Contos da normalidade aparente O Espelho


O espelho mostrou outro gajo, diferente de si próprio, ou não? O do espelho tem uns papos debaixo dos olhos e a pele do queixo nota-se que está flácida, nalguns sítios o cabelo a rarear, lavou os dentes energicamente á espera que a pasta branca de sabor mentolado fosse o suficiente para retirar aquele sabor a….papeis de música! Era assim que se referiam às ressacas em miúdos.

Entrou na banheira, esfregou o corpo com espuma de banho, deixou a água correr, ficando ali parado como se a água o pudesse renovar numa carícia tépida, esfregou-se outra vez, particularmente as virilhas, os sovacos, o sexo, tinha começado a notar um ligeiro odor que associava aos velhos, combatia-o assim com água, espuma, desodorizante, perfumes caros, enrolou a toalha nos quadris e voltou para o quarto só ao vê-la ali estendida se lembrou da sua existência como se ela só tivesse existência nos momentos em que a constatava.

Olhou o braço por cima da cabeça num gesto de abandono, as ancas, as nádegas, um seio exposto, o outro não, a pele lisa e firme, jovem. Pensou em si como uma espécie de bicho insaciável que conquistava mulheres sempre á procura de uma qualidade rara e essencial, que todas pareciam ter ao inicio, que todas deixavam de ter com o tempo, cada vez menos tempo, o circuito era sempre o mesmo elas fascinavam-se com o seu tom de voz, com a sua cultura, com o sorriso meio envergonhado, com ar de menino a precisar de colo, com as suas comparações doidas, comparava-as a sereias, os olhos a lagoas, os seios a montes, por aí a fora como uma aranha a construir uma telha, aquela táctica levava sempre ao abismo do sexo, as primeiras vezes fantástico, depois a começar a cheirar a rotina, depois a cansaço, por fim sem sabor, sexo mecânico a pensar já noutros corpos, geralmente corpos que começava a adivinhar, por vezes, só por vezes nalguns dos corpos com quem já tinha experimentado outros abismos.

Olhou outra vez o corpo dela, ela acordou e virou-se expondo o peito ele sorriu e disse-lhe meia dúzia de ternuras arrulhadas em beijos, ela deu gargalhadas e suspiros, acabaram como se esperava, num sexo com o olhar pousado no relógio, afinal tinha horas marcadas.

Saíram, ela seguiu o seu caminho, ele começou a tentar fixar-se em coisas práticas, não conseguiu, existiam recados sobre os filhos, cada qual na sua faixa etária, desde a adolescência a bebés de fraldas, cada um de sua mãe, cada um único e especial, nunca soube se os filhos apareceram numa tentativa sua de se querer ancorar ou se apareceram numa tentativa delas o prenderem, fez contas, cada vez era tudo mais complicado ia deixando não só os filhos, mas outros compromissos, casas, um apartamento com vista para o rio todo decorado com puff’s marroquinos, bambus e moveis étnicos, onde ele tinha pintado uma parede de cada cor, cores fortes, lembra-se de pintar as paredes entre gargalhadas a dois, beijos, a casa alentejana reconstruída deixando as traves, tendo o cuidado da cal e da barra anil, preciosismos de cadeiras de palha pintadas com florinhas e louças de cobre, o olhar maravilhado quando desembrulhavam aqueles tesouros, quando a casa estava enfim perfeita como a tinha sonhado foi quando saiu, existiu outro apartamento com toques orientais e por fim a última, a vivenda moderna de linhas direitas, projectada e sonhada, com espaço ajardinado e cão a combinar…

Lembrou-se por fim de outra casa, diferente, uma casa onde não lhe tinha sido permitido mudar nada, uma casa com camas de ferro e móveis desirmanados, cheia de recordações que não eram suas, eram dela, ela nunca lhe tinha permitido a mínima alteração, era a sua toca, como dizia, também nunca tinha acreditado nos seus elogios comparativos, sorria sempre com um ar trocista, nunca lhe tinha dito fascinada que o adorava, que o amava, nem tem pouco lhe tinha feito elogios às proezas sexuais, sorria só, retirava dele o prazer que queria quando queria, remetia-o sempre á insignificância de um assunto transitório, foi assim no dia em que lhe propôs que ele se fosse embora que fosse em busca de outro rumo, que a sua presença destabilizava a sua toca, que não estava na disposição de o ter na sua intimidade.

Parecia que lhe falava numa linguagem estranha, nunca tinha escutado aquilo, doeu-lhe como depois pensou que talvez fosse uma brincadeira e ela o beijou, acariciou-lhe o rosto como se faz aos meninos pequenos, explicou-lhe tudo outra vez, recusou-se a fazer amor com ele e por fim fez uma cara séria.

Foi ao WC, posou os óculos no lavatório, lavou o rosto, olhou-se outra vez ao espelho, tentou ver-se ali e não conseguiu, viu um homem com ar cansado, de meia-idade, não podia ser ele.

De repente lembrou-se que talvez, só talvez tivesse sido aquela a casa onde se tinha sentido melhor, talvez tivesse sido aquela a única mulher que se lhe tinha apresentado como um desafio, talvez. Ou talvez não, talvez tivesse ficado sempre um certo despeito por ter sido “despachado”.

Sentiu-se cansado, viu que aproximava-se a hora de almoço pensou que se tinha de despachar, para se cruzar como se quase de um acaso se tratasse com aquela morena de olhar meigo com quem falava de cinema enquanto ela abria os olhos, que ele lhe dizia serem fantásticos como dois poços encantados, comparando-a á Sophia Loren, e no entretanto ela bate as pálpebras num olhar sedutoramente míope….bom para a apanhar o melhor é pôr-se a caminho…

Comentários

Paredes disse…
Reflexos de abismos....
quando cumplicidade confunde-se com rotina!
Fernando Samuel disse…
E talvez ainda a apanhe...
Bom texto.

Um beijo.
Daisy disse…
Oi! Me siga que te sigo tmb!

http://maezinha.eu/

Aguardo vc.
Bjsss,
Daisy
sofávazio disse…
n tenho desses espelhos, partiram.
até breve.
SENSEI disse…
Agora é só Facebook