quarta-feira, 31 de março de 2010

Açucar, canela, chocolate, amendoas e carinho...



A Pascoa lá em casa, fosse a casa dos meus pais, da minha avó, dos meus tios, nada tinha a ver com a Via Sacra, a morte e ressurreição de Cristo ou com Êxodo comandado por Moisés, embora nessa altura do ano a televisão, no seu único canal a preto e branco, depois em dois e a cores, conseguisse o milagre de passar filmes históricos, raramente dos que gosto, mas antes daqueles chatos, a paixão segundo São qualquercoisa, depois por engano por engano ou para desanuviar lá aparecia o “Quo Vadis”, “Ben Hur” ou “Os Deus Mandamentos”, que eu via maravilhada como se nunca tivesse visto, não digam nada mas ainda hoje vejo e desejo sempre que no Bem Hur aquela tenha não escorregue para cima dos romanos, espero sempre que o Burt Lancaster vestido de Moisés, opte por ficar na corte egípcia e modificar a sociedade de outra forma que não seja com gafanhotos e a matar os filhos de ninguém, para além de que tenho pena do Yul Breiner fazer de mau, porque sempre gostei dele, no “Quo Vadis” tenho uma certa pena do Peter Ustinov na demência de Nero, alimentada por todos, e digo sempre que quem pega o touro na arena do Coliseu é um Português… Sempre achei que festejamos a Primavera, porque também acho que nesta altura que se inicio um novo ciclo, brotam e nascem coisas. Mas a Páscoa para além disso sempre foi outras coisas: espanhóis fugidos da austeridade da semana santa deles, a invadir todos os cantos com a sua fala cantada; um cheirinho de sol e flores bravias; muitas vezes o meu aniversário ou de alguém próximo porque um dos meses privilegiado para nascer gente na família é o de Abril e amêndoas, isso sim, amêndoas, é certo que se costuma fazer o folar, a minha avó fazia, a minha mãe também, também é certo que os ninhos de Pascoa são bonitos e têm um ar apetitoso, mas depois sabem a creme pintado, os ovos de chocolate, de pascoa, são sempre bonitos, a prata enchia os olhos, mas geralmente era uma desilusão, as amêndoas nunca me desiludiram, francesas, de sobremesa, molinhas de Coimbra, de chocolate, de pinhão, as Bonjour com formas de ervilhas, morangos e afins e acima de todas as feitas em casa. Açúcar em ponto, um pitada de canela, chocolate em pó, num tacho de cobre, as amêndoas lá dentro, mais umas mexidas com cuidado, despejar tudo na pedra mármore e separa-las rapidamente com a colher de pau.
Só como amêndoas cobertas nesta época do ano da mesma maneira que só como filhoses no Natal, acho que cada época tem o seu gosto especifico, o seu sabor proibido, permitido só naquela altura, das feitas em casa, este ano, só se as fizer eu, já não há quem as faça mais.

domingo, 28 de março de 2010

Pontos incertos


Comprei os coentros, hoje não liguei o telemóvel, um acto espantoso de rebeldia, não querer estar contactável, fiz coisas pequeninas, cortar, picar, refogar, misturar, bater, nessas andanças usei os coentros, a mudança da hora descoordena-me tanto que consegui fazer tudo mais cedo que o normal, mas são descoordenações normais, comigo muitas coisas resultam assim no inverso, senti saudades de coisas pequeninas, na minha cabeça andam umas personagens estranhas, de uma história que estou a alinhavar, com pontos laços e incertos, que possam ser ainda corrigidos, apertados, alargados, imaginei uma cena de amor com elas com as personagens que estão a ser construídas, com peripécias que ouvi contar vezes sem conta, afinal as histórias mais fantásticas são sempre as verdadeiras, mas não me deixam descansar, mesmo enquanto vou tentando resolver outras questões mais comezinhas e diárias, lembro-me das cores dos cabelos, dos gestos e das vontades, das coisas que acho que gostavam, dos tiques e das particularidades, das amarguras e das vitórias que lhes vão abanar a vida, num sitio dessa história irei plantar um canteiro aromático, com hortelã, coentros, alecrim, alguém irá perder a vida cedo demais, um vai seguir um caminho fantástico, outra vai personificar uma revolta inesperada, entretanto amadurecem, vão viver comigo nos meus sonhos, enquanto lhes torço o destino, amanhã vou outra vez cedo dizer olá ao rio, pode ser que me entre um pescador a história….

sexta-feira, 26 de março de 2010

Decididamente, sexta-feira!


