terça-feira, 11 de maio de 2010

A Crise Inventada



Parece que existe uma crise a que todos somos alheios, todos não, alguns de nós são chamados uma vez mais a pagar a crise, somos nós os do costume, os que vivem de um salário, que planeiam a compra de sapatos para o subsidio de Natal, que nunca fogem ao fisco, que pagam a portagem, a taxa moderadora, o imposto de selo, a propina, o IMI, o IVA de 5% no leite e de 20% nos iogurtes, que olham apreensivos para o carro de supermercado e para a conta a tentar perceber como é que aconteceu o milagre da multiplicação, como é que poucas coisas, cada vez menos coisas, dão uma conta tão grande, que franzem os olhos frente ao computador porque mesmo com os descontos da Multiopticas não dá para comprar os óculos, são os mesmos que escutam os conselhos de saúde das “Tardes da Júlia” ou das “Tardes da Fátima” em que se bate na tecla que o peixe é fundamental para uma alimentação equilibrada e se lembram vagamente de puderem comprar peixe fresco, esperam ansiosamente a época das sardinhas…Estes não são alheios à crise, como não são alheios à crise os trabalharam toda a vida e olham para uma pensão que somada os catorze meses não atinge um salário de grande gestor de uma empresa erguida com dinheiro de todos para lucro de alguns, não são alheios á crise os que procuram emprego e arranjam com sorte um part time na caixa de supermercado, na loja do Gato Preto, num Call Center que ainda não se mudou para a Índia, ou um emprego como segurança, nunca sabem se podem comprar o passe para o mês seguinte ou se podem algum dia sonhar com uma casa, uma vida própria, não são alheios à crise os que teimosamente saem de barco e deitam as redes para capturar algum peixe, sujeitos a uma tempestade qualquer que vire a frágil casca de noz onde navegam, não são alheios à crise os que trabalharam 10, 15, 20 anos ou mais na mesma empresa a enroscar porcas, a cozer sapatos, a encaixar peças de electrónica, cozer cortiça, ou outra coisa qualquer, que viram com um orgulho sair aquela encomenda que era importante, baptizada com o seu suor em horas extra nunca pagas, horas retiradas ao descanso, horas retiradas á família, mas que depois dos salários pagos a bochechos e de outras coisas, chegam um dia e encontram os portões que os engoliam todos os dias fechados e mudos.
Noutro sitio, noutro plano alheios a isto, os senhores com motorista, fato à medida, empregada doméstica, que decidiram que se arrancavam vinhas e se plantavam kiwis, que se arrancava sobreiros para mais um campo de golfe, que se zangam porque as vacas produzem leite a mais pondo assim em risco compromissos internacionais, que dão dinheiro a bancos que não pagam impostos, que atendem à necessidade de outros senhores que ganham mais e mais por cada sapato baptizado com suor, por cada Call Center cheio de precários, por cada caixa de supermercado em part time, esses sim são alheios à crise, inventam mais um imposto, tirado aos de sempre para dar aos do costume.

8 comentários:

+uma disse...

Excelente artigo amiga!
Se permitires a partilha :-)

Gostei força na tecla!

Ana disse...

Fado
Futebol
Fátima
será que ainda funciona?
Esse é o fado da nossa história; o Papá já está cá; o SLB ganhou e com sorte pode ser q a selecção consiga alguma coisita.
Apostas q o Zé esquece tudo o resto?
Bj

Zorze disse...

Ana,

Muito bom!

São as engenharias financeiras de elevada complexidade.
No fim é tudo o mesmo, sacar aos distraídos para dar aos atentos e organizados.

Beijoca,
Zorze

Mar Arável disse...

Com estes pastores

é urgente despertar

os rebanhos

SENSEI disse...

Um dia, as ovelhas levantarão a cabeça e deixarão de ser animais herbívoros, ver-se-lhes-ão caninos no lugar de incisivos e passarão a carnívoros, crescer-lhes-ão garras e seguirão decepando e arrancando a carne a esta corja PS/D que teima em nos (des)governar e a se governar a si mesmo.

Ouss
(Yakusa Sensei San)

Fernando Samuel disse...

Anatomia da crise...

Um beijo.

JIM disse...

Ana

Artigo perfeito para ilustrar a artificialidade da crise que nos dizem existir.
Existe apenas para os mesmos de sempre. Para aqueles que gritando a sua indignação, o fazem num filme mudo do mundo do capitalismos canibal em que vivemos.
Sim, porque para eles democracia é nós podermos gritar a nossa indignação pela forma como os parasitas nos sugam e eles, democrática e soberanamente, não ligarem nenhuma aos nossos protestos.
Até quando? Hasta cuando?

Paz e Luz na tua casa

Dricanela disse...

Oi Ana,

Gostei muito do seu blog, gostaria de saber se voce permite que eu possa fazer videos con seus textos para a red sem fins lucrativos, e desde logo no final sairia que o texto é de sua obra.
un abraço.
dricanela.blogspot.com
dricaclavoycanela@hotmail.com