quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Faz-me falta



Ontem a determinada altura a vertigem da saudade e da falta atingiu-me como um raio, uma coisa pequena, são sempre as coisas pequenas, cheguei a casa, orientei meia dúzia de coisas, atendi umas chamadas, estiquei-me um pouco no sofá, um pequeno luxo, antes de acabar o jantar, pegar na mala e voltar ao trabalho, ouvi as opiniões dos comentadores económicos, sobre as possibilidades do Orçamento de Estado, fui ao computador mandar uns mails, vi que tenho mais de 100 convites de amizade, mais de 100 convites para jogos, 52 outros pedidos, não abri esse sector, peço desculpa mas começo a ficar selectiva, passei os olhos pelas “últimas” deste espaço virtual e vi uma foto, uma foto simples, tirada por um amigo, mais do virtual, muito real, conheço-o desde sempre, a foto é simples: um banco onde o meu pai saboreava as manhãs de férias, depois da bica matinal, a ler o jornal, um banco de jardim, nada mais.
Acabámos por trocar palavras das saudades que ambos sentimos, afinal, aquele homem calmo, filho de um amigo de sempre do meu pai, trabalhou com ele, percebeu o vazio que ainda guardo, ele também tem essa saudade do meu pai.
Mais tarde alguém me torna a falar dele num registo quase humorístico, cheio de ternura.
O meu pai faz-me falta todos os dias, quase a todos os momentos, faz-me falta quando acontece algo de novo na minha vida e quero partilhar esse momento com ele, faz-me falta para comentar os assuntos dia, os grandes e os pequenos, faz-me falta para ver os netos, os meus homenzinhos e o meu pequeno sobrinho, que só vai ouvir histórias do avô, faz-me falta quando vejo um filme estupendo que sabia que ele iria gostar, quando leio um livro, quando ouço um Jazz, uma sinfonia ou uma ária que gostávamos, faz-me falta quando a angustia me impele a ver o mar, faz-me falta quando sei uma anedota nova, faz-me falta quando me sinto pequenina outra vez e preciso que ele me segure na mão, faz-me falta quando me sinto crescida e era eu que o acalmava, faz-me falta quando sinto que transporto os pesos todos do mundo e ele dividia a carga comigo, faz-me falta ver reflectido no rosto dele o mesmo olhar que tenho, os mesmos gestos que faço inconscientemente, faz-me falta quando o vejo reflectidos pedaços dele no riso de um tio, no olhar de um primo, faz-me falta…

2 comentários:

Anónimo disse...

Tão lindo!
Fiquei com um nó na garganta, tomei as tuas dores e somei-lhe as minhas.

Que saudades do meu pai,da minha mãe, do tempo em que sempre passava em casa deles antes de entrar na minha casa!

Um beijo
Obrigada pelo que escreves e pela bela música!

Lagartinha de Alhos Vedros

Fernando Samuel disse...

Muito bom!

Um beijo.