sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Porque são Obras-primas!



Mais do que tudo, parte da obra de William Shakespeare destaca-se pela sua actualidade.
Não endoideci, é isso mesmo.
Só se assim se compreende que todas as adaptações á sua obra, filmes, bailados, representações teatrais, continuem a despertar este interesse,
Para mim não conheço obras menores, são todas boas, se não li todas, falta pouco, divirto-me com o espírito mordaz de alguns personagens, maravilho-me com a dimensão humana de alguns, embora a dimensão humana seja o tema base de todas as personagens de Shakespeare.
A inveja, a cobiça, o amor, são temas profundamente humanos. Actuais.

Face a todas as voltas do mundo, a voz de Shylock, judeu usurário da Cidade Estado de Veneza, a quem os nobres cospem na cara mas a quem pedem dinheiro para os seus luxos, derrotado pelo sistema judicial na sua pretensão de cobrar meio quilo de carne de António, como pagamento da divida, faz um discurso que ecoa no tempo:

Se vocês nos furam, não sangramos? Se nos fazem cócegas, não rimos? Se nos envenenam, não morremos? E, se vocês nos fazem mal, não devemos nos vingar? Se somos como vocês em todo o resto, vamos ser como vocês nisso. Se um judeu faz mal a um cristão, isso é recebido com humildade? Não, isso pede vingança. Se um cristão faz mal a um judeu, pelo exemplo cristão, qual deve ser a clemência? Ora, vingança. (3, I)




Os senhores têm entre vocês muitos escravos, que os senhores compraram e que, como se fossem seus jumentos, seus cães, suas mulas, os senhores usam de modo abjecto, em tarefas nojentas. Porque os senhores os compraram. Devo então dizer-lhes “Libertem os seus escravos! Deixem que eles se casem com os seus herdeiros! Por que eles têm de suar, carregando pesadíssimos fardos? Permitam que as camas deles sejam tão macias quanto as suas próprias, e permitam que os paladares deles sejam agraciados com as mesmas carnes bem temperadas que vocês comem!”... devo dizer-lhes isso? (4, I)

Retirando o contexto religioso, o discurso adapta-se a tanta coisa, hoje!

22 comentários:

korrosiva disse...

Existem temas que atravessam todas as épocas,todas as classes sociais, todos os povos... e que o continuaram a fazer porque são como as ondas do mar... Voltam sempre!

beijinho.. bom fim de semana :)

Ana Camarra disse...

Korrosiva

Exactamente como as ondas do mar...


Beijo

Anónimo disse...

Como sempre adorei!
Estou sem tempo, vou a Lisboa para a manifestação, tenho de me despachar!
Acho que na rua devemos mostrar, também, que a democracia não pode ter intervalos, como quer a Srª Drª Manuela.
Podem arranjar todas as desculpas, mas de facto, ela disse o que lhe ia na alma, essa é que é a verdade.
Como já vivi largos anos em intervalo de democracia, que se chamava mesmo FASCISMO, não quero pensar que alguém confia nesta mulher para governar!

Esperei encontrar-te na Baixa da Banheira, no Jantar do Jerónimo.

Abraços da Lagartinha de Alhos Vedros

Ana Camarra disse...

Lagartinha

Não podia ir, tinha compromissos familiares (aniversário da mãe) e uma reunião já marcada :(
Confesso que pensei ir de raspão só para te conhecer ao vivo e a cores.
A Dª Manela, pelo menos é como o algodão, não engana.

Beijos

Anónimo disse...

Aí Gaja!

Shakespeare por Al Pacino, só tu, já me falaste nisso e sei quando dizes que leste, leste mesmo, mas esta nem é a tua favorita, pois não Titânia, rainha das fadas...

Beijo

Lena G.

Ludo Rex disse...

Enquadra-se perfeitamente nos dias de hoje... Há coisas que só mudam de contexto... Excelente artigo, nota 20...
Kiss

mugabe disse...

Pois é !

Abraço!

CRN disse...

Ana,
Mesmo sem adaptações, a realidade é essa, ainda que hoje, o cheiro nauseabundo do chiqueiro é cada vez mais comum, talvez por isso tolerado.
Importante é trazer-nos, a nós povo, a essência de Abril, aquela que desperta os sentidos, que nos tranporta a uma realidade que nos é furtada, escondida, detrás de um muro de lamento.

A revolução é hoje!

Diogo disse...

Shakespeare é sem dúvida genial mas infelizmente mal conheço a sua obra. O pouco que sei é sobretudo por peças que vejo na televisão.