Sexta Feira, Friday, vendredi, viernes, Freitag, vrijdag, paraskevi, o fim da semana, hoje comecei o dia sentada no carro a ver Lisboa do outro do lado do rio, linda, transparente, um bilhete postal para turistas e amantes das cidades brancas viradas para a água, um livro na mão o rádio a tocar baixinho, um homem a montar cana de pesca e demais apetrechos, outros de fato de treino a andar, outro que espreguiça a olhar para o rio com o jornal na mão que olha para mim com cumplicidade, eu com o meu livro, ele com o jornal, a fingir que lemos mas não é só aproveitar o sol na água, as arvores a murmurarem segredos para o rio, as gaivotas como brinquedos a pairar, são horas, digo até logo ao rio, vou vê-lo durante todo o dia, mas com a pressa de quem passa num sitio, corro para uma escola, os meninos querem plantar coisas, ver crescer plantas, explico o que são alfazemas, peço para fazerem festas na plantas, cheirar o aroma nas mãos, inspiram fascinados, faz um vento medonho, todos querem fazer uma toca na terra para as plantas crescerem, todos querem tirar com cuidado a planta do vaso, apertar a terra para que as raízes cresçam por ali, o vento acoita-nos, e caem uns pingos grossos, as plantas vão ficar bem, saio dali, espreito o rio pelo canto do olho, sigo para onde se distribui por sacos cachos de uvas, couves, pacotes de leite e de arroz, procurando atenuar misérias, atendo chamadas, digo que tenho sono, o dia vai acabar noite escura, as contingências do dia a dia obrigam a acções de esclarecimento, o PEC, a legislação laboral, as múltiplas armadilhas que estão a ser semeadas, amanhã é sábado, dia de Saturno pelas Calendas antigas, dia de comprar legumes e frutas, cheirando todos, o ramo odorífero de coentros, hortelã e salsa, fundamental, para temperar saladas e cozinhados com sabor ao sol, as tangerinas de casca fina e sumo acido, morangos de coração vibrante e cheiro doce, maçãs doces e acidas, batatas e cebolas novas de casca fina, alhos arrumados numa trança que se pendura na cozinha, molhos de agrião, nabiças e outras coisas com um ar tosco, sem tamanho certo, sem serem formatados, sem autocolantes de terras estranhas, decididamente sexta-feira!

quarta-feira, 24 de março de 2010

Plano de quê?



Por motivos pessoais, políticos, profissionais e afins tenho vindo a estudar a prestações (porque de uma penada só revela-se doloroso) o tão falado Plano da Pólvora seca, também conhecido por Plano de Estabilidade e Crescimento e ainda por Plano para Encher os do Costume, dentro das múltiplas medidas destacam-se o agravamento da idade da reforma na Função Pública, estica-se até aos 67 anos de idade, já não vou falar do que vai para trás mas olhando de repente consigo imaginar certas coisas: a educadora de infância a quem artrite não permite pegar nas crianças, a professora cega com as cataratas que debita a sua ciência para uma plateia de adolescentes a trocar SMS’s ou a jogar PSP, por falar da PSP, o agente asmático a tentar correr atrás dos meliantes do roubo por esticão, o varredor de ruas que pede ajuda ao transeunte para apanhar o papel do chão porque a espondilite anquilosante não lhe permite dobrar-se. Os exemplos são muitos, humorísticos se não fossem tristes. Entretanto parece que não se mexe nas reformas acumuladas de quem passou alguns anos ou meses por qualquer administração de qualquer empresa com Capital do Estado, entretanto os pequenos, mini, micro, nano, minúsculos empresários que resolveram transformar o seu desemprego com uma indemnizaçãozita e as poupanças de uma vida, num café de bairro, num táxi, numa oficinazinha, numa lojeca onde se fazem arranjos de costura e se passa a ferro, carregam o ónus do berbicacho, pagamentos por conta de lucros que se calhar não vão ter, Imposto de Valor Acrescentado de facturas que ainda não conseguiram cobrar e mais uns brindes, dos poucos que ainda trabalham e descontam muito, para não terem educação gratuita para os filhos, para não terem saúde gratuita e já agora nem a pagar qualquer coisita, esses vão chegar ao final do ano, entregar a declaração de impostos e ver que se calhar ainda devem dinheiro, porque as despesas de saúde, casa ou educação são luxos a que não nos podemos dar, por outro lado se os que trabalham vão continuar a trabalhar mais do que esperado, é normal que quem entre no mercado de trabalho fique á porta, talvez eternamente? Ainda por outro lado o país vai continuar a envelhecer, porque é normal que ninguém se arrisque a ter filhos para lançar a esta barbárie, de qualquer das maneiras já se fecharam escolas e maternidades a contar com isso, não foi? Bom mas ainda assim a malta quer acreditar que isto vai melhorar, porque quanto mais não seja não se consegue imaginar pior, mas o pior é que se consegue…
Um dia destes um dos meus filhos informou-me: Sabes o que o Japão está a fazer para combater a crise? Não filho, diz lá! Decidiram sobre taxar todas as importações de produtos que se produzem internamente e aumentar os salários, assim dinamizam a economia, o dinheiro circula, as pessoas consomem!
Por isso estou a pensar seriamente: se importamos jogadores de futebol, treinadores, seleccionadores, apresentadores de televisão, corredores de fundo, porque não um ministro da economia e finanças?

