Uma história!



Esta história não é minha, é de alguém tão próximo que me a contou.
È uma pequena história cheia de banalidades,
A história de uma mulher, que numa fase da sua vida se viu confrontada com uma gravidez inesperada.
O milagre da concepção é muitas vezes este, não se concebe quando se quer e concebe-se quando não se quer de todo.
Não porque não temos coração para albergar mais um filho, temos, o coração é um órgão elástico, onde todos têm o seu espaço, o seu salão.
Mas aquela mulher já tinha filhos, vários, não importa quantos, quando se deu conta que dentro dela se desenvolvia outra vida.
Os tempos não eram fáceis, para certas pessoas nunca o são, são sempre difíceis.
Discutiu a questão, com o companheiro, pai dos filhos, parceiro na vida. Contas de sumir feitas, sim de sumir, não havia espaço para mais um, não havia possibilidade de mais uma criança estudar, de vestir mais uma criança, de alargar a vida a mais.
Haverá quem diga que há sempre, mas eles entenderam que não.
Então foi rebuscado e esquadrinhado dinheiro para resolver a questão, um aborto, um interrupção voluntária da gravidez, se bem que voluntária aqui é um eufemismo. Nenhuma mulher o fará alegremente, despreocupadamente, de consciência tranquila, voluntariamente.
E lá foi cruzando o Tejo, para longe da porta, acompanhada por outra mulher que já teria passado pelo mesmo aperto.
No barco o inesperado, não estava grávida, apenas um pequeno desacerto, daqueles desacertos que atormentam os organismos quando teimam em fazer o que querem desrespeitando horas, calendários e regras.
O primeiro assomo de alegria, foi suplantado pela indignação, a falta crónica de dinheiro, levava-a àquela situação, mas no entanto o dinheiro tinha aparecido face a tal imprevisto.
Não voltou para trás, esbanjou aquele pecúlio em luxos sempre negados, cinema, meias de seda, cortes de tecido, lanche em pastelaria, pequenos luxos sempre negados.
Voltou para casa, deitou-se, a preocupação do companheiro, fez com que naquele dia ele fizesse o comer, tratasse dos filhos, se desdobrasse em carinhos e atenções. Ela deitada quieta, aproveitou aquele luxo até ao fim com a certeza que no dia seguinte teria de se levantar de madrugada, preparar almoços e marmitas, trabalhar lado a lado com ele, limpar a casa, lavar a roupa, fazer o comer, partilhar outra vez a aflição crónica de contar tostões, fazendo divisões e multiplicações impossíveis.

O meu avô morreu sem saber!

Comentários

Anónimo disse…
Minha Linda

Mais uma história fabulosa!
Sunshine disse…
Pequenos segredos.

Afinal quem ia passar por esse tormento, fisico e psicológico, era ela.

Mais uma história rica em conteúdo humano e a forma intimista como a contas e fantástica.

Bjs & Abraços :)
CRN disse…
Ana,
Um bocado egoista, mas, provavelmente rrombada pela situação.

A revolução é hoje!
Ludo Rex disse…
Já nos habituaste a estes testemunhos de memória familiar... Continua miga. Kisses
Diogo disse…
«Não voltou para trás, esbanjou aquele pecúlio em luxos sempre negados, cinema, meias de seda, cortes de tecido, lanche em pastelaria, pequenos luxos sempre negados»


E o companheiro ralado e falido! Tss, tss, tss!

Beijo
korrosiva disse…
Felizmente nunca tive essa duvida na minha vida, mas não deve ser de todo uma decisão que se tome de animo leve sejam quais forem os motivos para se querer (ter de) interromper uma gravidez :/


beijinho
É justo o direito
de querer...
de saber...
de ficar...!

História de vida, da verdade das nossas vidas!

Beijo

Ausenda
Ana Camarra disse…
Minha linda - Mais uma.

Sun- O mal destas histórias é que as mulheres é carregam a gravidez ou a sua interrupção.

Diogo-Falidos estavam sempre.

Korrosiva-Acho que só as mulheres podem entender o que será este dilema.

Ausenda-Uma verdade que muita gente quer tapar.
~

beijos
Ana Camarra disse…
crn

A mulheres é que carregam estas cenas!

beijos
salvoconduto disse…
De certeza que não foi por egoísmo, mas por um baita de um alívio.

Abreijo
Ana Camarra disse…
salvoconduto

Bruxo!

Beijo
Fernando Samuel disse…
Ou: um dia (grande) na vida de uma Mulher.
Muito bonito.

Um beijo.
Conde disse…
A forma como contaste a historia é sublime.
Ana Camarra disse…
Fernando Samuel

Um dia especial, sem dúvida.


Conde

Conto-a á minha maneira, já sabes!


beijos
SENSEI disse…
Na escuridão e uma decisão tão dificil, surge uma luz rasgada de um sol esplendoroso, um alívio de alma transmitindo a leveza ao corpo. Como poderia ela não celebrar?

Xôxos

Ouss