio, que as dispunha ao amor.
Agora deixaram crescer barriga em vez dos galanteios, soltam palavras menos cuidadas, dizem “Escolhe uma coisa para ti”, em vez de lhes dar uma flor roubada ou um galanteio, não olham para o cabelo delas mesmo quando saído do cabeleireiro, perguntam logo “o que é o jantar?”, e elas não lhes apetece as cabriolices do amor…

sábado, 15 de novembro de 2008

Não me lembro....



Pronto não me lembro muito bem quando te conheci.
Não me lembro se te conheci quando mal andava e tentava em perceber o mundo, porque ainda não percebo.
Não me lembro se já te conhecia quando comecei a torcer o nariz ás pequenas injustiças, a defender os direitos dos ovos dos ninhos, o direito das formigas a existir espalhando montículos de açúcar no quintal familiar, para desespero da família.
Também me posso ter cruzado contigo nalgum concerto, no Coliseu, numa fogueira numa praia, ainda pouco mais de menina, a descobrir que já era mulher.
Se calhar conheci-te noutras coisas, no vento, no mar, na areia quente, no rio que oscila de cinzento a castanho, passando por tons de azul, verde e dourado, cheio de barcos de brincar, nos sorrisos felizes, em abrigos de carinho contra chuvas e tempestades, conheci-te em livros, fantásticas histórias, de lutas, de amores, agonias diversas.
Talvez de tenha conhecido em viagem, em passagem por qualquer cidade diferente mas ainda assim quase igual, nas ruas, no passo apressado das pessoas, do reflexo do alcatrão negro, a pedra branca, do bronze verde das estatuas, os pequenos jardins e canteiros semeados para fingir que existem.
Ou então conheci-te numa calma natural, no recolhimento de um bosque, floresta ou mata, de uma praia, de um promontório, um cabo com farol….assim, na calma de olhar para fora, de sentir o mundo a girar.
Também é possível termo-nos conhecido nas urgências do amor, na vontade absoluta e imprevista de se partilhar tudo, num abraço apertado, na confusão de dois fôlegos, na vertigem de nos unirmos e separarmos.
Se te conheci nas percas, as percas grandes em que nos encaramos com menos um pedaço importante, ou naqueles momentos de crise em que sem saber como arranjamos a calma e discernimento necessário para resolver as coisas, todas as coisas à nossa volta.
Não sei tenho de me tentar recordar desde quando é que me conheço!

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

A propósito de nada!


Nos momentos inusitados lembramo-nos de coisas muito estúpidas, desenquadradas, reparamos em coisas que não têm nada a ver.
Lembro-me perfeitamente das luzes do corredor do Hospital deitada na marquesa, quando carregada como um vulgar carro de compras, a caminho do bloco operatório, por um maqueiro que discutia o jogo de futebol da véspera, e eu reparava nas luzes, umas tapadas de vidro martelado, outras de acrílico fosco e naquela altura esforcei-me por descobrir um padrão.
Lembro-me de um ramo de flores particularmente bonito, colocado junto ao caixão do meu pai, com uma inscrição qualquer numa fita de seda, e eu reparei na forma invulgar das pétalas das flores e no gosto requintado de quem tinha juntado no mesmo ramo, girassóis e espigas, num arranjo campestre e emotivo, pensei que o meu pai gostaria daquele ramo.
Não me esquece também, de estar á espera de um resultado de uma análise vital, de saber se o meu filho mais novo teria ou não uma doença grave, depois de um noite de cateteres e seringas, olhar pela janela daquele corredor, ver o acordar de um grupo de abelhas a posicionar-se à espera que as flores abrissem, num esquema altamente organizado, e abstrair-me assim do relógio que parecia brincar de forma malévola comigo arrastando os segundos e os minutos, numa espera agonizante.

E lembro-me de cheiros, do cheiro de terra molhada num dia em que decidi sozinha que não queria um amor que me fosse sufocando lentamente, lembro-me do cheiro da terra molhada porque era verão, aquela tempestade adivinhava mudanças.
E lembro-me estar em Paris, numa cidade de luz difusa e pedras bonitas, e cheirar-me a café e ser um impulso irresistível, pensar que o café sabia muito melhor assim, sem horários, sem ser bebido á pressa, saboreando e vendo a azafama de outra cidade diferente e no entanto tão igual ás outras.
Lembro-me ainda de dar um primeiro beijo e olhar apenas para um botão que estava em risco de cair, naquela manga que vestia aquele braço que se agarrava a mim.
Coisas em que reparo que nem vêm a propósito de nada…

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Uma história!