Quanto aos judeus, sobretudo os mais abastados, há qualquer coisa de estranho. Quanto mais leio, quanto mais investigo, mais me parece que funcionam mais como uma confraria, uma maçonaria, uma sociedade secreta ou uma máfia do que como um povo. Não penses que sou anti-semita ou racista. Nunca alimentei quaisquer sentimentos desse tipo contra ninguém. Aliás tem saído várias obras (até em Israel) que afirmam que não existe um povo judeu. Que também há muitos judaísmos religiosos. Então que são eles? O que os une?


Convido-te a ler este trecho do não menos genial Eça de Queiroz sobre os judeus na Alemanha. É, no mínimo, intrigante. Que responderia Shylock?

Cartas de Inglaterra 1877-1882

«Mas que diremos do movimento na Alemanha? Que em 1880, na sábia e tolerante Alemanha, depois de Hegel, de Kant e de Schopenhauer, com os professores Strauss e Hartmann, vivos e trabalhando, se recomece uma campanha contra o judeu, o matador de Jesus, como se o imperador Maximiliano estivesse ainda, do seu acampamento de Pádua, decretando a destruição da lei rabínica e ainda pregasse em Colónia o furioso Grão de Pimenta, geral dos dominicanos –, é facto para ficar de boca aberta todo um longo dia de Verão.

Porque enfim, sob formas civilizadas e constitucionais (petições, meetings, artigos de revista, panfletos, interpelações), é realmente a uma perseguição de judeus que vamos assistir, das boas, das antigas, das manuelinas, quando se deitavam à mesma fogueira os livros do rabino e o próprio rabino, exterminando assim economicamente, com o mesmo feixe de lenha, a doutrina e o doutor.

Mas o mais extraordinário ainda é a atitude do Governo alemão: interpelado, forçado a dar a opinião oficial, a opinião de Estado sobre este rancor obsoleto e repentino da Alemanha contra o judeu, o Governo declara apenas com lábio escasso e seco «que não tenciona alterar a legislação relativamente aos israelitas.

Deixa a colónia judaica em presença da irritação da grossa população germânica — e lava simplesmente as suas mãos ministeriais na bacia de Pôncio Pilatos. Não afirma sequer que há-de fazer respeitar as leis que protegem o judeu, cidadão do império; tem apenas a vaga tenção, vaga como a nuvem da manhã, de as não alterar por ora!

O motivo do furor anti-semítico é simplesmente a crescente prosperidade da colónia judaica, colónia relativamente pequena, apenas composta de quatrocentos mil judeus; mas que pela sua actividade, a sua pertinácia, a sua disciplina, está fazendo uma concorrência triunfante à burguesia alemã.

A alta finança e o pequeno comércio estão-lhe igualmente nas mãos: é o judeu que empresta aos estados e aos príncipes, é a ele que o pequeno proprietário hipoteca as terras. Nas profissões liberais absorve tudo: é ele o advogado com mais causas e o médico com mais clientela: se na mesma rua há dois tendeiros, um alemão e outro judeu, o filho da Germânia ao fim do ano está falido, o filho de Israel tem carruagem! Isto tornou-se mais frisante depois da guerra: e o bom alemão não pode tolerar este espectáculo do judeu engordando, enriquecendo, reluzindo, enquanto ele, carregado de louros, tem de emigrar para a América à busca de pão.

Mas se a riqueza do judeu o irrita, a ostentação que o judeu faz da sua riqueza enlouquece-o de furor. E, neste ponto, devo dizer que o Alemão tem razão. A antiga legenda do israelita, magro, esguio, adunco, caminhando cosido com a parede, e coando por entre as pálpebras um olhar turvo e desconfiado – pertence ao passado.

O judeu hoje é um gordo. Traz a cabeça alta, tem a pança ostentosa e enche a rua. É necessário vê-los em Londres, em Berlim, ou em Viena: nas menores coisas, entrando em um café ou ocupando uma cadeira de teatro, têm um ar arrogante e ricaço, que escandaliza. A sua pompa espectaculosa de Salomões “parvenus” ofende o nosso gosto contemporâneo, que é sóbrio. Falam sempre alto, como em país vencido, e em um restaurante de Londres ou de Berlim nada há mais intolerável que a gralhada semítica. Cobrem-se de jóias, todos os arreios das carruagens são de ouro, e amam o luxo grosso. Tudo isto irrita.

Mas o pior ainda na Alemanha é o hábil plano com que fortificam a sua prosperidade e garantem o luxo, tão hábil que tem um sabor de conspiração: na Alemanha, o judeu, lentamente, surdamente, tem-se apoderado das duas grandes forças sociais – a Bolsa e imprensa. Quase todas as grandes casas bancárias da Alemanha, quase todos os grandes jornais, estão na posse do semita. Assim, torna-se inatacável. De modo que não só expulsa o alemão das profissões liberais, o humilha com a sua opulência rutilante e o traz dependente pelo capital; mas, injúria suprema, pela voz dos seus jornais, ordena-lhe o que há-de fazer, o que há-de pensar, como se há-de governar e com que se há-de bater!

