sábado, 25 de outubro de 2008

Uma senhora!





Parece que uma das minhas trisavós era uma senhora!
Tão senhora que sabendo que o marido mantinha uma amante, um pouco longe de casa, pediu-lhe “que trouxesse a pequena para mais perto, podia-lhe acontecer qualquer coisa de noite, nos pinhais, quando ia de charrete ter com ela…”
Ele tratou prontamente do assunto, trouxe a pequena para uma casa mesmo em frente á “fazenda” da família!
Cumpriu as suas obrigações conjugais com zelo irrepreensível, a senhora e a amante tiveram o mesmo número de filhos, invariavelmente nasciam perto uns dos outros, com poucos dias de diferença, invariavelmente do mesmo sexo, a quem eram dados os mesmos nomes, excepto o apelido maternal.

Excepção feita á minha bisavó, primogénita do lado legitimo, a par tinha um irmão, a quem foi dado o nome do pai.
Então a senhora iniciou uma cruzada para educar aquelas crianças, as suas e da outra, com desvelos, alfabetizar, ensinar a meninas o governo da casa, a bordar, falar mais um idioma que o pai sempre era inglês.
Neste afã contava com apoio e igual empenho da filha mais velha, ainda lhe apareciam mais uns rebentos desgarrados, porque nas gestações dos filhos legítimos e da amante, o senhor do lar deitava mãos e o resto a qualquer moçoila mais desempoeirada que aparecesse no trabalho da fazenda.
Os frutos de mais essas aventuras, eram afilhados da “senhora”.
A “senhora” geria com abnegação o bem-estar do marido, de forma irrepreensível.
Até acatar a decisão suprema do corpo sair de casa da amante e não da sua.
Ficou na família como a Senhora.
As fotos mostram uma mulher irrepreensível, arrumada, penteada, com um olhar vazio.
As Lauras, Deolindas, Henriques, Edmundos, Amélias, todos a duplicar mantiveram esta memória transmitindo-a.
Ainda hoje, já na minha geração, mantemos laços afectivos e de convivência, sempre com o familiar rotulo de primos.
No entanto sempre que insistem para me comportar como uma senhora, lembro-me dela e penso: Livra-te Ana!

24 comentários:

Ludo Rex disse...

Grande testemunho. Kiss e Bom Fim de Semana

SENSEI disse...

O British, era de força!... Devía ter sangue latino em qualquer lugar daquele corpo, (deduz-se qual fosse!), uma vez que nessa altura, o Viagra nem projecto era.

Mas vai lá vai!

Xôxos

Ouss

salvoconduto disse...

Tempos de mentalidades diferentes. Ainda bem que mudámos.

Abreijo

AP disse...

Pois, eu compreendo.
Os valores que foram já não são. Se bem que alguns bem podiam perdurar nos nossos dias!

Maldonado disse...

Bem, grande história, parece uma novela mexicana! :D
Antigamente, quando a clivagem social era maior que agora, situações desse tipo aconteciam com uma certa frequência, embora nunca fossem publicitadas...

Anónimo disse...

Fantástico Texto.
Outros Tempos!
Voltarei outro dia para conversar um pouco
Um abraço da Lagartinha de Alhos Vedros

Ana Camarra disse...

Ludo- Um testemunho real

Sensei-Pelos vistos não precisava de Viagra!

Salvoconduto-Ainda bem, mas ainda tenho gente na minha família que acha que si, que isto é que era!

Ap-destes que falo ainda bem que nenhum perdurou!

Maldonado-A única coisa que posso referir de bom é que teve o bom senso de legitimar todos os filhos.

Lagartinha-Obrigado, por acaso gostava mesmo de falar contigo, fiquei eu e Pedrocas, muito intrigados…

Beijos

mugabe disse...

Bem,...pode não se gostar mas era realmente uma Senhora...

Abraço

Anónimo disse...

Ai Ana, o mistério faz bem ás nossas vidas, não gostas?
O pedrocas, embora seja um menino, já tem idade para saber viver com um ou dois mistérios.
Ouviste falar no mistério da Santìssima Trindade? pois este é mais terreno.
Tens uma admiradora em Alhos Vedros, uma lagartinha que todos os dias lê o que escreves e ouve a música que escolhes.
Abriste-me também a porta para o Cravo de Abril e outros igualmente interessantes.
Adoro música e poesia, gosto de ler e também escrevenho alguma coisa. Tenho guardados alguns contos sobre mulheres, um dia, quem sabe, mostro-te.

Abraços para ti e já agora para o Pedrocas

Lagartinha de Alhos Vedros

Ana Camarra disse...

mugabe - Pois era uma senhora, mas eu antes quero não ser.

Lagartinha-O mistério faz bem, mas se calhar desconfio que nos encontraremos no último fim de semana de Novembro, no Campo Pequeno, será?
È procurares uma Ana, não há muitas, na Delegação do Barreiro, basta dizeres qualquer coisa, podemos rir as duas, vai na volta já nos conhecemos.
Quanto ao Cravo de Abril é um estaminé de muito bom gosto, excelente mesmo.
ainda bem que gostas dos meus escritos, eu cá não aposto muito neles, mas com tanta gente a insistir, já começo a acreditar que não são maus.

