domingo, 19 de dezembro de 2010

Celebremos então


Pronto o Natal desperta uns sentimentos infantis em mim, não consigo deixar de ter arrepios com algumas canções, com uma certa luminosidade das luzes de Natal, com a imagem de árvores decoradas e do menino Jesus, mesmo que o menino Jesus seja só um menino que poderia ser Simão, António, Manuel, Gabriel ou outro nome qualquer, ou porque não uma menina, porque os bebés são bebés, não interessa, seja lá como for tornou-se num símbolo de esperança e amor, depois de crescido lutou contra as injustiças, é quanto basta para mim, não acredito que foi concebido por uma mãe imaculada porque isso só por si seria pecado, uma criança deve ser concebida num turbilhão de amor carnal, expressão de outros amores, é desejável esse calor para conceber uma criança, também sei que não é fundamental, mas é importante, não acredito noutras coisas também, mas já aprendi que quem conta um conto acrescenta um ponto e durante dois mil anos para cá deve de se ter acrescentado muita coisa, no essencial, celebra-se um nascimento, celebra-se uma nova vida, uma nova esperança, o fim do Inverno que pode ser muita coisa, o Inverno é escuro, é frio, e apesar de ter sido vitima de má vontade, serve muito como metáfora para outras coisas, portanto celebremos então uma vida nova, desejável até quando a nossa vida se vê embrulhada em problemas velhos e até em coisas que julgávamos ser apenas recordações do passado, como as sopas do pobres, o trabalho quase escravo, a emigração forçada por um país onde o futuro não cresce.

Como celebrar então?

Podemos celebrar assim com doses de carinho fraternal, de solidariedade, até com muita força, acções concretas e diárias para afugentar o frio, a fome e sombra deste canto que já foi, também império romano, ou melhor desta maravilhosa bola azul suspensa num firmamento infinito, parece que já existiram muitos meninos que o tentaram, de várias formas e aparentemente conseguiram sempre mudar algo de fundamental e fizeram em cada passo um mundo melhor, celebremos então.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Final de Tarde!


Acabei por estar entre quatro paredes todo o dia, não dei pelo cinzento do céu se tornar em nevoeiro, nem pelo dia se tornar noite, agora dou por isso quando espreito á janela, despachei quase tudo o que tinha para despachar, para não perder a embalagem acontecem sempre uns imprevistos, que lá se consegue resolver, via telefone chegam-me outras coisas: a paisagem de outro sítio, o que outros comeram ao almoço, a chegada a casa de amigos, a chatice da escassez de açúcar com o Natal a bater á porta, conversas de trocos de algibeira e outras coisas mais.
Agora agarro-me a uma pausa, nem sei porquê ainda à pouco me ocorreu concluir que sou uma besta, que nunca consigo dizer exactamente o que sinto, ou porque posso ser mal interpretada, rejeitada ou simplesmente porque outras razões me impedem, o decoro, a educação, o espírito democrático e a estúpida mania de conciliar o mundo. Geralmente consigo escrever o que não consigo dizer, hoje o cesto dos papéis está cheio de rascunhos, folhas impressas que por um motivo ou outro foram rejeitadas e que recuso a deitar fora sem as gastar até ao último pedaço em branco, hoje acumularam ideias inacabadas pensamentos não concretizados, mas ainda assim consegui cumprir o que tinha delineado.
Agora estico o pescoço, dá esta sensação de estalinhos, uma coisa que se arruma, há uma dormência boa, daqui a pouco tenho de orientar qualquer coisa para comer.
Ocorre-me que se fosse outra eu, talvez fosse menos contraditória, mas se fosse outra eu não esta.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Fica só


Fica aqui ao pé de mim, naquelas conversas, simples,
Só nossas, quase sem palavras, só olhar, só o toque,
A presença, o sorriso no fundo do olhar ou então
Diz-me qualquer coisa,
Diz-me porque é que sorris para mim,
Porque é o mar é azul,
Porque é que gostamos de ruínas á beira-rio
Douradas pelo sol a despedir-se,
Diz-me como é que as aves se sustentam no vento,
Porque é que os peixes gostam de nos assustar,
Porque é as mãos se encaixam,
Porque é que o tempo passa
Tão depressa
Que ainda ontem era
O inicio da Primavera dos
Sentidos
E agora
Acaba o Verão, ou
Pelo contrário
Como é que o tempo passa tão devagar
Que escorre oleoso e lento
Numa ampulheta estrangulada,
Quando queremos que chegue outro dia,
Outra hora,
Outro instante qualquer
Ou então não digas nada
Fica aqui só
Ao pé de mim

