terça-feira, 25 de maio de 2010

Não vale a pena?!




Não sei se esta expressão tem origem nas penas de escrever, antepassadas da canetas, das esferográficas e por fim das teclas e dos ecrãs tácteis, se quiser dizer que o assunto não vale a pena que se usa para escrever sobre ele ou se, pelo contrário, se refere à pena como desgosto, mágoa e preocupação que se carrega, da mesma forma que as aves as carregam as penas cravadas no seu corpo, independentemente do significado mais correcto “Não vale a pena!” é usado para aliviar a preocupação de alguém, se alguém nos diz que está profundamente preocupado com certos assuntos sobre os quais não temos controle, não dependem de nós ou que por muito que nos preocupemos não se resolvem, dizemos “Não vale a pena!”
Mas muitas vezes a pena vale, vale o golpe de asa de sermos solidários, com o amigo, com o familiar, com o colega ou até com o desconhecido, vale a pena indiscutivelmente continuar a lutar pelos sonhos, mesmo que pequenos, aparentemente irrisórios ou pelo contrário grandiosos e aparentemente incapazes de se realizar, enquanto continuamos a lutar por sonhos, enquanto sonhamos, modificamos o mundo, criamos coisas novas, jogos de palavras, uma barragem, pontes a sério de pedra, metal, madeira e outras não tão palpáveis mas até eternas, criamos quadros que transmitem ideias, capturamos imagens, navegamos, voamos, dissecamos células microscópicas para um bem enorme, cria-se uma música que é mais ou menos uma poesia do som, modela-se a pedra, transforma-se frutos noutras coisas, e vale a pena. Valem ainda a pena certos sacrifícios, que nos arrancam do nosso egoísmo, alargam o horizonte para além do nosso umbigo, podem fazer crescer o mundo, vale ainda a pena sem sombra de dúvida lutar, remar contra as marés que nos dizem invencíveis, inevitáveis, imparáveis, são possíveis de conter, de retroceder, melhor ainda é possível avançar e só assim fazendo das penas outras coisas, canetas, braços erguidos, por vezes braços caídos, sonhos, outras coisas que valem sempre a pena!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Apetecia-me falar contigo...



Sem filtros, sem pensar em que tecla tenho de tocar, sem parar para desenhar letras de palavras que se tornam menos espontâneas por terem esse compasso de espera, sem premir o ouvido a um qualquer dispositivo, sem ficar frente a frente a ver-te num ecrã com a voz retorcida numas colunas, uma imagem plana, onde não se sente a respiração, o cheiro, o brilho do olhar, essas coisas que comunicam também, falar só, simplesmente, com as palavras saídas do âmago, da vontade, da emoção, ou doutro sitio qualquer que pode ser o coração, não o motor que bombeia o sangue, porque somos muito racionais para isso e sabemos que o coração nada guarda apenas bombeia sangue, todo o dia, toda a noite, todo o dia e toda a noite outra vez, num ritmo surdo, sem a minha voz ser transportada por satélites e torres de sinais estranhos que nunca percebi, onde por vezes ouço.
Apetecia-me falar com calma e vagar, sem horas de chegada e partida, sem cronómetros, uma conversa com silêncios pelo meio, um projecto, uma recordação, o constatar de um pássaro mais veloz, a subida de um cheiro de maresia, uma gargalhada, também, um tecto de abóbada azul escuro, da cor da tinta das canetas permanentes, como um pano rasgado cheio de pequenos furos, de uso, de desgaste, onde brilham picos, parecem, pequenos mas não são, são estrelas, com a lua pendurada...
Assim só conversar…

