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Foto de José Francisco Pilré |
Lisboa vista daqui é bonita, e
vê-se a Basílica da Estrela como um bolo de noiva decorado com muito glacê, hoje
para lá o Rio brilhava, havia um cheiro a primavera por todo o lado e um sol tímido,
mas feliz.
Sai da estação interrompendo o
trajecto de sair do barco e descer em tuneis porque precisava dessa luz, depois
desci e segui, antes da paragem do autocarro há muitas paragens só para
turistas, autocarros panorâmicos, pessoas que gritam em muitas línguas “Belém,
Sintra, Cabo da Roca” e há as senhoras do costume, muitas africanas, com sacos
a falar das casas onde trabalham, das patroas e de outras coisas num linguajar
que mistura português e crioulo, há uma rapariga que entra com uma face linda,
e o rosto envolvido num lenço, há uma senhora de pele muito escura que carrega
uma menina pequena, de um tom mais claro que pela e sorri com olhos imensos,
seguida de uma adolescente de ar aborrecido, com uma face de deusa núbia e múltiplas
trancinhas, há um senhor idoso com ar de cavalheiro destinto que antes de se sentar
ao meu lado pede licença, e claro há senhora que todas as manhãs se faz de distraída
e se coloca no principio da fila.
Passamos por sítios com nomes que
podiam ser estranhos, mas fazem sentido, Marquês, (porquê um Marquês), Avenida
(Como se existisse só uma), Alexandre Herculano (como se o escritor de repente
estivesse ali), Rato (um bicho), Estrela (qual delas)…
Há sol quando saio e aquele ar diáfano
de nuvens brancas, como véus, cortinas antigas, como as que estão nas janelas
de sacada, com ferros forjados em arabescos, há a loja onde nunca tenho tempo
de entrar, comércio sustentável, especiarias a granel, descubro fascinada as
coisas que já quis comprar e não encontrava, outras que só tinha ouvido falar,
há um cheiro pungente, a cardamomo, canela, sementes, tudo junto, as rotas com
seculos de onde se temperou tudo.
No trabalho há algumas coisas, as
senhoras, de uma certa classe que enquanto a prole loura e de nome escolhido
corre e grita, desarruma elas limitam-se a dizer “Ò Rosarinho não faça isso a
mãe já disse…”, mas há os outros, de várias tonalidades, que vão para local que
já conhecem, há um lanche diário, mas acima de tudo ali estão em grupo, num
local que conhecem onde ainda assim estão resguardados de outros percursos, há
a loja chique e a retrosaria minúscula onde entro debaixo de chuva miudinha,
onde uma senhora velhota, pequenina como a loja desencanta mil e uma coisas e
convida-me a bater à porta mesmo na hora de almoço, estará lá.
Fica encantada “uma menina assim
a escolher gregas a ver cotoveleiras e joalheiras nem é hábito, pensei que eram
só as velhas como eu!”
No fim do dia está escuro, o
basalto da estrada parece envernizado, parece tudo estranhos com aquela
chuvinha a cair, os carris do elétrico brilham como enfeites, na paragem onde
saiu entra a mesma mulher, com a menina já meio a dormir aninhada ao colo e a
adolescente com ar de princesa núbia amuada, entra outra mulher de ar cansado,
unhas semi pintadas, com outra adolescente pálida que faz jus à mudança de
idade desafiando a mãe em todos os gestos, há uma rapariga com feições
orientais, um casal de adolescentes, onde a pele branca leite dela contrasta
com demasiado rímel e com a pele escura dele, e o cabelo longo dela tom de mel,
contrasta com o penteado dele que faz lembrar um cacto, ela coloca-lhe a mão
dentro da camisa ele murmura algo sobre o seu umbigo, a pequenina acorda e vê
as luzes coloridas da cidade, há um grupo de mulheres que falam crioulo, umas
de turbantes e uma com um cabelo esticado de um vermelho imprevisto e umas
calças quase psicadélicas, saímos juntas, no Metro a carruagem vai cheia de
jovens com um sotaque nórdico (sueco?), com cabelos azuis, cor de laranja,
roxo, rosa choque, louro, escuro, preto asa de corvo, sorriem em bando e saem,
parecem pássaros a pousar sobre o rio…
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Foto de Manuel Carrilho |
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