sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Uma história simples!


As histórias simples são as melhores!
Não me interessam coisas complicadas, amores impossíveis, acho que todos os amores são possíveis, os heróis míticos, os heróis míticos nem nunca existiram, existem por vezes pessoas que vestem a dignidade como uma segunda pele, exercem-na a toda a hora, nas coisas mais banais, esses são heróis, sem duvida.
Não conheci o meu avô materno, sei que era uma pessoa, calada, com um ar triste, tanto quanto a minha avó era o contrário, a estrela cadente sobre a qual já escrevi.
O meu avô era ainda pálido e louro, tanto como ela era trigueira e morena, era ainda muito culto para a época, desconfio que pelas pequenas coisas que deixou que era um homem muito sensível mas que enterrava a sua sensibilidade nalgum recanto recôndito da alma.
Era preso das convenções, dos horários, rígido.
Ainda assim com rasgos de génio, não baptizou as filhas, fazia questão de lhes dar educação até onde quisessem, desde que tivessem aproveitamento escolar, adorava cinema e teatro, fazia das tripas coração para conseguir ir mensalmente á opera ou a um concerto de música clássica.
Morreu novo, cinquenta e poucos anos, parecia, pelas fotos que tinha 80!
Minado por uma doença longa e incapacitante.
Morreu um ano antes de eu nascer.
Mas a história não é essa.
Isto é só para fazerem uma ideia.
Estamos em Portugal, final dos anos 40 ou princípio dos anos 50, o fascismo está na sua pujança, a repressão e perseguição a todos que contra ele lutam é brutal.

O meu avô tem uma padaria, fia pão aos pobres e até aos menos pobres, anos a fio, ainda guardamos livros com dividas de vinte anos de pão, só como testemunho.
O meu avô não se metia em politicas. Ponto final paragrafo!
Ainda assim um operário é preso acusado de distribuir panfletos e Avantes na Fábrica da CUF, é julgado, como testemunha abonatória indica o meu avô, que lá vai munido da sua dignidade a tribunal.
Depois de horas de processo, o testemunho do meu avô é simples e libertador:
“Senhor Juiz, como poderá confirmar pelo Bilhete de Identidade esse homem é analfabeto!”
E lá estava no Bilhete de Identidade, ANALFABETO.

O meu avô usou a sua dignidade para omitir um pequeno facto, o operário tinha aprendido a ler e escrever, o meu avô é que lhe tinha ensinado!
E sim, sabia que aquele operário passava Avantes e panfletos e até os lia para quem não sabia.

25 comentários:

CRN disse...

Ana,
Boa forma de fazer a revolução!

Abraço

mugabe disse...

Ana , história simples e bonita,...e com grande dignidade. Abraço!

Jofre de Lima Monteiro Alves disse...

Um história interessante e significativa das várias maneiras de resistir e das vivências no Portugal retrógado de antanho, que hoje pretendem branquear. Boa semana com tudo de bom.

Ludo Rex disse...

Que a memória perdure através das tuas linhas, para que os que hão de vir possam ter consciência do que vale a Liberdade... Em luta!
Kiss e Bom Fim de Semana

Ludo Rex disse...

Ah, só mais uma coisa. Adorei esta tua escolha musical... Kiss

Ana Camarra disse...

CRN - Todas as formas são boas!

Mugabe - Foi coisa que ensinaram na familia, perdemos tudo, mas a dignidade só se quisermos, não acredito que todos tenham um preço há pessoas, felizmente que não se deixam corromper.

jofre de lima monteiro alves - é verdade querem branquear, mas só se deixarmos.

Ludo rex - Cá vamos postando as memórias significativas.
Eu também gosto destas músicas!

beijos

salvoconduto disse...

Sem dúvida, desenrascado o teu avô. Por certo teria muitas histórias e não te as pode contar.

Abreijo

Ana Camarra disse...

salvoconduto - Pois não me as pode contar, mas a memória familiar perserva-as.

beijos

Ana Camarra disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diogo disse...

Minha cara,

Passar por aqui transformou-se num vício. É a minha melhor crónica diária.

Bjs.

Zorze disse...

A grandeza do Ser Humano é infinita e ao mesmo tempo infinitamente estúpida.

Nesta brilhante "História simples" que trazes estão lá todos os condimentos. O teu Avô, o operário, o juíz, e os palhaços que bufaram e apanharam o operário.

Beijos,
Zorze

samuel disse...

Este texto não podia ter começado melhor!
Grande história! Simples...

Abreijo

Ana Camarra disse...

Diogo – Vicio não é uma palavra muito bonita, gosto mais de pensar que quem cá vem diariamente vem porque gosta, porque se identifica de alguma forma, porque sente aquilo que me passa pela cabeça.

Zorze – E foi assim que aconteceu.

Samuel – Pois, simples, as boas histórias são simples.

Beijos

Menina Idalina disse...

A dignidade da inteligência.

Ana Camarra disse...

menina idalina

pois!



beijos

poesianopopular.blogs.sapo.pt disse...

Ana
O facto de querem branquear, é o mais evidente sinal de que o fascismo foi bem negro.
Bjos camarada

Anónimo disse...

Miuda

Cá o manguelas esteve fora, o trabalho, sacana do trabalho.
Perdi todos os dias as tuas história, mas já li tudo.
Os sentidos, sempre comeste o mundo, com esse arzinho de quem não está cá.
Escreveu muito e bem a minha menina.
Esta história do teu avô é engraçada, tinhas de ir buscar essa mania das horas certas e outras coisas a algum lado.
Já tinha saudades de te ouvir assim.

Beijaças

Paulo el nino

Fernando Samuel disse...

Bonita história.
É destas histórias simples que é feita a história da nossa complexa luta.

Um beijo.

mugabe disse...

Ana,...venho novamente para te dar um abraço e dar-te também os meus sinceros parabens, por no blog da anarquizada...teres desmistificado Orwell e até penso que quiseste ser branda lá com aquele pessoal esquisito e pretencioso....quando disseste que ele (Orwell) era neo-liberalista, quando na verdade era um fascista! Abraço!

Ana Camarra disse...

José (Poesia) - Não há lexivia que chegue para branqueart o fascismo.

Fernando Samuel - è a tal dignidade que se veste como a pele, isso sim, mais do que as palavras, muda o mundo.
Palavras bonitas, são nbonitas, mas acções ficam, fazem, são.

beijos

Ana Camarra disse...

mugabe

Obrigado pelo abraço.
Orwel é o que é, e eu sou o que sou, e sou muito franca.
Nunca procuro conflitos, nem procuro hostilizar ninguém, mas não prescindo daquilo em que acredito nem das minhas convicções.
Isso nunca!

beijos amigos

Eric Blair disse...

Bela história.

ps.(r) paradoxal é alguém que escolhe o nome de mugabe chamar fascista a Orwell. Pelos vistos, os óculos de Penafiel continuam a ter bastante saída...

Anónimo disse...

Se os blogs dos Zés descobrem isto vais para a lista negra!

Ana Camarra disse...

eric - Cada qual....

beijos

Ana Camarra disse...

anónimo de 5 de Outubro, 18h36

Muitos Zés espreitam aqui, á vontade.
O meu avô também era Zé.

cumpts