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Não gosto de amores desesperados


Não gosto de amores desesperados, só nos versos de Neruda e nas peças de Shakespeare, todos os outros não gosto, acho que os amores, as paixões, as ternuras devem de ser alegres, cúmplices, felizes, acima de tudo compensadores, sob pena de não valerem a dita pena.

Na vida real Romeu e Julieta deveriam ter fugido para outra cidade, evitando mortes, venenos, golpes de espada, gosto de pensar que poderiam ir para uma cidade de pores-do-sol rosados, onde se amariam entre gargalhadas, António e Cleópatra também, fugiriam para outro sítio, uma ilha qualquer no mediterrâneo azul onde mergulhariam nus entre beijos molhados, deixando para trás tronos e serpentes venenosas.

Os amores devem de ser assim como um local onde nos sentimos muito bem, confortáveis, com inquietações felizes, nunca desesperadas, o desespero cansa, desgasta, a alegria renova, os amantes devem de se provar sempre como da primeira vez, com vontade, com um sorriso, seja nos lábios seja no fundo dos olhos, as carícias devem ter algo de brincalhão, os abraços devem de ter alegria para poderem ser aceites com beijos felizes, esfomeados mas felizes.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Devagar, suavemente


Assim que ligo o telemóvel começam, visivelmente zangado e exigente a apitar e tremer, lembretes, mensagens, alguém que ligou fora de horas, aniversários, ignoro-o, posso dedicar-lhe atenção mais tarde, preciso de pousar o olhar um pouco, não estou ainda completamente desperta, durante a noite envolvo-me no livro que leio, por mais tempo do que devia, na ânsia de capturar palavras, acabei por me deixar de dormir já com a madrugada a anunciar-se, por pouco tempo, porque depois começam todas as outras coisas, os passos que ecoam na rua deserta de quem segue para o barco, os carros cada vez mais frequentes, a birra do menino pequeno arrancado da cama para ser entregue á avó, mais tarde passará a carrinha do colégio e o menino começa assim cedo atravancado entre horários, o caniche da vizinha com o ladrar estridente que tem vocação de galo matinal.
Por isso não acordei completamente, o duche matinal, acabou por funcionar como calmante em vez de despertador, a lassidão a tomar conta do meu corpo em jactos de água morna e um perfume floral, foi devagar que me vesti depois de espreitar o dia, foi devagar que levei a escova ao cabelo, foi devagar que desci as escadas, liguei o carro e foi devagar que fui olhando a acumulação das folhas a morrer no passeio, as gaivotas preguiçosas só a pairar, os velhotes que insistem em atravessar a rua mesmo ao lado da passadeira e nunca sobre ela, num gesto de rebeldia quase perigoso, foi devagar que cumprimentei as pessoas de todos os dias, é devagar que equaciono o resto do meu dia, o dia de amanhã, as pequenas coisas novas que surgem, é devagar que penso nos momentos que reservo só para mim, é devagar que ouço uma música que me faz sorrir, é devagar que alinho letras até formar palavras para depois expressar sentimentos, é devagar que me escorrem assim entre os dedos, suavemente.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Não sejas injusta!