Esta história não é minha, é de alguém tão próximo que me a contou.
È uma pequena história cheia de banalidades,
A história de uma mulher, que numa fase da sua vida se viu confrontada com uma gravidez inesperada.
O milagre da concepção é muitas vezes este, não se concebe quando se quer e concebe-se quando não se quer de todo.
Não porque não temos coração para albergar mais um filho, temos, o coração é um órgão elástico, onde todos têm o seu espaço, o seu salão.
Mas aquela mulher já tinha filhos, vários, não importa quantos, quando se deu conta que dentro dela se desenvolvia outra vida.
Os tempos não eram fáceis, para certas pessoas nunca o são, são sempre difíceis.
Discutiu a questão, com o companheiro, pai dos filhos, parceiro na vida. Contas de sumir feitas, sim de sumir, não havia espaço para mais um, não havia possibilidade de mais uma criança estudar, de vestir mais uma criança, de alargar a vida a mais.
Haverá quem diga que há sempre, mas eles entenderam que não.
Então foi rebuscado e esquadrinhado dinheiro para resolver a questão, um aborto, um interrupção voluntária da gravidez, se bem que voluntária aqui é um eufemismo. Nenhuma mulher o fará alegremente, despreocupadamente, de consciência tranquila, voluntariamente.
E lá foi cruzando o Tejo, para longe da porta, acompanhada por outra mulher que já teria passado pelo mesmo aperto.
No barco o inesperado, não estava grávida, apenas um pequeno desacerto, daqueles desacertos que atormentam os organismos quando teimam em fazer o que querem desrespeitando horas, calendários e regras.
O primeiro assomo de alegria, foi suplantado pela indignação, a falta crónica de dinheiro, levava-a àquela situação, mas no entanto o dinheiro tinha aparecido face a tal imprevisto.
Não voltou para trás, esbanjou aquele pecúlio em luxos sempre negados, cinema, meias de seda, cortes de tecido, lanche em pastelaria, pequenos luxos sempre negados.
Voltou para casa, deitou-se, a preocupação do companheiro, fez com que naquele dia ele fizesse o comer, tratasse dos filhos, se desdobrasse em carinhos e atenções. Ela deitada quieta, aproveitou aquele luxo até ao fim com a certeza que no dia seguinte teria de se levantar de madrugada, preparar almoços e marmitas, trabalhar lado a lado com ele, limpar a casa, lavar a roupa, fazer o comer, partilhar outra vez a aflição crónica de contar tostões, fazendo divisões e multiplicações impossíveis.

O meu avô morreu sem saber!

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

È Triste, Manuel!




Manuel Alegre é aquilo que me ensinaram a considerar um “senhor de idade”.
De facto já tem muitos anos.
A mim ensinaram-me a respeitar os mais velhos, mas também me ensinaram que para sermos respeitados temos que nos dar ao respeito.
O Sr. Manuel Alegre, não se dá ao respeito, pelo menos para mim.
Foi um óptimo poeta, até não é mau escritor, o último livro que li dele foi o “Cão como nós”, delicioso!
No entanto tenho dificuldades em distinguir este Manuel Alegre, do Manuel Alegre poeta anti fascista, Voz da Rádio Argel, o Manuel Alegre membro destacado do PS, Deputado, ex-ministro, votante e eleito em conjunto com José Sócrates, Mário Lino e todos os outros e ainda o Manuel Alegre que aparece a público constantemente a destacar-se da prática autoritária, a critica-la, do Governo PS, diferente do PS onde o Manuel Alegre milita, dado que aí os conceitos de liberdade, dialogo, linhas politicas, serão outros diferentes, do PS governo, emanado da Assembleia da Republica, dos Deputados eleitos pelo PS, de onde Manuel Alegre faz parte, confuso?! Um bocadinho!
O mesmo PS que aprova o Código de Trabalho, a Lei das Finanças Locais, o Orçamento de Estado, o mesmo PS do mesmo governo que leva para a rua cento e vinte mil professores, uns milhares de estudantes também, manifestações de mais de duzentas mil pessoas, que manda carregar agentes policiais em crianças de 10 anos, que fecha maternidades, que privatiza a saúde, que leva ao descontentamento aberto de militares, que tem como característica mais comum de dialogo o autismo.
Aparentemente existem vários Partidos Socialistas neste país, só assim se poderá explicar o engano sistemático dos eleitores em actos eleitorais, obviamente existe um erro grave nos boletins de voto, onde consta só um PS, aposto que a maioria quereria votar noutro, num humanista, que prometeu postos de trabalho, redução de impostos, melhor saúde, melhores reformas, maior crescimento…
(imagem roubada no José Espremido até ao tutano)

