Hoje arrancaram-me um pedaço



Hoje arrancaram-me um pedaço, um pedaço de memória.
Sinto-me sempre assim quando morre alguém que me é querido, alguém por quem nutro um carinho especial.
Mesmo que seja como hoje, alguém doente, alguém com uma longa vida já.
Hoje quem partiu, levou consigo uma vida rica de experiências, de ternuras, de amor e de amigos.
Olhando para ela não se dizia, pequena, franzina, não me lembro já quando começou a ser ela a ter de se esticar para me beijar.
Amou um homem apaixonadamente, um homem fascinante aliás, com quem convivi de perto sendo ele já velhote, que surpreendia pela lucidez, pela capacidade de apreensão do mundo, pela vontade de aprender e matraquear num computador mesmo tendo passado dos 80.
Viveram um amor estranho e invulgar, ela já tinha sido casada, numa época em que uma mulher separada e com um filho era uma vergonha, ele tinha abraçado uma causa para a vida.
A causa, naquela altura incluía a eventualidade de uma vida clandestina, a eventualidade de uma prisão politica, temperada com torturas.
Não importou, lutaram juntos, amaram-se com um exemplo profundo de dignidade, de respeito mútuo, viveram juntos as mudanças, a liberdade, outras vivências.
Ele morreu há uns anos, naquele dia também perdi um pedaço.
Hoje morreu ela…

Comentários

Anónimo disse…
Ana

Por acaso acabei por saber por ti,indirectamente, também me falta um pedaço, é bonita a forma como descreves o amor deles.
Acho que temos um projecto para trabalhar, não sei como terás tempo...

um beijo

kl
Anónimo disse…
Ana

Por acaso acabei por saber por ti,indirectamente, também me falta um pedaço, é bonita a forma como descreves o amor deles.
Acho que temos um projecto para trabalhar, não sei como terás tempo...

um beijo

kl
duarte disse…
vai-se o corpo,fica a alma que ecoa e ecoará dentro de nós...até que passaremos a ser ,nós também ,um eco ...
não perdeste um pedaço de ti,porque esse estará sempre presente nos teus pensamentos,sonhos e outros actos da mente...
a ausencia física doi,é verdade...
mas sempre houve presença...
e isso,sim,é que é... e perdura...
duartenovale com abraços
Anónimo disse…
hoje e sempre eles estão presentes,
pelos amanhãs que cantam.

mais 1 beijo,
pedro (o teu menino)
salvoconduto disse…
Não fiques triste, respeita-lhe a memória pelo quanto fez e lembra-te que algures hoje nasceu uma semente...
PDuarte disse…
gosto mais de vir aqui comentar a alegria.
mas isto também é vida.
um grande beijo.
(hoje um pouco maior)
Diogo disse…
A morte é o regresso ao grande nada Não há tempo nem espaço, não há alegria nem tristeza, não há beleza nem fealdade, não há amor nem ódio. Apenas o eterno nada.

E é um regresso: todos nós já estivemos «mortos» durante toda a eternidade passada. Eu estava «morto» em 1950, em 1900, no ano tempo do D. Afonso Henriques, no tempo de Ramsés, no começo do neolítico, no princípio da vida na Terra, na formação da galáxia... A morte futura é igual à morte passada = nada.

O que não significa que os que cá ficam não sintam a dor da perda.

Beijo
Ana Camarra disse…
KL-Era invulgar...o projecto logo se vê.

duarte-Como digo não era nova, estava doente, mas sei que vou estar á espera de a encontrar como habitualmente.

Pedrinho, meu menino-Pelos amanhãs que cantam...

Salvoconduto-Respeito-lhe imenso a memória.

pduarte-Também é vida!

Diogo-Eu que pensava que eu baralhador mor era o Zorze...agora sais-te com essas! Talvez seja como dizes.

beijos
Zorze disse…
Aninhas,

Por muito que te custe, a realidade é que todos nós vamos morrer. Sem querer chocar, e daí?

Não te arrancaram um pedaço, ficaste foi com uma memória.

A consciência que referes já está na dimensão extrafísica.

Eu tenho sentido umas dores no peito na zona do coração. Se calhar, eu também me vou proximamente.

Ana, isto já é assim à milhares de anos.

Também já me habituei a velórios. É normal.

Beijos,
Zorze
Maria disse…
Deixo-te um abraço...
Ludo Rex disse…
A vida vai e vem, é esta a sua condição.
Um beijo e força.
Fernando Samuel disse…
Só agora soube... e estou triste, muito triste.

Um beijo grande.
Capitão Merda disse…
Lamento, Ana!
As coisas são mesmo assim...
São os pedaços de que somos feitos...!
às vezes mudam de lugar e nós estranhamos!

Um beijo grande
San disse…
também sinto isso quando alguém vai de vez. partes de mim foram com eles. e isso também me vai afeiçoando. o tempo ajuda a perceber isso, torna a falta menos áspera. :)
José Gil disse…
Ana os meu sinceros pesames.

"Always look on the bright side of life"

Um beijo
Menina Idalina disse…
Viverá através da tua memória e do teu lado esquerdo do peito .

Um Bj
Diogo disse…
Ana, uma vida é apenas um momento agridoce na história do Universo. Uma vida é uma determinada combinação de átomos durante um certo período. Depois essa combinação desfaz-se.

Beijo
Lúcia disse…
Forte abraço, Ana.
Não sei conviver coma perda. Ainda não sei. Talvez um dia...

Beijinho