Não sejas injusta, tens de perceber que existem pessoas pequeninas a quem só lhes interessa o seu reflexo, que estão convencidas que afinal o mundo nasceu só para eles e não eles para o mundo, pensam ainda que o sol só brilha para eles em regime de exclusividade, não se importa que não brilhe para mais ninguém, contam com a sua esperteza de rato oportunista, acham que por não fazeres os mesmos esquemas não os topas e tu finges que não percebes, passas á frente.
Essas pessoas acham maravilhoso o som da sua própria voz, tem um prazer perverso em exigir dos outros o que nunca fizeram, nunca são generosos, são interesseiros, nunca são solidários, são caridosos, nunca são alegres, são exuberantes, congratulam-se com as desgraças alheias, chafurdam nelas, mesmo, não tentam informar-se ou aprender, tentam apenas safar-se, por isso não dizes nada, segues o teu caminho, sabes que há sons muito mais belos que a tua voz, sabes que nunca podes ser inteiramente feliz enquanto existir sofrimento avulso em teu redor, sabes que sol brilhava antes de chegares ao mundo e mundo já girava em seu torno, assim continuará depois, sabes que o teu reflexo é efémero, sabes que quando te dás recebes, só essa partilha conta, que por cada coisa que aprendes há milhões que ainda não sabes.
Por isso, segue em frente, sorri, finge que não viste, não sejas injusta.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Nem sei se te lembras


Não sei se te lembras, foi num dia de sol, de certeza que foi, mesmo que o sol não estive a brilhar deve ter brilhado um bocadinho, nem que fosse só para nós, mas não sei se te lembras, eu não me lembro da data, nem do mês, lembro-me que era daqueles dias em que achamos que somos capazes de quase tudo, que se quisermos voamos, conquistamos o mundo ou descobrimos qualquer coisa especial, não me lembro do que vestia, se um vestido leve ou um camisolão de malha, sei que vestias qualquer coisa clara, não me lembro se era campo, ou uma esplanada no meio da cidade, não me lembro se as folhas caiam ou se as flores desabrochavam, lembro que uma gaivota a pairar com um ar tranquilo, não me lembro se tinha o cabelo longo ou se calhou naquelas alturas em que o cortava curtinho, nem me lembro se havia música de fundo se não de certeza que ouvimos alguma, lembro-me de olhar para um carreiro de formigas, lembro que te sorri sem motivo aparente e tu devolveste o sorriso, lembro-me de apesar de ter visto outras vezes foi ali que te vi, nem sei se te lembras.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Mesmo com burocratas e temporais


Hoje o dia está cinzento, nada de mais, é normal, estamos no Outono, levantei-me sem vontade, apetecia ali ficar a ouvir a chuva a cair e aproveitar uma certa moleza, mas não, banho, pão de leite (esqueci-me de comprar fiambre), sumo de laranja, café, vestir-me (ténis, calças de ganga, camisola, casaco de malha, um elástico para prender o cabelo depois se for preciso), ligar o telemóvel (há uma mensagem de ontem, daquelas que gosto de receber), carro, hoje o caminho á outro, papelaria (os meninos compram dentaduras de vampiros e cartolinas. “Hoje vais á minha escola, Ana? Vou sim.), tudo em ordem, tudo preparado, “Ò Ana ainda bem que aqui está a ver se me pode ajudar.”, sala preparada, (“Ò Ana que tens? Estás com bom aspecto!” a conversa repete-se por mais três ou quatro nuances, estás mais magra, fizeste alguma coisa ao cabelo, fica-te bem essa cor), não resisto a espreitar o meu reflexo, acho-me igual.
Os músicos afinam os instrumentos, são simpáticos, competentes, os miúdos deliram, aprendem depressa o que é melodia, palhetas, distinguem o oboé do clarinete e o fagote da trompa, batem palmas e abrem muito os olhos, a menina de trancinhas e paralisia cerebral sorri, com a boca e os olhos, pelo meio surgem outros assuntos tenho de sair muitas vezes, um refeitório onde pinga, um gato morto esborrachado no meio da estrada, os cartazes com as alterações de transito, os documentos que ainda tenho de assinar, mudamos de escola, o Pavilhão é velho, os meninos tiveram de se sentar no chão, os burocratas não os deixaram ir ao concerto, levou-se o concerto á Escola, flauta transversal, fagote, oboé, clarinete e trompa, a Suite Quebra Nozes e o Frere Jacques, com a chuva a bater no telhado de zinco e os meninos a dizerem “é maravilhoso”. E é!
Estou ensopada, apanhei chuva a correr a levar meninos entre um pavilhão e um alpendre, com chapéu-de-chuva emprestado, dois a dois agarrados a mim, felizes e excitados com uma aula diferente.
Assim se constroem os dias diferentes, mesmo com burocratas e temporais

