Vice Versa


E existe ainda assim um recôndito doce e secreto que guardo só para mim.
Um plano secreto como um jardim fechado onde me encanto com o desabrochar das flores, as cores das libelinhas, os cheiros do mundo, o toque de uma pele de bebé, murmúrios aquáticos e cheiros de maresia.
Aí e só aí, respiro de outra forma, vejo tudo sem a aflição da areia que corre de um lado para o outro da ampulheta.
Espanto-me com as cores!
É confortável como um casaco de malha velho, já com o formato do nosso corpo.
Aí não existem compromissos, relógios de pulso, comunicações rápidas.
Aí e só aí, fico assim suspensa entre ser mulher e menina.
Não me inquietam as esperas, não me inquietam as nuvens ou as sombras.
Todos os dias tento construir mais um pouco desse espaço, enorme e minúsculo.
E vou construindo através da voz doce de um amigo, de um enroscar confortável, de olhar fugazmente para o rio e vê-lo assim com barquinhos de brincar, flamingos inesperados, gaivotas habituais, pinceladas de luz sobre as aguas, uma música que ouço fugazmente, apesar de saber que o céu é azul porque reflecte a água e a água é azul porque reflecte o céu, eu acho que sou assim porque no fundo me reflicto nestas pequenas coisas.

Comentários

Anónimo disse…
Ana

Gostava de fazer parte desse lugar secreto.

beijo

kl
korrosiva disse…
A falta que nos faz um lugar assim..
Infelimente nos ultimos tempos, tenho falta de tempo para ter tempo para mim :(

beijinho
Fernando Samuel disse…
Aí está (mais) um belíssimo texto!


Um beijo.
poesianopopular disse…
Ana
Quando penso nestas coisas que tu pensas, penso :-como tudo poderia ser diferente , se diferente não fosse esta politica de rapina.
Bjos camarada.
Zorze disse…
Ana,

Continua a construir o teu refúgio e guarda a chave. Por vezes precisamos de um refúgio, principalmente, quando olhamos para todos os lados e não vemos ajuda de lado nenhum.
Às vezes basta lá ir alguns segundos. Como o tempo é diferente entre dimensões uns segundos numa dimensão pode significar longos minutos noutra.
E como os tempos de hoje andam "frios" um bom refúgio é sempre bom para aquecer.

Beijos,
Zorze
Diogo disse…
Todos precisamos de um pequeno paraíso para manter a sanidade mental num mundo cada vez mais enlouquecido.

Esta música do Tom Waits é belíssima.

Beijo
Conde disse…
Eu tambem tenho o meu canto assim...puro.
duarte disse…
como o quadro é belo,repleto das cores escolhidas pelo pincel que a nossa mão segura...
ser mulher-menina é bom,continua a sê-lo...pinta a realidade com a cor dos teus sonhos...
obrigado e abraços do vale
PAULO LONTRO disse…
Pergunta puramente académica; Poderemos encontar esse tipo de espaço, nosso e especial, dentro de outra pessoa (ou em outra pessoa) ?
Sunshine disse…
Um porto de abrigo, só meu, é assim o meu refúgio interior, com todas as cores, os sons, as texturas, cheiros e sabores, um porto de paz ... para recuperar.

Bonito o teu :)

Bjs
Ana Camarra disse…
Kl-Talvez faças!

Korrosiva-Também eu por isso agarro assim momentos fugazes.

Fernando Samuel-Sempre a considerar-me!

José-Mas enquanto apesar das aves de rapina, pensarmos alguns assim, podemos fazer disto um sítio melhor.

Zorze-Se não tiver este refúgio, estou desgraçada!

Diogo-Faz mesmo muita falta. Adoro Tom Waits.

M-é assim…

Conde-Ainda bem que o tens.

Paulo-Resposta académica, acho que sim! Quando conseguimos descobrir uma pessoa com quem nos sintamos tão confortáveis como connosco, isto nada tem a ver com relações amorosas, mas alguém que nos leia e que nós consigamos ler, sem artifícios, sem esforço, que nem seja preciso muita conversa, só assim estar.

Sun-É essencial.

Beijos
Ana Camarra disse…
Duarte

Faço por isso e por pintar o quadro assim.

Uma beijo para o Vale
SENSEI disse…
Todos temos de ter um refúgio!...
Caso contrário, estamos de tal modo expostos, que deixamos de ser nós próprios!

Eu gosto de me sentar à beira mar, fechar os olhos e respirar o ar, ouvir o marulhar das ondas, os sons distantes das gaivotas, respiro fundo e, passado pouco tempo, levito, a minha mente liberta-se, viaja, uma viajem só minha, é o meu estado Zen.
Ou então, quando o frio aperta, sento-me confortavelmente no sofá, escuto Mozart (Requiem é fabuloso), ou Carl Orff (Carmina Burana - Fortuna), ou Beethoven (Pastoral), ou Bach (Concertos Brandenburgueses ), ou Tchaikovsky (A sagração da Primavera), outros tantos, fecho os olhos, coloco o som DTS 5.1 e vivo num espaço só meu.

Xôxos

Ouss
Ana Camarra disse…
Sensei

Precisamos todos desse espaço exclusivo.

beijos