Mea Culpa

Ando a concluir que de facto a culpa é minha, existe um senhor de olhos arregalados no Telejornal que avisa que de facto os Portugueses têm de fazer poupanças e que esta é a altura ideal, que temos ainda que interiorizar que os subsídios de Natal e Férias, bem como outros apoios sociais tendem a ser extintos porque é impossível o estado continuar a suporta-los, tal como outras coisas, o Serviço Nacional de Saúde ou a Educação, ouço o senhor e penso que de facto tenho contribuído para levar o país ao estado ruinoso em que se encontra, afinal não tenho poupanças, um PPR a vinte cinco euros por mês, isto tudo porque sou uma louca e ainda não desabituei de certos luxos dispensáveis, um cinema de vez em quando, livros, jornais (se bem que com menos regularidade), férias (cada vez menos tempo é certo, mas continuo agarrada a esse vicio), um eventual espectáculo ou concerto (caramba tanto programa na tv para quê esta teimosia), depois o resto, gosto de peixe fresco, confesso esta loucura, então cozido ou grelhado insisto no fresco, gosto de ter várias qualidades de frutos, cheiro as maçãs, compro aquelas qualidades como a bravo esmolfe, coisas dispensáveis (como é que não me consigo convencer que a fruta não tem de cheirar), levo a loucura ao cumulo de, por vezes, lá me controlo e não faço sempre que me apetece, ir petiscar com uns amigos ou beber um copo num final de noite, portanto sou uma mulher desequilibrada que não se agarra a esses vícios como os transmite aos filhos, levando-os a cair neste padrão, o meu desequilíbrio vai ao ponto de achar que tudo isto é normal, descubro agora que não, afinal uma parte do estado a que isto é da minha responsabilidade, devia de fazer sopa de cascas de batata, aproveitar os períodos de férias para pescar tainhas no rio e congelar, devia de não ter estantes com livros cheios de ideias perniciosas, devia de ter comprado no mercado mensal o quadro do menino da lágrima em vez de cópias de quadros que adorei, alguns até paguei entradas nos museus para os ver, como se isso tivesse algum interesse, devia de comer fruta inodora na dose diária recomendada, bem como as proteínas necessárias sem me preocupar com coisas tão estúpidas como especiarias e gostos de palato, cheiros ou fruta da época, o teatro não é mais que um grupo de doidos em palco a fingir o que não são, o cinema é coisa de ilusões e o consumo de música é outro gesto dispensável.


A
tendendo ainda que considero que muitas peças que vi, obras de arte, filmes, muitos livros que li, muitos concertos a que assisti, muito momentos sem preço, como tal caros, chego á conclusão que desbaratei uma fortuna que agora poderia ser redireccionada para coisas fundamentalmente importantes, como a continuação de tropas portuguesas no estrangeiro e a compra de mais submarinos.

Comentários

SENSEI disse…
Pois!
Se tivesses tido mais juízo, hoje tinhas um jeep para mostrares na cidade e comias cornflakes a ver o Tony Carreira e acreditavas piamente nos senhores e senhoras dos telejornais, que sabem tudo e depois eras feliz na felicidade das personagens das telenovelas, que vivem vidas lindas e que te faziam esquecer a tua, depois ias para a cama dormir um sono sem sobressaltos, preocupações, isso tudo o que os cultos e inteligentes ao pensarem por si têm, tu estavas livre de tais pensamentos, eras livre e feliz, pois só os ignorantes amorfos o são e assim se faz o Portugal dos nossos dias.

Ouss
Master Sensei San
Fernando Samuel disse…
Pois é, está visto que és uma pessoa sem sentido da realidade sócio-cultural dominante...

Um beijo

(Gostei de te ver)
Zorze disse…
Já viste o esforço de endividamento a que levaste o Estado a incorrer!
Tivesses feito como o Dias Loureiro e outros que se financiaram a eles próprios.

Beijo,
Zorze
duarte disse…
pois...pois...
é inevitável sairmos à rua e (desesperadamente) tentarmos encontrar gente "anormalmente" formada ... ou pouco formatada.
"A formiga num carreiro..."
abraço amiga (e até breve...)
Ana Camarra disse…
Sensei

Eu nem sequer gosto de corn flakes...

Fernando Samuel

È evidente!

(Também gostei muito de te ver, temos de nos ver com calma)

Zorze

Pois, devia ter feito como esse senhor!

Duarte

Sou sempre a formiga no sentido contrário...


Beijos
Sopro leve disse…
Depois admiram-se que ganham mal...
Que mania, sonhar que trabalha-se para viver... burguesia; Temos é que viver para trabalhar...