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Faz-me falta



Ontem a determinada altura a vertigem da saudade e da falta atingiu-me como um raio, uma coisa pequena, são sempre as coisas pequenas, cheguei a casa, orientei meia dúzia de coisas, atendi umas chamadas, estiquei-me um pouco no sofá, um pequeno luxo, antes de acabar o jantar, pegar na mala e voltar ao trabalho, ouvi as opiniões dos comentadores económicos, sobre as possibilidades do Orçamento de Estado, fui ao computador mandar uns mails, vi que tenho mais de 100 convites de amizade, mais de 100 convites para jogos, 52 outros pedidos, não abri esse sector, peço desculpa mas começo a ficar selectiva, passei os olhos pelas “últimas” deste espaço virtual e vi uma foto, uma foto simples, tirada por um amigo, mais do virtual, muito real, conheço-o desde sempre, a foto é simples: um banco onde o meu pai saboreava as manhãs de férias, depois da bica matinal, a ler o jornal, um banco de jardim, nada mais.
Acabámos por trocar palavras das saudades que ambos sentimos, afinal, aquele homem calmo, filho de um amigo de sempre do meu pai, trabalhou com ele, percebeu o vazio que ainda guardo, ele também tem essa saudade do meu pai.
Mais tarde alguém me torna a falar dele num registo quase humorístico, cheio de ternura.
O meu pai faz-me falta todos os dias, quase a todos os momentos, faz-me falta quando acontece algo de novo na minha vida e quero partilhar esse momento com ele, faz-me falta para comentar os assuntos dia, os grandes e os pequenos, faz-me falta para ver os netos, os meus homenzinhos e o meu pequeno sobrinho, que só vai ouvir histórias do avô, faz-me falta quando vejo um filme estupendo que sabia que ele iria gostar, quando leio um livro, quando ouço um Jazz, uma sinfonia ou uma ária que gostávamos, faz-me falta quando a angustia me impele a ver o mar, faz-me falta quando sei uma anedota nova, faz-me falta quando me sinto pequenina outra vez e preciso que ele me segure na mão, faz-me falta quando me sinto crescida e era eu que o acalmava, faz-me falta quando sinto que transporto os pesos todos do mundo e ele dividia a carga comigo, faz-me falta ver reflectido no rosto dele o mesmo olhar que tenho, os mesmos gestos que faço inconscientemente, faz-me falta quando o vejo reflectidos pedaços dele no riso de um tio, no olhar de um primo, faz-me falta…

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Lentamente


Lentamente como um sopro
Lentamente
Como as marés
As mudanças de luz
A transição do dia para a noite
Da noite para o dia
Lentamente
Suavemente
Crescem ideias e vontades
Lentamente germinam
Vontades
O Amanhã vem sempre a seguir
E é onde se guarda o futuro
Lentamente

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Depois volto...


Não fugi para parte incerta, embora muitas vezes pense nisso, só em partir sem saber onde e como chegar, como se partir fosse só por si a aventura e a vontade sem mais nada anexo, só partir, sem ancoras nem bagagens, nem pedi asilo político a nenhum paraíso das Caraíbas com charutos enrolados, bebidas ambarinas e praias de sonho, embora já me tenha passado essa ideia pela cabeça e concluído se esta Europa civilizada só me dá desgostos, talvez possa procurar outra coisa qualquer em vez de ficar e sofrer indignar-me e lutar sempre, mas lutar assim todos os dias também cansa, cansa mais quando parece que a maré, o vento e a corrente estão sempre contra, sempre contra e a praia até está ali mesmo mas não se chega lá.

Também não fugi para dentro do meu mundo pequeno, pessoal e egoísta, acho que nem sei fazer isso, nem quando devia consigo, centrar-me só em mim, nos meus, nos meus pequenos prazeres, nunca o consegui fazer, as injustiças sempre me afligiram, em miúda não gostava de ir ao circo dava comigo a perguntar onde dormiam aqueles meninos mascarados de lantejoulas, que por baixo das pinturas tinham sempre um ar triste.

