quarta-feira, 15 de abril de 2009

Dos amores impossíveis concretizados




Existem lendas familiares que se vão diluindo no tempo.
Dos amores impossíveis na família falo de um, hoje.
Os meus tios avós, Maria e Manuel, podemos chamar-lhes assim.
Ela era a irmã mais velha do meu avô materno, alta, grande, pele branca e nariz fininho, acho que a minha mãe é a pessoa mais parecida com ela.
Educada numa família tradicional, cheia de preconceitos, regras e afins, o que deve ter tido um efeito contrário, porque ela rebelou-se, o irmão (meu avô) acaba por ser um homem muito avançado para a época e a irmã mais nova foi a tal que aos setenta se divorciou de um homem vinte anos mais novo.
A minha tia era adolescente quando o cunhado do pai morreu deixando viúva e órfãos.
Dos órfãos ficou o primo Manuel, que foi acolhido na casa do tio e criado com filho em pé de igualdade com os primos.
O que não estaria previsto pelo meu bisavô era o sobrinho e a filha apaixonarem-se, pior concretizarem essa paixão.
Estamos a falar do final dos anos vinte do século passado.
A minha tia ficou grávida do primo, um escândalo!
O pai acabou por lhes dar um terreno, uma casa, nunca mais falou ou quis ver o sobrinho, que passou a genro.
Eles tiveram muitos filhos, não sei se viveram felizes para sempre, acho que não, basta dizer que só quatro filhos sobreviveram e foram muitos mais.
Acho que viveram como todos os casais, condicionados por múltiplas situações.
Lembro-me vagamente dele já afectado com uma trombose, lembro-me bem dela e do beijo diário que lhe dava ao passar pela sua janela, do quintal imenso, da cama de ferro deles, que acabou por ser a minha primeira cama de casal, do cheiro da casa, das paredes em gesso pintado a imitar mármore, da marmelada a secar em tabuleiros de esmalte.
Foi assim que eu tive um tio que era primo.

5 comentários:

mugabe disse...

Ana,...volta que estás perdoada...ahahahahahahah

Gostei de mais essa tua história familiar que daria um bom filme.

Abraço!

samuel disse...

Felizmente, a "loucura" é uma bênção que tem tocado muitos milhões, de geração em geração. Sem ela apenas haveria "vidinha"...

Abreijos

Fernando Samuel disse...

O amor é cego e surdo - felizmente não é mudo...

Um beijo.

Ana Camarra disse...

Mugabe- Eu estou sempre no mesmo sitio!

Samuel-Cá na famelga nem salta de geração em geração, acho que se refina!

Fernando Samuel-Nem sei se é surdo, cego? Tem dias...

Beijos

Zorze disse...

São vidas que se vivem e assim é há milhares de anos.

O tio com o primo que tinha um bisavô que era irmão do cunhado da mãe que tinha um genro casado com a madrasta da nora do vizinho meio-irmão da prima avó do sobrinho...

Beijos,
Zorze