O Homem que perdeu o 25 de Abril!


Esta história merece ser contada, o protagonista já morreu.
Arquitecto, Barreirense, democrata e anti fascista, em 1974, frustrado com o falhanço do “Golpe das Caldas”, decide fazer uma das suas sessões de recolhimento, na sua casa Lisboeta.
As Sessões de recolhimento consistiam em desligar-se do mundo exterior, desligar o telefone, rádio, televisão, não atender a porta, não ler jornais, ler livros, ouvir musica e escrever, só, completamente só.
Decidiu faze-lo lá para dia 22 ou 23 de Abril de 1974.
E fez.
Saiu de casa no dia 2 ou 3 de Maio, disposto a enfrentar o mesmo país cinzento, com presos políticos, bufos da PIDE, Censura e Guerra em Africa.
Quando saiu, pensou que estava noutra dimensão, para além dos sorrisos, dos cravos vermelhos, as paredes estavam pintadas de múltiplas cores, sempre com a palavra Liberdade e Fascismo nunca mais.

As pessoas usavam palavras novas.
A primeira reacção foi achar que estava tudo doido, ou que estava doido, no seu desejo por Liberdade, a mente fazia-lhe aquela partida, mas não.
Depois acalmou, falou com as pessoas que se espantavam com a sua ignorância, inteirou-se da loucura dos últimos dias, comprou todos o jornais, telefonou a múltiplos amigos, saboreou esta cidade nova e renascida, e eu acho que chorou, eu teria chorado…

Comentários

duarte disse…
e por ums momentos,ouve LIBERDADE...
eu tb me teria comovido,como ainda me comovo,quando vejo as imagens de timor,quando vejo o que fizeram de 68,como me comovo com todo o belo , que , de longe a longe cruza os nossos sentidos...
belo testemunho.obrigado por lembrar-nos que" o homem sonha a obra nasce"
duarte a tentar cumprir portugal
Maldonado disse…
É uma história impressionante que daria um conto ou novela ao estilo de Michel houellebecq... :D
Às vezes ao desligarmo-nos da realidade que nos descontenta, acabamos por perder os seus melhores acontecimentos...
Zorze disse…
Ana,

O pior foi o depois.

Quando me propus a nascer em Maio de 74, neste país, a ideia era outra.

Seja à bomba ou não, a coisa vai lá.

Beijos,
Zorze
salvoconduto disse…
Se há dia que não me esqueço foi esse. Fui ao Terreiro do Paço, fui à António Maria Cardoso e esperei pela rendição no Largo do Carmo, de máquina fotográfica numa mão e um cravo na outra. Tenho pena daqueles que o perderam.

Abreijo.
Ana Camarra disse…
Duarte - è verdade é sonho que faz avançar e o sonho de liberdade desconfio tem a mesma idade da humanidade, nascemos livres, nús e iguais.

Maldonado-Por essas e outras evito desligar-me. Mas esta história é mesmo veridica, impressionante mas verdadeira.


Zorze-Em Maio de 1974 ainda o clima era de Festa, pode-se dizer que chegaste em grande! Isto resolve-se mas não acredito que seja com bombas!

Salvoconduto-Eu também me lembro, na dimensão dos meus sete anos, diferente dessa tua vivência, mais rica.

Beijos
pedropina disse…
por vezes penso k seria melhor desligar-me completamente e viver numa especie de fantasia ignorante...mas a realidade é mais forte, podemos muda-la? ou podemos fugir?
Ana Camarra disse…
pedropina- Bem vindo.
Vamos também construinodo a nossa realidade, penso eu.
Diogo disse…
Em suma, o arquitecto perdeu o jogo mas a surpresa do resultado deve-lhe ter sabido duas vezes melhor. A realidade pode ultrapassar o sonho.

Não sei até quando terá vivido esse arquitecto, mas esse sonho está hoje tornado num pesadelo.
Ana Camarra disse…
Diogo

Sempre que falava disso era com desgosto de ter perdido aqueles dias.
Morreu há meia dúzia de anos, lúcido, combatente, sempre disposto a mudar o rumo das coisas.

beijos
SENSEI disse…
Por vezes fecho os olhos, ouço o povo na rua, tinha 13 anos, punham as suas mãos nos meus ombros, abanavam-me e diziam-me que aquilo era para mim, para os jovens como eu, gente que eu não conhecia, tão pouco eles me conheciam a mim, mas era como se todos fossemos um!... Um só povo, um só sentimento, uma só felicidade, a alegria era contagiante, acho que nunca me senti tão seguro, éramos felizes e estávamos felizes.
Hoje, com 48 anos, passaram 35 anos, para onde foi essa felicidade?!... Onde estão os sorrisos, a esperança, as convicções de que jamais o fascismo retornaria a esta Pátria?
Os pais olhavam para os seus filhos e, viam neles o futuro de uma vida que lhes foi a eles roubada.
Hoje eu, assim como muitos milhares de pais olham para os seus filhos e, temem que não tenham qualquer futuro, que o mesmo lhes seja roubado como o foi o dos nossos pais.
Infelizmente deixámos que o fascismo tornasse a esta Pátria, mais discreto, mais conhecedor das novas técnicas de dissimulação, usando palavras como democracia, respeito, autoridade, neoliberalismo, suaves poções ditas aos nossos ouvidos, como de fossem verdades na sua aparência, em tons suaves de rosa e laranja, mas que apenas não passam de profundas mentiras no seu âmago, com intenções de uma nova forma de subjugação e domínio.
Só quem o viveu e o sentiu então, sabe e sente o que se está a passar agora.

ACORDAI!... ACORDAI MEU POVO!... NÃO SÃO PULSEIRAS DE MARCA NÃO!... SÃO NOVAS GRILHETAS PARA NOS SUBJUGAR A NÓS E AOS NOSSOS FILHOS.

Xôxos

Ouss
samuel disse…
Acho que está na hora de fazermos uma dessas ""Sessões de Recolhimento"! :-)

Abreijos
Ludo Rex disse…
Liberdade, Liberdade, Liberdade!
Divina esta descrição, eu também teria chorado de certeza...
Kiss
Fernando Samuel disse…
Maravilhosa história!
Dá vontade de... a contar. (não?)



Um beijo amigo.
Ana Camarra disse…
Sensei-Vamos lutando contra isso.

Samuel-Por vezes apetece muito.

Ludo-Nunca o vi chorar, mas tinha sempre lágrimas escondidas quando falava nisto.

Fernando Samuel-Tinha de a contar, não?

beijos
Vivi o 25 de Abril em Mafra, dentro do quartel, para onde entrara no dia 23. Para mim o 25 de Abril, na rua, foi só uns dias depois, como já contei no CR no 25 de Abril deste ano. A explosão de alegria foi mesmo só no 1º de Maio!
Como é possível perder o 25 de Abril, estando em Liberdade?