Não fiz nada disso, apenas de vez em quando, deixo cair, esqueço-me de ouvir que apesar de tudo ainda há risos de crianças, distraio-me ao ponto de não me maravilhar com voo inquieto de uma ave, com os cheiros felizes da vida, com o carinho ensurdecedor de um sorriso, depois volto, já cá estou.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Os Gritos dos pavões


Existiam pavões brancos para além dos normais azuis, era assim um dia meio pardacento com estas névoas pesadas de início de Outono, as pedras velhas, cinzentas cobertas de líquenes, a sensação estranha de estar num dia inventado onde o ar custa a respirar e quase que se pode segurar com a mão os farrapos de nuvens, como se fossem farrapos de algodão sujo.
Existiam pavões brancos para além dos normais azuis, que piavam num som aflito, aflitivo também, de quem não pertence ali, apesar das cabeças pequenas e dos olhos estúpidos alguma coisa naqueles animais deve ter a saudade primordial de florestas e outras paragens quentes, não daqueles farrapos de algodão sujo de nuvens baixas, nem do cheiro azedo da palha velha na gaiola, do milho, quase que aposto que no seu estado natural não comem milho partido.
Lembro-me das pedras cinzentas cobertas de líquenes, do algodão branco sujo e quase palpável, das nuvens baixas, do piar de choro dos pavões, de um ranger metálico, talvez um balouço, lá no fundo do relvado, um relvado triste com faltas de relva, um pardal morto de patas para o ar, com o corpo cheio de formigas, os meus sapatos meio molhados, a sensação de estar num dia inventado que queria desinventar, sem os gritos aflitos dos pavões.



domingo, 3 de outubro de 2010

Mea Culpa

Ando a concluir que de facto a culpa é minha, existe um senhor de olhos arregalados no Telejornal que avisa que de facto os Portugueses têm de fazer poupanças e que esta é a altura ideal, que temos ainda que interiorizar que os subsídios de Natal e Férias, bem como outros apoios sociais tendem a ser extintos porque é impossível o estado continuar a suporta-los, tal como outras coisas, o Serviço Nacional de Saúde ou a Educação, ouço o senhor e penso que de facto tenho contribuído para levar o país ao estado ruinoso em que se encontra, afinal não tenho poupanças, um PPR a vinte cinco euros por mês, isto tudo porque sou uma louca e ainda não desabituei de certos luxos dispensáveis, um cinema de vez em quando, livros, jornais (se bem que com menos regularidade), férias (cada vez menos tempo é certo, mas continuo agarrada a esse vicio), um eventual espectáculo ou concerto (caramba tanto programa na tv para quê esta teimosia), depois o resto, gosto de peixe fresco, confesso esta loucura, então cozido ou grelhado insisto no fresco, gosto de ter várias qualidades de frutos, cheiro as maçãs, compro aquelas qualidades como a bravo esmolfe, coisas dispensáveis (como é que não me consigo convencer que a fruta não tem de cheirar), levo a loucura ao cumulo de, por vezes, lá me controlo e não faço sempre que me apetece, ir petiscar com uns amigos ou beber um copo num final de noite, portanto sou uma mulher desequilibrada que não se agarra a esses vícios como os transmite aos filhos, levando-os a cair neste padrão, o meu desequilíbrio vai ao ponto de achar que tudo isto é normal, descubro agora que não, afinal uma parte do estado a que isto é da minha responsabilidade, devia de fazer sopa de cascas de batata, aproveitar os períodos de férias para pescar tainhas no rio e congelar, devia de não ter estantes com livros cheios de ideias perniciosas, devia de ter comprado no mercado mensal o quadro do menino da lágrima em vez de cópias de quadros que adorei, alguns até paguei entradas nos museus para os ver, como se isso tivesse algum interesse, devia de comer fruta inodora na dose diária recomendada, bem como as proteínas necessárias sem me preocupar com coisas tão estúpidas como especiarias e gostos de palato, cheiros ou fruta da época, o teatro não é mais que um grupo de doidos em palco a fingir o que não são, o cinema é coisa de ilusões e o consumo de música é outro gesto dispensável.


A
tendendo ainda que considero que muitas peças que vi, obras de arte, filmes, muitos livros que li, muitos concertos a que assisti, muito momentos sem preço, como tal caros, chego á conclusão que desbaratei uma fortuna que agora poderia ser redireccionada para coisas fundamentalmente importantes, como a continuação de tropas portuguesas no estrangeiro e a compra de mais submarinos.