quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Serradura



Lembro-me muito bem do cheiro a serradura, ainda hoje me faz sentir reconfortada.
De me tentarem ensinar como se media a idade de uma árvore pelos anéis do tronco.
Lembro-me de madrugadas ainda nocturnas, em que não sei muito bem porquê iria para Lisboa, saímos de casa ainda de noite, estrelas, as pessoas a aparecer devagarinho em surdina, depois o barco, aí havia sempre gente, o cheiro do jornal acabado de chegar, o livro de quadradinhos a que tinha direito, a vista da varanda do barco, que para mim era quase um transatlântico, a nossa frente amanhecia.
As gaivotas doidas em gritos e danças.
A varanda cheia, eu sentada, pouco tempo, lembro-me dos meus pés não chegarem ao chão, depois pulinhos, espreitar, cumprimentar um nunca acabar de gente, que se espantava de eu estar tão crescida, assim eu servia de distracção naquela viajem de trabalho igual ás outras.
Depois Lisboa, a oficina, onde me sentavam no escritório com folhas e lápis de cor, um operário fazia-me uma cadeirinha de madeira ou um bicho, outro misturava sabão e ensinava-me a fazer balões com o tubo da BIC, outro ainda ia a taberna só para me comprar um chocolate, um gatinho, um coração, um mimo.
Depois o almoço, uma taberna, onde arranjam listas telefónicas para que chegasse á mesa, a recomendação da senhora da cozinha, gorda, sorridente e suada, “Tens de comer tudo, minha linda!”
A tarde era diferente, sempre as mesmas voltas, Museu da Marinha (podia ser cicerone do Museu), doca de Alcântara, os barcos, sempre os barcos.
Esperar a minha mãe, beijar um número interminável de colegas, que me perguntavam a idade, miravam parecenças, espantavam-se com o meu tamanho, desencantavam mais meia dúzia de mimos, uma caneta, uma pregadeira, um chupa-chupa.
Depois descer a Avenida da Liberdade, presa ás correntes das mãos de pai e mãe, chegar ao barco, comprar castanhas embrulhadas em papel de jornal ou lista telefónica, entrar no barco outra vez.
Adormecer, acordar no instante em que já estava em casa!
Estava em casa o tempo todo.
Portanto o cheiro da serradura ainda me faz sentir reconfortada!
(foto olhares)

20 comentários:

Anónimo disse...

Pronto gosto muito quando te abres assim como uma flor...

Fernando Samuel disse...

Tão bom... o cheiro da serradura.


Um beijo.

Sunshine disse...

Tb adoro o cheiro da serradura, tal como o da terra molhada, tb me trás uma sensação de conforto.

Bjinho Ana.

Zorze disse...

Ana,

Texto lindo, escrito por uma linda.

Também eu tenho recordações das viagens nesses mesmos barcos. Meia hora para lá e outra para cá. Quantas conversas, quantas companhias e outras sozinho.

Beijos,
Zorze

mugabe disse...

Ana,...as tuas introspecções são de respeito !!!

Abraço!

Ludo Rex disse...

Delicioso este teu escrito, delicioso minha amiga... ao ler-te fiz a viagem e encontrei-te no navio... Kiss

utopia das palavras disse...

e os gatinhos de chocolate...
que eu guardava religiosamente para comer no outro dia. Todos esses cheiros Ana, são retratos que nos tatuam pra vida inteira.

Beijos

Diogo disse...

Memories behind fragments of memories in a real world. That’s life.

kiss.

M. disse...

... A parte de dar beijinhos às "velhotas" quando eramos miúdos era sempre uma seca... especialmente porque havia sempre uma ou outra que achava imensa piada estrafegar as nossas pobres e inocentes bochechas.

Um suplicio.

Mas até essa memória é hoje engraçada.

M.

Ana Camarra disse...

Anónimo-Pois!

Fernando Samuel – É um cheiro doce!

Sunshine-Também gosto da terra molhada.

Zorze-São recordações boas.

Mugabe-São as minhas….

Ludo-Encontraste-me, que bom!

Ausenda-São tatuagens, exactamente.

Diogo-That’s life my friend!

Beijos

Ana Camarra disse...

M.

Eu era especialista em baixar o trombil e não dar beijos ás velhas que não queria dar...

Nunca obriguei uma criança a dar beijos.

Beijos pa ti

salvoconduto disse...

Não faltou quem te mimasse e continuas a merecê-los, por tudo o que nos contas.

Abreijos

Ana Camarra disse...

Salvoconduto

Não foi só mimos, outras partes mais dolorosas é melhor não me lembrar, o tempo também pode ser um bom filtro.
Mimos então aqui no blogue, por parte de vocês é uma desbunda...estragam-me

Beijos

Anónimo disse...

Ana

Só cheguei agora, não resisti, vim cá espreitar.
Uma delicia, também fiz muitas dessas excursões.
Apetece ser pequeno outra vez!

Obrigado

Zé Manuel

samuel disse...

Mesmo que a serradura não fosse também uma boa memória da minha infância... com este texto, passaria a ser.

Abreijo

Ana Camarra disse...

Ze Manuel -Mas eu não quero ser pequena outra vez...

Samuel-É um cheirinho bom


Beijos

Anónimo disse...

Ana, os teus escritos alimentam as nossas almas.
As viagens que contigo fazemos ao passado, recuando 10,20, 30 ou até 40 anos, conforme o tempo de juventude que se tem acumulado, são autenticas viagens terapeuticas.
Eu também me lembro dessas viagens de barco e lembro-me de ir ao Cinema Aviz, no Arco de Cego, ver a Marisol e ao Odeon ver o Joselito.
Ana, eu lembro-me de Lisboa sem Metro e claro lembro-me das cargas da polícia de Choque, nos 1º de Maio no Rossio.
No monte da minha avó, no Alentejo, lembro-me do cheiro de café, feito em cafeteira de barro e lembro-me do cheiro a alfazema que vinha das gavetes e lembro-me e lembro-me ... lembro-me de muitas coisas, porque já acumulei muito tempo de recordações

Um abraço da Lagartinha de Alhos Vedros

anad disse...

Olá Aninhas
Como é que vai a vida? Que som tão bom, como sabes escolher bem as músicas.
Beijinhas
Anad

Ana Camarra disse...

Lagartinha - A memória é uma coisa boa, é como um armário onde podemos guardar o que queremos e rejeitar o menos bom.

Anad-Escolho as músicas que gosto!
A vida vai-se vivendo.

Beijos

SENSEI disse...

A travessia desse Tejo de então, era a travessia de um imenso oceano, os cheiros, os sons, as pessoas, eram quase uma familia, caras que nos ficaram na memória, para sempre, falavam de luta, de futebol, da televisão, do trabalho, eram meias horas cheias. Por vezes fechava os olhos e, saboreava aquele vento na minha cara e nos meus cabelos, cheiro a uma maresia diferente, sentia-me voar nas ondas, sempre seguro, por aquelas gentes tão diferentemente iguais, onde as meias horas se transformavam em alguns minutos.

Xôxos

Ouss