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Moral e Religião




Nunca fui aluna de Moral e Religião, quando iniciei a instrução primária fui colocada no Colégio Barreirense do Prof. Seixas, já velhote mas ainda assim com ideias pedagógicas avançadas, especialmente se comparadas com o Ensino Primário do Fascismo, de qualquer das formas fui poupada às Serras Nacionais, ao cognome de todos os Reis, aos ramais de caminho de ferro de Portugal, o Portugal uno e grandioso do Minho a Timor, que nunca existiu, até porque logo em Abril, a dia 25 acabou o Regime, felizmente.
Quando transitei para outros níveis de ensino, nunca tive aulas de Moral e Religião, por escolha própria e com apoio paternal, afinal o meu avô paterno teve a postura vanguardista de não baptizar as filhas, declarando que a escolha de uma religião devia de ser feita por alguém na posse das suas faculdade e não por um recém nascido, assim foi, a minha tia mais velha acabou por se tornar católica, primeiro muito praticante, depois desconfiada com a Igreja enquanto instituição, facto a que não deve ter sido alheio a postura de um cunhado, Padre, que de facto vivia em comunhão total e carnal com uma senhora, a minha outra tia teve assim uns picos religiosos, pouco convictos, a minha mãe acabou-se-lhe o fervor quando no confessionário, teria ela uns doze anos, o Padre lhe perguntou se já tinha feito isto e aquilo no seu próprio corpo ou no dos rapazes… Coisas que a minha mãe desconhecia de todo, saiu de lá baralhada e confusa, eternamente ressentida. O mesmo Padre que apelando à decência não deixou a minha vizinha do lado casar sem luvas calçadas…
Acresce dizer que as três foram baptizadas para puderem concluir a 4ª Classe, a turma era levada inteira porque de facto a religião não era muito popular, a madrinha era a Nossa Senhora, o Padrinho o São José e pronto.
Portanto nunca tive aulas de Moral e Religião, até porque um dos professores Moral tinha pouca e Religião só falava de Católica ficando indignadíssimo quando alguém procurava saber um pouco mais sobre os hindus, os protestantes, os muçulmanos, ou outra coisa qualquer. Por essa altura, um dos meus primos sentia-se deslocado porque era o único da turma a não frequentar tal disciplina e inscreveu-se, em má hora, porque o Professor ao detectar que o meu tio exercia um cargo em representação do PCP, vocacionou todas as aulas para o insultar e humilhar assim o meu primo, o resultado foi que praticamente toda a turma anulou a disciplina, num acto solidário.
O conceito de Moral e Ética foi-me assim incutido, não por temor ao divino ou porque se espera uma recompensa posterior, mas porque se deve de agir correctamente, apenas e só.

terça-feira, 11 de maio de 2010

A Crise Inventada



Parece que existe uma crise a que todos somos alheios, todos não, alguns de nós são chamados uma vez mais a pagar a crise, somos nós os do costume, os que vivem de um salário, que planeiam a compra de sapatos para o subsidio de Natal, que nunca fogem ao fisco, que pagam a portagem, a taxa moderadora, o imposto de selo, a propina, o IMI, o IVA de 5% no leite e de 20% nos iogurtes, que olham apreensivos para o carro de supermercado e para a conta a tentar perceber como é que aconteceu o milagre da multiplicação, como é que poucas coisas, cada vez menos coisas, dão uma conta tão grande, que franzem os olhos frente ao computador porque mesmo com os descontos da Multiopticas não dá para comprar os óculos, são os mesmos que escutam os conselhos de saúde das “Tardes da Júlia” ou das “Tardes da Fátima” em que se bate na tecla que o peixe é fundamental para uma alimentação equilibrada e se lembram vagamente de puderem comprar peixe fresco, esperam ansiosamente a época das sardinhas…Estes não são alheios à crise, como não são alheios à crise os trabalharam toda a vida e olham para uma pensão que somada os catorze meses não atinge um salário de grande gestor de uma empresa erguida com dinheiro de todos para lucro de alguns, não são alheios á crise os que procuram emprego e arranjam com sorte um part time na caixa de supermercado, na loja do Gato Preto, num Call Center que ainda não se mudou para a Índia, ou um emprego como segurança, nunca sabem se podem comprar o passe para o mês seguinte ou se podem algum dia sonhar com uma casa, uma vida própria, não são alheios à crise os que teimosamente saem de barco e deitam as redes para capturar algum peixe, sujeitos a uma tempestade qualquer que vire a frágil casca de noz onde navegam, não são alheios à crise os que trabalharam 10, 15, 20 anos ou mais na mesma empresa a enroscar porcas, a cozer sapatos, a encaixar peças de electrónica, cozer cortiça, ou outra coisa qualquer, que viram com um orgulho sair aquela encomenda que era importante, baptizada com o seu suor em horas extra nunca pagas, horas retiradas ao descanso, horas retiradas á família, mas que depois dos salários pagos a bochechos e de outras coisas, chegam um dia e encontram os portões que os engoliam todos os dias fechados e mudos.
Noutro sitio, noutro plano alheios a isto, os senhores com motorista, fato à medida, empregada doméstica, que decidiram que se arrancavam vinhas e se plantavam kiwis, que se arrancava sobreiros para mais um campo de golfe, que se zangam porque as vacas produzem leite a mais pondo assim em risco compromissos internacionais, que dão dinheiro a bancos que não pagam impostos, que atendem à necessidade de outros senhores que ganham mais e mais por cada sapato baptizado com suor, por cada Call Center cheio de precários, por cada caixa de supermercado em part time, esses sim são alheios à crise, inventam mais um imposto, tirado aos de sempre para dar aos do costume.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Era bom, não era?



