segunda-feira, 15 de março de 2010

Sabor a mi


No rádio do carro ao meu lado toca baixinho uma música antiga, um bocadinho foleira, um tango de vozes tipo mariachi
Tanto tiempo disfrutamos este amor
Nuestras almas se acercaron tanto asi,

Que yo guardo tu sabor
Pero tu llevas tambien sabor a mi

Sorrio e lembro-me daquilo tocar num rádio de baquelite, verde-claro, em cima de uma mesa que tinha a forma de uma paleta, um rádio de botões grandes…
Si negaras mi presencia en tu vivir
Bastaria con abrazarte y conversar
Tanta vida yo te di
Que por fuerza tienes ya sabor a mi
No pretendo ser tu dueno
No soy nada yo no tengo vanidad
De mi vida doy lo bueno
Yo tan pobre que otra cosa puedo dar

O rádio aquecia primeiro e enviava sons de estática, antes de começar a dar um som perceptível, a minha avó cantarolava, pondo ênfase em certas palavras, noutras fazendo o som mais parecido, eu comia cerejas lavadas na minha malga com um burrinho no fundo

Yo tan pobre que otra cosa puedo dar
Pasaran mas de mil anos muchos mas
Yo no se si tenga amor la eternidad
Pero alla tal como aqui

En la boca llevaras sabor a mi

No pretendo ser tu dueno
No soy nada yo no tengo vanidad
De mi vida doy lo bueno

Yo tan pobre que otra cosa puedo dar
Já passou tanto tempo, o rádio na mesa baixa tinha a minha altura, sentava-me num sofá de napa e os pés ficavam pouco à frente do assento, pendurados, as sandálias de furinhos e presilhas, os soquetes brancos, enquanto escutava aquelas vozes melosas, sem perceber nada. Não é que perceba agora, não percebo estes amores eternos, absolutos e trágicos, percebo o amor ao rádio verde, o sol ainda bate no carro e eu fecho os olhos durante um bocadinho enquanto ainda ouço a minha avó
Pasaran mas de mil anos muchos mas
Yo no se si tenga amor la eternidad

Pero alla tal como aqui
En la boca llevaras sabor a mi
Sabor a mi
Sabor a mi

Sabor a mi

8 comentários:

salvoconduto disse...

Garanto que dancei algumas vezes ao som dela. A menina dança?

Abreijos.

Zorze disse...

Ana,

Memórias saborosas e frutadas!

Beijos,
Zorze

Mar Arável disse...

Os rádios antigos

cantam baixinho

Ana disse...

Ana,
Lembras-teda tua avó ouvir as vozes melosas das radionovelas, à hora do almoço, nesses rádios? a simplesmeste Maria? Fiquei traumatizada!! Nem um ai podia dizer!!

maria disse...

que belo poema :)
e que recuerdos...
bolas... isto arrumou-me...

Tanto tiempo disfrutamos este amor
Nuestras almas se acercaron tanto asi,



pois...

duarte disse...

ficam essas memórias, com cheiros, sabores, imagens com cores que pintamos nos cadernos do presente...para nunca esquecermos.
abraço do vale

Ana Camarra disse...

Salvo

Estou coxinha, mas danço sim senhor!

Zorze

Destas guardo.

Mar Arável

Ainda bem que tocam assim.

Ana

O simplesmente Maria era uma coisa muito especial, mas o rádio tocava todo o dia...

Maria

não te arrumes, por favor!

duarte

Existem coisas de que me vou lembrar para sempre, acho eu...

Beijos

Fernando Samuel disse...

Tudo é sempre uma questão de sabores...

Um beijo.