domingo, 21 de março de 2010

Outras Medidas


Alturas estranhas em que de tanto pensar, mexer, fazer, sinto-me estranhamente vazia, estar parada dois meses foi um tormento, voltei ao meu ritmo mais ou menos inebriante com uma volta num carrossel demasiado rápido, não existem sábados nem domingos, apenas dias, com mais ou menos coisas penduradas nos riscos da agenda e do relógio, coisas escritas de modo indelével outras a com a tinta invisível dos percalços, dos inesperados, das surpresas não planeadas, nos intervalos dedico-me a outras coisas, planos diversos (este ano quero férias a sério, podem ser menos dias, mas melhores), uma exposição (a ver se tiro um tempo só para mim, para escrever a história que se desenha na minha cabeça), as plantas para um jardim, (os girassóis que plantem em vasinhos e coloquei no parapeito da janela da casa de banho ao lado das primulas reguei-os á pouco e as sementes estão todas rebentadas com uma pontinha verde a espreitar entre a terra), as medidas de uma vedação (encho o sofá com uma montanha de roupa interior, as peúgas dos meus bebés estão enormes, deixaram de ter boneco e coisas antiderrapantes, são de homem como os boxers como as camisolas que passo a ferro e estendo) uma distribuição de tarefas (enquanto a carne está apurar num lado e o tamboril no outro, os bolos no forno, descasco legumes para uma sopa, nabo, curgete, alho francês, cenoura, fica adiantado), um cartaz para terminar (estou a gostar deste livro, é diferente, mas estou a gostar desta história passada noutro tempo e noutro lugar), acabar de arrumar números num orçamento (ainda falta pagar mais uma tranche das propinas, tenho de ir ainda ao multibanco, amanhã almoçam os dois na escola, esperei por receber para comprar a camisa que gostava, já não está lá), tenho de fazer uma confirmação por telefone logo de manhã (já não posso ligar a nenhuma das minhas tias para artilhar certas coisas, do livro que li, do filme que vou ver, uma gargalhada cúmplice, um desabafo que só podia ter com elas), tenho de ler aquele decreto com calma (não me apetece de todo ler os decretos e ouvir as noticias, revoltar-me e sentir aquela onda a crescer dentro de mim, acre, surda, que se lixem todos com mais as mentiras que publicam como verdades oficiais) acabei a reunião de domingo, a oficial e a seguinte troca de ideias, vamos ao cinema?

