quinta-feira, 20 de maio de 2010

Apetecia-me falar contigo...



Sem filtros, sem pensar em que tecla tenho de tocar, sem parar para desenhar letras de palavras que se tornam menos espontâneas por terem esse compasso de espera, sem premir o ouvido a um qualquer dispositivo, sem ficar frente a frente a ver-te num ecrã com a voz retorcida numas colunas, uma imagem plana, onde não se sente a respiração, o cheiro, o brilho do olhar, essas coisas que comunicam também, falar só, simplesmente, com as palavras saídas do âmago, da vontade, da emoção, ou doutro sitio qualquer que pode ser o coração, não o motor que bombeia o sangue, porque somos muito racionais para isso e sabemos que o coração nada guarda apenas bombeia sangue, todo o dia, toda a noite, todo o dia e toda a noite outra vez, num ritmo surdo, sem a minha voz ser transportada por satélites e torres de sinais estranhos que nunca percebi, onde por vezes ouço.
Apetecia-me falar com calma e vagar, sem horas de chegada e partida, sem cronómetros, uma conversa com silêncios pelo meio, um projecto, uma recordação, o constatar de um pássaro mais veloz, a subida de um cheiro de maresia, uma gargalhada, também, um tecto de abóbada azul escuro, da cor da tinta das canetas permanentes, como um pano rasgado cheio de pequenos furos, de uso, de desgaste, onde brilham picos, parecem, pequenos mas não são, são estrelas, com a lua pendurada...
Assim só conversar…

5 comentários:

+uma disse...

excelente!

"tb numa dimensão diferente..."

Fernando Samuel disse...

Falar, apenas...

Um beijo.

Anónimo disse...

pois...que o canal seja somente o tempo de um sopro de um sussurro...
como diz o fernando samuel: falar apenas.
abraço deste vale.

conde disse...

Se o "contigo" for comigo, sabes aonde estou, á distancia de um rio.
È soberba esta tua escrita.

Zorze disse...

Ana,

Conversar às vezes, às vezes muitas... é difícil.
Tem que se conversar primeiro, para depois conversar...

Beijos,
Zorze