Folga!


Hoje concedi-me a mim própria um dia de folga.
Há semanas que me atormenta um mau estar difuso, uns sintomas gripais, dores no corpo, arrepios de frio, o costume.
O médico indicou-me um medicamento para tomar em SOS, a evitar. Receitou-me uma vacina da gripe, esgotada no mercado…
Fala-me da minha baixa imunidade, da necessidade de descansar, coisa que eu faço o possível para contrariar, mas hoje face a uma agenda que não previa berbicachos antecipados, face a ainda ao corpinho que me dizia “fica sossegada” armei-me em magnânima e decidi conceder-me uma folga, não se preocupem irei trabalhar no fim de semana.
O problema destas folgas será sempre o mesmo, imensas coisas que nunca fazemos por falta de tempo, mas quando nos concedemos uma folga a nós próprios, basicamente é por exaustão, como tal não as irei fazer na mesma quase de certeza.
Que se lixem as gavetas por arrumar, aquelas coisas por dobrar, aqueles sectores de armários em que nunca mexemos, basicamente o importante está feito, o resto não foge.
Não vou ver noticiários porque acho que devo de preservar alguma sanidade mental, felizmente tenho café em casa e a máquina expresso está operacional, existem livros que reclamam falta de leitura, o sofá que desconfio tem saudades minhas, uma mantinha que tem por mim o mesmo carinho que tenho por ela, a quem não tenho dado abraços suficientes.
Levantei-me a horas de tomar um pequeno-almoço calmo, de fazer um almoço para o jovem estudante com direito a fruta descascada e tudo.
Portanto sábado poderão vangloriar-se à vontade do vosso dia de descanso, hoje sou eu!

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Não era só senhoras! Felizmente...


Ao ter falado de uma trisavó, senhora, que colocava a família acima de tudo, para não ficarem com a ideia que esta pessoa tem só na sua arvore genealógica senhoras, sinto impelida a falar de outra avó, trisavó, de outro lado da linha paterna.
Parece que geneticamente herdei mais coisas daí.
O meu trisavô, Algarvio, de Silves, partiu para o Brasil em busca de uma vida melhor, foi trabalhar nas plantações de borracha, só me lembra a livro “A Selva” do grande Ferreira de Castro, a dureza de tal trabalho.
Não encontrou fortuna, aparentemente encontrou uma companheira, gosto de pensar que encontrou o amor.
Não sei de que tribo ela era, suponho que não era nenhuma Pochaontas, filha de chefe índio, apenas sei que era índia e que a trouxe no seu regresso.
Da descrição que me chegou já esbatida pelo tempo, seria uma mulher de cabelo liso e escorrido, ar grave e silencioso, lábios cheios e bem desenhados, que falaria de vez em quando numa linguagem estranha.
Fico a imaginar esta minha antepassada, grave e séria, nascida numa floresta mágica, de árvores a tapar o sol, de comunhão com a natureza a viajar assim, de barco, a cruzar o oceano, ao lado de um homem, provavelmente muito diferente dos homens que conheceria.

Não sei tão pouco como se chamava, sei o nome dos filhos, o nome português, não o nome que imagino, no seu intimo lhes atribuiu.
O meu trisavô não voltou rico do Brasil, mas trouxe essa riqueza familiar, talvez assim se explique que daquele quadrante da família surjam pessoas com cabelo liso escorrido, escuro, talvez assim se explique os nossos lábios cheios e bem desenhados, como uma marca família que vai passando de geração em geração.
Gosto de pensar que em mim subsiste um pouco dessa índia.
(Eu até não gosto muito do Roberto Carlos, mas fica bem!)