quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Madalena


A Tia Madalena têm oitenta e tantos anos, é a única de um lote alargado de irmãos, era a mais nova também, seca, magra, solteirona, um bocadinho azeda e com um humor mordaz, acabou por sempre mimada pelos irmãos, sendo a mais pequena de uma família fora do comum, o pai homem de grande capacidade intelectual teve o arrojo de fugir com a sua apaixonada, menina filha de Morgado com brasão e tudo, herdades e palacete, um bocadinho arruinado com farras e amantes, mas Morgado, que viu a única filha fugir durante a noite levando uma muda de roupa atracada a um anarco sindicalista.
Depois acabou por perdoar, por essa época os filhos eram vários, não sei precisar quantos, conheci cinco, sei que eram mais, também já era comunista, acabou por ir parar a Cabo Verde, sete anos de trabalhos forçados a construir a prisão do Tarrafal, outros sete no degredo a trabalhar para a Administração Colonial. Nesses últimos sete anos deu-se ao luxo de escrever várias vezes ao Governo reclamando da falta de condições e das injustiças cometidas pela a Administração contra a população negra….
A Madalena tinha quatro anos quando o pai partiu e dezoito quando ele retornou, retirando-lhe o titulo de mais nova, porque trouxe mais dois filhos, mulatos, com ele.
A mulher recebeu-o assim como aquelas crianças, não se queixou dos dezoito anos em que sobreviveu a fazer rendas e bordados e sobreviverem também do trabalho dos filhos a quem não foi dado o espaço de serem meninos.
A Madalena cresceu assim entre insuficiências, a protecção dos irmãos, a espera de um pai mitológico, brasões e rendas, uma mãe sempre de aspecto sereno, a protecção dos irmãos garantiu-lhe ao longo de toda a vida uma vivência acima das suas possibilidades, nunca lhe faltou nada, manteve-se solteira por opção, acho eu, dedicou-se a rendas e bordados e a cães e gatos, viveu com a irmã mais velha, na casa contigua a outra irmã, até que ficou só ela.
Deixou de fumar aos sessenta, voltou a fumar há meia dúzia de anos argumentando “sempre é uma companhia…”, quando lhe respondi “Ó tia eu fumo e nunca falei com os cigarros!” deitou-me um olhar gelado que me fez sentir com quatro anos de idade e remeteu-me á minha insignificância.
Está num lar, a cada visita pergunta quando é que a mãe a vai buscar, se os irmãos estão no trabalho, refila com os outros idosos, para se endireitarem, inclusive ralha veementemente com outra utente, com pé boto, para que endireite os pés, fuma cigarros na janela e critica as roupas das funcionárias, na sua cabeça o pai está em Cabo Verde, os irmãos estão a aprender um oficio, a mãe acaba mais uma toalha ou jogo de lençóis, ela espera que se juntem todos.

7 comentários:

Diogo disse...

Um fim (aparentemente) sem sofrimento, num mundo de ilusão. Eu talvez preferisse uma coisa fulminante.

Beijo.

Mar Arável disse...

Há muitas formas de viver

também as memórias

e ser feliz

Akhen disse...

Há muita coisa que nos leva a viver um tempo e uma vida que já foi vivida num tempo que já foi o tempo do presente.
Fica dentro da mente e volta a viver-se outra vez e nesse viver o tempo é o passado vivido no presente.
Ana, parece um paradoxo.
Mas um sobrinho meu morreu bastante novo. Tinhamos pouca diferença de idade. Para a minha irmã (a minha segunda mãe), eu tão depressa era o irmão/filho, como era o seu filho.
Ou era eu que tinha morrido e estavam a esconder-lhe tal facto, ou o filho que estava junto dela, à espera do que veio a acontecer.
Ficarem os dois juntos.
A mente humana, muitas vezes, demora a aceitar a realidade.
A Tia Madalena está a viver o seu passado, no seu tempo presente.

Akhen disse...

Ana,
Eu coloquei no blog uma coisa que escrevi quando do problema da minha irmã. Vai lá e vê.

Boas Férias...com muito sol.

mugabe disse...

Olha, eu tenho algum medo de algum dia acabar assim !!!

Abraço!

Fernando Samuel disse...

E assim é feliz...

Um beijo.

Ana Camarra disse...

Diogo

Para quem a conheceu lúcida é um sofrimento, um dos sobrinhos sai a correr de lágrima no olho.
Eu também a escolher era uma coisita assim fulminante!


Mar Aravél

Espero que sim, que pelo menos ela seja feliz com as suas memórias.


Akhen

Vi e deixei lá a minha opinião.

Mugabe

Eu também!

Fernando Samuel

Espero que sim, espero que sim.

Beijos