terça-feira, 9 de novembro de 2010

Devagar, suavemente


Assim que ligo o telemóvel começam, visivelmente zangado e exigente a apitar e tremer, lembretes, mensagens, alguém que ligou fora de horas, aniversários, ignoro-o, posso dedicar-lhe atenção mais tarde, preciso de pousar o olhar um pouco, não estou ainda completamente desperta, durante a noite envolvo-me no livro que leio, por mais tempo do que devia, na ânsia de capturar palavras, acabei por me deixar de dormir já com a madrugada a anunciar-se, por pouco tempo, porque depois começam todas as outras coisas, os passos que ecoam na rua deserta de quem segue para o barco, os carros cada vez mais frequentes, a birra do menino pequeno arrancado da cama para ser entregue á avó, mais tarde passará a carrinha do colégio e o menino começa assim cedo atravancado entre horários, o caniche da vizinha com o ladrar estridente que tem vocação de galo matinal.
Por isso não acordei completamente, o duche matinal, acabou por funcionar como calmante em vez de despertador, a lassidão a tomar conta do meu corpo em jactos de água morna e um perfume floral, foi devagar que me vesti depois de espreitar o dia, foi devagar que levei a escova ao cabelo, foi devagar que desci as escadas, liguei o carro e foi devagar que fui olhando a acumulação das folhas a morrer no passeio, as gaivotas preguiçosas só a pairar, os velhotes que insistem em atravessar a rua mesmo ao lado da passadeira e nunca sobre ela, num gesto de rebeldia quase perigoso, foi devagar que cumprimentei as pessoas de todos os dias, é devagar que equaciono o resto do meu dia, o dia de amanhã, as pequenas coisas novas que surgem, é devagar que penso nos momentos que reservo só para mim, é devagar que ouço uma música que me faz sorrir, é devagar que alinho letras até formar palavras para depois expressar sentimentos, é devagar que me escorrem assim entre os dedos, suavemente.

3 comentários:

continuando assim... disse...

devagar ...e suavemente li .

gostei

bj
teresa

Fernando Samuel disse...

É devagar que se vai longe...

Um beijo.

Mar Arável disse...

Caminhar caminhando

para uma greve geral

sem pestanejar