Um grupo de cientistas de várias nacionalidades uniu esforços e conseguiu finalmente descodificar o genoma causador de doenças, esta descoberta levou ao fabrico de uma vacina, de baixo custo que irá ser de imediato produzida massivamente com o patrocínio da ONU, que irá enviar para os sistemas de Saúde de toda a parte do planeta sendo ainda reforçado com a ida de um contingente médico para as zonas mais recônditas. Prevê-se que dentro de três meses o plano de vacinação global esteja concluído, a vacina modifica certos cromossomas que são portadores de doenças transmitidas geneticamente, reduz o risco de infecções em cerca de 100%, age ainda como regenerador do organismo em doenças já adquiridas. Com esta descoberta científica torna-se possível a erradicação definitiva da maior parte das doenças.
Finalmente descoberto um meio seguro, eficaz, não poluente e económico para a produção energética, a nova técnica combina a energia eólica, o recurso a gases produzidos pela compostagem, reciclagem e a energia das marés, pode ser utilizado eficazmente tanto para a produção de combustível para veículos, produção de energia eléctrica além de outras. Esta descoberta irá acabar com o recurso a combustíveis de origem fóssil, os cientistas reunidos prevêem que no prazo de um ano toda a produção energética a nível mundial poderá ser substituída, para a utilização desta nova fonte de energia não é necessário proceder a nenhum tipo de adaptação tanto em veículos como em habitações, os pipelines já existem para transporte petrolífero deverão ser utilizados para transportar este novo combustível.
Numa cimeira inédita, governantes, especialistas económicos, lideres mundiais entraram em acordo quanto a questões económicas, está a ser elaborado um plano que prevê entre outras coisas: proibição da especulação imobiliária com a atribuição de habitações devolutas por abandono ou retoma bancária a famílias sem habitação, esta proposta será já incrementada de imediato em toda a Europa e América do Norte; as produções agrícolas excedentes na Eu serão canalizadas para zonas mais desfavorecidas do globo, entretanto preparam-se contingentes para a formação, em diversas partes do planeta, de populações para a captação, armazenamento e purificação de agua potável, combinando com técnicas agrícolas não poluentes e não ofensivas para o meio ambiente; a UE aprovou ainda um plano especial de reflorestação e de “indústrias verdes” coordenadas com as necessidades globais, que não só irão permitir o estimular da economia como absorver os desempregados da zona Euro; prepara-se ainda a criação da nova moeda mundial e do passaporte “mundis”, um documento que irá permitir a livre circulação de pessoas, pelo que se vislumbra a abolição de todas as fronteiras terrestres a nível internacional
Para terminar preparam-se em todo o mundo as celebrações do Dia Internacional da Paz, dia 21 de Setembro, prevê-se uma mostra de cultura, desporto, para celebrar um novo rumo para a humanidade.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

A Primeira Verdade


Primavera, traduzida à letra será mais o menos a “Primeira Verdade”. È de facto a verdade inicial a verdade das sementes que aguardaram teimosamente o inverno, rompendo a terra devagarinho contra o solo gelado até surgirem numa explosão de verde e cor, é ainda a verdade inicial da procriação, das danças de acasalamento entre os pássaros dos ninhos construído e chegando ao fim da Primavera já uma nova geração de jovens aves exercita as asas, é a primeira verdade dos borregos que mal se aguentam nas patas e de outros bichos, mais e menos domésticos, é a primeira verdade das árvores que florescem após estarem nuas, em flores que serão frutos e é a primeira verdade de muitas coisas. Tenho a suspeita que não foi por acaso que o 25 de Abril chegou embrulhado neste espírito de Verdade Primeira, uma força jovem que colocou fim num Inverno teimosamente comprido, de quarenta e oito anos, deixando florir as sementes de múltiplas esperanças, da liberdade, da paz e de uma vida melhor, é ainda na Primavera que se assinala o Dia do Trabalhador, digo de propósito que se assinala, porque durante o tal inverno arranjava-se pretextos para pic nics, saídas, para não trabalhar porque de uma forma ainda que meio clandestina não se deixava a data em vão, celebrou-se o Dia do Trabalhador, sem dúvida na imensa multidão do 1º de Maio de 1974, as imagens registam uma torrente imensa de gente em festa, como um dique que se abriu por não conseguir mais conter uma maré, hoje assinalamos o dia, porque para além de festejar tudo o que foi conquistado, marca-se a posição inegável de defender essas conquistas de não deixar retroceder tudo, de ir mais além. Esta é a Primeira Verdade, a verdade de que apesar de todos os temporais, de todas as geadas, de todo o frio e escura, há coisas que teimosamente germinam e florescem.