Tudo isto ainda seria suportável se o judeu se fundisse com a raça indígena. Mas não. O mundo judeu conserva-se isolado, compacto, inacessível e impenetrável. As muralhas formidáveis do Templo de Salomão, que foram arrasadas, continuam a pôr em torno dele um obstáculo de cidadelas. Dentro de Berlim há uma verdadeira Jerusalém inexpugnável: aí se refugiam com o seu Deus, o seu livro, os seus costumes, o seu Sabbath, a sua língua, o seu orgulho, a sua secura, gozando o ouro e desprezando o cristão. Invadem a sociedade alemã, querem lá brilhar e dominar, mas não permitem que o alemão meta sequer o bico do sapato dentro da sociedade judaica.

Só casam entre si; entre si, ajudam-se regiamente, dando-se uns aos outros milhões – mas não favoreceriam com um troco um alemão esfomeado; e põem um orgulho, um coquetismo insolente em se diferençar do resto da nação em tudo, desde a maneira de pensar até à maneira de vestir. Naturalmente, um exclusivismo tão acentuado é interpretado como hostilidade – e pago com ódio.»

Um beijo

Ana Camarra disse...

Lena-Só tu para te lembrares da Titânia….

Ludo-Exactamente, só o contexto.

Mugabe-è pois!

CRN- Vai-se trazendo!

Beijos

Ana Camarra disse...

Diogo

Já esperava essa reacção tua.
No entanto não fui buscar este tema por ser Shylock um Judeu, apenas por Shylock ser um ser humano, se substituirmos o Judeu por um negro, por um asiático, por um emigrante, por um muçulmano, por um cigano, o texto resulta na mesma na integra.
Porque qualquer um deles sangra, ri e morre, como qualquer outro.
Quis apenas focar isso.
Depois quis focar a genialidade de Shakespeare, que acho nunca me canso de ler, este Mercador de Veneza foi a primeira que li, aos 14 anos achava que iria ser uma seca, mas não tendo mais nada li, adorei.
Daí para cá é como digo li tudo ou quase tudo de Shakespeare e gosto muito, fico ainda fascinada com as novas interpretações que lhe são dadas como o filme Romeu e Julieta, de Baz Luhrmann, que é contextualizado nos nossos dias, com pistolas, automóveis, neons e musica pop e sem alterar uma virgula ao dialogo construído por Shakespeare ou este filme com Al Pacino e Jeremy Irons, feito dentro do mais absoluto classicismo.
Por fim dizer-te que não menos favorito do que Shakespeare é Eça de Queiroz…

Beijos

Anónimo disse...

Ana

Não sabia desta tua veia, sempre soube que lias muito, mas não te via agarrada nem a Shakespeare (confesso que nunca li nada, só filmes)nem a Eça de Queiroz (li os maias obrigatório na Escola 11º), acho fantástico gostares.
Mais fantástico eu ler isto aqui e fazer sentido e seres como dizes uma coisa actual.
De resto ponho-me a pensar e dificilmente Romeu e Julieta serão actuais, Aninhas...

Beijos

Diogo disse...

Ana,

Evidentemente que Shakespeare dá voz a um homem que é maltratado e que se revolta por isso. Tal acontece com todas as raças, credos e religiões e classes sociais.

Mas o que me parece, e pelo que crescentemente vou lendo sobre o assunto, é que a justa revolta do negro, do asiático, do emigrante, do muçulmano e do cigano soa a choradinho falso quando se trata do judeu. Sempre queixoso mas sempre perseguidor com as sua Anti-Defamation League, o seu B'nai Brith, os seus holocaustos, as suas câmaras de gás, os seus progroms (incluindo o de Lisboa), os seus bancos, os seus jornais e televisões, os seus políticos e o intocável Estado de Israel que vai massacrando todas as populações das redondezas e exigindo sempre reparações à Alemanha e ajudas aos EUA.

Como dizia o Eça em 1880: «Mas o pior ainda na Alemanha é o hábil plano com que fortificam a sua prosperidade e garantem o luxo, tão hábil que tem um sabor de conspiração: na Alemanha, o judeu, lentamente, surdamente, tem-se apoderado das duas grandes forças sociais – a Bolsa e imprensa. Quase todas as grandes casas bancárias da Alemanha, quase todos os grandes jornais, estão na posse do semita. Assim, torna-se inatacável.»