sexta-feira, 19 de março de 2010

DIA DOS TIOS



Eu não tenho pai, ou melhor já não tenho, faz-me muita falta, penso nele todos os dias, por coisas banais, tinha muitas afinidades, mas pronto, já cá não está, partiu cedo demais. Mas tenho tios, tios de qualidade de pai, felizmente, sem ordem especial talvez só para a proximidade tenho o meu tio, o meu tio não era suposto ser tio de ninguém, nasceu filho único, mas casou com a minha tia e de facto ao longo de toda a minha vida tem sido uma presença constante, alguém com quem partilho certas cumplicidades muito próprias, alguém que em múltiplas coisas me tratou como uma filha, travamos certas batalhas juntos, esperamos os dois juntos muitas vezes em corredores hospitalares, bebemos uns copos juntos, a pouco e pouco os meus amigos mais próximos adoptaram-no como tio. Depois tenho três tios, tios mesmo irmãos do meu pai, por isto ou por aquilo não vivemos longe dos outros mas não partilhamos muita intimidade, estupidamente, porque quando o fazemos o reconhecimento é irresistível, traços físicos comuns, traços de personalidade, tiques e gestos e partilha de carinho de forma envergonhada, o mais velho é protector, esconde uma ternura enorme que se desmancha nos abraços fortes e genuínos, o seguinte ficou parado numa espécie de adolescência, pede-me dinheiro e cigarros, mas não deixa de me dar um beijo ternurento, o mais novo é brincalhão, temos relativamente pouca diferença de idade, comunicamos por impulso, trocamos anedotas, também não lida muito bem com a exteriorização dos sentimentos, eu percebo, eu faço o mesmo. Este ano no Natal teve a lembrança de reproduzir uma foto histórica, ele bebé ao colo do meu avô, a mãe deles e meu tio do meio de um lado, o meu pai adolescente, o meu tio mais velho com os seus caracóis e o sorriso igual ao do neto, a irmão mais velha, a tia que me resta no esplendor da sua beleza, ao lado, reproduziu a foto emoldurou, ofereceu, a mim, á minha irmã, ao irmão, estão pendurados na parede do meu quarto, velam pelo meu sono, quando acordo olham para mim, estão na parede entre fotos de crianças, os meus filhos, os meus primos, os meus pais, o meu sobrinho, em sorrisos de bebé. Por último outro tio emprestado, está no outro lado do oceano, têm sobrinhas dele, não tem grandes ligações com elas, mas conseguimos estabelecer um laço fraterno numa viagem agridoce que fiz até ao outro lado mar, vai fazer cinco anos, que serviu para me despedir de uma das minhas fantásticas tias, mulher dele, nessa viajem fizemos caixinha, partilhamos vista e pontos de vista e questões literárias.
Não tenho pai, tenho o pai dos meus filhos que partilha o dia a dia comigo, tenho cinco maravilhosos homens a quem posso pedir um colo paternal.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Coisas sem importância




Ando a prestar muita atenção a coisas sem importância nenhuma, não sei se é o meu espírito mais aéreo que o costume se é esforço para não pensar em coisas tristes, para aquietar inquietações, umas imediatas, outras a mais distância, se é esta tendência para pensar em coisas sem importância nenhuma, como a forma dos raios de sol a entrar pela janela, uma flor que nasce num meio de um baldio, a minha aversão aos protocolos, a cirurgia que decorre no corpo de alguém que importa, a árvore que vou plantar com meninos pequeninos, de manhã, antes de uma reunião regular e de outra mais formal quase de seguida, antes de noite de amanhã que é ocupada e da noite de hoje que também, já coloquei a caixa mágica ligada á tv para gravar coisas que gosto de ver mas que vão ficar, se calhar acumuladas num cantinho á espera que eu espreite as minhas gravações, que no fundo não têm importância nenhuma porque são essas benesses da tecnologia, outra das benesses da tecnologia é conseguir nos intervalos de coisas procurar uma música que toca dentro da minha cabeça, falar com um dos meus primos separados de mim por oceanos, procurar rever um pedacito de um filme que gosto, falar com um amigo que não encontro as vezes que gostava, mas pronto são coisas sem importância nenhuma, até há quem me acuse de só escrever coisas sem importância nenhuma neste espaço, talvez tenham razão, mas das coisas sem importância nenhuma hoje consegui olhar para o formato das nuvens antes do sol dizer até amanhã, consegui baralhar o que está escrito pela minha mão na agenda, consegui parar um pouco para as coisas sem importância nenhuma e para ouvir uma canção, daquelas quase esquecidas, quase sem importância nenhuma, reguei os tais vasinhos, jardins insignificantes, conheci um rosto de alguém de dois anos de idade que nunca conheceu outro local sem ser a enfermaria hospitalar, que de vez em quando fala ao telefone comigo, numa voz maviosa a enviar-me beijos a repetir “adoro-te”, no seu tom infantil, quase sem importância, sem importância será este acto de descarregar este sumário de coisas inúteis e insignificantes antes de me dedicar a coisas, aparentemente, mais importantes.


segunda-feira, 15 de março de 2010

Sabor a mi


No rádio do carro ao meu lado toca baixinho uma música antiga, um bocadinho foleira, um tango de vozes tipo mariachi
Tanto tiempo disfrutamos este amor
Nuestras almas se acercaron tanto asi,

