segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Gabardina


O meu avô materno tinha uma gabardina, acompanhou-o toda a vida de adulto, era uma gabardina inglesa comprada numa alfaiataria da Baixa.
O meu avô era um homem calmo, organizado, meticuloso, até picuinhas, ao que contam.
Era um ferroviário, transformando em pequeno comerciante, o que consta na documentação é industrial de panificação, para vender o pão fazia o contrapeso com pão do dia ao contrário da maioria que colmatava as gramas a menos em cada pão com uma fatia de pão duro, em casa consumia-se pão duro, dos roubos sofridos constam papo-secos roubados pela minha mãe e tias que desejavam comer pão fresco, tenho um relógio de bolso, de alpaca, com mostrador de esmalte que foi achado na porta da padaria e que esteve duas décadas pendurado na parede.
O meu avô tinha uma gabardine e apesar de ser padeiro, apesar de ter colocado as filhas a estudar, apesar de nunca ter existido fome lá em casa, havia frio e aquela gabardina tinha múltiplas funções, servia para ele vestir nos dias de inverno e de coberta das filhas na noite….

6 comentários:

Diogo disse...

Os tempos eram difíceis.

Mas a tecnologia, entretanto, evoluiu exponencialmente. Há cada vez menos coisas que a tecnologia não saiba fazer sozinha. Nunca, na história, houve tanta capacidade de produção como hoje. E, paradoxalmente, há cada vez mais gente a viver pior. A geração dos trinta anos para baixo parece amaldiçoada. Com curso ou sem curso não arranjam emprego em lado nenhum ou, quando arranjam, é a ganhar uma merda e a prazo. Isto exige uma revolução de cima a baixo. E não é preciso muito sangue. Basta o das sanguessugas da finança, dos monopólios e da corja da política. Meia dúzia de quilolitros, se tanto!

Beijo

Cidadão do Mundo disse...

Boa estória ou será história ?? lembro-me logo de quando vim de Angola da guerra colonial no mês de Novembro, habituado ao calor, fazia frio em Lisboa e a minha mãe ofereceu-me uma gabardine, comprou-a numa loja muito conhecida (não me lembro agora do nome )na rua Augusta. Tinha forro, dava para a chuva e para o frio, usei-a durante 20 anos.

Abraço!

salvoconduto disse...

Tive uma com corte igual, embora a maior parte do tempo andasse com sobretudo, o frio em norte era mais intenso. Gabardina só mesmo para os dias de chuva e mesmo assim pensava duas vezes.

Por falares no pão, sentia um prazer enorme visitar as padarias de antigamente, de madrugada, após alguma noitada e alí comer o pão acabado de sair do forno com manteiga que alguém, previdente, se encarregava de levar.

Abreijos

PS. Não sei porquê olhei para o relógio e deu-me uma vontade de ir a uma dessas padarias. Lá terei que fazer umas torradas...

Ana Camarra disse...

Diogo

Os tempos era dificeis, hoje não são faceis, poderiam ser pelo menos menos dificeis.
Tens razão com a tecnologia, já sabes que concordo totalmente que a tecnologia devia de ser utilizada para facilitar a vida em todas as suas vertentes, mas não...

Cidadão

Ainda esta semana a minha mãe me falou nisso...

Salvo

Uma torrada não se compara com pão fresco (quente) e que dizes do pãozito assim a sair do forno com manteiga e um café dos tais? Uhm?

Beijos

Fernando Samuel disse...

Esse avô, creio que nunca tinhas falado dele...

Um beijo.

Zorze disse...

Ana,

Não conhecia essa história. Fazem parte da mesologia pessoal de cada um. Vivências reais que se bem interpretadas nos ensinam e dão-nos experiência para outras futuras com intervenientes diferentes.

Àparte da história e mencionando apenas o título. Com este calor desesperante é que te foste de lembrar de gabardines.
Queres torturar o pessoal?

Beijos,
Zorze