O Shylock de Shakespeare é um homem justamente revoltado contra uma sociedade que o maltrata, mas o Shylock do mundo real é capaz de ser outra coisa diferente. Este Shylock parece utilizar a pretensa revolta e a pretensa vitimização como eterna chantagem. Como te disse, quanto mais leio sobre o assunto mais estranho tudo isto me parece.

Um beijo.

Zorze disse...

Anoquinhas,

Foste logo trazer, Al Pacino, para mim um dos melhores actores que existe. E representa.

A questão dos judeus é muito complexa e criadora de muitas teorias, principalmente mitos.
Ainda hoje se confunde, judaísmo e sionismo - essa confusão é elaborada de forma organizada, com fins muito precisos.

Eu vou pela teoria de Charles Darwin - a evolução das espécies.
Que povo mais perseguido, queimado, torturado e espezinhado, que os judeus. Nos últimos 2.000 anos foram acusados por matarem o filho de deus.
Foram escorraçados por todo o lado. Mas, conseguiram manter uma unidade como povo sem território ao longo destes anos. Não há na História, tal façanha.

Hoje, subconscientemente, têm um território, têm um exército letal, as melhores armas, exportam os melhores sistemas de vigilância, têm dos melhores serviços secretos e por aí adiante.

Mas, se me perguntarem, se confio num judeu, eu respondo que não.
Funcionam como uma seita. Desenvolveram certos aspectos técnicos e organizativos derivado da condição humana de adaptabilidade.

Essa de serem um povo escolhido de deus. Não me façam rir.

É uma questão matemática. Foram perseguidos e espezinhados ao longo dos anos, agora defendem-se e atacam. E quando podem também humilham. Depois levam a resposta. É o ciclo interminável das relações inter-povos.

A carta de Eça de Queiroz que o Diogo traz é para reflectir profundamente, sobre, o aqui e agora da época.

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Diogo

Eu percebo-te, percebo o que queres dizer mas como em tudo na vida, nem todos os Judeus serão sionistas, nem todos ricos, nem todos agiotas, nem todos fechados na sua carapaça religiosa-cultural.
Para mim primeiro, os judeus, os ciganos, os indios, os asiaticos, os emigrantes, os negros,~os brancos, são todos pessoas seres humanos e é nessa condição que tem de ser vistos.
A mistificação de que falas até foste tu que me despertaste, e sim, acho que há coisas mal explicadas.
No entanto peço-te analisa o discurso de Shylock, omitindo a palavra Judeu, só e apenas.
O progrom de Lisboa existiu, como outros existiram, só que os perseguidos não foram os que Eça, magistralmente, descreve.
Até entre os Judeus há muitos tons!

Beijo grande

Ana Camarra disse...

Zorze

Olha só no ponto de vista humano, no ponto de vista que este dicurso encaixa em multiplas situações.
Será que um Palestiniano se o furarem não sangra como um Judeu? Não terá o mesmo frio, o mesmo calor, as mesmas vontades, as mesmas dores?
Portanto o texto poderá ser adaptado a multiplas realidades e em todas ser fiel.

beijos

Ana Camarra disse...

Zorze

Esqueci-me, o Al Pacino aqui é ultra fabuloso, vê o filme, se quiseres empresto.

Beijos

SENSEI disse...

William Shakespeare = Excepcional

Esse filme está muito bem conseguido, "O Mercador de Veneza", sendo o personagem de Shylock interpretado por Al Pacino, onde este uma vez mais, esteve divinal, alíás para mim, (tal como para o Zorze), Al Pacino é um actor gigantesco.

Xôxos

Ouss

Diogo disse...

Ana,

Obviamente que a grande maioria dos judeus são pessoas como outras quaisquer. Entre os judeus há, como bem dizes, muitos tons. Mas muitos deles têm tendência para cultivar uma vitimização que não se justifica (ao contrário de muitas minorias que têm sérias razões para se sentirem discriminadas e maltratadas).

A revolta de Shylock de Shakespeare é a revolta de um homem injustiçado. Sob esse aspecto estamos todos com ele. Como poderia ser de outra maneira?

Sobre o progrom de Lisboa, gostava que lesses isto:

Existiu um Progrom contra os judeus em Lisboa no ano de 1506?

Beijo

Ana Camarra disse...

Sensei - Gigantesco, mesmo.

Diogo- è isso mesmo, vou ler sim.

Beijos

Fernando Samuel disse...

Sábias palavras, essas... e tão actuais no essencial!



Um beijo amigo.

Ana Camarra disse...

Fernando Samuel

Intemporais.

beijos