Beijos

Anónimo disse...

Até antes disso te encontrarei e sempre me vou rir.
Estou sempre onde é preciso gritar "BASTA" "Mentirosos", bom tudo e de punho erguido!

Vou sair
Tenho uma reunião, para discutir o que é importante discutir

O Abraço da Lagartinha de Alhos Vedros

Carlos Barbosa de Oliveira disse...

Lembro-me de a minha mãe falar dos tempos em que "as mulheres faziam as camas" aos amantes dos maridos. Este seu post, trouxe-me isso à memória. Ainda bem que mudaram os tempos.

utopia das palavras disse...

Serás sempre uma senhora
à tua maneira...
do teu jeito
autentica...

Mais um texto...inyeressante!

beijos
ausenda

Ana Camarra disse...

Lagartinha - Então encontraremo-nos antes...

Carlos-Um favor, trata-me por tu, não me faças uma senhora....


Ausenda-Desde que não seja nos moldes da trisavó Gertrudes..


beijos

Diogo disse...

Cara Ana, é difícil comentar este post. Eram outros mundos. Todos nós temos dificuldade em percebê-los.

samuel disse...

Grande história! De qualquer modo, as grandes histórias nem sempre são para copiar ou seguir...

Abreijos

PDuarte disse...

a senhora de que falas deve ter sofrido a vida inteira.
ainda me lembro de situações dessas serem vividas com normalidade, como se de um acto certo se tratasse.
o mundo mudou e em muita coisa ainda bem.

Ana Camarra disse...

Diogo - Pois temos, pode-se sempre comentar que esta tendencia para o martirio não é genética....felizmente.

Samuel- Pois não são, assim de repente histórias para não copiar, são aos pacotes: Romeu e Julieta, Otelo, Anna Karenina, O Amor em Tempos de Colera, etc...

Pduarte- Pois ainda bem que mudou amigo mas temos que concordar que a minha antepassada também era um bocadinho tótó...

beijos

Conde disse...

Eu tenho tambwem alguma dificuldade em comentar este texto.A primeira coisa que me ocorre é...grande mulher...porque em função da opção dela a familia esteve sempre unida,foi um sacrificio em função de algo superior.Se esta atitude fosse mais utilizada talvez não existissem tantas guerras nem conflitos,porque o que eu vejo é toda a gente a defender o "seu" prato não importa a quem nem a quê.Se essa senhora tivesse defendido a "sua" familia a todo o custo,provavelmente hoje estariam todos separados por guerras terriveis como só as familias conseguem fazer,porque aposto que o Inglês teria tido a mesma atitude.

Ana Camarra disse...

Conde

Imagina, eu sei que é altamente improvavél, em qualquer época, muito menos no sec. XIX, mas se fosse ao contrário, se fosse um homem a partilhar assim a sua mulher, que teria uma familia, mais que paralela, perpendicular, o que acharias?
Que era um grande homem?
Eu até percebo o que queres dizer, mas....

beijos

Conde disse...

Por isso a que eu disse que tinha dificuldade com este assunto.È dificil admitir verdades absolutas,eu gostaria de dizer convictamente que se fosse ao contrario eu acharia que era um grande homem,talvez até maior porque a sociedade penaliza muito mais um em relação ao outro,ainda hoje.A verdade é que se praticam grandes aberrações em nome do que é "meu"do que eu "ganhei".Vou-te contar uma aberração...uma amiga separou-se durante um periodo do marido,durante esse periodo ele fez um filho numa fulana,depois a minha amiga reconciliou-se com o marido,ficou a saber da existencia da menina,esta por sua vez teve leucemia o potencial dador para transplante era a filha de ambos e ela (a minha amiga)proibiu qualquer tentativa de transplante e a menina acabou por morrer.Este é um absurdo que eu não consigo entender e que ninguem nunca me vai fazer perdoar á minha amiga que entretanto passou a pessoa conhecida.Ainda hoje eu não conheço uma sobrinha porque o meu pai antes de conhecêr a minha mãe teve um filho com uma mulher que eu nunca conheci.Entretanto nunca cheguei a privar com o meu irmão mais velho que entretanto morreu e sem saber bem porquê a minha sobrinha não me quer conhecêr,é verdade que esta historia não tem a carga dramática da anterior,mas não tem porque não calhou,porque se fosse para haver feridos e mortos era a mesmissima coisa.

Ana Camarra disse...

Conde

O que me contas são de facto duas aberrações.
Haja o que houver entre adultos as crianças não tem culpa nenhuma.
Da história da minha familia, para além de ainda nos conhecermos e manter-mos uma ligação afectiva, o grande aspecto positivo foi de que as crianças foram tratadas em pé de igualdade.

beijos

Zorze disse...

Li transversalmente. Postas a uma velocidade alarmante.
Não li totalmente, mas, vindo de ti concordo. Concordo de olhos fechados.

Beijos,
Zorze

Ana Camarra disse...

Zorze

não leste, não comentas.
não é?

beijos