sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A boleia



O meu pai era um homem irreverente e com um sentido de humor único.
Como tal rodeava-se de amigos que se ajustavam a essas características.
Ainda hoje tenho familiaridades com sexagenários e septuagenários são explicadas pela invulgaridade, descontracção e proximidade com eles.
As histórias da Juventude deles são múltiplas, algumas davam bons filmes, sempre as escutamos em convívios, picnics, festas de aniversário, passagens de ano.
Hoje conto uma das minhas favoritas.
A praia favorita era a Arrábida, aliás eu fui feita na Arrábida, mas é claro que nos anos sessenta do século passado nem existiam tantos automóveis, nem transportes colectivos.
Por isso a ida à Arrábida era feita de múltiplas etapas de camioneta, percursos a pé e até boleias em carroças.
Lá foi o meu pai com o seu amigo G. homem inesperado, feio, baixo, com um sentido de humor desconcertante.
Na volta, o percurso era a pé até aos Casais da Serra, uma estafa.
Até que se vislumbra um raro automóvel, automaticamente esticam o polegar, ao aproximar da viatura reparam que o condutor era um Barreirense, pedante, que não suportavam, com suspeita de ser informador da PIDE.
O meu pai exclama “Porra e agora?!”
G. responde, “Deixa estar que eu trato de disso!”
O carro pára, sorridente o condutor pergunta “Precisam de boleia?”
G. pergunta com um ar altivo “Tem rádio?”
O Condutor responde “Não”
Com um gesto altivo G. responde:
“ENTÃO SIGA!”

11 comentários:

Zorze disse...

Ana,

Os mais velhos são a escola da vida. Têm licenciaturas e pós-graduações em experiências.

Achei a foto muito interessante!

Beijos,
Zorze

salvoconduto disse...

Sabes como se chamavam os automóveis que a tua foto retrata? "Ora bolas", era assim que se chamavam, quando se viam pela frente pareciam um mimo, logo que se via a traseira: ora bolas, feio feio aquele entalhe inclinado. Já a praia da Arrábida me deixou boas recordações de alguns momentos que lá passei com gente amiga, que ainda por lá andam e que o telefone nos aproxima.

Abreijo

Eric Blair disse...

nessa época fartei-me de apanhar boleias para a escola de um boca-de-sapo de um vizinho simpático, bem vestido e bem falante, que trabalhava no ministério. Era na pide que o gajo trabalhava, soubemos depois do 25 de Abril...

José Espremido Até Ao Tutano disse...

Apesar de ser um puto de 9 anos, lembra-me quando se soube em 1974 que o visinho da frente, onde ia brincar era informador da pide.
Acho que todos teriam um visinho assim...

duarte disse...

não tinha radio...eheheh...siga!
abraços do vale.

Fernando Samuel disse...

Espantosa história, essa!



Um beijo.

Eric Blair disse...

o meu vizinho não era informador, era mesmo pide, o filho da puta (pode-se dizer filho da puta, neste blog?)

Ana Camarra disse...

Zorze-Nesta altura tinham 20 e picos. A do carro?

Salvoconduto-Não sabia, a Arrabida é um sitio mágico.

José Espremido-Pois existiam muitos...

Duarte-è uma maravilha.

Fernando Samuel-Eu adorava os Magustos, as passagens de ano, em que se juntavam os amigos do meu pai e contavam centenas destas histórias, espantosas, veridicas e cheias de bom humor.
Retive-as na memória, conto-as aos meus filhos, já agora acho que as posso contar aqui.

Beijos

Ana Camarra disse...

Eric

Tendo em conta o enquadramento, podes e deves, um Agente da PIDE era de certeza...

beijos

Maldonado disse...

Foi uma forma bastante subtil de despachá-lo... Gostei da resposts. :))

Ana Camarra disse...

Maldonado-Ainda hoje o amigo do meu pai dá respostas destas...

Beijos