Que yo guardo tu sabor
Pero tu llevas tambien sabor a mi

Sorrio e lembro-me daquilo tocar num rádio de baquelite, verde-claro, em cima de uma mesa que tinha a forma de uma paleta, um rádio de botões grandes…
Si negaras mi presencia en tu vivir
Bastaria con abrazarte y conversar
Tanta vida yo te di
Que por fuerza tienes ya sabor a mi
No pretendo ser tu dueno
No soy nada yo no tengo vanidad
De mi vida doy lo bueno
Yo tan pobre que otra cosa puedo dar

O rádio aquecia primeiro e enviava sons de estática, antes de começar a dar um som perceptível, a minha avó cantarolava, pondo ênfase em certas palavras, noutras fazendo o som mais parecido, eu comia cerejas lavadas na minha malga com um burrinho no fundo

Yo tan pobre que otra cosa puedo dar
Pasaran mas de mil anos muchos mas
Yo no se si tenga amor la eternidad
Pero alla tal como aqui

En la boca llevaras sabor a mi

No pretendo ser tu dueno
No soy nada yo no tengo vanidad
De mi vida doy lo bueno

Yo tan pobre que otra cosa puedo dar
Já passou tanto tempo, o rádio na mesa baixa tinha a minha altura, sentava-me num sofá de napa e os pés ficavam pouco à frente do assento, pendurados, as sandálias de furinhos e presilhas, os soquetes brancos, enquanto escutava aquelas vozes melosas, sem perceber nada. Não é que perceba agora, não percebo estes amores eternos, absolutos e trágicos, percebo o amor ao rádio verde, o sol ainda bate no carro e eu fecho os olhos durante um bocadinho enquanto ainda ouço a minha avó
Pasaran mas de mil anos muchos mas
Yo no se si tenga amor la eternidad

Pero alla tal como aqui
En la boca llevaras sabor a mi
Sabor a mi
Sabor a mi

Sabor a mi

sábado, 13 de março de 2010

Jardim fingido



No outro dia, segundo um dos membros da equipa que se estreou nestas coisas, fui comprar paus, por paus entenda-se árvores para plantar, neste caso, uma tília, para repor numa caldeira onde o vizinho banco de jardim e mesa de jogos abriga um grupo de velhotes, desculpem cidadãos seniores, na aconchegante sombra de uma árvore, acontece que os últimos vendavais arrancaram a fornecedora de sombra, os tais cidadãos pediram encarecidamente a recolocação de uma árvore e falaram com olhos gulosos numa tília. Pois sim senhores, a tília não tem raízes invasivas, é suficientemente resistente, têm um preço que podemos comportar, vamos aproveitar e levar os meninos do jardim de infância a plantar a árvore, será assim uma ligação geracional, ainda por cima perfumada, com a vantagem da sua folhagem servir de chá calmante, que a população bem precisa, mas com calma, por enquanto a tília é um pau comprido com rebentos e mesmo quando der folha, não convém retirar toda, voltando ao principio existem pessoas que enlouquecem em perfumarias, em lojas de roupa, bijutarias ou lojas de lingerie, eu é mais livrarias e viveiros de plantas, decididamente passo-me dos carretos, e é claro que assim foi, existe em mim um apelo agrícola de menina da cidade, onde já nem geneticamente reconheço raízes rurais, só se recuar mais de quatro gerações, a minha família nas gerações anteriores é composta por gente da cidade, das vilas, de qualquer forma urbana, burgueses…Eu continuo a sonhar com um pedacito de terra onde possa semear qualquer coisa, uma laranjeira e um limoeiro, um gamboeiro de se existir espaço, canteiros de cheiros, uns legumes e flores, assim comprei um vaso já com o pacote de sementes de alfazema, terra e substrato, mais um conjunto de três mini vasinhos, com terra prensada que é só hidratar e três tipos de sementes de girassóis de jardim e dois vasos com plantas em flor, primulas, aninhadas em folhas rugosas como a hortelã, aninham flores como as dos meus desenhos infantis ou menos infantis, porque a meio de reuniões desenho na orla do papel flores, a dificuldade foi escolher a cor, acabei por optar por umas tom ciclame e outras brancas raiadas de amarelo estival, esperava as bocas de costume “onde é que esta mulher acha que tem tempo para as flores?”, mas apesar de tudo este meu desejo de plantar e fazer crescer não foi escarnecido, antes pelo contrário, verifiquei que os vasos das minhas primulas foram enriquecidos com taça por baixo de cada um, com água, assim florindo os meus dias, amanhã planto os outros…